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AUTOR


ÍNDICE TEMÁTICO 
49/50
André Green
ano XXV - Junho 2013
216 páginas
capa: Serge Poliakoff
  
 

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Resumo
Resenha de Talya Saadia Candi, O duplo limite: o aparelho psíquico de André Green, São Paulo, Escuta, 2010, 341 p.


Autor(es)
Rubens Marcelo Volich
é psicanalista, doutor pela Universidade de Paris VII – Denis Diderot, professor do Curso de Psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae. Autor de Psicossomática – De Hipócrates à Psicanálise e de Hipocondria – Impasses da alma, desafios do corpo (Casa do Psicólogo, 2000 e 2002), de Segredos de Mulher: diálogos entre um ginecologista e um psicanalista (em coautoria com Alexandre Faisal, Atheneu, 2010) e co-organizador e autor dos livros da série Psicossoma (Casa do Psicólogo).



Notas

[1]   A. Green, L 'analyste, la symbolisation et l'absence [1974], in La folie privée: psychanalyse des cas-limites, Paris, Gallimard, 1990, p. 68.


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 LEITURA

Dos limites à poesia dos conceitos

[O duplo limite: o aparelho psíquico de André Green]


From limits to the poetry of concepts
Rubens Marcelo Volich

A obra de um autor é a história de suas transferências. Formam-se as imagens, as ideias, as palavras, brotam os conceitos, as controvérsias, os enredos e, por detrás das páginas, muitas vezes já amarelecidas, vislumbramos vultos, amores, violências, cenas de paixões já distantes, esquecidas, outras vezes vivas, intensas. Por entre as linhas, somos capturados por convites a conversas silenciosas, que, algumas vezes, nos acolhem, nos reconfortam; outras, nos revoltam, nos exaltam, nos convocam ao embate, ao confronto. Triste a obra que nos deixa indiferentes...

 

Os meandros de nossa própria história se enlaçam à narrativa do autor, a seu percurso, a seu texto e, de repente, nos vemos mergulhados em seu universo, familiares e estranhos a suas ideias, entre o perigo de nos fundirmos a ele e o cuidado para permanecermos sendo nós mesmos. Um risco que ronda, especialmente, o pesquisador, o exegeta, o biógrafo e, é claro, também o analista. Atraídos pelas transferências do autor, da obra, dos pacientes nos percebemos de repente arrastados pelas invisíveis mas turbulentas correntezas de suas paixões, seduzidos pela intensidade de seu discurso, de sua história, de seu estilo. E nos perdemos.

 

Nada mais fácil do que tentar utilizar a razão, o discurso acadêmico ou o método científico para tentar proteger-se de tais riscos. Vestir as luvas da assepsia, buscar uma leitura neutra, uma análise técnica, interpor entre si mesmo e a obra uma multidão de especialistas, evitando os riscos da proximidade e da intimidade com o autor. Leituras corretas, análises bem comportadas, obras acauteladas, sem risco. Insípidas, porém.

 

Talya Candi decidiu arriscar-se. Mergulhou nas complexas e revoltas correntes do universo de André Green, convidando-nos a acompanhá-la com o deleite, o prazer e o entusiasmo que acompanham as descobertas da alma e da natureza humanas. Talvez, a bem dizer, não foi propriamente uma "decisão".... Quem sabe não tenha tido escolha, a não ser deixar-se levar pelas forças irresistíveis da história, das ideias e do percurso excepcionais de um psicanalista como ele. Porém, mesmo capturada, seduzida e envolvida por tais forças, mesmo tendo alcançado uma extrema intimidade com as ideias de Green, Talya conseguiu, ao longo de seu livro, fiel a seu desejo, não se confundir com ele.

 

Desse lugar, íntimo, próximo, mas protegido, ela compartilha com o leitor seu percurso apaixonado, em O duplo limite: o aparelho psíquico de André Green. Um livro extremamente bem escrito e claro, apesar da complexidade dos temas e conceitos que apresenta. Uma obra respeitosa, a um só tempo, da imensa produção e das ideias de Green e do leitor, familiarizado ou não com elas.

 

É inevitável nos perguntarmos de onde surgiu tal intimidade, evidente desde as primeiras páginas do livro. Mais do que um simples tema de pesquisa de seu doutorado, percebemos ao longo da leitura que a elaboração fina e profunda de Talya tem provavelmente outras fontes.

 

Talvez possamos encontrá-la na própria história errante e cosmopolita da autora, psicanalista, nascida em Beirute, no Líbano, mas que também morou no México, na França, em Israel e que vive, já há algum tempo, no Brasil. Assim, como não sensibilizar-se com a história de Green, nascido no Cairo, em 1927, numa família judaico-sefardita, apátrida, crescido em meio a grupos étnicos diversos, imerso na cultura francesa? Como não compreender sua busca, aos 19 anos emigrando para a França, para ali alcançar, além dos estudos de Medicina, uma nacionalidade que lhe era negada como à maioria da comunidade judaica egípcia da época? Como não se sentir próxima do percurso de um psicanalista francês que ao longo de toda sua vida manteve relações importantes, significativas e fecundas com colegas de todo o mundo, em particular com os ingleses, interlocutores e inspiradores privilegiados de muitas de suas teorias?

 

Naturalmente, muitos outros fatores contribuíram e inspiraram o belo trabalho de Talya. Como ela mesma nos revela, encantou-se com a ousadia de Green, desde sempre convidando os psicanalistas a explorarem "novas vias da terapia psicanalítica" para lidar com os impasses, complexidades e desafios da clínica contemporânea; com a riqueza de sua produção escrita (25 livros e cerca de 50 artigos publicados em revistas psicanalíticas); com sua erudição; com sua capacidade de brincar com a teoria e transformar impasses clínicos em conceitos; com a originalidade de suas construções metapsicológicas; com sua liberdade de pensamento, que lhe permitiu, em plena era do militantismo secessionista da psicanálise francesa dos anos 1960 e 1970, manter relações e diálogo com interlocutores tão diferentes e algumas vezes visceralmente opostos como colegas da Sociedade Francesa de Psicanálise (Lacan, Laplanche, Lagache e outros), da Faculdade de Psiquiatria de Sainte Anne (Henri Ey e Delay) ou ainda da Sociedade Psicanalítica de Paris (filiada à ipa), da qual era membro desde 1956.

 

O duplo limite: o aparelho psíquico de André Green é um relato de transferências telescópicas, originadas em algum ponto inatingível da natureza e do inconsciente humanos, mas mais facilmente detectáveis desde que Freud revelou a potência desse fenômeno criador e transformador de nossos desejos, de nossas identidades. Transferências de Talya, de Green, de psicanalistas famosos ou menos conhecidos, aquelas que convocam cada um de nós, em nossa própria história, à leitura dessa obra.

 

Ao adentrar no universo de Green, Talya se propôs a um duplo objetivo, "por um lado fazer trabalhar as suas questões clínicas/teóricas e por outro decifrar e apresentar ao leitor interessado o pensamento de um autor que permanece pouco traduzido no Brasil" (p. 17). Afinada com as construções desse autor sobre o "pensamento clínico", percebeu-se também inevitavelmente implicada em seu próprio percurso psicanalítico, no qual as inquietações sobre sua identidade enquanto psicanalista e a sua escuta, comportando uma importante carga de sofrimento, tornaram-se também matéria-prima para a elaboração de seu texto:

 

minhas construções teóricas surgiram como resposta a este sofrimento, resposta possível, mas sempre temporária, resposta pela qual as minhas experiências e angústias se expressavam e se articulavam com as do autor com o qual estava envolvida tanto intelectualmente. como afetivamente. [...] ao longo do trabalho de escrita, minhas inquietações puderam em alguns momentos abrir espaço para o prazer de ver o meu texto tomar forma e vida (p. 300).

 

Desse processo, emerge um texto que analisa, desenvolve e descreve os elementos fundamentais do projeto teórico-clínico proposto por Green, o modelo do aparelho psíquico por ele apresentado, as vantagens e implicações técnicas desse modelo. Um texto inspirado e elaborado a partir de dois paradigmas epistemológicos utilizados por ele para construir suas ideias, o Pensar com a história e o Pensamento clínico.

 

Assim, em um primeiro capítulo, Talya Candi analisa a maneira como ele pensa com a História da psicanálise, apresentando as principais interlocuções greenianas. Ela focaliza as mais importantes, Melanie Klein, Wilfred Bion, Donald Winnicott e Jacques Lacan, que alimentaram o pensamento de Green dando contorno ao seu próprio desenvolvimento conceitual. Cada um desses autores permitiu a ele revisitar e ampliar os conceitos freudianos a partir de um movimento dialético iniciado na reflexão e nas implicações clínicas das propostas de cada um. A partir de Klein, Green se debruça sobre o enigma da pulsão de morte, desenvolvendo-o a ponto de destacar o papel da destrutividade como elemento central da gênese do aparelho psíquico e da clínica dos casos-limite. Bion permitiu a ele aprofundar a compreensão dos processos de pensamento, a função da ausência, da revêrie implicados em tais dinâmicas, enquanto Winnicott contribuiu com o paradigma do brincar para superar os impasses da clínica psicanalítica dos casos difíceis, com as noções de ilusão, de espaço potencial e de espaço transicional que vieram a se constituir como pontos-chave para a sua teorização. Por fim, é no embate com Lacan em torno da noção de Sujeito, da falta e da ideia do inconsciente estruturado como linguagem que Green desenvolveu suas concepções sobre o afeto e, ampliando o que já elaborara a partir dos outros três, sobre a função da ausência na estruturação do psiquismo e do dispositivo psicanalítico.

 

No segundo capítulo, a autora revela como ele vive, pensa e constrói sua teoria a partir da experiência clínica. Nele são discutidas mais especificamente questões relativas à clínica psicanalítica e a seu método, aos impasses e desafios encontrados diante das configurações subjetivas da não neurose, as funções do enquadre, do silêncio, do ato, da transferência e da contratransferência, destacando o conceito do duplo limite como paradigma constituinte do aparelho psíquico e operador clínico precioso para a superação de tais impasses.

 

Através da análise cuidadosa dos principais textos de Green, Talya aponta para a busca permanente do autor por um "pensamento clínico" capaz de ultrapassar os impasses provocados pela fragmentação produzida pelas diferentes correntes pós-freudianas. "Pensamento clínico" que se constitui como uma modalidade específica de elaboração, surgida a partir da experiência com o inconsciente, capaz de superar a dicotomia teoria-clínica. Nesse processo destaca-se a importância do outro, do terceiro, do leitor, do ouvinte, e, mesmo, do paciente, a um só tempo destinatários, avalistas e agentes de reconhecimento de tal pensamento. Nascido na relação transferência-contratransferência, esse pensamento associativo configura a experiência clínica do autor. Passando pelo caminho da escrita, este se vê confrontado a um terceiro, o leitor; ecoando na experiência clínica deste, promovendo associações e desenvolvendo a imaginação clínica. É a esse lugar de terceiros, que Talya nos convoca para a leitura de Green, mas certamente, também, para a de seu próprio livro:

 

Assim nós, enquanto leitores de sua obra, podemos também, ao nos reconhecer na sua escrita, nos apropriar dos conceitos e das ideias e dialogar com ele, promovendo assim o processo de transformação que faz com que a prática se mantenha viva. (p. 32).

 

Dessa posição, podemos contemplar com Talya Candi a gênese e o desenvolvimento de conceitos criados por Green, muitos consagrados pela psicanálise contemporânea: a função da destrutividade, do "mal" e o papel do objeto; a função do negativo e o trabalho por ele engendrado, os processos terciários, a terceira tópica; os narcisismos de vida e de morte, as contribuições originais de Green sobre as relações entre o afeto, a representação e a linguagem; o complexo da mãe morta, a psicose branca, a "morte em vida" e a "desertificação psíquica"; o duplo, a alucinação negativa e a matriz dos processos de pensamento; as funções objetalizantes e desobjetalizantes, os processos terciários e o pensamento clínico, a posição fóbica central, a articulação entre a função materna e a função do enquadre analítico, a cobertura psíquica e outros.

 

Como psicanalista, Green era um poeta dos conceitos.

 

Foi principalmente a partir da clínica com psicóticos e pacientes limites que Green se viu convocado para conceber a maior parte deles. Nela revelou-se o lugar central da pulsão de morte e da destrutividade nas organizações-limite. Uma destrutividade oriunda do excesso, da urgência pulsional não atendida, do embate entre as forças de vida e de morte, do desligamento, do desinvestimento, da desubjetivação, da desobjetalização. Um excesso impossível de ser organizado devido a falhas na constituição das experiências de ausência, de continência, de separação e de abandono que resultam na dificuldade no estabelecimento e preservação de relações. O contato clínico com essas experiências permitiu a ele compreender o excesso como uma dinâmica fundante do psiquismo. O trabalho psíquico, o pensamento, a simbolização organizam-se, desde os primeiros tempos de vida, como tentativas de lidar, conter e organizar esses excessos.

 

Da mesma forma, a partir das dificuldades clínicas do analista diante dessas patologias-limite Green percebeu a necessidade de ampliar a metapsicologia freudiana transformando a noção de limite em conceito. Um limite inicialmente vivido em sua dimensão corporal, que pode ser compreendido como uma metáfora do envelope cutâneo que separa o interior e o exterior do corpo. Um conceito, uma experiência, que remete às noções de Bion de espaço psíquico e de continente. Na intersecção desse limite que revelou-se duplo, no cruzamento entre um eixo interno de trabalho intrapsíquico e outro de trabalho intersubjetivo, surge a atividade de pensamento. Segundo Green, o campo psíquico possui dois limites de natureza diferente, o ato e o soma. Além e aquém do psíquico, encontram-se os domínios do irrepresentável, que se concentram em dois polos opostos, um externo e outro interno (soma e Real), reino da experiência do vazio.

 

Talya revela ainda como, graças a Winnicott, Green compreendeu e ampliou a importância das dinâmicas da transicionalidade no estabelecimento e organização dos limites, dinâmicas capazes de criar objetos, espaços, limites metafóricos, lugares potenciais da "reunião do que estava separado e de separação do que estava reunido" (p. 111). Nas patologias borderline, observa-se um não estabelecimento das fronteiras que teriam como tarefa fundamental conter os excessos, permitir a passagem entre o dentro e o fora, entre o consciente e o inconsciente, organizar a experiência da destrutividade. Nessas condições, características do colapso da transicionalidade, instala-se a lógica da desesperança (quando não existe espaço interno para alucinar o prazer e organizar os excessos pulsionais), a ausência prolongada demais é vivida pelos pacientes-limite como angústia de abandono, a presença próxima demais é sentida como angústia de intrusividade (ou de claustrofobia). A carência representativa se manifesta por meio de sensações de vazio, marasmo, passividade, destrutividade, masoquismo, narcisismo primitivo, depressão sem afeto, falta de fantasias. A elaboração psíquica fica comprometida e as vias mais curtas de descarga (a passagem ao ato ou às somatizações) acabam por se manifestar como os únicos recursos de comunicação.

 

Essas condições caracterizam os limites do analisável. Os estados-limite, encontrando-se no limite entre a neurose e a psicose, e, mesmo, aquém dessas organizações, marcados pelo vazio, pelo irrepresentável e pela desorganização pulsional, não conseguem utilizar a técnica associativa e não encontram no enquadre psicanalítico clássico as condições para sua organização e transformação.

 

Talya destaca que os pacientes-limite desafiam o analista, exacerbando a angústia na contratransferência. No corpo a corpo transferencial com esses pacientes, o analista constata a predominância de uma relação de persecutoriedade intensa do paciente que, quando dissipada, dá lugar a um vazio que desperta intensas angústias de abandono. Dinâmicas primitivas e desorganizadas que solicitam uma outra posição do analista:

 

Nestes casos, em que a terceiridade não conseguiu implantar-se, trata-se mais de encontrar o objeto do que de reencontrá-lo, mais de estabelecer um primeiro vínculo satisfatório do que de ter que renunciar a ele. O fundamento da compulsão à repetição estaria na espera de um primeiro objeto, que permaneceu em suspenso; o circuito pulsional estaria girando em falso à espera de uma presença/ausência que possa de alguma maneira interromper um círculo vicioso onde o vazio se reproduz indefinidamente (p. 148).

 

Dessa outra posição, a resposta do analista ao funcionamento mental não neurótico, marcado pela lógica da desesperança, não consiste em reassegurar o paciente, apresentando-lhe a perspectiva de uma esperança possível, nem em se deixar levar pelo desespero do paciente. A função do analista é sobreviver ao ódio e à destrutividade do paciente e colocar à disposição dele representações e pensamentos do que se passa no universo mental do paciente, o que, para Green, "é a maior prova de amor que pode ser dada ao paciente" (p. 60).

 

Cabe ao enquadre sustentar a possibilidade desse amor. "É o enquadre que representa o holding e os cuidados maternos, mas por ser delimitado no tempo e no espaço, ele sempre inclui um terceiro ou o outro do outro" (p. 228). Cabe à palavra viabilizar e promover aquele amor. É ela que, por meio do enquadre, reproduz jogo entre as relações de afeto sensoriais e as representações entre o aparelho pulsional e o aparelho de linguagem, de forma semelhante àquelas geralmente vividas nos primeiros tempos de vida, condição de fundação do psiquismo. Cabe ao duplo limite ser o avalista do amor. É ele que se constitui como o envelope psíquico que permite o jogo elaborativo ligado aos processos terciários, desenvolvimento de Green a partir da área intermediária concebida por Winnicott, onde ocorrem os processos de criação e se configura a área de ilusão. A partir da ilusão, um dos fundamentos da função objetalizante, consolidam-se e se ampliam o mundo psíquico e o mundo objetal e as condições da economia (investimento significativo) do processo de simbolização (p. 126).

 

Todo processo psicanalítico clássico de uma neurose pode, em algum momento, desorganizar-se e desafiar o trabalho do analista, tornando-se limite. A necessidade de ampliação das concepções clínicas para o trabalho no campo das não neuroses, uma outra organização do enquadre, das interpretações, do silêncio, uma outra compreensão das atuações somáticas, comportamentais e sobre o Real, permitiram também a Green redefinir o trabalho da transferência e, em especial, a noção de contratransferência. O analista é convocado a um grande esforço para preencher o vazio, para "desenhar imagens que correspondem à vida mental do paciente" (p. 227). Nesse trabalho, a contratransferência passa a ser compreendida por ele como uma vivência que inclui todo o funcionamento mental do analista, sendo "influenciada, não apenas pelo material do paciente, mas também por suas leituras ou suas discussões com seus colegas"[1].

 

O duplo limite... fascina e surpreende o leitor até suas últimas páginas. Nelas Talya nos oferece ainda, generosamente, a oportunidade de mergulhar ainda mais profundamente no espírito e na obra de André Green, ao nos apresentar uma biografia resumida do psicanalista e referências bibliográficas de sua obra. Através de cenas da infância, da formação, da história e da participação de Green no movimento psicanalítico francês e mundial, podemos vislumbrar o pano de fundo pessoal, social e institucional no qual a obra de Green foi concebida, gestada e cultivada. Ali, encontramos os traços da depressão materna, da doença, do encontro precoce com a morte, do desamparo, da insegurança, de questões de identidade e de pertinência, ausências, separações, germes de muitos dos conceitos por ele criados.

 

Talya Candi conclui com uma questão crucial: "por que e quando uma obra, um autor, exige [um] trabalho perlaborativo junto a seus leitores?" (p. 302). Segundo ela, a densidade ontológica de algumas obras pode ser considerada um excesso de pensamento com relação ao que está explicitamente sendo trabalhado pelo autor. É nessa condição de excesso, potencialmente traumático para o leitor, que uma obra convoca a perlaboração e suscita novos discursos. Ela destaca na obra de Green essa qualidade traumática-perlaborativa que a consagra como uma grande obra de pensamento. No contato com essa obra, Talya deixou-se seduzir, capturar, sofreu, confundiu-se e conseguiu transformar-se a partir de tais excessos. Criou sua própria obra. Cativante.

 

Transferências...


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