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AUTOR


ÍNDICE TEMÁTICO 
49/50
André Green
ano XXV - Junho 2013
216 páginas
capa: Serge Poliakoff
  
 

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Resumo
Resenha de Marina Ribeiro, De mãe em filha: a transmissão da femilinidade, São Paulo, Escuta, 2011, p. 207.


Autor(es)
Ana Sanchez  Barini
é psicóloga clínica, especialista em Clínica Interdisciplinar com o Bebê pela PUCSP e mestranda em Psicologia Clínica pela PUCSP.


Elisa Maria de Ulhôa Cintra
é psicanalista, professora da Faculdade de Psicologia da PUCSP e do Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Clínica da PUCSP. Autora de Melanie Klein: estilo e pensamento.



Notas
[1]   L. C. Figueiredo, As diversas faces do cuidar. Novos ensaios de psicanálise contemporânea, São Paulo, Escuta, 2009, p. 116.

[2]   M. Ribeiro, Infertilidade e reprodução assistida, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2004.

[3]   M. Ribeiro. De mãe em filha: a transmissão da femilinidade, São Paulo, Escuta, 2011, p. 29.

[4]   J. André (org), Mères et filles: les ménaces de l´identique, Paris: puf, 2003.

[5]   J. Godfrind, "Le pacte noir", Rev Française Psycanalyse, v. 58, n. 1, p 135-46, 1994.

[6]   J. Laplanche, Teoria da sedução generalizada e outros ensaios, Trad. Cláudia Berliner, São Paulo, Martins Fontes, 1992.

[7]   P. C. Ribeiro, O problema da identificação em Freud: recalcamento da identificação feminina primária, São Paulo, Escuta, 2000.

[8]   F. Guignard, Cartas ao objeto, Trad. Marilda Pedreira, Rio de Janeiro, Imago, 2000.

[9]   J. Mc Dougall, As múltiplas faces de Eros: uma exploração psicanalítica da sexualidade humana, Trad. Pedro Henrique Bernardes Rondon, São Paulo, Martins Fontes, 1997.

[10]  M. Ribeiro, op. cit., p. 14.

[11]  M. Ribeiro, op. cit., p. 64.


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 LEITURA

Tecendo fios: a transmissão da feminilidade

[De mãe em filha: a transmissão da femilinidade]


Weaving yarns: the transmission of femininity
Ana Sanchez  Barini
Elisa Maria de Ulhôa Cintra

Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina?
Não é no cabelo, no dengo ou no olhar,
é ser menina por todo lugar.

Então me ilumina, me diz, como é que termina?

Termina na hora de recomeçar,
dobra uma esquina no mesmo lugar.

Costura o fio da vida só pra poder cortar

Depois se larga no mundo pra nunca mais voltar

 [...] E esse mistério estará sempre lá

[Joyce, Feminina]

 

 

Em seu livro, Marina Ribeiro procura desvendar o enigmático percurso de transmissão da feminilidade - de mãe em filha - ou aquilo que, nas palavras de Simone de Beauvoir, permite a uma mulher tornar-se mulher. Publicado pela editora Escuta em 2011, é o resultado de uma pesquisa de doutorado que investiga a trajetória menina-mulher-mãe, movida pelo desejo de desembaraçar alguns fios da trama de identificações da linhagem feminina, vivida de forma singular em cada caso e reeditada ao longo de uma história pessoal. Fonte de intensa passionalidade e do que podemos chamar de uma loucura primária[1], tal relação é um vínculo intenso e ambivalente: ao mesmo tempo constitui a subjetividade e pode aprisioná-la, sendo um forte obstáculo a que a filha encontre seu próprio lugar como mulher. Marina Ribeiro nos faz caminhar na estreita faixa entre diferenciar-se da mãe e permanecer nela encerrada; um sinuoso percurso entre o precioso e o tanático, a ligação e a ruptura, a ternura e o traumático. Trata-se da tênue fronteira entre potência e vulnerabilidade, a culpa e o desejo de reparar o espaço psíquico que une e separa mãe e filha.

 

Para sorte dos leitores, a autora se revela mais uma vez - já o havia feito, quando publicou Infertilidade e reprodução assistida[2] - uma pesquisadora sagaz e persistente: ela não perde de vista o seu fio condutor, até mapear as principais teorias sobre a transmissão psíquica da feminilidade e apresentá-las de forma articulada e ilustrativa em cada seção de seu trabalho.

 

A primeira parte do livro recorre ao mito e à tragédia grega para pensar a paixão entre mãe e filha. A história de Deméter e Perséfone põe em relevo o paradoxo entre a proximidade, por identificação com a mãe, e a necessidade de se afastar dela, através do acesso à sexualidade adulta. Suportar a tensão dialética entre estes dois polos seria o caminho para manter uma relação frutífera com um homem. Em outras palavras, a fertilidade feminina, "no sentido de sua capacidade criativa e orgástica"[3], estaria associada à possibilidade de transitar produtivamente entre os mundos distintos da mãe e do pai.

 

Ainda nesta parte, consideram-se o amor e o ódio, a bissexualidade psíquica e os componentes corporais e pré-genitais da relação entre mãe e filha, em uma revisão do pensamento de Freud e de Melanie Klein, e depois dando voz à história de Electra como uma "metáfora extraordinária" para pensar o ódio, a cilada narcísica e a ilusão simbiótica que por vezes predomina entre mães e filhas. Neste momento, ela se utiliza de um livro organizado por Jacques André[4], cujo título é revelador: "Mães e filhas. As ameaças do idêntico".

 

Somos então apresentados ao conceito de pacto negro, de Godfrind[5], que permite elucidar as entranhas do ódio de Electra: ele encobre o desejo inconsciente da filha pelo amor incondicional da mãe. São a nostalgia e a voracidade de um amor que possa tudo suprir que tornam tão difícil separar-se da progenitora. Para Godfrind, se o primeiro encontro é suficientemente bom, a discriminação também acontece, ao passo que se há falhas importantes no encontro com o objeto primário, uma impossibilidade de sustentação própria da filha apresenta-se ou através de uma diferenciação odiosa ou de uma proximidade idílica.

 

Nesta segunda parte do livro, Marina Ribeiro tece a trama dos conceitos relativos à feminilidade e suas origens, visitando os trabalhos de Laplanche[6], Jacques André, e seguidores como Paulo de Carvalho Ribeiro[7], com a noção de uma identificação feminina primária recalcada. Considera ainda Godfrind e a homossexualidade primária e Florence Guignard[8], que diferencia as identificações iniciais com a mãe em espaço materno e feminino primário. É notável o trabalho de articulação entre as teorias que aí encontramos: a autora enfrenta o delicado desafio de percorrer correntes teóricas distintas, ora traçando paralelos entre autores e esclarecendo nuances de um mesmo aspecto, ora apontando a impossibilidade de superposição de suas ideias. Para tanto, faz da seção mais teórica de seu texto um colóquio entre autores, em cinco longos capítulos.

 

A terceira parte do livro é dedicada à compreensão do prazer e do desprazer em jogo na relação mãe e filha, tendo como base o conceito de bissexualidade psíquica e a noção de homossexualidade secundária, proposta por Joyce Mc Dougall[9].

 

Marina Ribeiro enfatiza que a experiência sensual da mãe com o corpo da filha estabelece uma geografia sensual entre mãe e filha que estará sempre presente na vida heterossexual das mulheres, sob a forma de uma "intensa corrente homossexual subterrânea, originária do prazer ou desprazer vivido entre elas".

 

A dificuldade de sentir-se amada por um homem - a insustentável nostalgia do amor materno: "do que poderia ter sido, mas não foi; do que nunca foi, nem nunca será"- é pensada a partir do filme Sonata de Outono de Bergman. Tudo que era sensível e frágil nessas duas mulheres será desqualificado, tornando então impossível separar-se dessa mãe: a filha passará o resto da vida a fazer reparações a ela, entrando no que Godfrind chama de pacto negro.

 

Em seguida, revisita a película de Bergman através do olhar masculino dirigido à relação mãe e filha, para explicitar o lugar do terceiro no psiquismo materno e infantil, trabalhando mais profundamente a ideia de uma bissexualidade psíquica, com Freud e os outros autores acima mencionados.

 

A vida, diz Marina Ribeiro, exige de nós uma constante e silenciosa negociação com as diferenças entre os sexos, as gerações, e entre eu/outro. "A constelação identificatória bissexual de um adulto é decorrente do infindo trabalho de elaboração do complexo de Édipo, desse barro de que somos feitos, e sempre seremos constituídos"[10]. Isto a leva a dizer que em todos os encontros criativos - e, entre eles, também no encontro analítico - deve haver transição e troca entre identificações masculinas e femininas. É preciso constituir um masculino que autoriza o feminino e vice-versa, e é esse reconhecimento mútuo que leva ao potencial transformador de um encontro.

 

A última parte do livro é a construção de dois casos clínicos que permitem retomar a trama dos conceitos ao vivo. Zoe teve como único investimento de sua mãe o desejo de que ela, a filha, morresse, levando-a ao limite da loucura, entre abismar e emergir em busca de lugares psíquicos mais arejados, para fora da "cripta sem ar erigida à mãe". Como separar-se de uma mãe com quem não foi possível estabelecer uma ligação de amor? Essa separação só se torna possível através do contato analítico com um analista cuja presença tenha a vivacidade que antes faltou, pois essa presença poderá dar uma forma nítida à ausência da mãe e então talvez uma separação seja possível, desfazendo o pacto negro.

 

No caso de Liz, acompanhamos a fascinação entre mãe e filha, a cilada narcísica na qual a paciente fica aprisionada, uma vez que a sexualidade era vivida como traição à mãe. A análise prosseguiu sempre no "fio de navalha", correndo o risco de ser interrompida a qualquer momento. Liz traz o sonho de tudo partilhar com a mãe, de ser um só corpo para duas, em uma perfeita unificação narcísica.

 

O relato dos casos permite ver uma analista intensamente implicada; é difícil deixar a leitura, tal o poder de atração de sua ficção clínica.

 

O seu trabalho enfatiza a importância de ver a mãe como uma mulher, com sexualidade própria - o que costuma ser recusado pela cultura, mas é sempre relembrado pela psicanálise. A mãe é a sedutora primordial que funda a geografia de prazer e desprazer corporal nos bebês de ambos os sexos. Ela precisa ser "suficientemente boa sedutora" para criar um pedestal afetivo que suporte as passagens seguintes. Assim, caberá aos filhos, mais tarde, transformar essa paixão erótica inaugural, para chegar à sexualidade adulta. Esta passagem parece ser mais difícil para as meninas, dada a relação homoerótica primitiva entre ambas, que se estabelece desde o princípio. "O que separa - e justamente por separar, une - mãe e filha é a sexualidade da mulher, único território não partilhável"[11]. É ela que pode romper com o império do mesmo, expressão cunhada por Jaques André, para designar a falta de fronteiras que pode se estabelecer entre duplas excessivamente iguais, tais como as mães e suas filhas.

 

O livro ilumina de forma bastante criativa um tema atemporal da clínica e indispensável àqueles que acompanham mulheres, meninas e mães. Além de apurar a escuta para a questão da transmissão do feminino - uma vez que a mãe é o primeiro objeto de amor - irá afirmar, de maneira bem nítida, a presença de uma feminilidade originária que põe em jogo as identificações constitutivas dos meninos e de sua relação com as mulheres, na fase adulta.

 

A leitura desta autora, capaz de trazer tantos elementos para elucidar a transmissão do feminino, tem ainda o dom de nos autorizar a permanecer junto à questão que não pode parar de nos intrigar: afinal, o que é ser mulher?


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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