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Resumo
Este ensaio desenvolve o argumento de que a adolescência funciona, na contemporaneidade, como objeto sublime ou espectro (Zizek) nas várias composições sociais de que participa: ora é ponto de amarração de realidades sociais desiguais e fragmentadas, ora, inversamente, é um excesso que inquieta e denuncia as dissonâncias de cada contexto. A escuta do sujeito adolescente, em sua singularidade, permite a investigação dos restos não simbolizados na cena social.


Palavras-chave
dolescência; crise; modernidade, ideologia; clínica.


Autor(es)
Tiago Corbisier Matheus
é psicanalista e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Graduado em Psicologia pela PUC/SP, em Filosofia pela USP e doutor em Psicologia Social pela PUC/SP. Exerce também a atividade docente na FGV e no CEP. É autor dos livros "Ideais na Adolescência: falta (d)e perspectivas na virada do século", publicado pela Annablume/FAPESP, em 2002 e "Adolescência: história e política do conceito na psicanálise", pela Casa do Psicólogo, em 2007.


Notas

1 A apresentação oral deste artigo foi feita no vi Encontro de Psicanálise realizado em novembro de 2008 em Goiânia.

2 Entende-se modernidade num sentido amplo, como fundamento do modo de organização social que passou a vigorar após o período feudal e não terminou com a contemporaneidade: “a modernidade não é a sociedade ocidental em nenhuma de suas fases particulares. Ela é o princípio da sociedade ocidental como tal” – K. Kumar, Dicionário do pensamento social do século xx, p. 474. A contemporaneidade, por sua vez, é aqui citada a fim de localizar a última etapa da modernidade, período que se deu após a Revolução Francesa de 1789.

3 Para um detalhamento desses usos, ver T. C. Matheus, Adolescência: história e política do conceito em psicanálise, p. 17-44.

4 A periodização das idades da vida ocorre desde o século xviii e se consolida no xix, em função da escolarização, da primeira comunhão e do serviço militar, experiências que acompanham o fortalecimento de instituições como a Escola e o Exército, particularmente, no contexto europeu – ver J.-C. Caron, Os jovens na escola; e S. Lorica, A experiência militar. Atualmente tem sido bastante discutido o prolongamento da adolescência, fenômeno que acompanha a gradual quebra das separações entre as diferentes etapas de vida, que tem ocorrido nas sociedades contemporâneas.

5 Sobre o individualismo como valor absoluto, ver M. Foucault, História da sexualidade, v. 3, p. 47-50.

6 Em sociedades relacionais como a brasileira, o ideário do indivíduo moderno foi importado e adaptado conforme os dispositivos societários aqui vigentes. Por um lado, a passagem adolescente marcava o desafio de cada um se inserir numa rede de relações rigidamente hierarquizada, passando a participar de um jogo desigual de forças; por outro, o anonimato da condição urbana, bem como o próprio incremento da economia capitalista deram espaço para a apropriação do ideário individualizante que se propagava nas diferentes partes do globo – ver T. C. Matheus, op. cit., p. 111-112.

7 S. Zizek, El sublime objeto de la ideología, p. 76. Grifo meu.

8 Para uma discussão mais extensa sobre ideologia, ver T. C. Matheus, op. cit., cap. I.

9 Ver J. Lacan, O seminário, livro 11, p. 59-61.

10 S. Zizek, op. cit., p. 53.

11 S. Zizek, op. cit., p. 53.

12 Ver T. C. Matheus, op. cit., p. 56-59.

13 S. Zizek, Um mapa da ideologia, p. 26. O autor usa como exemplo a figura do judeu, vista de modo ambivalente como alguém ardiloso, mas esperto, ambicioso e avaro. O incômodo produzido se deve exatamente pela sobreposição, numa mesma imagem, de atributos antagônicos e, supostamente, incompatíveis.

14 S. Zizek, El sublime objeto, p. 35.

15 Deste prisma, a adolescência está associada a um período de circulação social e experimentação suscitado pelo prolongamento da formação escolar e acadêmica, que não deixou de instaurar uma referência de comportamento para todos aqueles que de algum modo se identificam com essa condição social (mesmo os que não estudam). Para uma discussão mais detalhada sobre a visão sociológica da juventude, ver C. Attias-Donfut, “Jeunesse et conjugaison des temps”, e F. Dubet, “De jeunesse et des sociologies”.

16 Ver T. C. Matheus, “Quando a adolescência não depende da puberdade”.

17 Conforme Freud já alertava no texto El malestar en la cultura.

18 Ver T. C. Matheus, Ideais na adolescência. A condição estrangeira incide para cada um, conforme os recursos sociais, familiares e psíquicos que cada um possui. Se a exclusão social pode intensificar a experiência estrangeira do sujeito adolescente, os mais favorecidos na distribuição de recursos socioeconômicos não deixam de ser ameaçados pela impossibilidade de garantir a posição privilegiada na qual seu grupo social se encontra, além dos registros de desamparo que a experiência singular de cada um pode trazer. Sobre esse aspecto, ver T. C. Matheus, Adolescência, p. 314-315.



Referências bibliográficas

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Dubet F. (1996). De jeunesse et des sociologies. Sociologie et Sociétés, vol. xxviii, n. 1. Montreal, Presses de L’Université, p. 23-35.

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Zizek S. (1996). Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto.

_____. (2005). El sublime objeto de la ideologia. Buenos Aires: Siglo xxi.





Abstract
This essay develops the argument that in our times adolescence functions as a sublime object or spectrum (Zizek) in the several social compositions in which it appears. It is the point of fastening for unequal and fragmented social realities, then, inversely, it is an excess that disturbs and denounces the dissonances of each context. Listening to the adolescent subject, in his/her singularity, allows the investigation some non-symbolized remnants in the social scene.


Keywords
adolescence; crisis; modernity; ideology; clinic.

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 TEXTO

Entre o excesso e a insuficiência:

sobre o lugar do adolescente na contemporaneidade [1]


Between excess and shortage
Tiago Corbisier Matheus

A adolescência como fundamento do ideário da modernidade

A adolescência, em sua versão atual, aparece como uma experiência singular e turbulenta, passagem que cada sujeito busca realizar entre o universo infantil, mais ou menos preservado pela instituição familiar ou seus substitutos, e o dito mundo adulto, pautado por complexas redes de laços desiguais, tal como se encontram nas heterogêneas sociedades do mundo contemporâneo. Essa passagem nunca é feita de modo pleno e definitivo e está diretamente atrelada ao modo de organização social que se estabeleceu na modernidade [2], a partir do advento do capitalismo, quando o ideário do indivíduo passou a imperar.

Adolescência é um termo usado desde os primórdios da sociedade judaico-cristã para marcar, de modo geral, uma passagem entre a infância e a vida adulta, conforme o sentido que cada uma dessas idades adquiriu e o contexto histórico específico [3]. Foi na modernidade que ganhou os contornos atuais, sendo associada à ideia de crise subjetiva, experiência necessária e inevitável, de início decorrente de uma clara separação das etapas de vida anterior e posterior, configurando assim universos próprios a cada uma delas, com regras e hábitos específicos [4]. Se nas sociedades de tradição comunitária ou sem tradição escrita a passagem do mundo infantil ao adulto se dava por meio de rituais de passagem coletivamente estabelecidos e legitimados, na modernidade, tais dispositivos perderam a força, delegando a cada indivíduo a responsabilidade por sua realização.

Isso ocorreu porque os laços de convívio em comunidade se fragilizaram e as redes de relações socioeconômicas tornaram-se cada vez mais complexas e abrangentes, nas diferentes sociedades contemporâneas. Este processo – que, aliás, culminou no advento da chamada globalização – encontrou na noção de indivíduo seu pilar de sustentação; este ganhou o estatuto de valor absoluto, fazendo de cada um, um fim em si mesmo [5]. Tal resultado se justifica pelo fato de a condição unitária do ser humano ter oferecido a flexibilidade necessária aos novos arranjos sociais, pautados na modernidade, conforme a lógica do capital. A capacidade de autodeterminação desse indivíduo deu legitimidade à nova ordem, na medida em que os atos de cada um, direta ou indiretamente, portavam a racionalidade necessária para validar cada etapa das cadeias produtiva e de consumo.

Além disso, o ideário da Ilustração, centrado na noção de indivíduo moderno, portador da racionalidade responsável por sua capacidade de autodeterminação, coloca o homem numa posição privilegiada no universo em que habita. Instaura-se assim uma nova ordem, não mais estruturada em torno de uma lei divina, transcendental, pois desloca para o próprio homem a responsabilidade por sua condição, conforme sua capacidade de fazer uso da razão e produzir o saber que passa a ocupar o lugar da verdade – a ciência. De modo que a tensão que antes permeava a relação do homem com a ordem divina foi deslocada para a relação deste consigo mesmo, criando condições para a instauração de um universo humano subjetivo e intimista, no qual os conflitos de cada um tendiam a ser tomados numa perspectiva individualizada [6].

Logo, a experiência da adolescência, na versão de crise subjetiva, tornou-se uma decorrência e um recurso necessário à formação do homem moderno. É a condição imposta ao sujeito adolescente para alcançar o almejado estatuto de indivíduo, na expectativa de ser reconhecido como semelhante pelos membros das gerações precedentes. É quando cada um experimenta em sua intimidade, ou em meio aos personagens que o rodeiam, conflitos e tensões que não encontram referências simbólicas que lhe permitam construir um sentido para sua experiência. As inquietações sexuais, narcísicas e enigmáticas que surgem, neste momento, decorrem não apenas da emergência da imagem do próprio corpo que lhe parece estranha, a partir do olhar do outro que o denuncia como diferente. Decorrem, também, do confronto com as fissuras do corpo social no qual busca se inserir, que se mostra desigual e excludente, tal como tem sido nas diferentes sociedades atuais, que não deixam de estar implicadas aos ditames do capitalismo e sua estrutura global. As inquietações que cada sujeito experimenta pedem inscrição simbólica e o convocam, conforme os recursos de que dispõe e que a cultura lhe oferece, a produzir seus próprios significantes, ressignificando os existentes. Configura-se assim, paradoxalmente, um ritual de passagem anônimo e singular, no qual é delegada a cada um a responsabilidade por sua inscrição no corpo social.

O lugar do adolescente na realidade contemporânea e a ideologia da modernidade

Essas considerações permitiram descrever em grandes linhas as determinações de contexto que resultaram na experiência da adolescência em sua versão contemporânea. Talvez isso já bastasse para localizar as versões singulares de tantos discursos adolescentes. No entanto, as sociedades contemporâneas ganharam ultimamente contornos específicos, pois, se em vários aspectos muitas sociedades do globo pouco se modificaram – como é o caso da desigualdade social –, o modo como tais aspectos se fundamentam ganhou complexidade. Isso pode ser visto a partir da dimensão que o espaço virtual conquistou em diferentes culturas, tornando-se mesmo uma realidade com efeitos diretos sobre a experiência de vida de sujeitos e seus discursos. Em função disso, tornou-se fecundo, a partir de Zizek, lançar mão de um conceito que, em consonância ao destaque dado à fantasia na economia psíquica – em função da qual cada sujeito organiza imaginária e simbolicamente sua realidade psíquica – permite pensar a realidade em sua vertente coletiva e socialmente construída, frente à qual cada sujeito se posiciona, cada um a seu modo. Trata-se da noção de ideologia, não como falsa consciência, como tantos a entenderam, pois

não é uma ilusão de tipo onírico que construímos para escapar à realidade insuportável; em sua dimensão básica, é uma construção de fantasia que serve de esteio à nossa própria realidade: uma “ilusão” que estrutura nossas relações sociais reais e efetivas e, com isso, mascara um insuportável núcleo real impossível… [7]

A ideologia, de modo semelhante ao que representa a fantasia na dinâmica psíquica, é uma construção que permite a sustentação da realidade compartilhada, estruturando as relações sociais reais e efetivas. É a ilusão necessária ao funcionamento do sistema, na medida em que torna possível suportar as fissuras e dissonâncias do tecido social, que ficam ocultas sob o véu de uma imagem harmônica e totalizante da sociedade. Nos termos de Lacan, é a ilusão que faz do Outro da cena social algo pleno, encerrado em si mesmo, como se ele também não estivesse remetido a um outro Outro. Se no estádio do espelho a imagem de completude que a criança vê diante de si possui um estatuto estruturante, mesmo sendo imaginária, a ideologia, de modo análogo, sustenta uma alienação compartilhada que estabelece a realidade social, a partir da qual cada sujeito se posiciona e se organiza [8].

A realidade compreende, então, um momento de alienação. Esta ideia pode ser retomada a partir do sonho do filho morto, descrito por Freud, na Interpretação dos sonhos; o pai, abalado pela perda do filho e esgotado pela vigília que se estendia, tentava descansar, enquanto o corpo era velado por um velho na sala ao lado. Ele sonha, então, com o chamado do filho que, em brasas, pergunta: pai, não vês que estou queimando? O pai acorda em sobressalto, aturdido com o remorso de ter delegado a função a outrem, que não foi capaz de evitar que a vela caísse e queimasse o braço do filho. A vida em vigília interrompe o pesadelo, o horror de confrontar-se com o real de suas angústias, oferecendo-lhe uma realidade alienada, mas suportável [9].

A realidade social, tal como a vida em vigília, supõe a alienação de cada sujeito frente às fissuras e incongruências do tecido social, a fim de abafar o mal-estar inevitável. Dissonâncias são amortecidas por meio de conteúdos que vêm preencher as cisões do tecido social e abafar as tensões que nele pulsam. São os elementos (pessoas, conceitos, significantes) que, ao ocuparem tal posição, passam a portar um sobreinvestimento que multiplica seu potencial significante no cenário social, transformando-os em objetos que conquistam uma “corporeidade imaterial” – são os objetos sublimes, diz Zizek. O exemplo privilegiado é o dinheiro: a fragilidade de sua dimensão material – apenas papel, apenas uma inscrição numérica – se contrapõe à potência simbólica que adquiriu nas diferentes sociedades, com o advento do capitalismo [10]. Seguindo as pistas deixadas por Lacan de que Marx inventou o sintoma, Zizek argumenta que os objetos sublimes são alvo de um investimento pulsional no campo simbólico da modernidade – um mais gozar – tal como ocorre com o dinheiro, na mais valia que este porta. São objetos animados ou inanimados que adquirem uma corporeidade imaterial e são tomados como substância imutável, rompendo com a perenidade temporal do universo mundano [11].

O exemplo do dinheiro é significativo, pois sugere como a realidade social, na modernidade, não pode ser entendida senão a partir da função do dinheiro e da transcendência significante por ele adquirida: ele é o principal organizador das complexas redes de relações socioeconômicas estabelecidas entre os homens, é tomado como motivo de vida e de morte, sendo que ele próprio não é nada em si, nada além da representação simbólica daquilo que adquiriu valor entre os homens (valor de troca). Ao permitir (supostamente) a quantificação de vários arranjos humanos, o dinheiro funciona como mediador das tensões que subsistem em cada corpo social, abafandolhes seu potencial de ruptura.

O dinheiro, na condição de objeto sublime, serve como ponto de amarração (ponto de estofo) dos significantes na modernidade, velando o insuportável, evitando o confronto com o real que resta como não simbolizado em cada cultura, ou seja, o que nela foi recalcado ou foracluído. Este resto não deixa de ser, em última instância, as tensões das desiguais relações humanas, as relações de dominação e servidão que tornam impossível qualquer quantificação financeira das mercadorias produzidas e negociadas pelos homens. Em termos econômicos, trata-se da mais-valia de cada produto, este valor a mais responsável pelo chamado fetichismo da mercadoria, mecanismo a partir do qual é deslocado para os objetos algo que diz respeito ao humano [12].

Mas toda amarração falha em sua função de velamento. Há um excesso inevitável, um resto que retorna (o núcleo real impossível citado anteriormente) e produz vertigem, por exemplo, quando surgem imagens que não chegam a conquistar inscrição simbólica plena, permanecendo numa dimensão pré-simbólica. Essas imagens emergem como espectros, que operam como protuberâncias da totalidade ideológica, preenchendo de modo disforme as fissuras da realidade; são figuras que irrompem como dissonâncias que destoam no cenário previsto, provocando inquietação pela estranheza que provocam [13].

A hipótese aqui defendida é de que a figura do adolescente, nas heterogêneas organizações sociais da modernidade, oscila entre a posição de objeto sublime e a de espectro, conforme a configuração das injunções a que está submetido. Por vezes, o corpo adolescente é tomado como objeto passivo, a fim de se tornar objeto de culto e adoração. É quando, em meio a um cenário social inquietante, no qual o corpo social expõe suas fissuras, a imagem idealizada do adolescente se presta à negação destas, na medida em que se oferece como corpo pleno, coeso e harmônico. Neste momento, o imaginário se impõe às superfícies disponíveis e, ao cumprir esta função fálica de preenchimento da falta, o corpo adolescente é capturado como objeto inerte, coisificado, no jargão psicanalítico. Imobilizado em sua potência, tornase passível de culto, adquirindo assim um poder imanente que o distancia, imaginariamente, de sua condição humana e mortal. Não é um objeto para ser tocado, mas apenas adornado, performando um aprisionamento especular narcísico entre ele e aquele que o adorna, entre o sujeito implicado e o Outro ao qual este se remete. O sintoma exemplar, neste caso, é a anorexia, na qual o culto a uma imagem especular, deformada em seu ideal de perfeição, afasta o sujeito de sua condição mundana, quando, por exemplo, pretende dispensar os cuidados com sua sobrevivência alimentar, fraqueza característica de um ser finito.

Outras vezes, a imagem adolescente é o espectro. É quando não se encaixa na posição que lhe foi idealmente esculpida e sobra como protuberância incômoda em meio à pretensão ideológica totalizante da modernidade. Nesse momento, o corpo adolescente porta a estranheza de um antagonismo pautado por opostos incompatíveis: da fragilidade de sua ingenuidade ao vigor de sua efervescência, da beleza de corpos cultuados à provocação expressiva de piercings e tatuagens, que perfuram e profanam superfícies até então intocadas, o adolescente manifesta, em seu próprio corpo, as dissonâncias que irrompem na organização social capitalista, na modernidade. A imagem do adolescente personifica, concomitantemente, a representação de um futuro promissor e adverso, idealizado e cético, conforme a provocação onírica e traumática suscitada. A sobreposição de opostos num mesmo corpo produz vertigem, sobretudo, quando se pensa que dele se espera um objeto sublime, devidamente ajustado à plenitude ideológica que sustenta as realidades sociais da modernidade.

Seja como objeto sublime, seja como espectro, os corpos adolescentes sinalizam a dimensão concreta que a ideologia conquista. No primeiro caso, eles são a confluência de significantes privilegiados no universo simbólico da modernidade; no segundo, são o resto que escapa a este universo e ameaça sua ordem, em função da estranheza provocada. Em um ou outro caso, os corpos adolescentes carregam as histórias que os antecedem e os absorvem, bem como personificam a realidade da qual fazem parte, em seus arranjos e injunções. Experimentam em sua própria pele as marcas dos campos simbólicos dos quais participam, bem como os restos que neles não alcançam inscrição. Desta perspectiva, o universo adolescente configura um campo de pesquisa próprio, relevante não somente pela complexidade dos sujeitos envolvidos e desafios enfrentados na clínica a eles dedicada, mas, considerando que “a superfície… é… mais real que a própria realidade” [14] , seus corpos e seus discursos propiciam a investigação acerca da própria estrutura social, em suas engrenagens, suas amarrações significantes, seus conflitos e seus impasses. Não se trata, portanto, de investigar um conteúdo oculto, escondido sob a superfície do manifesto, mas de tomar a própria superfície do universo adolescente em sua positividade significante – no antagonismo que porta e na inquietação que produz – como provocadora da análise da própria organização social, questionando por que o latente adquiriu esta forma exagerada, nas fissuras do corpo social.

Fragmento clínico

Claudio é um rapaz de dezenove anos que, trajando roupas largas, bermuda e boné, chega ao consultório com o pedido de “voltar a ser como antes”, pois quer entender onde ocorreu o desvio de seu caminho, quando “perdeu o controle da situação”. Queixa-se de viver “situações difíceis” na faculdade, quando chega a experimentar uma sensação de nervosismo extremo, sua frio e se vê paralisado, sem reação. Vendo-se num impasse, consegue apenas ficar em silêncio e sair de cena, sorrateiramente. Para ele, é uma questão localizada, uma vez que, em suas saídas noturnas, se diz dono da situação: realiza um ritual marcado por cerveja e garotas, no qual costuma escolher um canto de onde analisa a situação, junto a seus colegas, parceiros de caça, a fim de escolher a presa da noite. A estratégia consiste em falar pouco, ouvir as brincadeiras e trocar olhares com as eleitas, para, no momento oportuno, fazer o convite à dança, lançando-se, então, ao centro do palco. Diz que suas poucas palavras fazem parte do tipo durão que procura ser, alguém que não se abala por ninguém, mas que, por isso mesmo, é objeto de suspiros e lamentos.

Fruto de uma relação esporádica da mãe, Claudio se ressente do silêncio que esta lhe impôs sobre seu pai biológico, no momento em que, ele ainda pequeno, ela veio a se casar novamente. O silêncio em relação a sua história fazia sombra à imagem daquele que lhe era apresentado como sendo seu “novo pai”, nomeação que deveria adotar a partir de então, segundo determinação da mãe. Consequentemente, a presença do novo pai vinha marcar a negação de sua história, a imposição a que foi submetido e a falta de lugar, no cenário familiar, para sua dor e seu luto.

Segundo seu relato, os pais enfrentavam dificuldades financeiras e lhe ofereciam o que podiam. O avô materno, por sua vez, logo se dispôs a contribuir com a formação do neto naquilo que os pais não podiam oferecer, na pretensão de compensar os percalços que seu descendente enfrentava em momento tão precoce. O avô era igualmente descrito como “um durão”, um homem de poucas palavras, que se fez por conta própria e que não gostava de prestar contas. Esperava do neto que pudesse ter a formação que não lhe fora possível e, para tanto, oferecia recursos necessários para que aquele se dedicasse exclusivamente aos estudos, disponibilizando inclusive um carro para sua locomoção e usufruto.

Na análise, chama a atenção a postura ambivalente de Claudio: por um lado defende a imagem de um durão reservado, sustentada por um projeto de autodeterminação e controle, reproduzindo máximas do senso comum; por outro, mantém viva sua disposição para tomar a palavra e ocupar o espaço que ali lhe é oferecido, deixando uma porta entreaberta para dúvidas em meio às certezas que buscava afirmar. Mostra-se particularmente preocupado quando se intensificam seus sintomas de imobilismo no espaço universitário, cenário onde se projetam as expectativas associadas ao avô. Porém, tão logo diminuem, o semblante de senhor de si ganha espaço. É nas entrelinhas de seu discurso que transparecem suas inquietações e seu calor.

O discurso de Claudio transita entre o excesso e a insuficiência, nas palavras, nos afetos e nos silêncios que carrega. Seu discurso de senhor de si reproduz a mesma dureza com a qual a mãe lhe impôs o silêncio sobre sua história, bem como a determinação de quem deve ser chamado de pai. O modo como descreve seus rituais de caça estereotipam as aproximações a que se permite, equivalendo possíveis objetos de desejo aos de consumos, aprisionado pela ameaça pulsional que os primeiros (objetos de desejo) possam representar. Assim como a mãe fez, trata-se de cortar o mal pela raiz, impondo uma nova ordem, pretensamente sua, na qual não teria que se submeter a nada. Frente ao abandono do companheiro, a mãe lhe impõe o silêncio; frente ao abandono que vive pelo luto de seu pai, ele impõe um padrão de aproximação, silencioso e ritualizado. Excesso de mulheres, de cerveja e de cálculo de sedução surge no anseio de calar qualquer desejo que venha pôr em xeque um percurso previamente determinado, qualquer lamento que venha a manchar sua cultuada imagem de potência, denunciando as lacunas de sua história.

O ritual instituído faz jus ao investimento do avô e confirma seu lugar de neto pródigo, aquele que seria capaz de aprimorar o modelo de reserva e autodeterminação herdado. O avô, por sua vez, ao procurar compensar as insuficiências da história de Claudio, a fim de que nada lhe falte, acaba por contribuir, conforme o discurso do neto, com o silêncio imposto pela mãe, evitando que as marcas da história deste último sejam reconhecidas e conquistem algum sentido. Logo, o investimento do avô torna-se também um excesso, na medida em que vem abafar as dificuldades dos pais de Claudio, evitando mais uma vez que este possa se confrontar com alguma falta. Além disso, o investimento do avô tenta compensar as próprias dificuldades de diálogo e interação entre ele e o neto, fazendo valer, também entre ambos, um diálogo de poucas palavras.

Em contrapartida, o sintoma experimentado por Claudio traduz o impasse no qual se encontra, sua falta de reação em meio a um arranjo familiar que oferece pouco espaço para qualquer lacuna ou insuficiência. Sua paralisia contradiz a previsão e o controle que almeja garantir, sobretudo, em seu habitat privilegiado, as baladas. A dúvida e a incerteza surgem de modo desproporcional e inusitado, como um descompasso em meio ao cenário que é o foco do investimento do avô, o meio universitário. É ali, no alvo dos investimentos do avô, que Claudio rateia, pondo em risco o projeto no qual foi eleito como protagonista. Se a opção universitária não é para ele uma imposição, por outro lado, a dúvida frente ao curso escolhido e as incertezas sobre sua conclusão pedem espaço de expressão.

A análise surge como uma brecha no velamento instaurado. É um lugar onde pode se manifestar, seja para reportar as máximas cultivadas, reproduzindo estereotipias herdadas, seja para fazer alguma concessão a estas e introduzir reticências e interrogações em seu discurso, o que lhe permite sair do imobilismo sintomático e desproporcional que experimenta. Foi também como concessão feita a si próprio que, a certa altura do trabalho, após ter persistido num caminho pautado pela aridez de sua solidão, conta que consentiu na invasão de seu espaço, permitindo- se ser tomado como objeto da paixão de alguém. Anuncia o acontecimento quase de passagem, fazendo uso da nostálgica expressão estou namorando, no mesmo dia em que fala da vontade de experimentar caminhar por sua própria conta. Não se tratava do encerramento ou suspensão da análise, como de início parecia anunciar, mas do fim de uma etapa, a partir da qual se permitiu experimentar o divã e iniciar suas sessões sem ter um tema previamente determinado. Anuncia-se assim numa nova etapa, com menos cálculo e controle, momento no qual vislumbra abrir mão de um excesso que reproduz, permitindo-se confrontar algumas de suas insuficiências.

Claudio vive em seu próprio corpo a estranheza da posição que ocupa. Na condição de garanhão caçador, apresenta-se como objeto intocado: não faz contato com aqueles que o rodeiam, apenas expõe sua imagem a ser admirada, permanecendo em sua toca, enclausurado num culto narcísico que visa provocar paixões a serem descartadas. Repete infinitamente este movimento que lhe permite, ilusoriamente, inverter uma equação na qual se viu exposto. Encena a posição daquele que é capaz de incitar a paixão no outro e, quando isto acontece, se distancia, na pretensão de sair do lugar de sujeito iludido e submetido à sedução alheia. Porém, logo se vê aprisionado num gozo estéril, não evitando a paralisia de uma vertigem incompreendida. Neste instante, seu corpo funciona como um objeto sublime, prestando-se à admiração dos demais, o que garante seu gozo narcísico, mas, contrariamente ao que pretendia em seu ritual, fica imobilizado ante a ameaça de que qualquer contato possa romper a completude da cultuada imagem especular.

É quando surge seu sintoma, que o surpreende pelo imobilismo imposto e o transbordamento das sensações que o invadem, obrigando-o a viver, novamente, a insuportável posição passiva que pretendia nunca mais experimentar. Seu sintoma eclode no palco onde é objeto de expectativas por parte de alguém que ele, Claudio, não pode negar ter um significativo enlace pulsional e, simplesmente, se distanciar. Vê-se paralisado ante a identificação que mantém com a figura do avô e do cego projeto que este lhe apresenta para seu futuro – faça uma universidade de ponta, realize-se profissionalmente e seja feliz, sem sofrer com casos amorosos. É aí que seu corpo o trai e denuncia a esterilidade da arapuca consumista que havia estabelecido, minando seu sonho de onipotência. Mas, também, coloca em risco o projeto idealizado pelo avô, criando uma resistência à função exercida de objeto de culto e adoração – como um objeto sublime. Seu sintoma, nesse sentido, é uma tentativa de romper com o narcisismo cego do projeto do avô, quando este pretende, em seu excesso (de dinheiro, que se mostra desigual frente aos recursos dos pais; e de expectativas, quando almeja uma realização sem infortúnios), negar as insuficiências da história do neto, tal como o desaparecimento do pai.

Considerações finais

Nas sociedades contemporâneas, o mal-estar na cultura tem sido visto como inevitável, quando se considera o bem público e a dimensão coletiva da condição humana, mas a ilusão de sua superação se mantém viva, quando se trata da dimensão individual de realidade humana. Cada indivíduo se assume, neste momento da modernidade, como um fim em si mesmo, permitindo-se um idílico projeto de realização pessoal e profissional, que sustenta a sobrecarga dos investimentos pulsionais dos sujeitos, cada qual em sua bolha particular, negando ou denegando a rede de laços em que está inserido. Além disso, a desproporção ou cisão entre os investimentos pulsionais (o próprio eu ou demais laços) torna o ser humano prisioneiro de um ideal de plenitude particular, na ilusão de que sua felicidade possa ser alcançada a despeito de seu entorno.

Consequentemente, o narcisismo sublinhado por Freud como traço inerente ao ser humano fica cerceado em sua possibilidade de deslocamento para configurações sociais mais amplas, restringindo-se a uma dimensão individualizada que pouco se expande para além das cercanias de cada um – como é o caso da família nuclear e suas variações. Dessa perspectiva, o sintoma de Claudio é expressão da insuficiência desse projeto individualizante, difundido na modernidade; em seu ideal de plenitude, é a resistência de um corpo adolescente a permanecer na posição idealizada e individualmente aprisionadora – de objeto sublime –, como se fosse capaz de cumprir solitariamente tanto as suas, quanto as expectativas de vários outros, como a de seu avô. O sintoma de Claudio é, também, a falência de uma estratégia de consumo narcísica e onipotente, que almeja dispensar o sujeito de viver os conflitos e as ambivalências das experiências afetivas que singularizam cada existência humana.

A condição adolescente de Claudio é composta por uma sobreposição: é um adolescente tanto do ponto de vista sociológico, quanto do ponto de vista psíquico. Da primeira perspectiva, Claudio vive uma fase da vida de passagem do universo de dependência familiar para o cenário social ampliado, podendo desfrutar da extensão de sua formação educacional [15]. Do ponto de vista psíquico, vive o segundo tempo da sexualidade humana, quando depara com a vertigem do olhar do Outro – que o faz experimentar a estranheza frente à própria imagem – e com as dissonâncias e contradições da realidade social na qual busca se inserir, que passa a enxergar ao se distanciar do véu familiar que supostamente lhe servia de anteparo [16].

É nessa sobreposição que este e tantos outros Claudios se prestam a ocupar um lugar destacado na modernidade, conforme cada contexto específico. Na perspectiva sociológica da adolescência, a imagem de um jovem de dezenove anos, com seu figurino apropriado, serve como receptáculo para as demandas e projeções das demais gerações, conforme os anseios e inquietações destas. Numa sociedade onde o ideal de felicidade é tomado como um imperativo categórico – seja feliz, plenamente e agora! – a imagem do jovem expia a angústia que cada sujeito vive frente à impossibilidade desse mandato. Na medida em que cada um não consegue atingir a felicidade plena [17], desloca a imposição superegoica a que está submetido para quem se mostra disponível no cenário social, como ocorre com os errantes adolescentes, em sua busca de inserção e reconhecimento social. Porém, se o ideal de felicidade plena permite aos dois lados da equação (adolescentes e demais gerações) um devaneio narcísico, na ilusão do cumprimento de um ideal impossível, paradoxalmente, tal realização igualmente implica a experiência do horror de que a alguém seja permitido o gozo proibido, tabu interditado.

Na medida em que os sujeitos adolescentes vivem uma condição estrangeira no campo social em que almejam conquistar reconhecimento e pertinência, em maior ou menor medida conforme sua posição no cenário social, eles se prestam a serem capturados pelas projeções das gerações precedentes, na complexa rede dos heterogêneos laços sociais [18]. Forma-se, então, para o sujeito adolescente, uma condição permeada por insuficiências e excessos. Por um lado, vive o vácuo produzido a partir da ruptura das referências infantis e da falta de recursos simbólicos, no meio social, capazes de traduzir a estranheza de seu momento. Por outro e, por isso mesmo, é invadido por um excesso de demandas fomentadas nos demais segmentos sociais: ora é tomado como um modelo de beleza e capacidade de ação, ficando aprisionado na condição de objeto sublime; ora é recriminado pelo perigo que representa, tornando-se uma imagem marginal, aquela que expia os conflitos e impasses que a sociedade como um todo enfrenta. A ambivalência dos excessos que se inscrevem em seu corpo faz do adolescente uma figura espectral, que inquieta e incomoda ao ser identificado como ponto de fissura de cada corpo social, ponto de incidência onde cada universo simbólico mostra sua incompletude e insuficiência na contemporaneidade.

Numa sociedade em que a lógica causal é via mestra, o jovem é insistentemente responsabilizado tanto pelo cumprimento dos ideais socialmente construídos – vocês são o futuro da sociedade – quanto por conflitos e impasses com os quais o corpo social se defronta, como é o caso da violência, por exemplo. Logo, as demandas que recaem sobre a figura do adolescente o colocam na posição de suposto agente causa da ação, invertendo imaginariamente a equação a que está submetido na rede de relações sociais. De uma posição de objeto, passivo na ação, que espera a oportunidade para ser reconhecido e supostamente legitimado como semelhante pelos demais adultos, é chamado à posição de suposto sujeito da ação, aquele que deve responder pelos efeitos da realidade, sem ter tido, propriamente, a oportunidade efetiva de nela interferir, a não ser à revelia dos demais.

Consequentemente, a posição do sujeito adolescente é semelhante à condição do personagem descrito por Kafka nO processo: K. é alvo de uma acusação cuja razão desconhece, sendo forçado a se submeter a uma lei arbitrária que se torna tanto mais poderosa na medida em que não encontra justificativa de sustentação; funciona como um imperativo categórico dado a priori. De modo análogo, o sujeito adolescente é convocado a pagar o preço por seu pedido de reconhecimento e pertinência, tornando-se cúmplice de suas incongruências e das arbitrariedades do tecido social do qual almeja participar. Convocado a conquistar a realização plena e imediata, torna-se prisioneiro de um mandato superegoico tirânico, que restringe a possibilidade de se confrontar com suas insuficiências e de poder transitar numa produção significante que venha dar sentido a sua incompletude. Assim, a arbitrariedade do mandato ao qual está submetido o coloca numa condição de alienação frente a suas próprias paixões, bem como às demandas a que responde na rede de laços a que se vê atado.

Cabe à psicanálise o difícil exercício da escuta das inquietações de cada sujeito que, em sua angústia anônima e solitária, não deixa de se remeter ao Outro da cena social e, neste último capítulo da modernidade, tem sido de modo recorrente percebido como pleno e final. Que a psicanálise faça escuta às inscrições sociais e políticas deste Outro e evite, assim, repetir a denegação destas, como ocorre, por exemplo, quando se restringe a questão adolescente a um efeito da eclosão do real pubertário, como se o real que invade o sujeito, nesta passagem, não compreendesse o resto não simbolizado de cada realidade social. Que a psicanálise faça jus ao legado de Freud e não evite transitar por quais veredas sejam necessárias, a fim de escutar o recalcado ou foracluído em cada sujeito, que insiste em buscar significação.

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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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