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Resumo
Este trabalho busca esclarecer as raízes da noção de trabalho do negativo no pensamento de André Green a partir dos pacientes sujeitos a angústias de aniquilação, invasão, abandono e separação, e de sua leitura de Freud, Lacan, Bion e Winnicott. A intuição do trabalho do negativo na obra de Winnicott, O brincar e a realidade, e o seminário sobre o negativo que ministrou aos psicanalistas em formação na década de 1980 foram fontes importantes para a pesquisa.


Palavras-chave
trabalho do negativo; Green; Winnicott; luto; objetos e fenômenos transicionais.


Autor(es)
Elisa Maria de Ulhôa Cintra
é psicanalista, professora da Faculdade de Psicologia da PUCSP e do Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Clínica da PUCSP. Autora de Melanie Klein: estilo e pensamento.



Notas
[1]    Este seminário está no livro de A. Green Le travail du négatif (em português: O trabalho do negativo).

[2]    A. Green, O trabalho do negativo, p. 18.

[3]    Recomendo a leitura do trabalho de Talya Candi, O duplo limite: o aparelho psíquico de André Green, uma pesquisa de doutorado em Psicologia Clínica da puc-sp, recém-publicada, que faz um trabalho minucioso de reconstruir a filiação de Green a Lacan, Klein, Bion e Winnicott.

[4]    A. Green, O trabalho do negativo, p. 301.

[5]    Ver o texto de E. Cintra, "As funções antitraumáticas do objeto primário: holding, continência e reverie", in Tempo Psicanalitico, p. 37-55.

[6]    L. C. Figueiredo, "A metapsicologia do cuidar", in As diversas faces do cuidar, p. 139.

[7]    Ver sobre o objeto transformacional C. Bollas (1987), A sombra do objeto.

[8]    A. Green, O trabalho do negativo, p. 292.

[9]    Ver casos com falhas graves dos objetos primários na tese A clínica do continente, de B. Biasotto Mano.

[10]  Cf. J-L. Donnet & A. Green . L´enfant de ça.

[11]  A. Green, O trabalho do negativo, p. 293.

[12]  A. Green, André Green at the Squiggle Foundation, p. 211.

[13]  A. Green, André Green at the Squiggle Foundation, p. 218.

[14]  T. Ogden, The analytic third: working with intersubjective clinical facts, International Journal of Psychoanalysis, n. 75, p. 3-19.

[15]  A. Green, André Green e a Fundação Squiggle, p. 85.

[16]  A. Green, O trabalho do negativo, p. 294.

[17]  J.-B. Pontalis, Encontrar, acolher, reconhecer o ausente, in Entre o sonho e a dor, p. 201.


Referências bibliográficas

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Abstract
This paper situates the origins of Green’s concept of the work of the negative in the anxieties of annihilation, abandonment and separation presented by some patients, and also in his reading of Freud, Lacan, Bion an Winnicott. The intention of a “work of the negative” in Winnicott’s Playing and reality, and the seminar on the negative given by Green at the French Institute in the 1980’s, were important sources for the research that led to the elaboration of this paper.


Keywords
work of the negative; André Green; Winnicott; mourning; transitional phenomena; transitional objects.

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 TEXTO

André Green e o trabalho do negativo

André Green and the work of the negative
Elisa Maria de Ulhôa Cintra

Em 1988 André Green ministrou um Seminário sobre o Negativo[1] no Instituto de Psicanálise de Paris. Ele era então movido por uma preocupação com os pacientes-limite, nos quais o trabalho psíquico não parece ser determinado exclusivamente pelo jogo pulsional. Através deles se podia vislumbrar a importância, em sua história e em seu funcionamento, das diversas qualidades de presença e ausência dos objetos primários. Embora a maior parte das elaborações de Green a esse respeito se encontrem no livro O trabalho do negativo e em La folie priveé, desde os anos 1960 ele já havia mergulhado em uma leitura renovadora do texto "A Negação" de Freud e, um pouco mais tarde, nos trabalhos de Klein, Fairbairn, Winnicott e Bion, buscando inspiração para pensar a presença das figuras do negativo em suas múltiplas aparições no universo da clínica e da teoria.

 

A expressão trabalho do negativo é uma invenção de Hegel que irá reaparecer em Marx e outros filósofos. Nos anos 1960, um grande número de analistas estudava com Lacan a obra de Hegel, através de Kojève e Jean-Hippoliyte, e de certa maneira foi a leitura lacaniana da obra de Freud que permitiu a Green nela discernir a presença da negatividade como um operador de leitura significativo.

 

Entretanto, depois de ter lido Winnicott, autor que não tinha muito interesse pelos meandros da filosofia, Green escreveu um texto: "A intuição do negativo em O Brincar e a Realidade", que permite reler a noção de objeto transicional, do brincar e de outros fenômenos transicionais sob a ótica de um trabalho do negativo em contínua expansão, e permite pensar a possibilidade de acesso à realidade e ao outro, enfim uma importante ampliação do pensamento clínico, mesmo para aqueles que de início não se sentem tão atraídos pela escola inglesa. A intuição do negativo em Winnicott confirma a ideia de que:

 

Os psicanalistas podem chegar ao trabalho do negativo sem jamais terem refletido minimamente sobre Hegel. É o caso da tradição que reina na Sociedade Britânica de Psicanálise. E eis que encontro o negativo em dois desses autores que sempre considerei em muitos outros aspectos, como referências essenciais[2].

 

O primeiro desses dois autores foi Winnicott, o segundo Bion[3], dois interlocutores que lhe foram imprescindíveis para a compreensão dos casos-limite e dos pacientes difíceis. Nesses dois autores ele encontrará diferentes formas de conceber e teorizar o trabalho psíquico como um trabalho do negativo.

 

A partir dos anos 1960, então, Green se interessa pelos cuidados recebidos dos objetos primários e pela importância da reconstrução histórica dos excessos de presença e de ausência na história de pacientes graves.

 

Freud já tinha se detido em torno das questões relativas à importância do objeto, quando pensou sobre o luto e foi levado a articular o objeto à questão da ausência, da perda e portanto da negatividade do objeto, em Luto e Melancolia. Por outro lado, a noção de trabalho psíquico provém de Freud com seus trabalho do sonho e trabalho do luto, entre os quais transcorre toda a vida psíquica.

 

A própria necessidade de figurar e representar evoca uma certa negativização do vivido em sua plenitude corporal e social: algo da excessiva intensidade do acontecimento tem que ser aplacada e domesticada através do âmbito das representações, e esta é a tarefa princeps do psiquismo. O trabalho do negativo traça a fronteira entre um irrepresentável que, por seu excesso, é traumático, e o âmbito do figurável e representável. Green passou a se preocupar com esta região limítrofe entre o campo dos sentidos e o que Winni­cott chamou de agonias impensáveis, Bion, de terrores sem nome e Meltzer, de terrores de objetos mortos.

 

Os pacientes sujeitos a tais angústias sem medida são o ponto de partida de seu Seminário sobre o Negativo, de 1988. Ele dirá que, além do jogo pulsional que determina o funcionamento do paciente e o trabalho analítico, será preciso levar em consideração a participação traumática dos objetos primários na constituição destas subjetividades. É justamente quando os objetos fracassam ou produzem efeitos "extra-ordinários" que mais somos obrigados a reconhecer o seu papel constitutivo. Quando lidamos com pacientes cujos psiquismos puderam contar com objetos suficientemente eficazes, a parte do objeto tende a se tornar invisível e inaudível, vale dizer, e neste caso o trabalho do negativo realiza sua tarefa constitutiva, o que inclui o esquecimento dos objetos. Quanto mais um objeto falha em suas funções constitutivas, mais barulho faz; quanto mais ele se ausenta em suas funções, quando necessitava estar presente, mais sua presença é ofuscante e perturbadora, atraindo a atenção do clínico e do teórico. Green dirá:

 

Eu me explico: da mesma forma que um enquadre analítico que preenche sua função deve se fazer esquecer, o que Donnet chamou de ocultação, eu diria, do mesmo modo, que o objeto absolutamente necessário para a elaboração da estrutura psíquica deve se apagar[4].

 

Estas considerações levaram-me a lembrar que, na saúde, todo o funcionamento, seja físico ou psíquico, permanece silencioso, ou - para usar uma expressão de Merleau-Ponty que me é cara - na saúde, os processos de constituição ficam ausentemente disponíveis, o corpo funciona sem fazer barulho, sem dor, sem níveis de quebra de homeostase que chamem a atenção e saltem à vista. São justamente as perturbações e o adoecimento que despertam a atenção do clínico e tornam necessário cuidar, no sujeito, as marcas gritantemente presentes ou assustadoramente ausentes em seu corpo e em sua história, decorrentes das falhas e traumas vividos.

 

Funções do objeto absolutamente necessário: fazer-se lembrar,  deixar-se esquecer 

Na citação anterior, Green falava de um objeto absolutamente necessário. Quem é ele?

 

Por mais que nos queiramos referir aos pais da primeira infância, vale a pena pensar que o objeto absolutamente necessário é mais do que um cuidador: ele é o conjunto de funções absolutamente necessárias para a recepção de um recém-nascido. A ideia de mãe-ambiente pode ser útil aqui e também a noção de função materna. A expressão mãe suficientemente boa de Winnicott, cujo advérbio suficientemente foi uma estratégia do autor para desidealizar a ideia da bondade materna, deve ter inspirado Green, ao afirmar, por contraste com o termo suficientemente, que este objeto primário é absolutamente necessário, não apenas para a sobrevivência física, mas principalmente para a constituição psíquica. Não é difícil adivinhar a razão de esta necessidade ser tão absoluta se considerarmos o grau de desamparo do neonato. Quais seriam as funções que o objeto absolutamente necessário precisa desempenhar, que o tornam tão absoluto, ao mesmo tempo que precisa se tornar silencioso e invisível, deixar-se apagar e esquecer, deixando-se mesmo desaparecer?

 

As funções do objeto primário - sustentação e continência, reclamação e interpelação, testemunho e reconhecimento - são funções que podemos chamar de funções antitraumáticas[5], que coexistem com os aspectos inevitavelmente traumatizantes do objeto primário.

 

Mais de vinte anos antes de o olhar de Green ter se voltado para a importância dessas funções maternas, Winnicott (1955) tinha insistido nelas, através da noção de holding, e Bion (1967), através da função de conter e sonhar - a rêverie - que "podem ser exercidas por um outro englobante, o ambiente (social e físico) ou um objeto que desempenha as funções de acolher, hospedar, agasalhar e sustentar"[6]. São estas funções que dão um senso de continuidade e possibilitam as transformações necessárias para a constituição do sujeito psíquico.

 

Outros autores também já vinham explicitando a importância dessas funções, como Fédida, ao falar do espaço terapêutico como um espaço de jogo, e, bem mais tarde, Ogden, ao se lembrar da necessidade de sonhar-se mais plenamente para dentro da existência - to dream oneself more fully into existence.

 

De qualquer modo, Green foi um dos primeiros analistas franceses a enfatizar as funções de reclamação e interpelação, por parte da mãe e do analista, que visam despertar a pulsionalidade, chamar à vida e à vivacidade de uma vida psíquica que possa ser partilhada e ao mesmo tempo contida e transformada.

 

Green falará extensa e pertinentemente destas funções em numerosos trabalhos seus, mas o que importa neste momento é assinalar que o objeto, quando pode desempenhá-las e ao mesmo tempo se deixar apagar e esquecer, fica ausentemente disponível, ou, em outras palavras, possui uma qualidade de presença que permite que seja usado e metaforizado, isto é, ele pode ser transformado e gerar transformações[7] e não apenas ser substituído por outros objetos.

 

Algumas linhas acima Green dizia então que o objeto absolutamente necessário para a elaboração psíquica deve se apagar, ou se deixar apagar. Eis aqui o trabalho do negativo em ação.

 

Esta ideia de um apagamento do objeto coloca-nos diante do que, na leitura de outros textos de Green, aprendemos a reconhecer como alucinação negativa em sua função de constituir uma estrutura enquadrante. A alucinação negativa implica uma negação da presença, um fazer desaparecer o outro. Eis-nos também diante da posição do "objeto absolutamente necessário" sendo um objeto que se deixa apagar, negar, rasurar, que se mantém oculto, em reserva, como se fosse um solo rasurado. Ou seja, a mãe suficientemente boa comparece, realiza as funções de pulsionalização e, ao mesmo tempo, de contenção da pulsionalidade, e precisa ainda se deixar desaparecer, através da alucinação negativa, vindo a formar a estrutura enquadrante; ou seja, de presença viva e plena, torna-se solo da psique, tela branca onde o sonhar forma figuras; transforma-se portanto em ambiente ou cenário da vida psíquica.

 

Se retomarmos a questão do luto neste momento, diremos também que este objeto que pode ser efetivamente perdido e do qual se pode fazer o luto - ao contrário do objeto da melancolia - é o que mais contribui para os processos de constituição da subjetividade. O luto traz o objeto perdido para uma condição que transforma e renova o sujeito - integra-se ao eu - e o torna apto a novas ligações.

 

É um objeto que permite a atenuação de sua presença para dar lugar, de um lado, à representação e, de outro, e mais profundamente, ao vazio internalizado na forma de uma estrutura. O objeto absolutamente necessário não é introjetado como objeto interno, mas, tal como ocorre no luto, como elemento estrutural e estruturante do psiquismo.

 

Green fala ainda de uma outra forma de trabalho do negativo, à qual dará o nome de excorporação. Baseando-se no texto "A Negação", de Freud, ele lembra que as moções pulsionais orais podem se manifestar através de uma dupla abordagem: "Isto eu gostaria de comer, aquilo eu gostaria de cuspir". O movimento de cuspir leva a uma excorporação do objeto, uma ação que tira algo do interior para colocá-lo no exterior, ainda que o limite Eu-não-Eu não tenha se estabelecido claramente, mas o desconforto leva a querer expulsar algo para o mais longe possível de si.

 

A expulsão do mau permite a criação de um espaço interno onde o Ego como organização pode nascer pela instauração de uma ordem fundada no estabelecimento de ligações em relação com as experiências de satisfação. Essa organização facilita o reconhecimento do objeto em estado separado, dentro do espaço do que será o Não eu, e facilita também o seu re-encontro [...] para poder dizer Sim a si mesmo é preciso poder dizer Não ao objeto[8].

 

De modo que o objeto absolutamente necessário desaparece como objeto no sentido estrito do termo, seja objeto externo, seja objeto interno, e também desaparece como ambiente; mais que isso, sua posição como elemento constituinte da estrutura psíquica é esquecida e, por isso mesmo, muitas vezes subestimada em termos teóricos.

 

No momento, entretanto, em que é excorporado, o objeto negado reaparece à distância em sua diferença como objeto de atração e repulsa. Isto é o que deve acontecer em um processo bem-sucedido, quando os objetos parentais primários podem ser, em um primeiro instante, encontrados, depois perdidos e mais tarde ainda poderão ser reencontrados, através dos objetos exogâmicos, suscitando atrações e repulsões e convidando ao estabelecimento de novas ligações e novos investimentos. Os objetos exogâmicos são, ao mesmo tempo, negação dos objetos primários e, paradoxalmente, um reencontro destes, em estado transformado.

 

No entanto, quando algo falha, isto vai provocar uma distorção: o objeto se ausenta quando devia estar presente e se impõe quando deveria deixar-se rasurar. Ironicamente, o fracasso consiste na impossibilidade de o objeto falhar, enganar-se negativar-se: trata-se aí do objeto que fracassa em sua função de objeto que é de ser falível de algum modo.

 

Através desta função objetal que consiste em saber desaparecer e reaparecer, ser falível e imperfeitamente corrigir suas falhas, o objeto promove um duplo movimento de negação: é negado para dentro, sendo esquecido e convertendo-se em estrutura psíquica, em uma espécie de vazio interno, base da vida desejante e dos processos de procura e conhecimento; é negado para fora, deixando-se perder e distanciar-se para reaparecer no mundo sob a forma dos outros objetos que vão suscitar atração e ou repulsão.

 

Podemos distinguir dois tempos: no primeiro tempo a função do objeto é paradoxal, ele deve estimular e despertar a pulsão ao mesmo tempo que está lá para contê-la. Além de estimular e erotizar, ele ameaça, sendo difícil estabelecer uma nítida distinção entre estas duas qualidades - excitação e ameaça - ambas contendo um potencial traumatizante. Mas, neste mesmo primeiro momento, o objeto deveria conter a pulsão, o que já fora enfatizado por Melanie Klein e Bion. São estas duas funções intrínsecas que deveriam ser internalizadas, deixando-se o objeto cair no esquecimento. É preciso que isso ocorra para que se tenha acesso ao que vem depois, mas isso depende de que o objeto absolutamente necessário seja bem-sucedido.

 

Tudo isso tem reflexos na teoria da técnica, seja na condução de uma análise padrão, seja, mais ainda, nos processos que envolvem os pacientes difíceis, casos em que a função estimulante e a de continência foram no início da vida precariamente exercitadas e mal internalizadas[9]. A importância da função continente ou de holding costuma ser bem enfatizada, com base em Bion e Winnicott. Mas a teorização de Green nos leva a conceder mais atenção à função estimulante, excitante, pulsionalizante, cujo manejo é mais difícil.

 

O segundo tempo exige que o objeto absolutamente necessário se deixe negar e colocar à distância, desdobrando-se em uma multiplicidade de objetos substitutivos e contingentes, sempre inadequados e falíveis. Entretanto, neste distanciar-se e multiplicar-se, e como sua condição, é preciso que se dê uma proximidade absoluta como aquela que se dá com o objeto de que se pôde fazer o luto. Nesta proximidade, o objeto fica então ausentemente disponível, inscrito no psiquismo como estrutura e vazio, condição esta que cria tolerância a todas as distâncias, ausências e inadequações dos objetos substitutivos, e é portanto a base de todos os movimentos desejantes; indo mais longe, é a base de todo ato de pensar. Quando há uma ausência de ausência ou uma presença de presença, o que no fundo é a mesma coisa, pois ambas desconhecem o vazio, o processo de constituição psíquica fica obstruído, o primeiro tempo não se consome e o segundo tempo não se instala.

 

A partir disto, Green alcança uma outra compreensão da angústia de separação, tão forte nos pacientes borderline.

 

Não se deixando esquecer e não sendo, ao mesmo tempo, introjetado como função, estrutura e vazio, o objeto absolutamente necessário não pode ser negado no que chamamos acima do primeiro tempo do trabalho do negativo. Ele se torna excessivo e intrusivo, seja em suas funções estimulantes, seja, paradoxalmente, em suas funções de continência. Sem esta perda para dentro, o objeto estará sempre em um excesso de presença. No entanto, o excesso de presença resulta de uma falta que, ao contrário do que poderia ocorrer no segundo tempo, o da distância e da multiplicação dos objetos, é uma falta insuportável. Para o paciente borderline, tanto a presença como a ausência são absolutas e contraditórias, manifestam-se através de demandas e retraimentos impetuosos, e em um plano inconsciente, o analista, por exemplo, é sentido, ao mesmo tempo, como demasiado próximo e invasivo e demasiado distante e inacessível.

 

Neste caso, acontece um efeito de intensificação mortífera entre objeto e pulsão: em vez de o objeto tornar tolerável a força da pulsão, através de uma série de mediações e contenções, acaba sendo o que a torna ainda mais intolerável. Quando a função materna não pode se deixar negar e esquecer, por um trabalho do negativo, ela vai sempre traumatizar. Pode-se deduzir que o objeto teria que realizar um trabalho do negativo com relação à pulsão, limitando-a, dirigindo-a, como se estivesse dizendo à pulsão tudo não é possível, alguma coisa, sim.

 

Uma mãe superprotetora é sempre excessivamente sedutora e traumatizante, não importa quais sejam suas intenções, pois é incapaz de exercer uma função de continência, antitraumática. Por outro lado, com um objeto assim ameaçador e do qual o indivíduo deve se proteger, a função estimulante também não pode ser internalizada, pois seria excessivamente perturbadora; assim o indivíduo não consegue manter-se vivo e ativo sem um aporte contínuo de estimulação externa e de preferência autoproduzida artificialmente: práticas de masturbação, droga adicção, promiscuidade. Do outro lado disso, uma depressão narcísica está sempre à espreita.

 

O que falta ao objeto em sua potencialização mortífera das pulsões é o deixar-se esquecer, o deixar-se negar pelos movimentos pulsionais. Estes, por seu turno, não podem nesse caso ser negados pelos objetos e neles contidos, por eles dirigidos e transformados. Há, nesse encontro, uma mortífera potencialização dos aspectos traumáticos, tanto os provenientes das pulsões como os que vêm dos objetos.

 

Neste caso, não há como pensar em constituição de desejo ou presença de nostalgia. A nostalgia pressupõe que tenha havido o encontro, e, em seguida, alguma perda do objeto. O desejo requer o distanciamento e a multiplicação dos objetos, uma negação para fora, a partir de um esquecimento do objeto introjetado na forma de um vazio estruturante e, em decorrência, a tolerância à diferença entre o psiquismo e os objetos de atração ou repulsão. Esta tolerância só é alcançada quando há um psiquismo suficientemente organizado em torno do vazio estruturante possibilitado pelo objeto absolutamente necessário que se deixou esquecer, transformando-se, ele mesmo, em parte do aparelho mental. É por isso que o excesso de presença não dá lugar à representação, nem ao pensamento, mas às formas não representacionais, como passagens ao ato, uso de drogas, estados depressivos e delirantes, e sintomas psicossomáticos. Nesses casos, a transferência analítica, diz Green, é muito maltratada.

 

O que isso quer dizer? Quando o objeto absolutamente necessário não se deixa esquecer - seja porque nunca pôde ser bem encontrado, seja porque não tolera as próprias falhas e as separações - ele, com seu excesso, produz uma intrusão intolerável, e não dá lugar à representação e ao pensamento, à nostalgia e ao desejo, pois em todos esses processos o objeto deve estar ausente. Na presença maciça e contínua do objeto primário não se dão os processos de simbolização. Instala-se um modo psicótico de funcionamento, se entendemos a psicose como uma interdição do pensar[10]. Nos casos em que o mundo das representações não emergiu e os processos de pensamento estão paralisados, as angústias de separação e de intrusão são intoleráveis. E aí a relação com o analista vai muito além ou fica muito aquém do desejo ou do temor diante dos objetos substitutos. Não se trata aqui de que o paciente venha procurar o velho, através do novo objeto. O paciente borderline procura objetos capazes de responder às necessidades mais básicas de constituição psíquica. Nesses casos, descobre-se que os objetos foram tanto intrusivos quanto abandonadores, e as pulsões são tanto invasivas, quanto encontram-se muito amortecidas. Para que o mundo das representações e o pensamento possam se instalar, pulsões e objetos precisam submeter-se mutuamente ao trabalho do negativo, deixando-se modular entre si. Quando a modulação recíproca entre pulsão e objeto não acontece, pode-se gerar um mundo em que o existente é totalmente mau e se encontra completamente estragado, e o inexistente é totalmente bom e preservado, ambos absolutos, sendo que a equação pode ser invertida, sem perder seu caráter pernicioso.

 

O trabalho do negativo na saúde e na doença.

As considerações acima nos permitem voltar à ideia de que em toda constituição psíquica há uma prolongada e interminável dialética do dom e da recusa. Sempre pensei nesta dialética como o interjogo entre todos os dons maternos - a voz, as palavras, o leite, o seio, as carícias, o colo -, enfim, a lista é interminável, progredindo da etapa oral através de todas as outras etapas que vão formatando e figurando a relação entre o neonato e o seu ambiente social - e tecida em séries complementares, a do doador e a do receptor, a do mundo pulsional e a do universo de gestos e trocas intersubjetivas presentes ou ausentes.

 

De um lado a mãe, doadora e também receptora (digamos dos sorrisos e balbucios do bebê), está mais ou menos presente, oferece ou recusa os dons que são o suporte por onde acontece o fluxo da libido e, de outro lado, o bebê, receptor e também doador, que aceita ou recusa os dons que lhe são oferecidos, dependendo de uma complexa rede de aspectos pulsionais que se expressam nas dimensões do espaço e do tempo.

 

A dimensão espacial se revela através dos processos de incorporação/excorporação e de engolir/cuspir, que são a modalidade pulsional de aceitar ou recusar os dons maternos e, por outro lado, todos os mecanismos de defesa, que são as modalidades psicológicas de dizer Sim e Não às demandas pulsionais: recalcamento, recusa, clivagem, forclusão. Os dados temporais referem-se ao tempo de resposta do objeto que precisa ser levado em conta.

 

Diz Green:

 

Se a resposta (do objeto) é imediata, sem intervalo, instala-se a onipotência simbiótica, privando o Ego da criança de dizer Não ao objeto, e portanto, Sim a si mesmo. A idealização do objeto materno acompanha-se do esmagamento do desejo próprio do sujeito. Ao contrário, quando o intervalo é excessivamente grande, é o desespero, com inscrição de uma experiência de dor, que faz dizer Não a tudo inclusive a si mesmo. Há destruição das ligações, aumento da intolerância à frustração e utilização de uma identificação projetiva excessiva. O trabalho do negativo toma a forma de uma exclusão radical e o aspecto negativo das relações (Winnicott) predomina[11].

 

Quando o intervalo de resposta do objeto é muito grande, ou ausente, o trabalho do negativo se extravia, o que se torna mais nítido através do caso de uma paciente atendida por Winnicott, registrado ao final do texto "Objetos e fenômenos transicionais" e que foi posteriormente atendida pelo próprio Green[12]. Esta mulher, que tinha vivido uma separação por demais longa e insuportável de seus pais, quando criança, na Segunda Guerra Mundial, constituiu-se, por assim dizer, através da própria experiência de dor que a levava a dizer Não a tudo, inclusive a si mesma. Sua capacidade de espera de uma resposta ardentemente desejada dos pais tinha sido posta à prova e, na falta desta, ela chegou a um estado no qual somente o negativo era considerado real.


A marca dessas experiências traumáticas é tal que desaparece a esperança no retorno do outro e, a partir de determinado momento, o sujeito se torna indiferente ao fato de o objeto aparecer ou desaparecer. Somente o Não é então esperado e acolhido: isto será chamado de negativo do negativo, pois o negativo acaba por impor-se como a fórmula da relação ao outro, fórmula esta que se organiza unicamente em torno da ausência, dando um caráter irreal à presença e ao retorno da pessoa amada. Em um dado momento durante uma sessão, a paciente esquece o que ia dizer. Ora, o que Winnicott percebe é que a maior importância disso era comunicar o branco, a única coisa real era a amnésia, pois aquilo que tinha sido esquecido tinha já perdido a sua realidade.

 

Além disso, essa paciente fica de certa forma indiferente à presença do analista atual, de quem está ali, a seu lado. Junto a Winnicott, lança-se em um queixar-se sem fim que deseja "fazer ressuscitar" a qualquer custo o primeiro analista, mesmo reconhecendo que se sentia melhor neste trabalho do que no anterior. O analista do passado, por estar ausente, era mais real que Winnicott - "o negativo dele é mais real do que o positivo em você" - e a mesma coisa voltou a acontecer quando se tornou paciente de Green: nessa terceira análise, os dois analistas anteriores assumiam um caráter muito mais real para ela, pois não estavam mais lá. Comparado ao trabalho do negativo que acontece na saúde, essa "negatividade" não pode mais se abrir para a esperança de um novo encontro.

 

A contribuição de Winnicott é mostrar como este negativo, a não existência, tornar-se-á, num determinado momento, a única coisa real. O que acontece posteriormente é que, mesmo se o objeto reaparecer, a realidade do objeto permanece relacionada à sua não existência. O retorno da presença do objeto não é suficiente para curar os desastrosos efeitos de sua longa ausência. A não existência tomou posse da mente, apagando as representações do objeto que precederam sua ausência. Este é um passo irreversível, pelo menos até o tratamento[13].

 

A questão é que, nesses casos, pode haver algum progresso no início da análise, mas rapidamente chega-se a um impasse, instalando-se uma reação terapêutica negativa, o que aconteceu com a paciente em questão, de forma mais radical em sua primeira análise, e finalmente nas duas análises seguintes, aquela com Winnicott e aquela com Green. A impossibilidade de progredir na análise é um outro exemplo do trabalho do negativo que se extraviou. Em determinados momentos tanto o analista quanto o paciente passam a "não existir" durante a sessão, pois a mente do paciente para de registrar a presença e as interpretações do analista; entra em um estado de não associações e se percebe vazia.

 

E o trabalho do negativo na saúde?

O caráter de "posse não eu" que define o objeto transicional como uma negativação do eu aponta na direção de uma relativa perda de onipotência, o que é um exemplo de um trabalho do negativo. O fato de conter em si essa negatividade diferencia o objeto transicional do objeto de desejo e do objeto que satisfaz as necessidades, estes últimos contendo em si certo grau de positividade - o Sim ao desejo e o Sim à necessidade. Pensemos ainda: o objeto transicional localiza-se em uma área intermediária entre a boca e o seio, tornando-se então um terceiro objeto entre eles. Além de ocupar este espaço, ocupa um lugar no tempo que separa o encontro da espera. É o objeto transicional, aliás, que permite esperar pelo reencontro, sendo este o sentido forte da noção de "espaço potencial": o fato de ser um (pré)-(a)núncio do encontro futuro, "um encontro em potencial" com o objeto ausente. E, de modo ainda mais marcante, o fato de ser um prenúncio do sujeito por vir, que está se tornando capaz de fazer a jornada do puramente subjetivo até o objetivo.

 

Esse espaço potencial assim criado é, portanto, o resultado de um trabalho do negativo criador de um sujeito em devir, em movimento. E também criador da tolerância à falta de contato com o outro. E ainda é nele que pode se dar a constituição do outro como objeto que se situa fora da área de onipotência. Aí tem sua origem a ideia de um terceiro objeto, que foi depois aplicada por Green ao campo da transferência e da contratransferência, a que ele deu o nome de terceiro analítico, noção mais tarde retomada por Ogden[14]. O terceiro analítico que se constitui através da análise resulta de um trabalho do negativo com predominância de Eros, capaz de negar, preservar, constituir e transformar os dois participantes da dupla analítica. Através do terceiro analítico é preciso viver a dura experiência da exclusão e da opacidade do outro, sempre a lembrar que há dimensões do outro e de si mesmo para sempre inacessíveis, no limite irrepresentáveis. E que é preciso conviver com essa face escura de si e do outro para viabilizar e tornar viva qualquer relação de amor. Ao mesmo tempo, é o terceiro analítico que permite acesso ao outro, criando a singularidade em movimento daquele encontro.

 

A criação do objeto transicional introduz o sujeito em um paradoxo - pois este objeto é e não é o Eu, a mãe e a relação entre ambos. Entrar no paradoxo é algo que exige uma tolerância ao negativo: é também o início do pensamento metafórico, da possibilidade de fazer uma experiência, da capacidade de brincar de faz de conta, do acesso ao senso de humor e à alteridade do outro e do mundo. Ou seja, é um trabalho do negativo que dá acesso a múltiplas possibilidades que conduzem à saúde. Green ressalta a qualidade dinâmica da jornada que se torna possível através do objeto transicional - do puramente subjetivo até a objetividade ou, como afirmava Winnicott, a importância, não tanto do objeto usado, quanto do uso que se pode fazer desse objeto.

 

Entretanto, a simples coexistência do Sim e do Não, implícita no paradoxo, não é suficiente para caracterizar um trabalho do negativo da saúde. Essa coexistência pode ser conjuntiva ou disjuntiva. No caso do objeto transicional, tal convivência entre dimensões de Sim e dimensões de Não é uma série conjuntiva, pois articula, superando-os, sem recusá-los, o subjetivo e o objetivo. O objeto assim criado é alvo de um intenso investimento libidinal abrindo para pensar, sentir, brincar e criar que podem ainda ampliar-se através de infinitos fenômenos transicionais com suas ramificações. Green afirma que os fenômenos transicionais ensinaram-lhe a reconhecer que, também através da sublimação, criamos objetos novos e que não existiam anteriormente. "O objeto da sublimação do pintor não é apenas o corpo desnudo da mulher, mas a própria pintura. É a pintura que se torna nosso objeto compartilhado, além da representação do que é pintado - o nu e suas origens na experiência infantil"[15].

 

Há, porém, outros casos, onde se observa a coexistência disjuntiva do Sim e do Não, por exemplo, no fetichismo, com a sua dimensão de clivagem e recusa, na qual a dimensão da falta tem que ser abolida e desautorizada, e não transformada. A dificuldade, nestas situações, é a que descrevemos acima com a paciente que se organizava unicamente em torno da ausência, dando um caráter irreal à presença e ao retorno do objeto. No caso do fetichismo, o trabalho do negativo impede qualquer investimento positivo fora do fetiche; isto é também o que ocorre no caso do Homem dos Lobos: as defesas impedem a capacidade de pensar, escolher e julgar. Ele mantinha sempre duas opiniões sobre o mesmo assunto, não podia decidir se era homem ou mulher, era incapaz de decidir se uma coisa era boa ou má. "...o Eu paralisado pela ambivalência em sua relação com a realidade psíquica e com a realidade material só admite a coexistência (do sim e do não) com a condição de responder a ela por um nem sim nem não". O trágico nessas situações é chegar à constatação de que "a recusa de optar, a recusa de crer, a recusa de investir não é nada mais do que a recusa de viver"[16].

 

O negativo do negativo leva portanto a uma abolição simbólica e, no limite, a uma abolição da própria vida. Se a elaboração simbólica só pode se constituir através de um campo de diferenciações e semelhanças, de continuidades e rupturas, de familiaridades e estranhezas que possam ser compostas em uma trama conjuntiva, isto é, sob a égide de Eros, por outro lado, uma desautorização radical, ou da presença ou da ausência cria a dificuldade ou até a impossibilidade de fazer um contato com o outro, que parece estar sempre perto demais ou longe demais. A paciente na qual observamos um dilaceramento entre o Sim e o Não achava que poderia até gritar pelo outro, que não seria ouvida, e vivia sobressaltada com a angústia de não mais encontrar o caminho de volta para casa. Ela havia perdido a possibilidade de "encontrar, acolher, reconhecer o ausente", como nos aponta Pontalis em um de seus belos textos[17].

 

Encontrar, acolher, reconhecer o ausente é celebrar um luto, que é, por excelência, um trabalho do negativo na saúde. As relações que se mantêm vivas precisam de ar, é preciso deixá-las respirar: é preciso um trabalho do negativo lavrando-se na surdina, de modo invisível. Não só no momento de constituir o psíquico, mas durante a vida inteira das histórias de amor, o objeto precisa se deixar esquecer, apagando-se, silenciando-se. São os movimentos de fazer-se lembrar e deixar-se esquecer e a capacidade de estar só na presença de alguém - que aí se engendram. Só assim - neste tecer conjuntivo de Sim e Não - as coisas findas se transfiguram, ficam lindas.

 

Aí, sim, podemos dar razão ao poeta, e dizer com ele que "as coisas findas, muito mais que lindas, estas..."


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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