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Resumo
Resenha de Renato Tardivo, Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica, Cotia, Ateliê Editorial/Fapesp, 2012, 144 p.


Autor(es)
Priscila Nobre David
é psicóloga e graduada em Comunicação Social (Cinema).

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 LEITURA

A luz da palavra

[Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica]


The light of the word
Priscila Nobre David

Em Porvir que vem antes de tudo - literatura e cinema em Lavoura arcaica, Renato Tardivo, psicanalista e escritor, lança-se em uma viagem por duas terras, a da palavra e a da imagem, e é justamente na fronteira entre estas que esse trabalho torna-se imprescindível ao leitor interessado na comunicação entre os pares literatura e cinema, fenomenologia e psicanálise. A propósito da comunicação, escreve Tardivo: "Passado e futuro ora se aproximam, ora se afastam, mas sempre se comunicam - naquilo que nomeamos presente. Sem embate, não há tempo, não há outro, não há nada" (p. 132). Nesse trecho derradeiro, Tardivo refere-se à temporalidade, tema primordial em Lavoura arcaica (romance de Raduan Nassar e filme de Luiz Fernando Carvalho), assim como em seu próprio texto. Não menos importante seria notar que o excerto aborda também a relação que se estabelece entre as duas linguagens analisadas no livro, a da escrita e a do cinema. Para esse percurso, o da correspondência entre as obras, psicanálise, fenomenologia e estética são companheiras num delinear das travessias. São quatro as seções que compõem esse caminho: "A partir do livro", "A descoberta do filme", "A correspondência" e "Da linguagem aos sentidos: à linguagem", além de uma "Apresentação" escrita pelo autor e do prefácio, cuidadoso e esclarecedor, por João A. Frayze-Pereira, "Entre o visível e o legível, a unidade dos sentidos".

 

Em "A partir do livro", encontramos uma leitura profunda e atenta da obra de Raduan Nassar, que nos mostra o poder da palavra escrita. Ao nos levar pelos caminhos trilhados por André (narrador-protagonista do romance), Tardivo retoma os pares autor/personagem, continente/conteúdo, que, nessa obra, além de atravessar o ato mesmo de escrever de Nassar, viabiliza a existência de seu personagem. Na descrição de André, empreendida por Tardivo, encontramos passagens como: "Em alguns momentos, os contornos de André perdem-se concretamente nos (des)contornos do mundo" (p. 31), ou "continente e conteúdo se confundem" (p. 31) e até mesmo a expressão "mistura insólita" (p. 33), contida antes no romance de Nassar e que retornará ao estudo realizado por Tardivo mais adiante. Ou seja, somos apresentados à anatomia (ambígua) do narrador-personagem de Lavoura arcaica e, por extensão, à anatomia do próprio romance, o qual, como escreve o autor, "se constrói justamente entre o novo - lavoura - e o velho - arcaica: ele é o jorro que corre entre essas margens. Ao voltar os olhos para a história de sua família e (re)criá-la em um texto, André presentifica em si - e por extensão na narrativa - conflitos e forças passadas e futuras entre os restos de tempos primitivos e novas possibilidades de existência" (p. 46). Nessa passagem, aliás, Tardivo inaugura a discussão mais relevante do seu trabalho: a temporalidade. Na perspectiva adotada pelo autor, o tempo, por meio da escrita e do olhar da câmera, firma-se como criatura e criador, apresentando-se como presente, espaço que funde passado e futuro, sujeitos sempre articulados, afinal, "é a própria palavra do pai que agora está contida nos olhos de André" (p. 51).

 

Em "A descoberta do filme", deparamos com um passeio delicado pelas peculiaridades do olhar cinematográfico lançado à obra literária. Por meio da análise de fragmentos de entrevistas com o cineasta Luiz Fernando Carvalho, assim como com os demais componentes da equipe, entre eles o responsável pela fotografia, Walter Carvalho, Tardivo recupera e destaca mais uma vez a temporalidade que pauta o encontro entre os dois campos, as duas criações artísticas. Ao discorrer a esse respeito, o pesquisador escreve: "Na obra de Luiz Fernando Carvalho, o compromisso é com o texto de Raduan Nassar: é ao romance que o filme se endereça. O olhar do cineasta, que parte da palavra, procura - antes de tudo e a todo momento - retornar a ela" (p. 63). Somos levados a atentar para os limites entre os dois terrenos, o da literatura e o do cinema, e por meio de contribuições psicanalíticas, como a retomada do termo après-coup (temporalidade do "só depois"), Tardivo posiciona a imagem como anterior à palavra, o que confirma a ideia de um porvir (preciso título do livro), no sentido em que foi necessário ao diretor encontrar-se com a obra escrita (ou até, segundo ele, encontrar-se na obra), para que o filme pudesse nascer; filme que, paradoxalmente, já estava vivo: "eu tinha visto um filme, não tinha lido um livro" (p. 66), diz o cineasta. O tempo é ressignificado pela escrita e pelo olhar, tanto de André, como dos autores (escritor e cineasta). Na história de André e sua família, há a partida e o retorno, e entre eles um tempo que fica suspenso, petrificado. Não parece haver separação entre esses dois destinos, um remete ao outro - a presença constante do avanço e da transgressão. O fragmento do futuro já se encontra instalado no passado.

 

Em "A correspondência", o trânsito entre as linguagens é discutido em suas minúcias. Escreve o autor a respeito da experiência do cineasta: "Ele se reconhece no texto. Adentra-o por entre as frestas das palavras" (p. 66). Há nas palavras de Lavoura arcaica algo de luminoso, que nos convida a olhar, e foi para a construção desse olhar que a equipe de produção do filme se preparou, até realizar uma escrita de luz na tela. Foi ao avistar na escrita de Nassar aquilo que se escondia por entre as palavras que a escolha da fotografia do filme se deu, trabalhando com a transição entre luz e sombra, acompanhando a história reconstruída por André. Podemos dizer que foi no percurso entre literatura e cinema que se revelou a luz da palavra. A esse respeito, Tardivo escreve: "Assim, quando se trata de trabalhar a imagem do cinema a partir de Lavoura Arcaica, cujo cenário envolve concomitantemente tradição e transgressão, a atmosfera construída no filme deve propiciar a proliferação dos mistérios, do invisível" (p. 67).

 

Ainda em "A correspondência", encontramos a convergência entre a psicanálise e a fenomenologia - articulação que acompanha o trajeto entre as duas linguagens (literatura e cinema) de modo a apresentar reflexões significativas e originais. Remetendo-se ao conceito de perversão como possibilidade de interpretação do funcionamento psíquico do protagonista, Tardivo traz à discussão o movimento de circularidade encontrado no discurso e no olhar de André, mas vai além: aborda os limites da relação entre as duas obras, num movimento que sempre envolve aproximação e distanciamento, transgressão e tradição, e que por fim, de alguma forma, sugere uma volta: na trajetória de André, a busca pela transformação só é possível através da preservação. Conforme escreve o crítico Ismail Xavier na orelha do livro, "a convergência [...] de psicanálise e fenomenologia [...] marcam aqui presença no cerne mesmo do movimento de análise e interpretação, não funcionando apenas como baliza de conteúdos mas como um quadro teórico que incide na própria maneira de Tardivo operar no plano da estética, pois seu intento é assumir a contaminação recíproca entre arte e psicanálise".

 

O sujeito perverso é aquele que não aceita a castração ao deparar com ela. Ocorre então uma recusa por parte do sujeito, através de um processo denominado por Freud denegação fundamental. É muito apropriado o empréstimo que Tardivo faz do termo, uma vez que André traz a todo momento, em sua narrativa, o peso da disputa travada com o pai, ou melhor, com aquilo que o pai representa, a personificação da lei. A impressão que temos é a de que a história não existe sem o embate do filho com a figura do pai. André ultraja a voz que limita. O discurso paterno é constantemente desafiado, mas não descreditado. Isso porque, para violar, é preciso antes conhecer. Afastando-se do campo das psicoses (no qual se ignora a existência do interditor), a perversão reconhece o limite e credita a ele tamanho valor que o movimento de infração deste torna-se sua via de existência no mundo. Talvez a partir daqui, possamos remontar o que diz Tardivo no início do livro: "André confunde-se - de modo desviante, mas confunde-se - com aquela estrutura arcaica" (p. 50). Ao optar pela negação, o sujeito perverso abre mão do estatuto de ser desejante, pois sabemos que é justamente a impossibilidade da satisfação plena que alimenta a busca desenfreada do desejo. É possível afirmar que a perversão afasta-se da neurose na medida em que se aproxima dela, no sentido em que revela aquilo que estaria oculto - põe em ato. Já dizia Freud ser a neurose o negativo da perversão. Desse modo, ocorre nesta última a substituição do desejo, algo é colocado em seu lugar. Na trama do protagonista, podemos pensar na figura emblemática da irmã, Ana, com quem ele realiza o ato incestuoso, ou, conforme propõe Tardivo, no próprio âmbito familiar, do qual André não consegue se diferenciar. O tempo em que André está fora de casa é um tempo suspenso. Durante o exílio, não há nem realização (ato incestuoso), nem interdição (discurso do pai). Não há investimento libidinal, nem escolha de objeto. Trata-se da existência aprisionada.

 

Nessa medida, é interessante perceber que é para o cerne da família que André retorna - pensando na consumação do ato sexual com Ana - antes mesmo de ter partido. O personagem encontra-se encurralado entre esses dois tempos. É nesse hiato que a história se escreve. Tardivo contorna diversas vezes esse aspecto circular do percurso de André: "A contestação toma o caminho da conservação. [...] Esse retorno desesperado à família evidencia o horror à diferença. Pelo avesso, ele busca chafurdar nas entranhas ancestrais mais arcaicas. A imagem de seu corpo coberto de folhas é também alusiva a esse retorno: expressão da pulsão de morte. Em vez de o corpo irromper para fora, para o mundo, para a cultura, o que há é a recusa da alteridade; o corpo permanece imerso no caldo familiar" (p. 86).

 

A circularidade das obras (livro e filme) acompanha o olhar de André até o desfecho, quando ele se dirige ao pai, após os acontecimentos trágicos que acometem a família. É nesse momento que encontramos na narrativa características de recriação de sua história, a marca deixada pela irreversibilidade da tragédia é que permite que um caminho reversível se abra à frente de André. É a essa possibilidade de elaboração da experiência que Tardivo indica: "Ao escrever uma espécie de tratado sobre o tempo, é André, em après-coup, que finalmente se constitui. [...] É assim que a circularidade do romance aponta, na verdade, para um retorno em espiral" (p. 110).

 

Analogamente, no capítulo final, "Da linguagem aos sentidos: à linguagem", Tardivo anuncia ao leitor as reflexões desde o início já contidas em seu texto, em um movimento de contorno do passado, a fim de ressignificar a experiência e redescobrir sua própria linguagem. É interessante perceber contida na palavra lavoura a ideia de movimento, ao significar um cultivo da terra, e por sua vez no termo arcaico, o sentido de anterior. Também como o protagonista, Tardivo adentra os resquícios, passeia pelos detalhes, carrega os objetos antigos para a construção de um olhar. Ele escreve: "O olhar é fundante da história" (p. 99). Tanto na narração de André, como na análise das obras realizada neste livro, a ressignificação da história se dá através de um retorno ao futuro. É o vestígio de um retorno que possibilita o correr da travessia.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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