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Resumo
Resenha de Mauro Mendes Dias, Os ódios: clínica e política do psicanalista, São Paulo, Iluminuras, 2012, 141 p.


Autor(es)
Paulo de Carvalho Ribeiro
é psicanalista e professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFMG.

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 LEITURA

Balint: relações de objeto, história das ideias e do movimento psicanalítico

[Balint em sete lições]


Balint: object relations, history of ideas and of the psychoanalytic movement
Paulo de Carvalho Ribeiro

Balint em sete lições resultou de aulas ministradas por Luis Cláudio Figueiredo e organizadas em forma de livro por Gina Tamburrino e Marina Ribeiro. Para aqueles a quem o título pareça sugerir um curso introdutório ou uma apresentação panorâmica do pensamento de Balint, é preciso esclarecer, logo de início, que não se trata de nenhum resumo e muito menos de uma abordagem superficial das contribuições do psicanalista húngaro, radicado na Inglaterra. Como é usual nas publicações de Luis Cláudio, cada um dos textos do autor estudado é submetido a um trabalho cuidadoso, no qual se percebe a intenção de ir muito além dos aspectos mais evidentes e consagrados, para se atingir os elementos mais problemáticos, as formulações mais complexas e até mesmo alguns pontos aparentemente contraditórios, que fazem parte da luta que todo grande autor trava com seu objeto de interesse. As sete lições sobre Balint focalizam textos das décadas de 1930, 1940 e 1950, todos eles inéditos em português. A falha básica, seu livro mais conhecido e já publicado no Brasil, não faz parte das obras abordadas por Luis Cláudio, mas certamente poderá ser muito mais bem aproveitado após a leitura dessas sete lições.

 

Não seria nenhum exagero afirmar que o livro aqui comentado, além de tratar em profundidade do pensamento de Balint, tem também uma inserção no campo da história das ideias e do movimento psicanalítico. Quanto a este último campo, são abordadas questões relativas à filiação ferencziana de Balint, assim como às interlocuções com Anna Freud e Melanie Klein. A amizade com Lacan também é comentada brevemente e o entrecruzamento com as ideias de Winnicott é salientado em vários momentos do livro. O mais importante, no entanto, é a justificada ênfase dada por Luis Cláudio à posição independente mantida por Balint, e sua liberdade de dialogar com as diferentes correntes psicanalíticas de sua época sem se comprometer com adesões capazes de cercear seu pensamento.

 

Mas é no campo da história das ideias que localizamos um dos momentos mais densos e originais da exposição de Luis Cláudio. Na primeira das sete lições, ao comentar o texto de Balint Character analysis and new beginning, de 1932, um grande mérito dessa fase inicial de seu pensamento é salientado, a saber, a capacidade de conjugar os fatores ligados à formação do caráter e do self, que influenciavam o mal-estar por ele detectado em sua época, com o que ele descreveu como uma incapacidade de entregar-se às intensidades afetivas e ao prazer. O que aqui se evidencia é justamente um movimento do pensamento de Balint contrário à tendência dessexualizante que marcou a quase totalidade dos autores que, na mesma época, se dedicavam ao tema da formação do caráter e sua relação com o narcisismo (Kohut) e o self (Winnicott). De fato, como salienta Luis Cláudio, Balint não só atribuía essa incapacidade para a entrega afetiva e para o prazer à dificuldade de suportar a excitação sexual, como também a relacionava à conhecida teoria ferencziana da confusão de línguas. A língua da paixão utilizada pelo adulto, ao violentar a língua amorosa da ternura presente no bebê, produz efeitos traumáticos à medida que um excesso de excitação sexual se impõe à criança ainda desprovida dos recursos necessários para com ela lidar. Em outras palavras, baseado na teoria de Ferenczi, Balint antecipa, em alguns de seus elementos fundamentais, a teoria da sedução generalizada proposta por Jean Laplanche mais de cinquenta anos depois. Luis Cláudio tem razão quando assinala que, ao mencionar Balint em seus Novos fundamentos para a psicanálise para acusá-lo de dessexualizar a psicanálise com sua teoria do amor primário, "Laplanche deixa na sombra aquilo que no pensamento de Balint poderia deixar na sombra a teoria laplancheana" (p. 19). Em defesa do autor francês, poder-se-ia argumentar que Luis Cláudio também deixa na sombra o reconhecimento, por parte de Laplanche, da importância da teoria ferencziana da confusão de línguas e sua proximidade com a teoria da sedução generalizada. Mas o melhor, certamente, teria sido admitir, como o fez Freud, que uma ideia nova sempre contém apenas a metade da originalidade que se imaginava inicialmente. Se alguma originalidade ainda deve ser creditada a Laplanche quanto ao efeito da sexualidade recalcada do adulto sobre a criança, ela se situa na concepção da gênese da sexualidade infantil a partir do outro sedutor. Como bem percebe Luis Cláudio, nesse ponto, Balint é mais freudiano do que Laplanche, ao afirmar que a linguagem da ternura já é sexual, logo, não se trata de uma sexualidade infantil implantada na criança pelo excesso sexual proveniente do adulto, como quer Laplanche, mas de uma sobrecarga de excitação que a linguagem da paixão vem impor à sexualidade infantil já existente. Ao contrário da tese laplancheana de uma sexualidade proveniente da sedução pelo outro, Balint parece conceber uma sexualidade endógena, tal como concebida por Freud após o abandono de sua teoria da sedução traumática, ou seja, após o que teria sido, no entendimento de Laplanche, um extravio biologizante da sexualidade em Freud.

 

A participação desse verdadeiro trauma sexual na constituição psíquica, no narcisismo e na formação do caráter vem dar a devida dimensão da importância que Balint atribuía à sexualidade no desenvolvimento das patologias não neuróticas por ele observadas. A inibição do prazer e a inaptidão para o desfrute da vida seriam resultantes de uma falha grave no objeto primário: um excesso de excitação não contrabalançado pela devida oferta de continência e de recursos para aliviar a tensão assim gerada. Um "novo começo" em que essas forças pudessem ser reequilibradas deveria, então, ser produzido na análise.

 

Sem deixar de admitir que uma tendência dessexualizante acaba por vigorar em seus textos mais tardios, Luis Cláudio nos permite ver que, em vista dessa compreensão da psicogênese das patologias que se distanciavam das neuroses clássicas e diante da proposta terapêutica a ela associada, nada poderia ser mais injusto do que acusar Balint de uma dessexualização da psicanálise. Denunciar essa injustiça por meio de uma argumentação metapsicológica e clínica de alto nível é, sem dúvida, um dos pontos de maior elegância teórica e um dos maiores méritos de Balint em sete lições.

 

Ainda na primeira das sete lições, outro importante texto, The final goal of psychoanalytic treatment, de 1935, é estudado em profundidade. Nele, Luis Cláudio identifica os elementos decisivos que permitiram a Balint manter-se no campo da teoria freudiana das pulsões e, ao mesmo tempo, contribuir decisivamente para a criação de uma teoria das relações de objeto. Os desdobramentos desses avanços teóricos no campo da técnica psicanalítica são destacados e não deixam dúvida quanto ao papel pioneiro de Balint na identificação e tratamento do que hoje se costuma chamar de casos difíceis, borderline, esquizoides, entre outras denominações.

 

Na segunda lição, o principal trabalho estudado é o importante artigo de 1949 intitulado Changing therapeutical aims and techniques in psycho-analysis. Antes, porém, de focalizá-lo, Luis Cláudio comenta um texto de 1937, Early developmental states of the ego: Primary object love, no qual Balint demonstra sua independência ao se posicionar sobre um duplo equívoco presente nos psicanalistas agrupados em torno de M. Klein, por um lado, e o grupo vienense, liderado por Anna Freud, por outro. Se os vienenses não eram capazes de associar o estado de aparente harmonia e tranquilidade do recém-nascido às virtudes apaziguantes do objeto, o grupo dos londrinos, por sua vez, não conseguia relacionar a agressividade, o ódio e o sadismo do recém-nascido às inevitáveis falhas do objeto.

 

Ao comentar Changing therapeutical aims..., Luis Cláudio destaca a preocupação de Balint com a necessidade de adaptar a técnica psicanalítica à crescente importância atribuída às relações precoces de objeto e à dimensão transferencial do tratamento, onde os efeitos dessas relações sobre a constituição do caráter se manifestavam e se atualizavam. Entre os vários aspectos que tornam esse texto de Balint tão decisivo, merece especial atenção a tentativa de superação da polaridade mundo interno (pulsões) x mundo externo (relação de objeto) e sua influência na tendência, que começava a aflorar no pensamento de Balint, a destituir de importância a sexualidade, vista como uma pulsionalidade de origem biológica, em benefício das relações de objeto.

 

Na terceira lição, o principal texto comentado por Luis Cláudio intitula-se New beginning and the paranoid and the depressive syndromes. Neste texto, publicado em 1952 e dedicado aos setenta anos de M. Klein, Balint mostra as influências que recebeu da teoria kleiniana e suas divergências com ela. Um outro texto, de 1949, intitulado On termination of analysis, também é comentado nessa lição. A questão do término da análise e sua relação com o new beginning permeia todo o percurso de Balint nesses dois textos. O restabelecimento do amor objetal primitivo, pré-traumático, é considerado o término ideal de uma análise, mas o estado de vulnerabilidade que o precede é visto como responsável pela intensificação da desconfiança e das defesas contra as falhas do objeto. Este é justamente o ponto em que o diálogo com M. Klein ganha maior relevo: enquanto Balint atribui as defesas esquizoparanoides às falhas do objeto primário no processo de constituição psíquica e às falhas do analista durante o tratamento, para M. Klein, trata-se de uma passagem obrigatória e universal tanto no desenvolvimento psíquico quanto na cura analítica.

 

A análise do diálogo com M. Klein prossegue na quarta lição. Ainda no texto de 1952, Balint deixa transparecer que a técnica kleiniana é responsável pela instauração de defesas paranoides e avança na proposição de modificações na técnica que, além de prevenirem o recrudescimento dessas defesas, sejam também capazes de promover o reconhecimento das cisões e a reintegração das partes cindidas. Algo equivalente à posição depressiva deve ser produzido na análise, de forma tal que as partes contra as quais o ego do paciente tem que lutar não sejam mais odiadas ou rejeitadas, e sim "enterradas com honra", numa espécie de "luto glorioso" a partir do qual o new beginning se tornaria possível.

 

A quinta lição nos introduz numa fase original do pensamento de Balint, iniciada com a publicação de Thrills and regression, em 1959. Duas atitudes observadas na clínica, e que se confundem com o caráter dos pacientes, são descritas e relacionadas com uma série de situações que ultrapassam a cura analítica. Uma delas, a atitude ocnofílica, manifesta o apego à terra firme, às rotinas e às ligações com o objeto. A outra, a atitude filobática, cultiva o desprendimento, o estar em suspenso entre o medo e a esperança, a vertigem de se lançar nos grandes espaços vazios para depois reencontrar a base que reassegura, a terra firme. Nessa lição, Luis Cláudio retoma o problema da dessexualização e procura mostrar os momentos em que a dimensão erótica dessas atitudes transparece nesse texto de 1959, e outros em que ela parece se perder. A relação que Balint estabelece entre a cena primária e a atitude filobática é um dos pontos onde o sexual ganha força. A posição da criança pequena excluída da relação sexual que se desenrola diante dos seus olhos estaria relacionada à busca de reverter passividade em atividade e à afirmação da autonomia. O filobata reproduziria voluntariamente a exclusão da qual foi vítima, ao mesmo tempo que se identificaria com a potência fálica do pai. A reversibilidade das atitudes ocnofílica e filobática, o movimento dialético que sempre associa o extremo de uma atitude ao reencontro da outra, dão a justa medida da complexidade das elaborações de Balint e permitem a Luis Cláudio concluir que "a dialética entre ocnofilia e filobatismo cria as condições para o prazer, para o thrill, e é ela mesma uma encenação sexual" (p. 123).

 

Nas duas últimas lições, o foco recai sobre os capítulos de Thrills and regressions onde as atitudes ocnofílica e filobática são claramente associadas às vicissitudes das relações objetais e aos aspectos regressivos aos quais elas se relacionam no processo de análise. São abordadas desde questões atinentes ao uso dos termos "sujeito" e "objeto", passando por reflexões sobre o teste de realidade e o amor primário, até chegar às considerações sobre os momentos iniciais da constituição psíquica e o "sentimento oceânico". O caráter dialético das duas atitudes torna-se cada vez mais decisivo à medida que vão sendo utilizadas para criar uma concepção original da constituição psíquica e para fundamentar uma teoria da técnica psicanalítica.

 

Após concluir a leitura de Balint em sete lições, o leitor não poderá evitar a sensação de ter ampliado significativamente seu conhecimento sobre as relações de objeto, se apropriado de uma parte importante da história do movimento psicanalítico e, principalmente, de ter sido sensibilizado para o fato de que algumas manifestações psicopatológicas e alguns desafios da técnica psicanalítica que tendemos a considerar contemporâneos são, na verdade, quase tão velhos quanto a psicanálise.

 

O livro de Luis Cláudio Figueiredo, organizado por Gina Tamburrino e Marina Ribeiro, não deixa também de suscitar no leitor uma indagação incômoda: quantos textos psicanalíticos tão importantes quanto esses que foram comentados em Balint em sete lições ainda permanecem totalmente desconhecidos da maior parte dos psicanalistas brasileiros?


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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