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TÍTULO DE ARTIGO


 

AUTOR


ÍNDICE TEMÁTICO 
49/50
André Green
ano XXV - Junho 2013
216 páginas
capa: Serge Poliakoff
  
 

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Resumo
Resenha de Luiz Roberto Salinas Fortes, Retrato calado, São Paulo, Cosac Naify, 2012, 136 p.


Autor(es)
Marilena Chauí Chauí
é filósofa, professora aposentada do Departamento de Filosofia da FFLCH-Usp e autora de numerosos livros, entre os quais Convite à Filosofia, O discuros competente e outras falas e, sobre o autor se dedicou por toda a vida, Espinosa - a nervura do real.


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 LEITURA

Retrato calado

Silent portrait
Marilena Chauí Chauí

O Dicionário Houaiss, no verbete retrato, registra: "retrato falado: retrato aproximado de um indivíduo procurado pela polícia, feito por um desenhista que reúne e combina determinados tipos fisionômicos com traços e sinais particulares, a partir do relato descritivo de testemunhas". Para quem viveu o sombrio período dos anos do terror de Estado, é impossível esquecer os cartazes, espalhados pelas cidades, com os retratos dos subversivos procurados pela polícia da ditadura. Muitos desses retratos eram retratos falados. Por que Salinas traçou um retrato calado?

 

Pelos menos três motivos poderiam explicar essa decisão: o primeiro, mais óbvio, é a atitude irônica de quem oferece o retrato sem que precise ser falado, colocando-se fora do alcance policial; o segundo, mais sutil, indica que a testemunha é o próprio retratista; mas o terceiro, mais terrível e profundo, nos coloca diante do paradoxo intolerável da relação entre tortura e linguagem. Invenção humana, a linguagem institui a relação com o outro sem a mediação da violência nua. Como dissera Sócrates, visto que os deuses não colocaram janelas em nosso corpo para que nosso íntimo fosse imediatamente dado ao outro, os humanos inventaram a palavra para que pudéssemos nos reconhecer mutuamente. O paradoxo trazido pela tortura está em destruir a linguagem no exato momento em que, usando a violência, exige de alguém não só que fale, mas sobretudo que dê ao torturador o mais precioso de todos os bens: uma palavra verdadeira. É esse jogo inaceitável entre violência e verdade que Salinas, calando-se, diz.

 

* * *

 

Conheci Salinas em 1965, nos tempos da rua Maria Antonia, quando ainda estávamos perplexos com o que se abatera sobre a universidade em 1964 e a ditadura dava seus primeiros passos sem que pudéssemos imaginar o que viria depois.

 

Éramos colegas no curso de pós-graduação, recém-instalado no Departamento de Filosofia. Lembro-me dele tímido e desajeitado, quando o escutei nas conversas do saguão da faculdade, no grêmio, nas rodas dos botecos da vizinhança. Descobri como era talentoso quando li seus trabalhos de estudante e seus artigos de jornalista. Enchia-me de admiração que houvesse conversado com Sartre e tivesse traduzido L'imagination. E era um dos homens mais bonitos que já vi.

 

Em 1966, recebeu uma bolsa de estudos, partindo para a França. Quando regressou, eu estava indo rumo a Paris. Só nos revimos em 1969, nos barracos da Cidade Universitária, onde fora jogada a Faculdade de Filosofia (junto com o Instituto de Psicologia), após a invasão militar e o incêndio da Maria Antonia, sob os auspícios de alguns estudantes da Universidade Mackenzie, membros do terrível CCC, o Comando de Caça aos Comunistas. Entrara em vigor o Ato Institucional no 5. Como vários outros, também o Departamento de Filosofia estava quase dizimado: professores cassados, exilados; estudantes presos, clandestinos, desaparecidos. Os sobreviventes iniciavam o penoso esforço da resistência.

 

É difícil transmitir aos jovens estudantes de agora uma ideia do que foi o dia a dia universitário de um tempo que, à direita, alguns chamaram de milagre brasileiro, e outros, à esquerda, designaram como a dura repressão. Sem dúvida, muitos dos jovens de agora, se parentes e amigos de mortos ou desaparecidos, conhecem dramas e tragédias, e os menos familiarizados com elas ouviram falar ou leram sobre aqueles tempos. Todos eles podem imaginar, mesmo que com dificuldade, o que teria sido viver sob o medo, temendo a casa e a rua, o lugar de trabalho e o de lazer, o dia de ontem (que fiz?), o de hoje (que faço?), o de amanhã (que farão comigo?). Temer abrigar os perseguidos de agora para não se tornar perseguido depois, mas abrigá-los, embora em pânico. Ter medo da prisão e da tortura, de trair amigos e perder família. Desconfiar dos outros, de si e da própria sombra.

 

Talvez não seja incompreensível para os jovens de agora o que pode ser o terror, cuja regra é tornar alguém suspeito, fazer do suspeito culpado e condená-lo à tortura e à prisão sem que saiba de que é acusado e sem qualquer direito à defesa. O que me parece difícil é explicar aos mais jovens o que um filósofo tentou explicar para si e para seus contemporâneos, ao término da Segunda Guerra Mundial: que o mundo do pré-guerra (para eles) e o mundo da pós-ditadura (para nós) não é um mundo natural, existente por si mesmo, dom de Deus, da Razão ou da Natureza aos homens, um fato bruto ou uma ideia clara e distinta, mas uma instituição humana forjada na luta, na contradição, no conflito, um trabalho no tempo e sobre o tempo. E que o mundo da ditadura não foi um mundo desnaturado, irracional, obra perversa de um Gênio Maligno ou de uma razão astuta e mesquinha, de forças abstratas e sim aquilo que, naquele tempo, Salinas, lendo com seus estudantes A República de Platão, procurava com seus alunos: o sentido da figura de Trasímaco. Mas para depois, estupefato, descobrir que a filosofia de que dispúnhamos não podia dar conta das engrenagens do poder e que nem mesmo Maquiavel poderia imaginar-se em tal caricatura de O príncipe.

 

Após suas duas prisões e a tortura a que fora submetido na segunda, Salinas reuniu os materiais de sua pesquisa em filosofia e redigiu sua tese de doutoramento, Rousseau: da teoria à prática. Essa tese é uma ruptura na tradição interpretativa do pensamento de Rousseau, considerado por muitos um retórico mentiroso e por outros um escritor inconsistente porque atravessado por contradições que não soube resolver. Subvertendo essa tradição, Salinas pôde mostrar, e somente ele, agora, poderia fazê-lo, que as contradições imputadas a Rousseau não eram do filósofo, mas do mundo social e político que ele buscava compreender.

 

Amigos, temíamos o dia da defesa da tese, não sabendo o que poderia acontecer a Salinas diante de uma situação de interrogatório. Naquela tarde de 1974, o salão nobre da faculdade estava repleto: colegas, estudantes, amigos, velhos conhecidos, vieram todos para que Salinas soubesse do apreço merecido. Eram tempos em que solidariedades como essa nos serviam de valimento, dando valor e sentido ao trabalho e às vidas, tão desvalidas e desvaloradas alhures. A tese fora considerada excelente, mas precisava ser arguida. Arguiu-se. Arguimos. E Salinas, com o olhar perdido, não conseguia ouvir-nos. Cada um de nós sabia que ele não se via naquela sala, mas noutra, que não nos ouvia, mas escutava vozes que não podíamos escutar. Não nos respondeu. Concordamos em que nos entregaria por escrito as respostas, mais tarde. O que fez. Como é diferente a lembrança que guardo quando, anos depois, quando lutava pela democracia e por uma Assembleia Nacional Constituinte, os cinco dias em que defendeu com segurança e humor sua tese de livre-docência, ainda sobre Rousseau, mas, simbolicamente, escolhera agora a educação do cidadão e a festa cívica como expressões privilegiadas da utopia de uma nova e possível sociabilidade.

 

Traduziu Rousseau, escreveu uma pequena obra-prima, O Iluminismo e os reis filósofos, organizava o simpósio de filosofia sobre a Assembleia Constituinte e iniciava os preparativos de um simpósio sobre liberdade e escravidão, a realizar-se em 1988.

 

Acreditávamos que o pesadelo terminara. Nunca havia findado.

 

Devíamos ter prestado mais atenção nessa premonitória passagem de seu livro: "A dor que continua doendo até hoje e que vai acabar por me matar se irrealiza, transmuda-se em simples ‘ocorrência' equívoca, suscetível a uma infinidade de interpretações, de versões das mais arbitrárias, embora a dor que vai me matar continue doendo, bem presente no meu corpo, ferida aberta latejando na memória" (p. 42).

 

Quantas vezes vi Salinas apertar as têmporas - gesto último, que teve ao morrer - adivinhando uma dor sem nome, embora eu não soubesse que batia contra as grades sua própria cabeça, inscrição em seu corpo das barras das prisões onde tentaram roubar-lhe o espírito. Quantas vezes ouvi Salinas tropeçar na frase iniciada, tateando as palavras, perder o fio da meada e, não podendo alcançar meus ouvidos, tentar alcançar-me os olhos, lançando-me um olhar, misto de pasmo e agonia, fazendo-me adivinhar que a teia da tortura prendia-lhe a voz e voltava-lhe os olhos para cenas invisíveis aos meus. Quantas vezes pedi que me dissesse por que, escritor de clareza incomparável, falar se lhe tornara tão penoso. Às vezes, sorria apenas. Outras vezes, ria um riso tão gaguejante quanto sua fala. Por vezes, ria um riso solto, os olhos faiscantes. Um dia, deu-me a ler a primeira versão de Retrato calado.

 

Havia, outrora, um tipo de gente a que se dava o nome de sábio. Não estava isento de paixões, pelo contrário, nelas mergulhara fundo. Mas não se contentava em experimentá-las ou observá-las nos outros. Esforçava-se para compreendê-las em si mesmo. Talvez os sábios tenham-se extinguido ou, quiçá, existam dispersos pelo mundo e deles tenhamos pouca ou nenhuma notícia. Certamente Salinas acharia pomposo e descabido ser chamado de sábio. Retrato calado, porém, é testemunho de sabedoria.

 

Não nos coloca apenas diante da dor pungente da tortura física e moral, nem apenas diante do horror da vilania disfarçada em política dos servidores do pau de arara. Aqui, somos levados a ver o traçado de uma experiência impossível: a vertigem lúcida. Esforço para compreender uma tragédia pessoal e coletiva, fazendo-a memória e medida de um tempo fugidio que poderia cair no esquecimento.

 

É retrato de sabedoria por não ser um texto militante: Salinas recusa o lugar do herói e o da vítima. Aliás, ele sempre desconfiou das militâncias, perguntando-se, vida afora, se acertara nessa desconfiança. Indagação plena de sentido, pois, como escrevera um filósofo que ele estimava, quando a política se faz mania e miséria e a filosofia, fobia e rancor, caímos numa prática manhosa e num pensamento supersticioso.

 

Retrato calado não nos coloca diante de alguém soberanamente cheio de certezas, enfrentando o opressor para dizer-lhe: - estou com a razão e a história assim o provará. Livro de sabedoria porque nos coloca diante de alguém perplexo ao descobrir que o opressor não é o outro absoluto, apenas outro ser humano e que essa descoberta embaralha as ideias claras e distintas de bem e mal, vício e virtude, enigma de que não pode dar conta tudo quanto sonha nossa vã filosofia escolar. Aqui, estamos diante de alguém que se pergunta: o que é a razão? o que é a história? o que é a bondade? Alguém que atravessou, trôpego e cego, o labirinto do terror para descobrir, em estado de choque, o fio condutor dessa prodigiosa máquina de produção da culpa e de destruição humana do humano pela desintegração da fala e pelo sequestro do pensamento.

 

Retrato calado é a reconquista da palavra pelo Salinas escritor, professor, jornalista, filósofo. Resgate da dignidade do pensamento que, no abismo de sua fragilidade, recobra energia para expor a urdidura cerrada em que a violência captura a linguagem para enredá-la na trama imperial do torturador que desintegra o outro para que dele brote uma palavra íntegra, avilta o torturado para que dele venha uma palavra verdadeira, submete a presa para que ela lhe faça o dom fantástico de uma palavra livre que o absolveria no momento mesmo em que ele a escarnece.

 

Apertando as têmporas, Salinas transforma o grito inarticulado em palavra articulada para encontrar a origem das línguas.

 

Transforma em verbo a dor, em frase a cólera, em escrita a vergonha, em ideia a agonia, em pensamento a matéria vociferante da experiência bárbara, para que assim se torne, como escreveu alguém antes dele, um bem verdadeiro porque capaz de comunicar-se a todos.

 

Meditação sobre o destino, o acaso, a adversidade, a razão e os afetos, despida de heroísmo porque tecida na serenidade dos perplexos, este livro é obra do autor em busca de si mesmo. Trabalho do pensamento e obra de liberdade, que por isso mesmo não cai na armadilha da revolta, essa triste simbiose entre filosofia e política, pois, como escreveu alguém, todo mundo gosta que o filósofo seja um revoltado porque sua revolta apazigua a má consciência e, depois de ouvi-la, todos podem regressar satisfeitos aos seus costumeiros afazeres. Este livro, erguendo-se contra "os herdeiros de Trasímaco" (p. 29), diz não à revolta e à resignação.

 

Se Retrato calado diz as ideias de Salinas, também fala de sua pessoa: íntegro de caráter, puro de coração, lúcido no pensamento, sóbrio na palavra, generoso nos afetos e para quem a amizade possuía os traços com que a desenhou Aristóteles ao lembrar que, no bem-querer mútuo, os amigos superam os limites impostos pela finitude e imitam a plenitude do divino.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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