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49/50
André Green
ano XXV - Junho 2013
216 páginas
capa: Serge Poliakoff
  
 

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Resumo
Neste curto e comovente relato, Christopher Bollas presta homenagem a André Green. Afetuosamente, recorda a longa amizade que compartilharam e relembra algumas etapas do diálogo entre Green e os colegas americanos, identificando no grande psicanalista uma das maiores figuras da psicanálise contemporânea, ao lado de W. R. Bion e D. Winnicott.


Palavras-chave
anos 1980; psicanálise americana; psicanálise francesa; psicanálise contemporânea.


Autor(es)
Christopher Bollas

é membro da Sociedade Britânica de Psicanálise, do Instituto e da Sociedade de Estudos Psicanlíticos de Los Angeles, do Instituto de Formação e Pesquisa de Nova York, e do ESGUT (Grupo Europeu de Estudos do Pensamento Insconsciente). Publicou entre outros: A sombra do objeto, Hysteria, A questão infinita (estes três traduzidos no Brasil), Cracking up the work of unconscious e The mystery of things.




Notas

[1]    Bollas se refere aqui a um episódio histórico da psicanálise contemporânea. Em 1993, no XXXVIII Congresso de Amsterdam, Green critica sem cautelas nem piedade a noção americana de intersubjetividade defendida então por Jacobs. Arrancado da maciez muito politicamente correta do encontro, Jacobs se sente profundamente ofendido e provoca um escândalo. Ver A. Green, "Two discussions of the ‘inner experience of the analyst' and a response from Theodore Jacobs", Int. J. Psychoanal. 74, 1993, p. 1.131-1.136 [Nota da tradutora].



Abstract
In this short, moving text, C. Bollas pays hommage to André Green. He warmly reminisces on their long friendship, and mentions some interesting exchanges between him and American analysts. For him, Green is one of the greatest among contemporary psychoanalysts, on the same level as Bion an Winnicott.


Keywords
the eighties; American Psychoanalysis, French Psychoanalysis, contemporary Psychoanalysis

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 TEXTO

André

André
Christopher Bollas

Que me expliquem como escrever sobre um André Green!

 

Aqui estou eu, remexendo apressado lembranças fugazes, e a maioria diz respeito a nossos momentos lado a lado - em si, elas não têm o menor sentido para os outros. Que venham da época em que descobrimos juntos a nova interpretação de Glenn Gould para as Variações Goldberg de Bach, das nossas conversas durante os passeios que fazíamos em Londres, Paris, Nova York... Ou desse dia (estávamos com J.-B. Pontalis) em que disse ao André que lê-lo era como ouvir Bruckner, um elogio um tanto gauche, que ele guardava com carinho.

 

Os momentos se diluem no quotidiano e, como insiste Blanchot, o dia a dia só acontece se não percebemos que estamos ali. No entanto, alguns momentos ficam gravados em nós para sempre, precisamente porque o momento era um possível que, bem ou mal, pôde ser.

 

Com a idade, André foi angariando a reputação de ser muito crítico com os outros, especialmente em público. Acho que nós, que o conhecíamos, sabíamos por que, e era algo que contrastava agudamente com sua forma de tratar as pessoas em particular. Ninguém me ouviu mais atentamente que André, nem se preocupou com a minha esposa e meus filhos dessa maneira tão profundamente comovente. Ele nunca, nunca, esquecia nada, fosse um detalhe mínimo. Era uma das formas de expressar seu amor pelas pessoas.

 

Então, de todos os momentos possíveis, qual escolher?

A resposta me veio assim que fiz a pergunta.

Foi o dia em que o vi se transformar em um guerreiro.

 

No meio da década de 1980, fui durante três anos Diretor de Educação do Austen Riggs Center em Stockbridge, Massachusetts. Uma das tarefas de que mais gostava era convidar analistas para visitar Riggs, e tinha dado um jeito para que os visitantes chegassem primeiro a Nova York, dessem uma palestra em uma Sociedade, subissem o Hudson de trem, antes de passarem a semana em Riggs, participando de reuniões e dando supervisões.

 

Naquele momento da história da psicanálise, poucos analistas franceses viajavam para os Estados Unidos tentando comunicar suas ideias. Joyce Mc Dougall vinha com frequência, mas creio que estava mais preocupada com sua vida na Nova Zelândia. Janine Chassaguet-Smirgell se aventurou a atravessar o fosso, buscando comunicar o pensamento francês aos americanos. Outros abandonaram a causa: Victor Smirnoff e J.-B. Pontalis logo desistiram. Acharam que era muito difícil varar o matagal plantado por Heinz Hartmann, e por isso pensaram que não seriam ouvidos. Tendo estado com eles em vários desses encontros, eu ficava, como americano, profundamente constrangido ao ver os franceses sempre mal compreendidos.

 

Em guerra contra o apagar da chama

 

Num dia lindo, nos anos 1980, indo de Austen Riggs para uma importante Sociedade de Psicanálise na Nova Inglaterra, André estava nervoso e um tanto mal-humorado. "Vou lhe dizer as cinco primeiras perguntas que eles vão me fazer", ele disse. Eu respondi: "Ah, André, não seja tão pessimista. Tenho certeza de que eles estão ansiosos para saber o que você vai falar." "Você pode até ter razão", ele respondeu com aquela voz arrastada que usava quando queria ser mais afetuoso, "mas só se eles se derem ao trabalho de me ouvir." Ele estava certo de que não iriam entender o que tinha a dizer. Tentei dissuadi-lo, ele insistiu e listou as cinco primeiras perguntas.

 

Depois de uma conferência brilhante que deixou o grupo em silêncio por uns cinco minutos, os augustos membros daquela Sociedade permitiram que seus decanos passassem a fazer "perguntas". Eram analistas famosos, ícones da cena americana. Curiosamente, ninguém levantou a mão: todos sabiam que se deveria respeitar a ordem da antiguidade. As questões colocadas não tinham absolutamente nada a ver com a conferência. Só me lembro da primeira: "Dr. Green, quais são os dados estatísticos de que o senhor dispõe para as afirmações que faz em seu artigo?"

 

Dizer que André tenha "preenchido as expectativas" seria um eufemismo. Citando Dylan Thomas - um verso que evocava a morte - André se "enfureceu contra o apagar da chama", e com isso quero dizer que declarou guerra à estupidez mortífera das perguntas, que não eram perguntas mas simplesmente becos sem saída. Depois da quinta resposta, André parou, levantou da cadeira e apontou para mim. Eu estava no fundo da sala. "Não disse?!" Sentou-se de novo e retomou a palavra.

 

Ele havia previsto, exatamente, as cinco primeiras perguntas.

 

Pouco depois, quando alguns membros daquela Sociedade vieram, um tanto quanto perplexos, me perguntar o que André queria dizer, expliquei que ele havia adivinhado as perguntas. Naquela época, eu andava bastante irritado, não apenas por conta do que se passara com o André, mas também porque os analistas americanos mais velhos - com raras exceções - eram então alérgicos ao pensamento francês. (Cabe dizer que os analistas franceses, por sua vez, também não estavam lá muito interessados a explorar a visão de mundo da psicologia do ego!)

 

Demorou muito até que o trabalho de André fosse considerado nos Estados Unidos. Antes do famoso "episódio Jacobs"[1] no Congresso da IPA, o Journal of the American Psychoanalytical Association havia publicado uma despropositada resenha, negativa e boçal, sobre a sua obra. Quis um destino infeliz que, pouco tempo depois dessa publicação, Jacobs se encontrasse frente a frente com André no dito Congresso... Acho que poucas pessoas na plateia sabiam por que Green estava sendo tão duramente crítico.

Imperturbável, ele perseverou.

 

Ele nunca cedeu aos americanos - como fez a maioria - e, ao final, sua persistência foi recompensada, pois acabou abrindo caminhos para uma nova geração de analistas. Embora sempre tenha recebido apoio de grandes amigos em Nova York, como Martin Bergmann e Graciella Avelin, ele era agora lido, e os cursos sobre sua obra se multiplicavam. De fato, à medida que seu trabalho foi se tornando cada vez mais popular no meio psicanalítico americano, André foi se apaixonando pela sensibilidade dos americanos e sua capacidade de integrar ideias "estrangeiras".

 

Eu o conheci uns 15 anos antes desse período e vi um homem dado a debates transformar-se em guerreiro, apesar de ser capaz de tirar a armadura e revestir seu self bondoso, afável e receptivo. Devo dizer, no entanto, que foi o homem mais corajoso que conheci. Nunca vi ninguém se lançar em batalhas intelectuais como ele, não porque gostasse - na verdade pagou o preço em dor -, mas sim porque suas convicções o impeliam. Mencionando o fato com ele, me respondeu que não tinha escolha. Era fundamental para ser quem ele era.

 

Sabia muito bem que assumir tais posições em público não era político. Conversamos muitas vezes sobre a consciência de ele estar renunciando a qualquer futuro mais sério na IPA, apesar da existência, de longa data, do desejo de que ele fosse Presidente. Ele sabia que esse não era o seu destino. A coragem raramente anda de braços dados com a política. Mas não no caso de André. Ele ficou profundamente gratificado, sobretudo no final da vida, ao descobrir que era sem dúvida o maior pensador psicanalítico de seu tempo; de fato, assim como ocorre com Bion, levará muitas gerações de leitores para que o seu pensamento seja assimilado e ampliado.

 

Outubro de 2012


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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