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ÍNDICE TEMÁTICO 
49/50
André Green
ano XXV - Junho 2013
216 páginas
capa: Serge Poliakoff
  
 

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Resumo
Tendo começado com o ensino da teoria de Jacques Lacan aos analistas em formação da Sociedade Psicanalítica de Paris, Green veio a divergir dele, opor-se a ele e, finalmente, aceitar elementos de suas teses e inovar, criando seu próprio pensamento. Neste percurso, Green parte da alucinação negativa da mãe e formula o fantasma da mãe morta, frequentemente ligado a uma morte real na família.


Palavras-chave
alucinação negativa; foraclusão; assassinato da mãe; mãe morta.


Autor(es)
Luiz Eduardo Prado de  Oliveira
nasceu no Rio de Janeiro e vive em Paris desde os anos 1970. É psicanalista, formado pela Association Psychanalytique de France, membro de Espace Analytique, professor na Universidade Paris VII Diderot e na Universidade Europeia da Bretagne (Brest). Tradutos para o francês das famosas Controverses Anna Freud-Melaine Klein (PUF, 1996), é também autor de numerosas obras, notadamente de Les cas Schreber: Contributions psychanalytiques de langue anglaise (PUF, 1979); Freud et Schreber: Les sources écrites du délire, entre psychose et culture (Erés, 1997). Seu último livro publicado é Ferenczi, la psychanalyse autrement (Armand Colin, 2011).



Notas

[1]   Apresentado no Colóquio de Bonneval de 1957, o primeiro desses artigos foi publicado em 1958, em l'Évolution Psychiatrique, n. 2. O segundo, no n. de 1962 de l'Encéphale, p. 5-73.

[2]   Intervenção sobre o relatório de C. Luquet-Parat, "L'organisation œdipienne du stade genital" no 27o Congrès des Psychanalystes de Langues Romanes, 1966. Publicado na Revue Française de Psychanalyse, 1967, 31, p. 896-906. Observamos que a referência à alucinação negativa é própria ao artigo publicado logo depois de um texto capital para a compreensão dos problemas colocados pelo pensamento de Green, "Le narcissisme primaire: structure ou état", publicado em L'Inconscient, 1967, n. 1-2, p. 80-132.

[3]   L. E. Prado de Oliveira, "Forclusion. Thèses, histoires, cliniques", Cahiers de Psychologie Clinique, Bruxelles, De Boeck, 35, 2011, p. 77-94.

[4]   S. Freud (1911), "Remarques psychanalytiques sur l'autobiographie d'un cas de paranoïa (Dementia paranoïdes) (Le Président Schreber)", p. 309.

[5]   S. Freud (1911), "Remarques psychanalytiques sur l'autobiographie d'un cas de paranoïa (Dementia paranoïdes) (Le Président Schreber)", Œuvres complètes X, 1909-1910, p. 287.

[6]   W. Stekel (1950), The Autobiography of Wilhelm Stekel: The Life Story of a Pionneer Psychoanalyst, p. 98.

[7]   J. Lemoulen, (1966), "La médecine française et la psychanalyse de 1895 à 1926", Nouvelle Revue de Psychanalyse, n. 15, Gallimard, 1977. A carta de Freud a Laforgue aí está.

[8]   S. Freud (1927), "Fétichisme", Œuvres complètes, xviii, 123-132, p. 126-127.

[9]   S. Freud (1901), La psychopathologie de la vie quotidienne, p. 193, 419.

[10]  S. Freud (1890), "Traitement psychique (traitement d'âme)", Résultats, idées, problèmes, I, p. 17.

[11]  S. Freud (1895), Études sur l'hystérie, p. 86.

[12]  S. Freud (1907), Délire et rêves dans la "Gradiva" de Jensen, p. 207.

[13]  (1964) "Meetings of the New York Psychoanalytic Society", Psychoanalytic Quarterly, 33, p. 462-463.

[14]  P. Elkisch (1959), "On Infantile Precursors of the ‘Influencing Machine' (Tausk)", Psychoanalytic Study of the Child, 14, p. 219-235.

[15]  W. Hoffer (1952), "The Mutual Influences in the Development of Ego and Id Earliest Stages", Psychoanalytic Study of the Child, 7, p. 31-41. Neste último artigo, Hoffer discutemais detidamente a nota de rodapé em que se inspira Green.

[16]  A. Green (1966-1967), "Les fondements différenciateurs des images parentales: l'hallucination négative de la mère et l'identification primordiale au père", Revue Française de Psychanalyse, 31, 5, p. 896-906,

[17]  A. Green (1967), "Le narcissisme primaire, structure ou état?", L'Inconscient, n. 1, 1966, n. 2, 1967. Repetido in Narcissisme de vie, narcissisme de mort. Parece-me que essa formulação despreza a noção de posição, mais dinâmica que as de estrutura ou de estado. Ver Freud et Schreber, les sources écrites du délire, entre psychose et culture, p. 105-109.

[18]  A. Green (1966-1967), "Les fondements différenciateurs des images parentales: l'hallucination négative de la mère et l'identification primordiale au père", p. 899-900.

[19]  O "belo rosto" de Briséis, no centro da disputa entre Agamemnon e Aquiles que quase custou a vida do chefe dos Atridas, vem substituir seus seios, observaram os comentadores da Ilíada.

[20]  A. Green (1971), "La projection: de identification projective au projet", La folie privée. Psychanalyse des cas-limites, p. 204, 207. Muito curiosamente, Green não retoma a crítica da proposição feita por Bonaparte e Lœwenstein da tradução do termo Verwerfung. Na época, esse erro já era conhecido. Green prefere utilizar o termo abolição.

[21]  A. Green (1982), "Après coup, l'archaïque", La folie privée. Psychanalyse des cas-limites, p. 233.

[22]  J. Lacan (1957), "Intervention sur l'exposé de J. Favez-Boutonnier", École lacanienne de psychanalyse, on-line.

[23]  A. Green (1993), Le travail du négatif.

[24]  A. Green (1974), "L'analyste, la symbolisation et l'absence dans le cadre analytique", La folie privée. Psychanalyse des cas-limites, p. 63-102. Todas as indicações aqui apresentadas estão sujeitas a confirmação. Nenhuma publicação de Green comporta Índice, nenhuma obedece a uma ordem cronológica. A desorganização da edição de sua obra não é superada, parece seguir a das obras de Lacan, de Winnicott e, claro, de Freud.

[25]  J.-L. Donnet, A. Green, L'enfant du ça, p. 215.

[26]  S. Freud, "L'inconscient", Métapsychologie, p. 11. Dou outros exemplos clínicos desse tipo gênero de situações em meus seminários sobre "as perversões", como o elo estabelecido entre a prece e a felação através do significante "ajoelhado". Ver também meu artigo "The unconscious", Freud: a modern reader.

[27]  O que Melanie Klein faz, em um de seus textos dos menos conhecidos, de 1957, "Réflexions sur l'Orestie", Envie et gratitude et autres essais, p. 189-219.

[28]  A. Green (1980), "La mère morte", Narcissisme de vie, narcissisme de mort, p. 226-227.



Referências bibliográficas

Donnet J.-L.; Green A. (1973). L'enfant du ça. Paris: Minuit.

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_____. (1901/1997). La psychopathologie de la vie quotidienne. Trad. D. Messier. Paris: Gallimard.

_____. (1907/1949). Délire et rêves dans la "Gradiva" de Jensen. Trad. M. Bonaparte. Paris: Gallimard.

_____. (1911). Remarques psychanalytiques sur l'autobiographie d'un cas de paranoïa (Dementia paranoïdes) (Le Président Schreber), Cinq psychanalyses. Trad. M. Bonaparte; R. M. Lœwenstein. Paris: puf [première édition 1954, dernière édition 2001].

_____. (1911). Remarques psychanalytiques sur l'autobiographie d'un cas de paranoïa (Dementia paranoïdes) (Le Président Schreber), Œuvres complètes X, 1909-1910. Trad. P. Cotet; R. Lainé.

_____. (1915/1968). L'inconscient, Métapsychologie. Trad. J. Laplanche, J.-B. Pontalis et collaborateurs. Paris: Gallimard.

_____. (1927). Fétichisme, Œuvres complètes, xviii. Trad. R. Lainé. p. 123-132.

Green A. (1958). La préschizophrénie de l'adolescence, L'Évolution Psychiatrique, n. 2.

_____. (1962). Le milieu familial des schizophrènes, L'Encéphale, p. 5-73.

_____. (1966-1967). Les fondements différenciateurs des images parentales: l'hallucination négative de la mère et l'identification primordiale au père, Revue Française de Psychanalyse, 31, 5, p. 896-906.

_____. (1966-1967). Les fondements différenciateurs des images parentales: l'hallucination négative de la mère et l'identification primordiale au père, p. 899-900.

_____. (1966-1967). Intervenção sobre o relatório de C. Luquet-Parat, "L'organisation œdipienne du stade genital" no 27o Congrès des Psychanalystes de Langues Romanes, 1966. Publicado na Revue Française de Psychanalyse, 1967, 31, p. 896-906.

_____. (1967). Le narcissisme primaire: structure ou état, L'Inconscient, 1967, n. 1-2, p. 80-132.

_____. (1967), Le narcissisme primaire, structure ou état?, L'Inconscient, n. 1, 1966, n. 2, 1967. Repetido in Narcissisme de vie, narcissisme de mort, Paris, Minuit, 1983, última edição 2007. [Narcisismo de vida, narcisismo de morte. Trad. Claudia Berliner. S. Paulo: Escuta, 1988.]

_____. (1971/1990). La projection: de identification projective au projet, La folie privée. Psychanalyse des cas-limites. Paris: Gallimard.

_____. (1974), L'analyste, la symbolisation et l'absence dans le cadre analytique, La folie privée. Psychanalyse des cas-limites, p. 63-102.

_____. (1980/1983). La mère morte, Narcissisme de vie, narcissisme de mort. Paris: Minuit, [Narcisismo de vida, narcisismo de morte. Trad. Claudia Berliner. S. Paulo, Escuta, 1988.]

_____. (1982). Après coup, l'archaïque, La folie privée. Psychanalyse des cas-limites, p. 233.

_____. (1993). Le travail du négatif. Paris: Minuit.

Hoffer W. (1952). The Mutual Influences in the Development of Ego and Id Earliest Stages, Psychoanalytic Study of the Child, 7, p. 31-41.

Klein M. (1957/1968). Réflexions sur l'Orestie, Envie et gratitude et autres essays. Trad. V. Smirnoff, S. Aghion, M. Derrida. Paris: Gallimard, p. 189-219.

Lacan J. (1957). Intervention sur l'exposé de J. Favez-Boutonnier, École lacanienne de psychanalyse, on-line.

Lemoulen J. (1966/1977). La médecine française et la psychanalyse de 1895 à 1926, Nouvelle Revue de Psychanalyse, n. 15, Gallimard.

Meetings of the New York Psychoanalytic Society, Psychoanalytic Quarterly, 1964, 33, p. 462-463.

Prado de Oliveira L. E. (1997). Freud et Schreber, les sources écrites du délire, entre psychose et culture. Ramonville Saint-Agne: Érès, p. 105-109.

_____. (2005). The unconscious. In: R. J. Perelberg (org.) Freud: a modern reader. London / Philadelphia: Whurr Books.

_____. (2011). Forclusion. Thèses, histoires, cliniques, Cahiers de psychologie clinique, Bruxelles, De Boeck, 35, p. 77-94.

Stekel, W. (1950). The Autobiography of Wilhelm Stekel: The Life Story of a Pionnee




Abstract
Green starts his journey as a teacher of Jacques Lacan’s thesis to analysts of the Paris psychoanalytical society. Then, he abandons Lacan, opposes him and, finally, accept elements of his theory. He innovates and creates his own domain of thought. Through this journey, Green starts with negative hallucination of the mother and formulates his thesis on the phantasm of the dead mother, often related to real deaths in the family.


Keywords
negative hallucination forclusion; murder of mother; dead mother.

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 TEXTO

Entre a mãe morta e o assassinato da mãe, um percurso

Between the dead mother and the murder of the mother: a journey
Luiz Eduardo Prado de  Oliveira

Green e seu início

Freud termina seu percurso com dois textos clínicos que tratam das psicoses e das perversões, notadamente do fetichismo: "Constructions dans l'analyse" ("Construções em análise") e "Clivage du moi dans le processus de défense" ("A cisão do Eu nos processos de defesa"), o primeiro de 1937 e o segundo, do ano seguinte. Encerra assim um trabalho iniciado em 1895 na área da psicopatologia. Isso não significa que ele exauriu tais temas, pois, de fato, muitos aspectos das psicoses e das perversões ainda restavam a explorar. No ponto em que Freud parou, começariam as expedições teóricas importantes através dos territórios estranhos do funcionamento mental, aqueles em que dominam os processos primários e onde se forma a loucura: Melanie Klein, certamente, mas também Bion, Lacan e, finalmente, André Green os percorreram. Há outros nomes que participam dessas aventuras teóricas, como Winnicott ou Searles. Menciono os três primeiros, pois me parecem bem presentes no pensamento de Green, de maneira diferente de Winnicott.

 

Neste artigo pretendo estudar o aparecimento e os desafios dos conceitos mais produtivos de Green, o da alucinação negativa, em sua relação com a questão das psicoses, e de uma de suas contribuições mais extraordinárias: a que trata da fantasia da mãe morta.

 

Os primeiros escritos de Green são assinados em conjunto com grandes nomes da psiquiatria francesa: Deniker, Delay ou Pierre Male. São "La préschizophrénie de l'adolescence", de 1958, "Le milieu familial des schizophrènes", de 1962[1]. Um jovem psiquiatra afirma uma posição original. Green tinha 31 anos. Quatro anos mais tarde, debate-se com as teses familialistas sobre a origem das psicoses, indicando os problemas metodológicos de sua abordagem.

 

Depois de ter ensinado a teoria de Lacan no início dos anos 1960, Green deu seus primeiros passos profissionais para a elaboração da teoria psicanalítica, em 1966, com seu artigo "Les fondements différenciateurs des images parentales: l'hallucination négative de la mère et l'identification primaire au père"[2]. Vemos assim que a alucinação negativa se situa logo no início de seu percurso teórico. Ele acabava de ser eleito membro titular da Sociedade Psicanalítica de Paris e, de entrada, já traz um dos conceitos maiores de sua obra. Paralelamente, foi nos rastros de seu ensinamento de Lacan que propôs esse conceito de alucinação negativa. De fato, existe uma grande proximidade entre o conceito proposto por Green e o conceito de foraclusão, apresentado por Lacan alguns anos antes. Mas os percursos teóricos de Green e de Lacan são radicalmente diferentes. Este último parte de uma crítica da tradução francesa da noção freudiana de Verwefung e das confusões que essa tradução não deixou de provocar; Green, por sua vez, apoia-se em algumas indicações isoladas e esparsas de Freud, e se afasta de Lacan. Para compreender melhor seu procedimento, é importante conhecer aquele do tempo em que ele ensinava.

 

A foraclusão

Estudei longa e detalhadamente o percurso de Lacan para a proposição do conceito de foraclusão como tradução do Verwefung freudiano[3]. Contrariamente ao que o leitor apressado poderia pensar, não são apenas questões de tradução ou meandros de discussões bizantinas. Quem trabalha com pacientes psicóticos, limites ou que sofram de neuroses graves sabe muito bem que existem fenômenos de difícil compreensão caso não utilizemos os conceitos de identificação projetiva, de foraclusão ou de alucinação negativa.

 

Eis um breve resumo do problema com o qual se defronta Lacan quando de sua proposição do conceito de foraclusão, problema exclusivo da psicanálise em língua francesa. A tradução francesa canônica do estudo de Freud dedicado ao Presidente Schreber, em sua parte referente à explicação do delírio de ciúme, afirma: "A deformação por projeção não desempenha papel algum aqui, já que a mudança da qualidade da pessoa que ama basta para projetar o processo inteiro para fora do ego"[4].

 

Essa tradução provoca confusões. Se a "deformação por projeção não tem desempenho aqui", como é possível que a mudança de pessoa possa bastar "para projetar o processo inteiro para fora do ego"? A explicação pelo mecanismo de projeção, que acaba de ser excluído, é reintroduzida imediatamente. Mas não é isso que Freud escreve em seu estudo sobre Schreber. Em francês, uma tradução melhor seria outra: "A deformação por projeção só pode aqui desaparecer, já que, com a mudança do sujeito que ama, o processo, de qualquer forma, é lançado para fora do ego"[5].

 

Para ser mais exato, teria sido melhor traduzir Verwerfung por rejeição. Foi aproveitando essa brecha, entre projeção e rejeição, que Lacan propôs a foraclusão, que é uma tradução muito ruim. Entretanto, não é a primeira vez que uma má tradução muda o destino das línguas e da elaboração teórica, adquirindo o estatuto de conceito, com uma dimensão autônoma e desembaraçada de suas raízes. Caso Freud tivesse desejado designar um processo mesmo longinquamente relacionado com o campo semântico coberto pelo conceito que Lacan utiliza, teria usado Anspruchsverjährung ou mesmo, mais próximo, Präklusion.

 

Tentativas de solução

Houve uma primeira tentativa de resolução do problema teórico da abordagem das psicoses, com um conceito precursor do de foraclusão, do qual este último ainda é muito próximo. Trata-se da noção de anulação: "Eu descrevi o fenômeno da ‘anulação'. Não é o mesmo que recalque. [...] Na anulação, há uma cegueira consciente"[6].

 

Uma segunda tentativa de resolução da dificuldade foi a introdução do termo "escotomização". Laforgue escreve a Freud em 18 de fevereiro de 1926 para lhe comunicar sua contribuição: a introdução no campo teórico freudiano da "escotomização", aquilo que não se quer ou não se pode ver, um ponto cego. Esse termo deve completar o de recalque quando se tratar das psicoses. Uma longa correspondência se segue entre os dois homens. Freud acaba por responder a Laforgue:

 

Li do início ao fim seu artigo sobre a escotomização, em alemão. Entendo agora por que esse conceito e sua relação com o recalque apresentam para mim tais dificuldades. Observo que em certo ponto você se afastou de mim. Você não aceita a representação metapsicológica que se esforça em caracterizar um acontecimento psíquico através de seu lado dinâmico, tópico e econômico, por assim dizer, segundo três coordenadas...[7].

 

No ano seguinte, 1927, de forma mais ampla, Freud escreve, numa discussão sobre a constituição do fetiche:

 

Se não me engano, Laforgue diria nesse caso que o rapaz "escotomiza" a percepção da falta do pênis na mulher. (Freud acrescenta aqui uma longa nota de pé de página, à qual voltarei.) "Escotomização" me parece particularmente inapropriado, pois isso desperta a ideia de que a percepção teria sido pura e simplesmente apagada, de forma que o resultado fosse o mesmo que o de uma impressão visual entrando no ponto cego da retina. A situação considerada mostra, ao contrário, que a percepção continuou, e que uma ação muito enérgica foi empreendida a fim de manter sua negação[8].

 

E aqui está a nota de fim de página onde Freud comenta o que acabou de escrever:

 

Corrijo-me, todavia, acrescentando que tenho melhores razões para supor que Laforgue não diria absolutamente isso. Segundo seus próprios desenvolvimentos, "escotomização" é um termo provindo da descrição da dementia præcox, que não apareceu por transferência da concepção psicanalítica para psicoses e que não pode ser aplicado aos processos de desenvolvimento e de formação da neurose.

 

Essa nota, novamente, em vez de tornar mais compreensível o problema clínico, problematiza-o, pois Freud parece considerar aqui o fetichismo como fazendo parte dos "processos de desenvolvimento e de formação da neurose".

 

Alucinação negativa

Green tentaria um outro ângulo de abordagem do problema clínico através da noção de alucinação negativa, que tomou de Freud, o qual a menciona algumas vezes, geralmente de forma puramente descritiva[9].

 

Da mesma forma que é possível obrigar o hipnotizado a ver o que não está diante dele, da mesma forma pode-se proibi-lo de ver algo que está ali e que tende a se impor aos seus sentidos, por exemplo uma pessoa (é o que se chama de alucinação negativa)[10].

 

Seu papel terapêutico aparece, no entanto, durante uma sessão de hipnose. O hipnotizador induz a uma alucinação envolvendo sua própria pessoa, que não deve ser percebida pelo paciente. Depois de a paciente despertar, Freud lhe afirma que ela o viu. De início, ela não se recorda disso, mas logo passa a se lembrar. "Ela acaba então por lhe contar aquilo que ela supostamente não havia percebido durante seu sonambulismo e que ela pretendia ignorar no estado de vigília"[11]. É essa segunda concepção da alucinação negativa que é usada em Gradiva[12]. Freud menciona mais uma vez essa modalidade de alucinação em 1917, para abandoná-la em seguida.

 

Green, no entanto, volta a ela em 1966-1967. Não é certamente o primeiro a fazê-lo. Antes dele, as reuniões da Sociedade Psicanalítica de Nova York discutem essa mesma questão[13]. A alucinação negativa é entendida como fundamento das percepções e notadamente das psicoses[14]. Mais: é colocada no centro da formação de um ego corporal[15]. Green a amplia para a formação do aparelho psíquico[16]. Porém, à diferença de seus precursores, ele a articula a um vasto conjunto teórico-clínico.

 

Uma contribuição maior

Esse aporte acontece ao mesmo tempo que uma de suas grandes contribuições[17]. Em seu primeiro estudo aqui mencionado, Green retoma o movimento dialético estabelecido por Melanie Klein entre o objeto parcial e o objeto total, mais particularmente entre a percepção do seio e a percepção da totalidade da mãe. Leiamos sua citação, a fim de compreender a originalidade de sua contribuição, entre a teoria da relação do objeto e a da psicologia do ego:

 

[...] essa ausência pela qual a mãe vem a ser para o sujeito deve ser sustentada pelas estruturas deste último. Está claro que não é a apreensão perceptiva da mãe que pode ser interiorizada, já que ela é secundária e é a marca de sua presença. É preciso, então, considerar o que estava em seu lugar antes dessa possibilidade. É aqui que veríamos a intervenção de um processo sobre o modo da alucinação negativa. [...] assim como ela não é um distúrbio do reconhecimento de si, tampouco é assimilável a um distúrbio da ordem perceptiva. [...] A alucinação negativa é estranha a qualquer representação, a qualquer figuração ou evocação imaginária. Freud, em uma nota do Complément métapsychologique à la doctrine des rêves, define que a solução do problema da alucinação deve ser precedida pela solução da alucinação negativa, observação que não desenvolveu, mas que me parece de grande alcance[18].

 

Green insiste na perda do objeto:

 

O rastro será, então, aquilo que envolve o lugar vago deixado pelo objeto materno, que nada pode representar, já que foi no momento em que este podia ser visto em seu conjunto que o objeto do desejo, o seio, se perdeu.

 

Provavelmente, de um ponto de vista dialético, o seio não fica completamente perdido, mas é, sim, transformado. E assim se torna outra representação. Por exemplo: aquilo que era seio se torna rosto[19]. O vazio deixado pelo objeto materno é rico de potencialidades.

 

Desenvolvimentos posteriores

Green traz um triplo desenvolvimento à noção de alucinação negativa. Primeiramente, integra-a com ao menos dois dos conceitos maiores de Lacan: o de foraclusão e o de Outro; em seguida, expondo sua experiência clínica através do conceito de psicose branca. Finalmente, ligando sua elaboração teórica à sua experiência clínica através da teorização da fantasia da mãe morta. Como isso acontece?

 

O retorno da exclusão

Em certo momento, Green retoma o conceito com o qual se media o da alucinação negativa. Mais, retoma a discussão do próprio trecho do estudo de Freud sobre Schreber, no qual vimos, no início deste artigo, uma das fontes mais importantes do conceito de foraclusão[20]. Ao retomá-la, através da noção de "projeção foracluída", que serve de subtítulo a seu artigo, retoma também o conceito de Outro. A referência a Lacan e a maneira particular de lê-lo sem afastá-lo da história do pensamento analítico serão permanentes na obra de Green. Dez anos mais tarde, Green retomaria a noção da língua[21].

 

O uso feito por Green da alucinação negativa tem origem também na noção de carência, cujo uso com o sentido específico dado por Lacan data de 1957:

 

[...] a relação do homem não é com um dado objeto, mas com a carência assumida como trajeto do desejo, assumido como alvo da criança em presença da mãe. [...] se essa relação do homem com o objeto não fosse baseada na possibilidade do surgimento de um objeto em lugar de outro, não haveria transferência analítica. Se o analista se ausenta, não é para provocar estresse nem para dosar uma frustração, mas para deixar espaço para a ambiguidade fundamental da coexistência entre o real e o simbólico[22].

 

A noção de carência percorre toda a obra de Green, essencialmente através de seu uso do termo "negativo", herdado de Hegel por Freud. O negativo é criador: trabalho do negativo, conforme o título de um de seus livros[23].

 

O negativo, através do recalque e da sublimação, marca a condição mais geral: é necessário dizer "não" à pulsão em excesso para fazer parte da comunidade dos homens. Talvez fosse a partir daí que esse "não" se torna, para alguns, a recusa de viver humanamente sob o império de uma negatividade destruidora.

 

Por extensão, evidentemente, alucinação negativa, mas também o papel central da ausência na constituição do psiquismo e para a técnica psicanalítica[24].

 

A psicose branca

Sabemos como Green chegou à concepção da alucinação negativa a partir de uma experiência clínica singular, situada entre a consulta psicanalítica e o tratamento analítico. Vejamos o que teorizaram Donnet e Green que, com toda a evidência, foram influenciados pelo pensamento de Bion:

 

É preciso, então, que o analista escute o que é falado e, ao mesmo tempo, pense em como o psicótico poderia pensar caso não o fosse; ele precisa pensar no pensoir (aparelho pensador) que permitiria não pensar (recalcar) os pensamentos cujo pensamento destrói o pensoir. Ele deve, em suma, introduzir deliberadamente uma função de desconhecimento que se encontra geralmente garantida pelo próprio quadro de sua escuta. É preciso que ele entre em contato com sua própria "aptidão" a desconhecer, a alucinar negativamente[25].

 

Esse pensoir, seguramente um neologismo em francês, é induzido na contratransferência teorizando na forma psicótica de uso da linguagem - através de neologismos - e designa o lugar onde se produzem os pensamentos, assim devemos compreendê-lo. Forma-se a partir de outras palavras da língua com sentido equivalente, como "ouvroir", para trabalho ou obra, sinônimo de oficina, ou "lavoir", que designa o lugar onde se lavam coisas.

 

A psicose branca é próxima da alucinação negativa. Dessa vez, no entanto, ela muda de campo. Ela não é apenas aquilo que teria sido alucinação negativa do psicótico, mas vem solicitar a capacidade de alucinar negativamente do analista, onde se instala, como um analogon do recalque.

 

Como observação clínica oposicional pertinente a essa maneira de conceber, pode-se dizer que é impossível pensar no lugar de outro, forçosamente, ainda mais, se for psicótico, sem se basear firmemente no que ele diz ou pelo menos no que comunica. O exemplo canônico dessa situação nos vem de Tausk. Green é um dos raríssimos autores contemporâneos a ousar retomar a contribuição desse aluno maldito de Freud. Este, porém, não hesitava em buscar nele sua inspiração:

 

Uma das pacientes de Tausk, uma jovem conduzida à clínica depois de uma briga com seu namorado, se lamenta: "Os olhos não estão como deviam, estão atravessados". O que ela mesma explica, numa linguagem coerente, lançando uma série de repreensões contra seu amado: "ela não consegue entender nada, ele parece diferente a cada vez, é um hipócrita, um virador de olhos (tourneur d'yeux), ele lhe virou os olhos, agora ela está com os olhos revirados, não são mais os seus olhos, ela está vendo o mundo com outros olhos"[26].

 

A mãe morta

É corajoso da parte de Green lançar-se nesse ponto cego da psicanálise: Freud trata do pai morto, nunca da mãe morta, sem jamais articulá-los. Principalmente, Freud não aborda jamais a questão do assassinato da mãe[27]. Green é explícito:

 

Uma vez descrita a alucinação branca e a psicose branca, não voltarei ao que suponho já sabido, e encadearei a angústia branca ou o luto branco a essa série. A série "branca": alucinação negativa, psicose branca e luto branco, todos referentes ao que se poderia chamar de clínica do vazio, ou clínica do negativo, são resultado de um dos componentes do recalque primário: um desengajamento maciço, radical e temporário, que deixa traços no inconsciente sob a forma de "buracos psíquicos" que serão preenchidos por reincidências, expressões da destrutividade assim liberada por esse enfraquecimento do comprometimento libidinal erótico. As manifestações de ódio e os processos de reparação que o seguem são manifestações secundárias a esse desengajamento central do objeto primário, materno[28].

 

Curiosamente, o texto de Freud aqui mencionado também trata desses espaços vazios a respeito de dois pacientes, um deles de Tausk. Ambos têm sintomas similares em relação a meias, que representam o sexo da mulher, quando seus próprios pés representam seu pênis.

 

Mais curioso ainda: nas primeiras linhas de seu artigo, Green afasta de sua descrição clínica a morte real da mãe. Porém, seu procedimento teórico não privilegia de maneira absoluta a fantasia, desprezando as experiências reais que a originam. Pois a morte real, cuja realidade é afastada, reaparece como experiência de morte psíquica da mãe, que se desvia do filho, envolvida pelo luto de um familiar, até mesmo de outro filho. Essa morte psíquica é ainda mais devastadora quando toma a forma de segredo.

 

É possível que, na obra de Green, a linha que conduz da elaboração sobre a alucinação negativa àquela que trata da mãe morta organize sua mais importante contribuição teórico-clínica. A fantasia da mãe morta é a base da fantasia forçosamente posterior do pai morto. E isso implica a fantasia do assassinato do pai. É importante que se possa prolongar a contribuição de Green pela constatação clínica da fantasia do assassinato da mãe. Toda clínica no sentido de afrontar as destruições dos continentes, psíquicos e corpóreos, familiares ou grupais, parece ligar-se fundamentalmente a essas fantasias. Assim, a obra de Green já se projeta no futuro da psicanálise.


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