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ÍNDICE TEMÁTICO 
49/50
André Green
ano XXV - Junho 2013
216 páginas
capa: Serge Poliakoff
  
 

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Resumo
As posições de André Green acerca da pesquisa clínica em psicanálise são o objeto deste trabalho. Green é apresentado como um intransigente defensor da psicanálise clínica e da modalidade de pesquisa que lhe é própria, em oposição ao que se convencionou chamar de “pesquisa empírica”.


Palavras-chave
pesquisa clínica; pesquisa empírica; André Green.


Autor(es)
Luís Cláudio Figueiredo
é psicanalista, professor da USP e da PUCSP, autor de diversos artigos em revistas científicas e de livros, entre osquais Bion em nove lições (2011) e Balint em sete lições (2012, ambos pela Editora Escuta.



Notas
[1]   A. Green, "What kind of research for psychoanalysis?"; "Response to Robert Wallerstein"; "Science and science fiction in infant research" in J. Sandler et alii. Clinical and Observational psychoanalytic research: roots of a controversy.

[2]   J. Sandler et alii. op.cit.

[3]   U. Dreher, "What does conceptual research have to offer?", in Leuzinger-Boehleber, Dreher and Canestri (orgs.). Pluralism and unity.

[4]   L. C. Figueiredo, A especificidade da pesquisa clínica com o método psicanalítico na situação analisante.

[5]   I. B. Pick, "Discussion III", in Sandler et alii, op. cit.

[6]   C. Bollas, The Freudian moment.

[7]   S. Freud, "Consejos al medico sobre el tratamiento psicoanalítico".

[8]   R. Britton et al., "Interpretation: selected fact or overvaluated idea".

[9]   Cf. P. Fédida, "Topiques de la théorie".

[10]  A. Green, "Science and science fiction in infant research", in Sandler et alii, op. cit., p. 61, 71.

[11]  Cf. Fédida, op. cit.

[12]  Já foi dito que uma metáfora errada é tão impossível quanto uma piada sem graça.

[13]  L. C. Figueiredo, op. cit.

[14]  I. Pick, "Discussion III" in Sandler et alii, op. cit.



Referências bibliográficas

Bollas C. (2007). The Freudian moment. London: Karnac.

Britton R.; Steiner J. (1994). Interpretation: selected fact or overvaluated idea, International Journal of Psychoanalysis.

Dreher U. (2003). What does conceptual research have to offer? In Leuzinger-Boehleber, Dreher and Canestri (orgs.). Pluralism and unity. London: International Psychoanalytical Association, 2003.

Fédida P. (1978). Topiques de la théorie. L'absence. Paris: Gallimard.

Figueiredo L. C. A especificidade da pesquisa clínica com o método psicanalítico na situação analisante. trieb (no prelo).

Freud S. (1978) Consejos al medico sobre el tratamiento psicoanalítico. Obras Completas XII. Buenos Aires: Amorrortu.

Green A. (2000). What kind of research for psychoanalysis? In: J. Sandler; A.-M. Sandler; R. Davies (orgs.). Clinical and observational psychoanalytic research: roots of a controversy. London: International Universities Press.

_____. (2000a). Response to Robert Wallerstein. In: J. Sandler; A.-M. Sandler;  R. Davies (orgs.). Clinical and observational psychoanalytic research: roots of a controversy. London: International Universities Press.

_____. (2000b). Science and science fiction in infant research. In: J. Sandler; A.-M. Sandler;  R. Davies (orgs.). Clinical and observational psychoanalytic research: roots of a controversy. London: International Universities Press.

Pick I. B. (2000). Discussion iii. In: J. Sandler; A.-M. Sandler;  R. Davies (orgs.). Clinical and observational psychoanalytic research: roots of a controversy. London: International Universities Press.





Abstract
This paper discusses André Green’s ideas about what “clinical research” is and is not. He was a firm defender of clinical Psychoanalysis and of its specific mode of research, and differentiated it quite sharply from what is usually considered as “empirical research”.


Keywords
clinical research; empirical research, André Green.

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 TEXTO

A pesquisa clínica em psicanálise: reflexões a partir de André Green

Clinical research in psychoanalysis: thoughts based upon André Green’s ideas
Luís Cláudio Figueiredo

Apresentação

A contribuição de André Green para a renovação do pensamento psicanalítico, suas teorias e suas práticas, é relativamente bem conhecida, e certamente será objeto de muitos dos textos deste volume de Percurso dedicado ao autor recentemente falecido. Aqui enfocaremos um aspecto de sua "militância": a defesa intransigente e frequentemente belicosa da psicanálise no campo da epistemologia e da metodologia da pesquisa clínica.

 

Antes mesmo de apresentarmos com algum detalhamento seus argumentos, tentemos sintetizar uma posição básica de Green com a qual concordamos integralmente. Para que haja pesquisa psicanalítica é preciso que haja um psicanalista pesquisador em uma situação analisante que opere como condição, objeto e instrumento de pesquisa, e da qual o analista faz parte, submetido a certas regras e imerso em certa condição especial de funcionamento psíquico.

 

Nossa exposição vai se apoiar fundamentalmente na leitura de três textos de A. Green[1] reunidos em um volume publicado pelos Sandler e Rosemary Davies[2] acerca das controvérsias que opuseram Green a R. Wallerstein e D. Stern em torno das questões da pesquisa em psicanálise. Não faremos, contudo, um resumo de cada texto; ao contrário, procuramos organizar os argumentos e proposições de André Green em dezoito itens concebidos a partir da leitura do conjunto do material examinado.

 

A pesquisa clínica em psicanálise

1. A psicanálise também é, segundo Freud, um saber empírico, em contraposição ao puramente conceitual e especulativo - próprio à filosofia. Assim sendo, a oposição entre "pesquisa empírica" e "pesquisa clínica" não parece bem colocada. A chamada "pesquisa empírica" - tal como praticada por Stern, Fonagy, Emde e alguns outros - deveria ser chamada de "pesquisa observacional e experimental". A distinção, atualmente praticada, entre pesquisa empírica e pesquisa clínica traz consigo a suposição absolutamente equivocada de que a pesquisa clínica seria menos empírica que a outra. Aliás, a distinção entre pesquisa clínica e pesquisa conceitual[3] igualmente sugere que a pesquisa clínica em psicanálise não seja também uma pesquisa conceitual, mas a esta outra questão nos dedicaremos em outro trabalho[4].

 

A diferença entre pesquisa clínica e a dita pesquisa empírica - observacional e experimental - é de ordem metodológica, já que para todos os pesquisadores em confronto alguma experiência está na base dos conceitos e teorias. Desta forma, inclusive, alguma possibilidade de cooperação entre os métodos não deveria ser descartada, o que é inclusive afirmado por Freud nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, do que nos lembra Ricardo Steiner na Introdução ao volume sobre as controvérsias entre os pesquisadores. Esta posição reaparece, por exemplo, no comentário de Irma B. Pick ao debate entre Stern e Green[5], onde se vê, porém, que para que os resultados das pesquisas observacionais e experimentais sejam úteis à psicanálise é preciso que sejam lidos e interpretados por um psicanalista que se sustente em sua posição e opere no "estado especial de mente" que lhe é próprio.

 

2. Contudo, esta é a base de toda a argumentação, a base empírica da psicanálise é a própria prática psicanalítica em uma situação analisante complexa que inclui paciente e analista em um enquadre específico, e não um objeto a ser observado "de fora" e manipulado experimentalmente.

 

3. Na observação externa e na manipulação experimental, o pesquisador atua com sua consciência e vontade sob controle metódico (é o "sujeito soberano do saber"), e tem acesso aos comportamentos e interações visíveis e audíveis de seus objetos (bebê e mãe, por exemplo, mas também analista e paciente), eles igualmente concebidos em termos de seres conscientes e, no máximo, com alguma dimensão pré-consciente.

 

4. Já na prática analítica na situação analisante, o analista participa com seu inconsciente procurando sintonizá-lo ao inconsciente do paciente; vale dizer, o campo de "observação" clínica psicanalítica compõe-se das dimensões inconscientes de ambos os participantes. Tanto Green quanto mais ainda C. Bollas[6] em outro contexto nos recordam insistentemente da recepção inconsciente do inconsciente, tal como postulada por Freud, quando sublinha a comunicação entre inconscientes como indispensável ao trabalho da psicanálise. Talvez fosse mais correto falarmos em comunicações entre pré-conscientes, mas, de qualquer modo, uma sintonia entre inconscientes é claramente suposta por Freud e tal suposição é plenamente aceita por Green e Bollas.

 

5. Embora as dimensões inconscientes dos participantes se manifestem no plano intersubjetivo, como nos processos transferenciais e contratransferenciais, pertencem ao plano intrapsíquico que inclui, de acordo com nossas teorias, pulsões, afetos, representações recalcadas, cisões, fantasias, desejos, mecanismos de defesa e resistências, etc. Apenas uma parte desse conjunto, e mesmo assim de forma bastante disfarçada e irreconhecível, se revelaria às consciências do paciente e do analista, o que exige interpretação. Vale dizer, a "observação" em análise não produz "evidências" e "fatos psicanalíticos" sem a mediação das interpretações conscientes do analista.

 

6. O acesso ao intrapsíquico e a possibilidade de criar saberes acerca dele requer, portanto, que o analista sustente um certo "estado especial de mente", como a atenção flutuante, a disposição para o sonhar, o brincar e o trabalho do luto, ao que poderíamos acrescentar o trabalho de criação, em que se inscreve seu poder metaforizante a que voltaremos adiante, incompatível com a observação objetiva e a experimentação controlada. Ou seja, o "estado especial de mente" inclui - embora não se reduza a isso - uma entrega do analista aos seus processos inconscientes e uma renúncia ao controle pela consciência, como tão bem foi dito por Freud nos conselhos de 1912[7].

 

7. Para esse acesso consciente ao que se dá além das consciências, o analista precisa ir além do "observável" e mesmo dos "fatos clínicos" captáveis em seu estado de mente especial (sem memória, sem desejo e compreensão prévia, em atenção flutuante e disposição para a rêverie e para a metáfora). Cria-se assim um fosso entre teoria e prática: é o momento especulativo indispensável na produção dos saberes psicanalíticos, o que lhes dá um caráter ficcional. As teorias metapsicológicas têm um caráter de fantasia articulada e não descrevem a realidade psíquica. Não há, portanto, como refutá-las confrontando-as com a realidade psíquica acessada, supostamente, por meios mais objetivos (o que não quer dizer que não possam ser avaliados por sua eficácia clínica, o que daria ensejo a outro artigo).

 

8. Mas um tal momento "ficcional" também está presente em qualquer outro ramo da ciência, quando o pesquisador, a partir de suas observações e experimentações controladas, constrói seus conceitos e suas teorias. Muitas vezes os promotores das ditas pesquisas empíricas expressam-se como se o bom trabalho indutivo - acumulação de "dados da observação" - poupasse o pesquisador da necessidade do salto além da experiência para a formulação de conceitos e teorias. Além disso, tendem a ignorar que a simples transformação do dado sensorial em "fato científico" já pressupõe expectativas e hipóteses prévias que dão algum sentido aos elementos brutos da experiência. Observações e experimentos controlados sempre pressupõem uma antecipação da ordem a ser procurada, tal como toda a filosofia da ciência popperiana e pós-popperiana nos ensina desde a década de 30 do século passado.

 

9. Nessa construção mais ou menos especulativa, os cientistas recorrem, costumeiramente, a analogias em que algo supostamente conhecido serve de análogo para o que está sendo pesquisado e descoberto; ou seja, a ordem do, supostamente, "já conhecido" é projetada sobre o que está em vias de ser visto, reconhecido, conceituado e teorizado para que a mesma lógica, o mesmo logos, funcione nas fronteiras do conhecimento instituído, expandindo-o e, ao mesmo tempo, reduzindo o novo ao sistema geral. Certamente, o Projeto para uma Psicologia de 1895 foi elaborado em grande medida com o recurso às analogias.

 

10. Mas se um psicanalista na clínica operar desta maneira estará fazendo "psicanálise aplicada na clínica", projetando o que as "teorias ensinam" e o que os conceitos antecipam ao material que surge na situação analisante. Essa seria uma típica situação de escuta saturada (Bion), contrária à psicanálise e à pesquisa psicanalítica. Nessa situação, confunde-se uma regularidade projetada a partir da teoria com uma regularidade descoberta, emergente a partir do "fato selecionado" (Bion), conforme observaram Britton e Steiner em texto de 1994[8]. A "ideia superestimada", tal como mencionada pelos autores, a que substitui o fato selecionado na situação analisante, seria a da teoria convertida em doutrina: enquanto teoria, abre-se para o novo e para a descoberta; enquanto doutrina, fecha-se narcisicamente para a confirmação do já sabido[9].

 

11. Mas, indo ainda mais fundo nesta argumentação, a própria construção de conceitos e teorias em psicanálise deve mais às operações metafóricas do que às analógicas. Talvez esta seja a questão mais importante no terceiro texto de Green: a diferença entre analogia e metáfora e a ligação profunda entre metáfora, funcionamento psíquico e psicanálise[10].

 

12. Pensemos, em primeiro lugar, na profunda relação entre metáforas e transferências: a transferência sobre a palavra e, apoiada nesta, a transferência sobre o objeto estão na raiz dos processos metafóricos no inconsciente e nas passagens do inconsciente para a consciência: a representação palavra acoplada à representação coisa é, essencialmente, metafórica, sendo portanto pela via da fala metaforizante que podemos começar a tomar consciência de algo. Por outro lado, o retorno da consciência aos processos inconscientes ocorre também pela via metaforizante. De fato, como observou Octavio Souza (comunicação pessoal) na leitura de uma primeira versão deste texto, o "caminho de volta já está garantido pelo próprio movimento metafórico", já que nele ligam-se elementos pulsionais e simbólicos, construindo uma via de trânsito entre forças e sentido nas duas direções. Nesse ponto, autores tão díspares em seus estilos como Green e Fédida se aproximam[11].

 

13. Pensemos também na profunda relação entre metáfora e metapsicologia: assinalemos a presença do trabalho do sonho na construção e no uso da ficção metapsicológica, e na imensa diferença entre tratar a ficção metapsicológica como analogia ou como matriz de metáforas, uma espécie de metametáfora. As analogias dão alguma inteligibilidade à experiência, antecipando e impondo uma ordem ao material, ao objeto da pesquisa; as metáforas facilitam as transformações do campo de experiências, no caso, o da situação analisante, sem pretender o acesso a uma verdade por correspondência. A verdade das metáforas é puramente transitiva e heurística e, por isso, ela pode se provar insuficiente e contraproducente sem se poder demonstrar que é propriamente errada[12]; aliás, em certo sentido, uma metáfora é sempre falsa, sem deixar por isso de produzir efeitos de verdade. Ao abrir o Navio Negreiro com os versos "Stamos em pleno mar, doudo no espaço brinca o luar, dourada borboleta", Castro Alves não compete com a astronomia, a psiquiatria ou a entomologia, etc., e a verdade de suas metáforas apenas abre o campo do que pode ser experimentado, vivido e pensado, instaura um novo ângulo para ver a lua no céu noturno refletindo-se nas ondas.

 

14. Na fonte das metáforas psicanalíticas está a própria situação analisante em sentido estrito, bem como as outras experiências em que o analista opera com seu estado especial de mente. Aí se incluem as experiências com objetos culturais como obras de arte, leituras de textos ficcionais e poéticos, elementos da história, antropologia, sociologia etc. Não podemos nos esquecer dos encontros do analista com as teorias da psicanálise, que vão muito além do que uma noção estreita de ensino e aprendizagem pode apreender. Em todas essas condições ele é afetado por seus "parceiros" nos planos inconsciente e consciente.

 

Mais profundamente ainda, podemos dizer que na origem das nossas metáforas estão as fantasias provocadas e evocadas no analista na e pela situação analisante, tal como as fantasias sexuais (e agressivas, as fantasias de controle e penetração) estão, no caso das crianças, nas origens de suas "pulsões de saber" e "de ver", as chamadas, por Melanie Klein, de pulsões epistemofílicas. Bion, com sua consideração do vínculo k, mantém-se nessa mesma trajetória, ajudando-nos a pensar psicanaliticamente a problemática da pesquisa e do conhecimento em psicanálise. Não há conhecimento sem Eros e sem Thanatos, embora o excesso de L (amor) e h (ódio) comprometa o vínculo k (conhecimento), para falarmos nos termos de W. Bion. Nos termos de Freud, o que está em jogo é o poder e o alcance dos processos sublimatórios, como se mostra no texto sobre Leonardo.

 

Com isso, entre outras coisas, recuperamos os fortes elos entre a pesquisa em psicanálise e a brincadeira e os jogos infantis. Os projetos de cientificidade para os saberes psicanalíticos talvez não passem de tentativas de apagamento (recalque) destas origens que ligam a pesquisa com as esferas dos prazeres.

 

15. Já na ficcionalização inerente à construção de qualquer conhecimento teórico, os pretensos "cientistas da psicanálise" tendem à "ficção científica", empobrecida, nas ácidas palavras de Green sobre a obra de Stern, mesmo que tenham como base observações muito bem fundadas e corretamente obtidas; hoje, também o Projeto de 1895, apesar das antecipações que nele muitos leitores reconhecem, nos parece mais da ordem de uma ficção científica pseudoneurológica, o que não se dá, por exemplo, com a metapsicologia que se constrói no capítulo 7 de A Interpretação dos Sonhos.

 

16. Convém, para finalizar, assinalar novamente as relações entre as metáforas e outros processos psíquicos de mediação, os processos terciários, nas palavras de Green, como o sonho, o chiste, a poesia e a interpretação psicanalítica, por exemplo. O termo foi criado pelo autor para se referir justamente aos trânsitos entre regiões submetidas a lógicas distintas, como é o caso dos processos primários e processos secundários. Nesses processos terciários, os processos secundários em constituição ficam mais expostos e vulneráveis à emergência dos processos primários (e vice-versa). Ou seja, os inconscientes (representacional recalcado, pulsional e processual) chegam perto da superfície nos processos terciários, sejam eles as metáforas interpretativas, sejam eles suas matrizes ficcionais metapsicológicas.

 

17. Assinalemos, assim, a homogenia entre os diversos níveis dos saberes psicanalíticos, desde os mais próximos a cada sessão em suas singularidades até os mais abstratos e universalistas, como os dos discursos metapsicológicos, o que seria perdido se tomássemos os discursos metapsicológicos como analogias racionalizantes e não como metametafóricos. Em que pese sua feição conceitual e abstrata, são metafóricos e devem nos ajudar, na clínica, como matrizes de outras metáforas eficazes na cura e na "pesquisa". Tratá-los, como muitas vezes fazem os filósofos, como sistemas conceituais tendencialmente "matemáticos", no sentido amplo do termo, significa ignorar seu estatuto, suas origens e suas implicações práticas, tema desenvolvido em outro trabalho[13]. Tal modo de conceber os discursos metapsicológicos e lidar com eles corresponde a uma operação de cisão e dissociação, o que lhe confere, aliás, um caráter de sintoma.

 

18. Finalmente, considerando o caráter metafórico dos saberes da psicanálise, mesmo quando se apresentam como sistemas de conceitos abstratos nos discursos metapsicológicos, fica clara a razão de Green não considerar a psicanálise uma ciência submetida à metodologia científica própria às ciências da natureza. Seja pelo viés indutivista - atualmente, bastante fácil de ser descartado - seja pelo viés de uma lógica da investigação científica à la Popper, o modo de produção de conhecimento na clínica psicanalítica se revela intransigentemente refratário à metodologia das ciências naturais, sem deixar por isso de ser um saber empírico. Green nos ajuda e orienta na sustentação desta intransigência que, ao fim e ao cabo, diz respeito à afirmação do que é mais específico às nossas práticas e às nossas teorias.

 

Isso não descarta, porém, o interesse que o psicanalista possa ter em resultados de pesquisas nos mais diversos campos do conhecimento nas ciências sociais e nas ciências naturais. O comentário de Irma B. Pick[14] aos debates entre Green e Stern, por exemplo, nos traz o testemunho desta analista de orientação kleiniana: a partir de uma concordância básica com as ideias de Green, ela nos dá exemplos de como foi capaz de ler resultados de pesquisas observacionais e experimentais, com metodologia própria às ciências da natureza, interessar-se por eles e aproveitá-los, em sua clínica e em seus saberes psicanalíticos. Esta posição, menos beligerante que a expressa por André Green, mas não eclética, em relação às pesquisas observacionais e experimentais, recupera a proposta freudiana de cooperação entre métodos, tal como nos é lembrada por Ricardo Steiner. Contudo, revela-se neste texto de Irma Pick que o decisivo nesta articulação é que o modo de pensar do analista seja dominante em sua leitura crítica e em seu aproveitamento dos resultados de pesquisas observacionais e experimentais. Outros autores contemporâneos - como R. Roussillon - fazem o mesmo com os resultados das neurociências sem se afastar um milímetro da especificidade da psicanálise e da produção de conhecimento que lhe é própria.


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