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TÍTULO DE ARTIGO


 

AUTOR


ÍNDICE TEMÁTICO 
49/50
André Green
ano XXV - Junho 2013
216 páginas
capa: Serge Poliakoff
  
 

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Resumo
Urribarri percorre neste texto a história das contribuições de André Green à questão da linguagem na psicanálise. Dessa perspectiva, ele destaca três momentos principais na obra do autor. De início, em um período “lacaniano” (anos 1960), Green estuda a linguagem e a simbolização no horizonte intelectual delineado pelas teses de Lacan. Segue-se a fase “pós-lacaniana” (anos 1970-1980), fase crítica, na qual ele examina os impasses reducionistas do lacanismo, contesta a exclusão do afeto e conceitua a especificidade da linguagem na e para a psicanálise. Chega, por fim, à “etapa contemporânea” (anos 1990, até 2010): a linguagem é elucidada “no seio da teoria generalizada da representação” em articulação com as teorias da terceiridade e do trabalho do negativo, e seu papel é redefinido no centro dos processos de criação e de destruição do sentido.


Palavras-chave
linguagem; afeto; significante; lacanismo; psicanálise contemporânea, discurso vivo; linguística pós-saussuriana; teoria generalizada da representação; trabalho do negativo.


Autor(es)
Fernando Urribarri

é psicanalista, membro da Associação Psicanalítica (APA), na qual dirige o Seminário de Pesquisa André Green. Em 2005, codirigiu o Colleque International de Cérisy à obra de Green, cujas atas foram publicadas pela PUF. É fundador da revista Zona Erógena (Buenos Aires), e autor de Entretiens avex André Green. La psychanalyse chemin faisant (Ithaque).




Notas

[1]   . Não apenas as críticas tardias e desencantadas dirigidas à "linguisteria" não modificaram o essencial desse modelo mas também tenderam a reforçar seu aspecto reducionista com a teoria do discurso e outras extrapolações "matemáticas".

[2]   . Cf. A. Green, Du signe au discours, que reúne algumas de suas contribuições mais importantes a esse respeito.

[3]   Para uma análise do desenvolvimento do pensamento de André Green em torno da construção do modelo contemporâneo, cf. F. Urribarri, "Passion clinique, pensée complexe" (Posfácio), in A. Green, Illusions et désillusions du travail psychanalytique.

[4]   . Por exemplo: "L'objet (a) de J. Lacan, sa logique et la théorie freudienne" (conferência feita, em 1965, no seminário de Lacan), Cahiers pour l'analyse 3, 1966, p. 15-37; mais tarde, incluída in A. Green, Propédeutique. La Métapsychologie revisitée, p. 159-182.

[5]   . J. Lacan, Écrits, p. 247.

[6]   .Les temps modernes 195 (1962), p. 365-379.

[7]   .J. Laplanche; S. Leclaire. "L'Inconscient: une étude psychanalytique" (Colóquio de Bonneval, 1960), in J. Laplanche, Problématiques IV. L'inconscient et le ça.

[8]   . A. Green, Le discours vivant. La conception psychanalytique de l'affect.

[9]   . A. Green, "Le langage dans la psychanalyse", in A. Green, R. Diatkine et al., Langages. IIe Rencontres psychanalytiques d'Aix-en-Provence, Paris, Les Belles Lettres, 1984.

[10]  . A. Green, Le discours vivant, op. cit., p. 239. Grifo de André Green.

[11]  . A. Green, Le discours vivant, op. cit., p. 310. Grifo de André Green.

[12]  . A. Green, Le discours vivant, op. cit., p. 311.

[13]  . A. Green, Le discours vivant, op. cit., p. 290. Note-se que, aqui, o termo "pós-freudiano" inclui não apenas aqueles que Lacan critica, mas também o próprio Lacan.

[14]  A. Green, "Le langage dans la psychanalyse", op. cit., p. 118. Grifo de André Green.

[15]  A. Green, "Le langage dans la psychanalyse", op. cit., p. 132.

[16]  A. Green, "Le langage dans la psychanalyse", op. cit., p. 123. Grifo de André Green.

[17]  A. Green, "Le langage dans la psychanalyse", op. cit., p. 145. Grifo de André Green.

[18]  Em "Psychanalyse et théories du langage", Green escreve: "A língua psicanalítica demonstra que ela inclui a função transicional (Winnicott) da linguagem em relação com objetos que são e não são o que eles representam (o seio)." Cf. A. Green, Du signe au discours, op. cit., p. 135, capítulo IV.

[19]  . A. Green, "Le Langage dans la psychanalyse", op. cit., p. 145-146.

[20]  . Note-se que a pulsão está na base do modelo freudiano; o objeto, dos modelos pós-freudianos; a representação - eixo da articulação com os outros -, do modelo contemporâneo.

[21]  . Para uma análise do papel da terciaridade na reconfiguração da obra de André Green, cf. F. Urribarri, "Pour introduire la pensée tertiaire", in C. Botella, Penser les limites. Ecrits en l'honneur d'André Green.

[22]  Comunicação pessoal de Green a Urribarri.

[23]  C. S. Peirce, Ecrits sur le signe, p. 29.

[24]  A. Green, "De la tiercéité ", op. cit., p. 292-293.

[25]  In A. Green, Du signe au discours, op. cit., p. 83-109, capítulo III.

[26]  A. Green, Du signe au discours, op. cit., p. 31-60, capítulo primeiro.

[27]  A. Green, Du signe au discours, op. cit., p. 32.

[28]  A. Green, Du signe au discours, op. cit., p. 49.

[29]  Cf. seu artigo "La position phobique centrale", in A. Green, La pensée clinique, op. cit.

[30]  Cf. A. Culioli, Pour une linguistique de l'énonciation.

[31]  Cf. S. Bouquet; F. Rastier (org.), Une introduction aux sciences de la culture; S. Bouquet, "Y a-t-il une théorie saussurienne de l'interprétation? ", Cahiers de praxématique 33 (1999); F. Rastier, "De l'origine du langage à l'émergence du milieu sémiotique", Marges linguistiques 11 (2006), disponível em: <http://www.revue-texto.net/index.php?id=533>.

[32]  Edição estabelecida por S. Bouquet e R. Engler, com a colaboração de A. Weill.

[33]  A. Green, Du signe au discours, op. cit., p. 128, cap. iv.

[34]  Extraído de A. Green, "Le syatème représentationnnel", in Du signe au discours. Psychanalyse et théories du langage. Paris, Ithaque, 2011, p. 42-44; 46.

[35]  In S. Freud, Naissance de la psychanalyse. Lettres à Wilhelm Fließ: notes et plans (1950).

[36]  S. Freud, Contribution à la conception des aphasies: une étude critique (1891).

[37]  S. Freud, "Pulsões e destinos da pulsão". In: Obras psicológicas de Sigmund Freud - Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente (1915-1920). v. 2, p. 148. [S. Freud, "Pulsions et destin des pulsions" (1915), in S. Freud, Métapsychologie, Paris, Gallimard, 1968, p. 11-44].

[38]  S. Freud, "Complément métapsychologique à la théorie du rêve" (1916-1917), in S. Freud, Métapsychologie, op. cit.



Referências bibliográficas

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_____. (1984). Le langage dans la psychanalyse. In: A. Green, R. Diatkine et al., Langages. IIe Rencontres psychanalytiques d'Aix-en-Provence (1983). Paris: Les Belles Lettres.

_____. (1991). Comunicação pessoal de André Green a Fernando Urribarri.

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O sistema de representação

 Freud S. (1916-1917/1968). Complément métapsychologique à la théorie du rêve. In: S. Freud, Métapsychologie. Paris: Gallimard, p. 125-146.

Freud S. (1915/2004). Pulsões e destinos da pulsão. In: Obras psicológicas de Sigmund Freud - Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente (1915-1920). v. 2. Trad. Luiz Alberto Hanns. Rio de Janeiro: Imago. [Freud  S. (1915/1968). "Pulsions et destin des pulsions". In: S. Freud, Métapsychologie, Paris: Gallimard, p. 11-44.]

Freud S. (1891/1983). Contribution à la conception des aphasies: une étude critique. Paris: puf.

Freud S. (1950/2002). Naissance de la psychanalyse. Lettres à Wilhelm Fließ: notes et plans. Paris: puf.





Abstract
Urribarri traces here the history of André Green’s contributions to the problem of language in psychoanalysis. From this perspective, he distinguishes three principal moments in the author’s lifework. First, in his Lacanian period (1960s), Green studies language and symbolism within the intellectual horizon sketched out by Lacan’s propositions. Next comes the post-Lacanian phase (1970s-80s), a critical phase during which he examines the reductionist stalemates of Lacanianism, contests the exclusion of the affect, and conceptualizes the specificity of language in and for psychoanalysis. Finally, we arrive at the contemporary period (1990s-2010): language is explicated “within a generalized theory of representation”, in accordance with Green’s theories of the thirdness and of the work of the negative, where the role of language is redefined as being at the core of the processes of the creation and destruction of meaning.


Keywords
language; affect; signifier; Lacanianism; post-Lacanianism; contemporary psychoanalysis; living discourse; post-Saussurian linguistics; generalized theory of representation; work of the negative.

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 TEXTO

O inconsciente e a linguagem na psicanálise contemporânea

The unconscious and language in contemporary psychoanalysis
Fernando Urribarri

Se, por um lado, as contribuições teóricas de Jacques Lacan são incontestáveis, por outro, sua obra nos propõe um modelo psicanalítico insatisfatório: nela, o inconsciente fica reduzido à linguagem (a uma linguagem, aliás, já reduzida segundo o modo estruturalista), e a linguística assume o papel de ciência piloto, modelo de uma "cientificidade" que deve alimentar a psicanálise[1].

 

De início, brilhante, interessante e inovador, o modelo lacaniano passará pela mesma evolução dos modelos teóricos em geral, e do modelo pós-freudiano em particular. Esquematicamente, em sua fase de impulso, esses modelos oferecem uma visão original do objeto, fazem perguntas inéditas, abrem novos campos para a pesquisa. Numa segunda fase, seus limites e suas contradições são ressaltados e obrigam (além das rejeições dogmáticas) a fazer intermináveis correções e redefinições compensatórias que marcam sua decadência.

 

No pior dos casos, o modelo torna-se obsoleto e cai num esquecimento menos ou mais completo, ou (o que resulta no mesmo) torna-se um sistema dogmático estéril. No melhor dos casos, é parcialmente substituído por outro que o integra e o supera - e esse foi, parece-me, o destino positivo das contribuições lacanianas no pensamento de André Green. Pois Green debruçou-se longamente sobre a questão da linguagem[2]. Mas, diferentemente de Lacan, desenvolveu uma concepção psicanalítica centrada na singularidade do discurso produzido pelo enquadre analítico - sem dúvida, uma das facetas mais marcantes de sua obra e talvez também a menos conhecida.

 

Seguindo o fio das principais contribuições de Green ao problema da linguagem na psicanálise, gostaria de tornar visível o movimento vetorizado pela pesquisa de uma psicanálise contemporânea[3], na qual se inscreve não apenas a crítica do reducionismo intrínseco ao linguajar lacaniano, mas, sobretudo, a construção de um modelo complexo e especificamente psicanalítico, ainda que enriquecido por um diálogo (sem extrapolações) com a linguística.

 

Para isso, divido o percurso de André Green em três grandes etapas que comentarei referindo-me a seus textos-chave.

 

i. Os anos 1960 marcam o início de um período lacaniano durante o qual, sem perder seu espírito crítico, Green explora a linguagem e a simbolização dentro do horizonte intelectual traçado pelo modelo de Lacan. Assim, enquanto a linguística estruturalista inspirada em Saussure se estende, na França, a várias áreas, Green procura estabelecer a especificidade do significante psicanalítico, conjugando o econômico e o simbólico.

 

ii. Os anos 1970-1980 inauguram uma segunda etapa, que se inscreve no movimento pós-lacaniano - um movimento intelectual pluralista, institucionalmente transversal, fomentado pelos mais notáveis autores da terceira geração da psicanálise francesa. Durante esses anos, Green começa por desconstruir os impasses reducionistas do modelo lacaniano, questionando, por exemplo, a exclusão do afeto. Ele propõe, em seguida, a ideia de uma heterogeneidade do significante analítico e desenvolve, finalmente, uma perspectiva pessoal, ao conceitualizar a especificidade da linguagem na (e para) a psicanálise - "a palavra psicanalítica desenlutece a linguagem".

 

iii. Os anos 1990 iniciam um terceiro período, definido pela construção de um modelo teórico e clínico pessoal, ligado ao projeto de um novo paradigma psicanalítico contemporâneo. A linguagem é situada e elucidada "no seio da teoria generalizada da representação". Articulando-a com as contribuições das teorias da terciaridade e do trabalho do negativo, Green redefine o papel da linguagem nos processos de criação e de destruição dos significados. Nessa fase marcada por uma "guinada semiótica", o diálogo com a linguística pós-saussuriana (Antoine Culioli, François Rastier, entre outros) se mostra um estímulo particularmente fecundo.

 

I. Os anos 1960: em busca do significante freudiano

Essa etapa do retorno a Freud inicia-se, para nosso autor, com a leitura do "Relatório de Roma" de Lacan (1953) e se estende até o final dos anos 1960. De 1960 a 1967, Green participa dos seminários de Lacan, bem como de um grupo fechado que estuda a aplicação clínica de suas ideias. Como membro da Sociedade Psicanalítica de Paris, Green, no círculo do mestre, fica com o papel de "opositor de Sua Majestade": uma posição muito especial na qual a crítica é admitida. Vários artigos são publicados durante esse período[4], e igualmente seu primeiro livro: Un Œil en trop. Le Complexe d'Œdipe dans la tragédie. Nele encontramos a construção de uma identidade freudiana fundamental, conjugada a uma adesão (crítica) à perspectiva de Lacan, para quem: "Quer se pretenda agente de cura, de formação ou de sondagem, a psicanálise tem apenas um medium: a palavra do paciente"[5].

 

A tese lacaniana segundo a qual "o inconsciente é estruturado como uma linguagem" visa a justificar a eficácia do método analítico (talking cure) na compreensão do inconsciente. Definindo o inconsciente como o "discurso do Outro" - discurso feito de significantes, organizado segundo a estrutura binária da linguagem e funcionando segundo os princípios da metáfora e da metonímia (identificadas com a condensação e com o deslocamento) -, Lacan propõe uma releitura original de Freud assim como uma teoria da simbolização de inspiração estruturalista. A produção da significação inconsciente é atribuída à combinatória significante, a partir de uma causalidade estrutural própria à ordem simbólica (a "eficácia simbólica" de Lévi-Strauss).

 

Essa reformulação lacaniana das relações entre inconsciente e linguagem, bem como a questão fundamental à qual ela tenta responder, tornam-se o centro das pesquisas e das interrogações que visam a modernizar a psicanálise francesa. Elas definem o núcleo epistemológico requerido para estabelecer a "cientificidade" da psicanálise.

 

No centro desses debates, encontra-se "O inconsciente freudiano e a psicanálise francesa contemporânea"[6], texto de André Green em resposta ao trabalho que Jean Laplanche e Serge Leclaire haviam exposto no Colóquio de Bonneval de 1960, representando Lacan[7]. Texto-manifesto, esse artigo publicado na famosa revista Temps Modernes, em 1962, já esboça algumas das principais opções teóricas que definirão a futura obra greeniana: a referência histórica ao "contemporâneo" (termo que evoluiria de adjetivo a conceito), a articulação do econômico e do simbólico como alternativa à "primazia do significante", e até mesmo a noção de trabalho do negativo. Além disso, Green marca sua posição ao apresentar naquele texto uma crítica do reducionismo contido na leitura de Freud feita por Lacan, assim como proposições que aspiram corrigir essas distorções.

 

II.
Os anos 1970-1980
A força e o sentido: do discurso vivo à palavra no enquadre

Quando Lacan, até então um pensador, torna-se líder de uma escola militante, a maioria de seus discípulos mais próximos (Laplanche, Pontalis, Aulagnier, Rosolato, Anzieu, Green...) se afastam e se voltam para o prosseguimento da renovação freudiana, inaugurando o pós-Lacan, que tomaria a forma de um movimento freudiano pluralista, antidogmático, baseado num tipo de pacto fraterno entre gerações.

 

Nesse período pós-lacaniano, podemos distinguir duas vertentes da produção teórica de André Green. A primeira, mais crítica, tende à desconstrução dos reducionismos teóricos e dos impasses clínicos do lacanismo. É acompanhada pela reabilitação de temas e de conceitos freudianos importantes que a leitura lacaniana havia excluído (e anatematizado): o afeto, o corpo, a figurabilidade, a história, o Eu, etc. A segunda vertente, mais criativa, é ligada à inovação e à abertura: explora campos clínicos inéditos, em particular, os limites do analisável, e descobre autores como D. W. Winnicott, W. R. Bion e H. Searles. Le discours vivant[8], de 1973, pertence à primeira vertente; "Le langage dans la psychanalyse"[9], escrito dez anos depois, à segunda.

 

A heterogeneidade
do significante psicanalítico

No Discours vivant, hoje um clássico, Green estuda o afeto no contexto da teoria e da clínica psicanalíticas. Definido como um modo de simbolização primário (é "um movimento à procura de uma forma"), o afeto pode funcionar estando ligado à cadeia significante ou transbordando-a (como no caso do sinal de angústia e da angústia automática). Green lhe concede um estatuto de significante: ele é "carne do significado e significante da carne". Por conseguinte, ele propõe "a heterogeneidade do significante psicanalítico", ao mesmo tempo restabelecendo a diferença entre as representações de coisa e de palavra, e reintroduzindo o afeto no inconsciente e na consciência.

 

Para Green, a linguagem como sistema homogêneo é diferente do discurso vivo, polifônico, composto de forma plural:

 

Assim, cumpre diferenciar a linguagem que não se refere senão a ela mesma em sua ordem de estruturação própria - e que pressupõe a redução e a homogeneização do significante verbal que forma o processo linear da verbalização e ao mesmo tempo se submete a ele - do discurso, no qual a concatenação recebe as impressões vindas de significantes heterogêneos (pensamentos, representações, afetos, atos, estados do corpo próprio) e de investimentos energéticos variáveis carregando estados de tensão qualitativa e quantitativamente diferentes e tendentes à descarga[10].

 

Por conseguinte, a linguagem dos linguistas não é a mesma que a linguagem dos psicanalistas. Diferença capital que - ao aumentar de forma qualitativa a distância em relação às posições de Lacan - reconhece no discurso analítico a conjugação da força e do sentido como polos inseparáveis e irredutíveis do trabalho psíquico de simbolização.

 

Não menos importante é a primeira formulação da especificidade da palavra analítica no enquadre: "A palavra analítica é uma palavra deitada. [...] Uma palavra dirigida a um destinatário velado"[11]. Do ponto de vista da psicanálise, a linguagem se define e se estuda (é recortada metodologicamente) no contexto analítico: "É preciso voltar ao encontro, determinado pelo enquadre da situação analítica, entre a palavra e seu efeito de afeto"[12]. No último capítulo do Discours vivant, Green esboça um programa que definirá o prosseguimento de sua obra:

 

O pensamento psicanalítico contemporâneo busca assentar teoricamente o legado da psicanálise pós-freudiana sobre a construção de modelos teóricos[13].

 

As críticas dirigidas à teoria linguageira de Lacan não impedem, entretanto, a persistência de uma adesão relativa a certas ideias ("o significante representa sempre o sujeito para outro significante") e maneiras de situar os problemas: por exemplo, a consideração da simbolização em relação à noção de cadeia significante, ou a utilização e a reformulação do "esquema L". Assim como Freud, Lacan continua sendo uma referência maior no trabalho de Green.

 

Todavia, entre Le discours vivant, de 1973, e a comunicação "Le langage dans la psychanalyse", de 1983, a evolução é notável. Um dos fatores importantes dessa mudança é a leitura crítica e a apropriação criativa da obra de D. W. Winnicott. A influência winnicottiana se manifesta claramente em "L'analyste, la symbolisation et l'absence dans le cadre analytique", artigo de 1974 que André Green dedica ao autor inglês, e no qual propõe uma noção de simbolização ligada ao transicional, associa o conceito de enquadre ao espaço potencial, faz alusão aos processos "intermediários" (que chama de "terciários") e, por fim, define o objeto analítico segundo o modelo do objeto transicional. Todas essas ideias terminam por desempenhar um papel central em "Le langage dans la psychanalyse", no qual será apresentada a noção-chave, igualmente de inspiração winnicottiana, do sujeito que brinca ("sujet joueur") em oposição ao sujeito que calcula ("sujet calculateur") da combinatória significante.

 

"A palavra analítica
desenluta a linguagem"

 

"Le langage dans la psychanalyse" - que ainda hoje continua uma obra-prima pouco conhecida - constitui um marco fundamental no percurso intelectual de André Green. É um ponto de inflexão na sua relação com o autor do "Relatório de Roma". Green reconheceu que foi somente a partir desse trabalho que ele pôde ultrapassar sua visão clivada do modelo lacaniano. Por dissociar teoria e prática (valorizando a primeira e criticando a segunda), esse modelo invalidava as relações intrínsecas entre elas. Nesse artigo, Green não apenas esclarece impasses teóricos e clínicos vindos do lacanismo - a saber, a teoria do simbólico e da significação -, mas ainda estabelece, de um ponto de vista metapsicológico, a especificidade da linguagem (e da simbolização) como determinada pelo método e pelo enquadre analíticos.

 

Assim, Green escreve:

 

A necessidade de recorrer ao enquadre se baseia num pressuposto implícito simples e, entretanto, ao que eu saiba, jamais explicitado. Se a linguagem é mediação para o inconsciente, é preciso que a palavra e as condições de sua produção passem por uma modificação que faça com que a função mediadora se torne audível. Em outros termos, é preciso falar de outra forma e inventar outros parâmetros para o intercâmbio verbal[14].

 

O enquadre é chamado "aparelho de linguagem", pois seu objetivo é a transformação mais extremada possível da produção psíquica em linguagem, por meio da livre associação. A linguagem superinvestida pela transferência funciona como um mediador para o que não é linguagem em relação ao inconsciente. A transferência é considerada dupla: ela age simultaneamente sobre o objeto (analista) e sobre a palavra (discurso associativo). No enquadre, a palavra muda de estatuto e se transforma ela própria num objeto singular, um "terceiro", surgido da comunicação entre analista e analisando: é o objeto analítico (objeto discursivo, constituído pelas representações e afetos que tecem a comunicação analítica). É por isso, escreve Green, que "a palavra analítica desenluta a linguagem"[15].

 

O enquadre, como elemento terceiro (entre o analisando e o analista), é definido como uma matriz da simbolização transicional e terciária:

 

A simbolização do enquadre contém um paradigma triangular que une as três polaridades do sonho (narcisismo), dos cuidados maternos (da mãe, segundo Winnicott) e da proibição do incesto (do pai, segundo Freud). Logo, ela é simbolização da estrutura inconsciente do complexo de Édipo, que o aparelho psicanalítico faz falar[16].

 

O resultado dessa dinâmica será constatar que todo objeto remete a outra coisa que não a ele próprio, e que não é o sujeito. É o que chamamos o outro do objeto. Assim, somos levados a considerar uma estrutura ternária (o sujeito, o objeto e o outro do objeto) fundamental, constitutiva da teoria da triangulação generalizada com terceiro substituível[17].

 

A linguagem é definida por Green como uma organização que inclui a dupla significância (de signo e de sentido), a dupla representação (representações de coisa e de palavra) e a dupla referência (realidade psíquica e realidade material[18]).

 

A questão-chave da simbolização é abordada na seção "L'ordre symbolique: les processus tertiaires":

 

[Lacan] se enganou ao associar o simbólico à linguagem - pois é exatamente à psiquê, ou melhor, ao aparelho psíquico, e não ao aparelho da linguagem que o simbólico está associado [...]. O que Lacan procurou fazer foi provavelmente superar Freud na conceitualização que este último buscou na oposição dos processos primários aos secundários. Mas, uma superação através do simbólico deveria não apenas excluir o significado, mas também o afeto, instaurando a hegemonia do significante e tentando encontrá-lo onde ele, evidentemente, faz falta [...]. Nós propomos uma solução diferente [...]. Postulamos a existência de processos de relação entre processos primários e secundários, circulando nos dois sentidos, que chamamos de processos terciários e que religamos ao pré-consciente da primeira tópica e ao Eu inconsciente da segunda. [...] A partir disso, a ordem simbólica não se baseia unicamente na linguagem, mas sim no conjunto de ligações-desligamentos-religamentos que agem nas três instâncias do aparelho psíquico, conforme a primeira ou a segunda tópica. Os processos terciários fazem o elo entre o aparelho da linguagem e o aparelho psíquico[19].

 

III.
Os anos 1990.
Uma "guinada semiótica"? Rumo a uma metapsicologia contemporânea
da criação e da destruição do sentido

 

Durante esse terceiro e último período, André Green aprofundou suas ideias mestras e produziu uma nova síntese que resultou na construção de um modelo teórico e clínico contemporâneo. Esse modelo articula os conceitos metapsicológicos freudianos com certas contribuições pós-freudianas maiores, à luz das experiências clínicas provindas do trabalho com as estruturas não neuróticas. As bases conceituais metapsicológicas são revisitadas, enriquecendo a compreensão da linguagem.

 

O modelo metapsicológico greeniano é concebido em torno de cinco eixos principais:

1. A perspectiva geral que articula o intrapsíquico e o intersubjetivo se expressa através do tripé pulsão-representação-objeto. A pulsão é definida como a matriz do sujeito. Ela é inseparável do objeto (ou dos objetos), o qual, por sua vez, é definido como revelador da pulsão, agente promotor de uma função objetalizante, chave da subjetivação. A constituição de um sujeito é essencial no processo de representação[20].     

2. A teoria geral da representação, que abarca tanto o corpo quanto a linguagem, estende e explicita a teoria freudiana da representação combinando diversos elementos: o representante psíquico da pulsão; o representante-representativo inconsciente; a representação de coisa ou de objeto (inconsciente e consciente); o representante-afeto; a representação de palavra; e os julgamentos que representam a realidade no Eu.

3. A tópica se expande para quatro territórios (atingindo os limites concebidos como zonas de trabalho psíquico): o soma, o inconsciente, o pré-consciente/consciente e a realidade (espaço de relação com o objeto pulsional e com o outro semelhante). Essa tópica é, antes de tudo, estruturada pelo duplo conflito Eu-pulsões e Eu-objetos.

4. A teoria psicanalítica da terciaridade é concebida como matriz geral do sentido. Trata-se de uma vertente metaconceitual que se apropria da semiótica de Peirce a fim de articular as noções terciárias de Green: do modelo básico da simbolização "ligado-desligado-religado" e dos "processos terciários" à "teoria da triangulação generalizada a terceiros substituíveis"[21].

5. O trabalho do negativo: eixo dinâmico (processual/transformacional, potencialmente estruturante ou desestruturante) do psiquismo.

 

Essa metapsicologia, que se assemelha ao paradigma da complexidade (Edgar Morin), introduz uma "lógica da heterogeneidade"[22] que acentua a pluralidade (de componentes, de estratos, de conflitos, de lógicas), o processual e o poiético. É evidente que neste contexto - no qual as teorias da representação generalizada, da terciaridade e do trabalho do negativo confluem e se reforçam - a concepção da linguagem e da simbolização se encontra modificada.

 

A introdução da teoria da terciaridade de C. S. Peirce visa a afirmar o papel central da representância (a que Lacan procura constantemente deslocar sob os auspícios do simbólico) como forma ou dimensão específica da produção psíquica de sentido. Para Peirce[23], diferentemente de Saussure, o papel do pensamento inconsciente não é reservado nem à língua como sistema, nem ao significante, já que os respectivos signos ultrapassam os limites do linguístico. Assim:

 

Aplicadas à linguagem tal como é entendida pelo psicanalista, as ideias de Peirce consideram, através da ideia do interpretante, o efeito de irradiação dos significantes como signos, de sua propagação bem além do tempo de sua enunciação, de sua existência latente no tempo posterior à sua emissão e antes de sua aparente extinção, como da antecipação que se faz sentir de seu iminente retorno ao estado de presença, trazendo consigo o que sua contextualidade presente insinua como sendo novo, enquanto ainda vibram ao se evocar um contexto que se acreditava reduzido ao silêncio porque não há mais vestígio de sua presença[24].

 

Em tal contexto, é possível falar de um tipo de "guinada semiótica" no pensamento de Green? Qualquer que seja a resposta, a psiquê é agora concebida como um processo dinâmico (heterogêneo e conflitual) de criação e de destruição de sentido. Em outras palavras, a exigência de trabalho imposta à psiquê através de sua relação com as pulsões e com os objetos é a criação de um sentido "para si". Portanto, trata-se de um trabalho de subjetivação, que consiste em (se) representar as experiências vividas e o lugar que se ocupa em meio a elas; processo de subjetivação consubstancial ao trabalho do negativo que constitui uma estrutura enquadradora do Eu (plataforma primária e perene dos investimentos e das representações, que Green explicitará em seu estudo minucioso intitulado "De la négation"[25]).

 

Uma teoria da representação generalizada

"Le langage au sein de la théorie générale de la représentation"[26], trabalho redigido em 1997, é o primeiro texto (e provavelmente o principal) de Green sobre esse assunto. Nele, lemos: "Apenas uma teoria da representação generalizada pode responder às questões levantadas pela prática e pela teoria"[27].

 

Esse texto retoma e desenvolve a perspectiva traçada no "Relatório de Aix-en-Provence", de 1983, no intento de incluir o que havia sido descoberto pela pesquisa sobre os limites do analisável e do funcionamento neurótico. Pode-se dizer que, em 1983, para sair do modelo lacaniano e superá-lo, Green retornou ao modelo freudiano básico a fim de elucidar seu fundamento geral e, assim, redefinir o papel da linguagem. Mais de dez anos depois, em 1997, ele parte do modelo freudiano básico e avança em direção a um modelo freudiano contemporâneo, ampliado e mais complexo.

 

Considera-se que o "Relatório de 1983" elucidou um modelo restrito da representação: o da primeira tópica freudiana; da compatibilidade da dupla representação de coisa/representação de palavra; do funcionamento neurótico; do método centrado na relação entre sonho e relato do sonho no enquadre clássico. Green propõe desde logo ampliar esse modelo e aumentar sua heterogeneidade, introduzindo a referência à moção pulsional, ao protolinguageiro, ao irrepresentável e à compulsão à repetição mortífera, para explicar o funcionamento nos limites do analisável. Um modelo expandido aquém e além da representação (a qual não é mais um dado inicial, mas um resultado possível e incerto). Essa nova perspectiva geral propõe um díptico teórico e clínico, que articula o "modelo do sonho" com o "modelo do ato". O primeiro é um modelo da segunda tópica, no qual as moções pulsionais do Isso podem dar lugar ao ato compulsivo ou à ligação representativa; o segundo é um modelo do funcionamento não neurótico, funcionamento que tende a atacar o enquadre, a dar um curto-circuito no método e a pôr em xeque o processo analítico[28]. Green postula que a linguagem depende de sua relação com esses dois modelos. Significando que, sob uma perspectiva psicanalítica contemporânea, a linguagem não se concebe apenas como sendo determinada por seu enquadramento na situação analítica, mas também como dependente do tipo de funcionamento intrapsíquico e intersubjetivo que se desenvolve na relação analítica e que pode exceder o diálogo analítico, impondo variações ao enquadre. Em outros termos, o papel-chave da linguagem - o de tornar perceptível o pensamento, de ligar as representações, de traduzir seu significado e de transformar seu regime de funcionamento - revela-se muito mais dinâmico e aleatório e, em suma, bem mais dependente de um trabalho (do negativo) intrapsíquico e intersubjetivo.

 

Aproveitando-se desses últimos desenvolvimentos, Green irá propor um modelo de livre associação (e de escuta) centrado nas noções de "reverberação retroativa" e de "anúncio antecipativo", de "irradiação" e de "virtualidade", de "arborescência do sentido" - modelo cujo contraponto será dado pelo funcionamento antiassociativo do trabalho do negativo não neurótico, chamado "posição fóbica central"[29].

 

Uma linguagem aberta ao não linguageiro:
o novo diálogo com a linguística

 

Nessa toada, compreende-se facilmente o entusiasmo de Green com relação a certos trabalhos inovadores da linguística contemporânea[30]. Por um lado, esses trabalhos vão ao encontro de (e confirmam) algumas opiniões teóricas de Green sobre o papel do afeto, sobre a diacronia, sobre a polifonia do sentido; por outro, abrem um novo horizonte de diálogo entre a psicanálise e a linguística; horizonte que já continha em germe a matéria de novas pesquisas - notadamente no que se refere à interpretação, na perspectiva da relação da linguagem com o não linguageiro.

 

Um dos encontros mais produtivos foi o de Green com os trabalhos de Simon Bouquet e François Rastier[31], ambos guiados pela ideia de que o surgimento da linguagem não pode ser concebido "senão dentro da evolução geral do semiótico". Green adota a distinção que eles propõem entre duas polaridades da linguagem: uma, lógico-gramatical e, outra, retórico-hermenêutica. Essa distinção integra e reorganiza as questões que deram origem às oposições entre as teorias de Lacan e de Green: enquanto Lacan - e a maior parte dos linguistas de sua época - privilegiava a ideia de uma linguagem como código (isto é, polo lógico-gramatical), Green afirmava seu interesse pelo funcionamento da palavra e pelo discurso do ponto de vista retórico e hermenêutico. Assim, compreende-se o impacto positivo da descoberta por Green de um "outro" Saussure, que, em seus Écrits de linguistique générale[32], promovia uma "linguística da palavra". "Agora existe a possibilidade de uma linguística interpretativa, e a esperança de que o diálogo com a psicanálise se estabeleça em bases mutuamenteenriquecedoras", escreveria Green[33]. Percebe-se o entusiasmo de Green quando se entende que ele não corresponde apenas ao que esses novos desenvolvimentos linguísticos significaram para suas elaborações recentes (que podemos apreciar ao ler Du signe au discours). Ele corresponde também ao impulso dado à dimensão coletiva do projeto contemporâneo: exortar as novas gerações de analistas não a adotar um jargão greeniano, mas a participar de um programa de pesquisa que tenta abrir horizontes promissores para a psicanálise, construindo um novo paradigma freudiano complexo, expandido, pluralista e cosmopolita. Uma linguagem psicanalítica renovada.

 

Paris - Buenos Aires, janeiro de 2011

O sistema de representação[34]

André Green

 

Se a relação entre representação de coisa/representação de palavra constituir de fato o eixo dessa reflexão sobre a teoria freudiana acerca da linguagem, outros corolários deverão ser frisados. Antes de tudo, essa problemática está ligada à primeira tópica de Freud, em que a pulsão é mantida afastada do aparelho psíquico, uma vez que ela não é nem consciente, nem inconsciente; apenas seus representantes o são. Em seguida, é preciso resolver a ambiguidade veiculada pelo termo representante-representativo (Vorstellung-Repräsentanz), que se opõe ao afeto, e que propus chamar "representante-afeto", ou seja: representante do quantum de afeto, o qual apresenta apenas a quantidade do ponto de vista inconsciente e a qualidade do ponto de vista consciente. Esse representante-representativo é representação de objeto ou de coisa (Dingvorstellung), por exemplo o seio. O representante de palavra (Wortvorstellung) existe unicamente no nível da consciência. A consciência, diz Freud, associa a representação de coisa à representação de palavra que lhe corresponde. Não poderia estar mais claro. A linguagem conota a representação dos objetos do mundo. No inconsciente, não há lugar para a linguagem. Na psicose, as palavras são tratadas como coisas e traduzem a tentativa de reinvestimento dos objetos perdidos. Daí a pergunta: de onde vêm as representações de objeto? A resposta de Freud é explícita: da percepção. As representações provêm das percepções. Seria oportuno citar aqui sua famosa carta dita 52, de 6 de dezembro de 1896. Nela, considerando a retranscrição como processo de estratificação, Freud defende a ideia de que a memória não é exercida uma única vez, mas sim remanejada em várias ocasiões[35]. Freud reata com seu texto sobre a afasia[36].

 

Será tudo? Será que nos bastaria essa cadeia: percepção (Wahrnehmungen), indicador de percepção (Zeichenwahrnehmungen), inconsciente, pré-consciente - este último podendo se tornar consciente através dos processos de pensamento? Não. Esse quadro está incompleto. Falta nele a parte desempenhada pela pulsão.

 

Cabe então lembrar que a pulsão é definida como o representante psíquico das excitações nascidas no interior do corpo e atingindo o psiquismo. Esse representante psíquico que é a pulsão tem tripla conotação: dinâmica (aquilo que se origina no corpo e chega ao psiquismo), tópica (como conceito no limite do somático e do psíquico), econômica (como "medida da exigência de trabalho imposta ao psíquico em consequência de sua relação com o corpo"[37]).

 

A pulsão, além disso, tem representantes. Ela é um representante e ela tem representantes. É o que se deve entender por "representante-representativo" e "afeto". Em suma, existe, para a representação inconsciente, um duplo sistema de representação. Vinda do mundo externo, a representação é de coisa e de objeto, e é suscetível de trazer satisfação. Vinda do corpo, ela é o representante psíquico da pulsão, que exige satisfação. Ou entendemos a coalescência entre esses dois tipos de inscrição, ou nada teremos entendido da psicanálise.

 

Assim, a coisa ou o objeto representado é aquele que satisfez a pulsão, e que se faz representar por seu representante psíquico. Conclusão: a representação inconsciente é constituída por um misto, uma associação, um amálgama feito do investimento pelo representante psíquico - vindo do corpo - e pelo representante de objeto - vindo do mundo.

 

Essa fatura representativa distingue completamente nossa concepção da representação de todas aquelas da filosofia. Tal sistema seria idealista se não fosse referenciado. A realidade psíquica nos é familiar. Ela está ligada ao inconsciente e não mais ao psiquismo consciente, e possui um índice de crença que não admite nem dúvidas nem graus na incerteza.

 

Resta a realidade material ou externa. Apenas com a prova de realidade é que ela será introduzida na metapsicologia, no artigo sobre o sonho[38]. Mais tarde, porém, ao abordar o recalque da realidade em seus artigos de 1924 sobre a psicose, Freud mencionará as ideias e os julgamentos que representam a realidade no Eu. É interessante constatar o quanto Freud e Lacan tiveram dificuldade em tratar esse problema do real. De certa forma, eles capitularam diante da necessidade de fazê-lo intervir. Freud em 1915, e Lacan, creio, por volta de 1970.

 

Eis o quadro completo: representante psíquico, representante-representativo, representação de coisa ou de objeto (inconsciente e consciente), representação de palavra, representante da realidade.

 

O esquema a seguir [Esquema 1] resume esse conjunto.


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