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ÍNDICE TEMÁTICO 
51
Destinos do Trauma Psíquico
ano XXVI - Dezembro 2013
231 páginas
capa: Vera Montagna
  
 

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Resumo
Meu objetivo neste artigo é abordar alguns aspectos da trama do inconsciente de pais e filhos na construção dos sintomas infantis. Tomo fragmentos de um caso clínico para trabalhar formas de intervenção nessa clínica com crianças.


Palavras-chave
Psicanálise; criança; sintomas infantis; transferência; escuta analítica.


Autor(es)
Eliane Berger Mantega

é psicanlista, membro dodepartamento de PSicanálise do Instituto Sedes Sapientiae; professora do curso "Conflito e Sintoma na Clínica Psicanalítica", deste Departamento.

 




Referências bibliográficas
Bleichmar S. (2005). Clínica psicanalítica e neogênese. São Paulo: Annablume.

Conte B. S. (org.) (2012). Jean Laplanche - fundamentos e intersecções. São Paulo: Scortecci.

Laplanche J. (1981). El Inconciente y El ello - Problemáticas IV. Buenos Aires: Amorrortu.

_____. (1992). Novos fundamentos para a Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes.

Sigal A. M. (2009). Escritos metapsicológicos e clínicos. São Paulo: Casa do Psicólogo.





Abstract
This paper focuses on some aspects of the unconscious web woven by parents and children, which leads to the construction of infantile symptoms. Fragments of a clinical case are used to reflect on the forms the analyst can use when working with children.


Keywords
Psychoanalysis; child; infantile symptoms; transference; analythic way of listening.

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 TEXTO

A visceralidade da clínica, reflexões

Reflections on the visceral character of clinical work
Eliane Berger Mantega

O que um analista que observa a complexa articulação inconsciente entre pais e filhos na construção dos sintomas infantis tem a dizer-fazer na clínica com crianças? Incluir os pais nesses trabalhos analíticos? Quando escutá-los? Como interpretá-los?


É na escuta da transferência que se abrem os caminhos para essas apostas clínicas. Apostas que intervêm em camadas de histórias, de músculos, de vísceras, de simbolizações e lacunas. Histórias de encontros e desencontros que estruturam o sujeito desejante.


Neste texto vou tomar fragmentos de um caso clínico para mostrar algumas possibilidades de intervenção.


Caso clínico
Começarei falando de Lívia, menina que inicia seu tratamento com seis anos.


Paula e Sergio, os pais de Lívia, quando me procuram se apresentam; em seguida, me parabenizam por um acontecimento de minha vida familiar.


Surpreendo-me e fico intrigada com esse tipo de aproximação que de início coloca em jogo a mim e a minha vida... Certo embaralhamento nas cartas se faz ali. Mais tarde pude entender o que se prenunciava. Iniciávamos assim, no "susto", uma longa conversa transferencial, sobre o lugar de cada um. Ter um lugar, cada um ter seu lugar, mas... a que distância? Qual a distância necessária para constituirmos um lugar para si?


E o "susto", esse estranhamento produzido em mim, logo no início do nosso encontro... a que outros estranhamentos nos levaria?


Paula e Sergio me procuram indicados pela escola. Lívia tem passado recreios solitários, parece ausente... A professora não sabe mais como ajudar. Isso já vem assim há dois anos. Em casa é muito dependente, sempre fez xixi na cama e há alguns meses começou a ter sintomas de tricotilomania, arrancando tufos de seus próprios cabelos.


Na escuta dessa queixa, o sintoma de tricotilomania me preocupa. Arrancar os cabelos, na primeira infância, é um sintoma que pode indicar um prognóstico mais grave. Um sinal se acende em mim, essa menina precisa de ajuda... Ela e quem mais?


Os pais contam que a gestação de Paula foi tumultuada pela doença de Rita, avó de Lívia, que morre 15 dias antes de Lívia nascer... Quando Lívia nasce, Paula está estranha. O bebê não dorme. "Em 15 dias perdi minha mãe e ganhei uma filha". "Não tinha muito leite, Lívia chorava da meia-noite às seis da manhã..." Paula não queria dar mamadeira... Por quê?... Lívia passou dois meses sem dormir, chorando todas as noites... Cansaço, desespero, exaustão! Sergio começa a falar do sono, da irritação, do despreparo, de como não conseguia sair do sufoco, não conseguia encontrar saídas para aquela grande aflição. Eles estavam exaustos e tristes com o susto que foi esse pós-parto tão diferente do esperado. Susto, estranhamento...


Lívia anda com um ano e meio, fala com dois anos e nessa idade, por indicação do ortodontista, tiram-lhe a chupeta e colocam, em sua boca, um aparelho ortodôntico. Ela urra por ter que dormir sem chupeta. Não consegue se tranquilizar com o aparelho, aquele corpo estranho, frio, em sua boca. Chora... Chora... mas sem escuta. De novo muitas noites sem dormir.


Aos 3,5 anos, faz um sintoma grave de ecoprese, não consegue evacuar, algum problema no trânsito intestinal, diz o médico.


Pesquisando a vida do casal, que trabalha de dia e há anos se reveza para dormir no quarto da filha, fomos descobrindo outras dificuldades de trânsito. Há muito tempo Paula e Sergio não se olhavam como casal. Os dois estavam referidos a suas vidas profissionais ou à filha. Tinham se perdido um do outro. O trânsito entre eles estava totalmente bloqueado... Silêncios... Solidão.


Numa entrevista ainda antes de receber Lívia, Paula fala mais dos buracos no cabelo da filha. Desde fevereiro, há um mês, ela vinha puxando o cabelo com mais intensidade, mas a partir do momento em que os pais lhe contam que viriam à análise, ela diminui a força do sintoma. Pergunta a eles se eu poderia ajudá-la a resolver o problema do xixi e, segundo eles, fica mais tranquila, mas ainda com dificuldades para dormir... Dormir.


Associando a essas dificuldades, Sergio conta sobre suas insônias e Paula fala de suas depressões. Lembra-se do pós-parto. Ela se sentia tão desamparada, perdida... Pensa que essa foi sua primeira depressão. Imaginava que passaria sozinha... Era uma estranha mistura de afetos, o luto, o alívio pela morte de sua mãe que nunca pôde cuidar dela, que estava muito doente, uma dor... um bebê... bebê? Estranho... passaria com o tempo. Três anos depois, o medo de sair de casa, uma síndrome do pânico, a deixa paralisada. É, em suas palavras, o horror! Resolve se tratar com antidepressivos e engorda 16 kg. Já não se reconhecia, se transformara em algo bizarro... Se sentia totalmente sem saída.


É nessa época que Lívia tem seu sintoma de ecoprese. O trânsito estava difícil para todos...


No encontro terapêutico com os pais, os buracos se deslocam do cabelo de Lívia. Esse estranho familiar da solidão, do desencontro e do desamparo começa a aparecer no casal parental. Faz-se um deslocamento de sentido. O casal tateia o vazio desse casamento, que os assusta tanto, medo de viver e medo de morrer. Paralisia.


Começo meu trabalho com Lívia, a partir desses primeiros deslocamentos de sentido produzidos por seus pais. Lívia já não está mais sozinha na articulação de seus transtornos infantis. Inspirada em Laplanche, penso que nesse espaço analítico, espaço pulsional por excelência, novas formas podem começar a se esboçar, já que, no jogo familiar, um primeiro reembaralhamento nas cartas está em andamento.


A proposta, para esta família, de um espaço de fala e de continência abre uma fresta, uma fissura. Para Laplanche, "analisar é fazer passar em algum lugar uma faca, e uma faca só se insinuará onde houver indicação de fissuras..." .


Mas nessas circunstâncias clínicas, alguns analistas poderiam preferir atender somente o casal parental, supondo que o sofrimento da criança tem suas origens nas lacunas de elaboração dos dilemas da sexualidade infantil desses adultos e que as modificações nesse campo seriam suficientes para liberar a criança de suas amarras.


Vale esclarecer que esse pressuposto nos levaria a pensar o sintoma infantil como efeito direto das dificuldades parentais. Trabalhar somente com o casal é uma consequência óbvia desse pressuposto. Mas essa escolha seria um equívoco.


Penso a criança como um sujeito em constituição, determinado por forças distintas que vêm do mundo adulto e daquilo que se cria na criança a partir do que vem do outro e do mundo.


Silvia Bleichmar mostrou que entre a estrutura edípica dos pais e as

vicissitudes pelas quais atravessa a história da criança, produzem-se fenômenos de transformação, traumatismo e metábola, que são os que contam na determinação causal do sintoma. Quando trabalhamos na recomposição das determinações patológicas de uma criança, [...] há que se levar isso muito em conta .

Transformação, traumatismo e metábola. Vamos nos deter nesse conjunto.


Para compreendermos a ideia de metábola postulada por Laplanche, vou usar um exemplo que aprendi quando estudei esse conceito: o fenômeno da refração da luz. Imaginem dois ambientes, o ar e a água. Agora introduzam um raio de luz incidindo sobre esses dois ambientes. O que acontece com a luz? Na refração, o ângulo de incidência da luz no ar é diferente do ângulo de incidência desse mesmo raio na água. O raio de luz muda sua angulação quando muda o ambiente. Com outra angulação o raio de luz já é outro.


A ideia de metábola implica a transformação que o ambiente-criança produz naquilo que vem dos pais. Como diz Laplanche,

O inconsciente da criança não é diretamente o discurso do outro, nem tampouco o desejo do outro... Entre o comportamento-discurso-desejo da mãe e a representação inconsciente do sujeito, não há continuidade nem tampouco pura e simples interiorização. O inconsciente... é o resultado de um estranho metabolismo que, como todo metabolismo, comporta decomposição e recomposição; e não é por acaso que falamos, aqui, frequentemente, de incorporação, porque a incorporação se assemelha a esse modelo metabólico, mais do que se pensa habitualmente .

Penso a criança como uma usina que decompõe, recompõe, transforma e assim produz seus mundos a partir dos mundos que os adultos lhe oferecem.


E que implicações isso traz à clínica?


Acredito, como nesse caso, que se trabalharmos com os pais e com a criança, em momentos determinados do tratamento, momentos em que a paralisia prevalece sobre o fluxo, como diz Ana Sigal , poderemos ter mais acesso à trama, muitas vezes enigmática, que sustenta os sintomas infantis.


Minha aposta é que, no trabalho analítico, a presença dos pais pode funcionar transformando enigmas dos quais os próprios pais ficaram estrangeiros, enigmas que, em transferência, podem ganhar novos sentidos que facilitem a circulação de afetos, gestos e significações e ajudem a liberar a criança de seus aprisionamentos.


Vejamos, no caso de Lívia, como os enigmas da sexualidade e da morte começam a se movimentar. Como a demanda se transforma e já vai liberando a criança do peso de sustentar, sozinha, as dificuldades de viver dessa família.

Combino com os pais de Lívia que já posso recebê-la.


Na primeira entrevista ela pede para entrar na sessão com sua mãe. Recebo as duas e a partir de minha pergunta sobre suas dificuldades, Lívia diz que naquele ano estava puxando os cabelos, que faz xixi na cama, que estava usando fraldas... Mas que no dia 5 de maio faria sete anos... Pergunto a ela sobre as fraldas... sete anos... Lívia faz um longo silêncio. Ao final diz que eram por causa do xixi na cama... e pergunta à mãe por que ela voltou a usar fraldas para dormir no ano passado. Paula se atrapalha. Tenta explicar que ela e o marido acharam que, com as fraldas à noite, Lívia dormiria melhor... Não acordaria no meio da noite molhada... e... também... a casa nova... a cama nova... o colchão novo...


Lívia percebe o constrangimento da mãe e sai em seu auxílio. Volta-se para mim tirando a mãe da berlinda, e me pergunta o que eu acho.


Respiro. O constrangimento circula. Responder? Como introduzir a importância da passagem do tempo, condição da vida, da sexuação e da morte, sem desautorizar seus pais... Lívia me diz que vai fazer sete anos. Como introduzir todos nós na processualidade das elaborações? Como introduzir o tempo para irmos saindo todos do susto e do abandono?


Digo que às vezes nós adultos nos enganamos. A mamãe e o papai dela acharam, por um tempo, que as fraldas seriam uma boa solução para o problema de dormir, mas perceberam que alguma coisa nessa decisão não estava suficiente... e me procuraram. Digo também que as fraldas não conseguiam resolver os problemas do sono e dos sonhos deles. Que talvez existissem outros jeitos para resolver essas questões. Quem sabe pudéssemos encontrar esses outros jeitos juntos.


Lívia escuta atentamente e resolve brincar com os bichinhos que estão à disposição na sala. Paula volta a falar do seu cansaço com o xixi na cama. Não quer colocar fraldas na filha, sabe que é um absurdo... Mas e o xixi? Ela se sente tão incompetente... O xixi sujaria a casa, estragaria o colchão, macularia esse projeto há tanto tempo sonhado por ela e pelo marido, a casa nova deles... Faz uma pausa e dessa vez é ela quem me pergunta o que eu acho.


Pergunto se não haveria outras coisas estragando esse sonho tão desejado... Outras coisas...


Paula, sagaz, interrompe suas queixas e escuta... A cadência da sessão muda. Algo entra em processamento. Ela observa Lívia jogar, se dá tempo para olhar essa menina tão misturada a ela, se dá tempo para olhar...


Lívia brinca de fazer os bichos brigarem... Os bichos rolam uns sobre os outros, gritam, riem, se mordem, riem... Digo à Lívia que aquela briga está parecendo bem divertida! Lívia se surpreende com a gostosura que tinha produzido naquele encontro animal. Rimos. Digo que há encontros que são gostosos... Lívia diz que queria, mas que não consegue ter encontros gostosos com seus colegas... que tem medo... que fica sozinha...


Paula olha o jogo com muita surpresa. Ela como mulher também ficou muito longe dessas gostosuras desde a morte de sua mãe/ nascimento de Lívia /depressões. Ela também tem medo do encontro, também ficou sozinha...


Olha-me. Diz se dar conta de que existem mesmo outras coisas, além do xixi de Lívia, atrapalhando os sonhos de cada um deles.


Fica claro que a estratégia-fraldas é ineficiente para a complexidade das angústias em jogo.


Sabemos que não é atrás das verdades objetivas que corremos numa análise. O que importa é saber se seremos capazes de dispor de uma escuta que ajude na metabolização e transformação desses enlaces enigmáticos que aprisionam pais e filhos que nos procuram. Penso que importa termos escuta e dispositivos que auxiliem a difícil digestão dos elementos traumáticos, que paralisam essas famílias. Dessa forma, nossas intervenções terão potência para produzirem transformações.


Em outra entrevista, Lívia entra novamente com sua mãe, senta e começa a falar dos medos. "O jogo de queimada é meu pesadelo", se sente péssima, fica paralisada, não consegue jogar, não consegue pegar na bola... Acha que a bola pode quebrá-la. Conta que tem medo de escuro e de dormir sozinha. Paula diz nesse momento que também tem medos. Também não gostava de bola quando pequena e morre de medo de... ficar sozinha.


Como num jogo de espelhos, as duas se reconhecem nas fragilidades. Mas Lívia não está paralisada. Ao final da entrevista, fala que quer continuar vindo às sessões, pois precisa de ajuda. Ela diz que não quer mais viver triste.


Lívia tem em suas mãos seu projeto terapêutico, projeto de cura. Ela quer aprender a jogar o jogo dos encontros, jogo que seus pais não estão conseguindo ajudá-la a jogar. A bola está em jogo...


Tenho em seguida uma entrevista com Paula e Sergio, onde fica evidente a necessidade de eles pais, também, serem escutados nesse espaço analítico. O que me dirige a essa escolha de enquadre é a percepção de que os níveis de mistura e indiscriminação nessa família eram grandes, e os sintomas infantis, preocupantes. Com a tricotilomania Lívia já estava chegando a seu limite. Não tínhamos tempo a perder! Combinamos que nos meses seguintes atenderia Lívia duas vezes na semana e eles quinzenalmente, às vezes separados, às vezes juntos.


A partir dessa proposta que valida a necessidade de cada um ter um lugar nesse campo transferencial, Lívia começa a pedir para entrar sozinha nas suas sessões. Oferecer um espaço para os pais, aqui, significou abrir um canal para o processo de descolamento e singularização de Lívia.


Alguns meses depois de iniciarmos o tratamento, Lívia para de arrancar seus cabelos.


Transformação, traumatismo e metábola. Lívia tem medo de não ter forças para viver, mas deseja sair dessa identificação com o sintoma de sua mãe, desse nó que seu pai, sozinho, não consegue ajudá-la a desatar.


Pinceladas do processo

Um tempo depois, Lívia vem à sessão muito triste. Desenha sua tristeza. Digo que naquela sessão a tristeza estava ocupando todo o espaço do seu papel. Ela trabalha bastante nessas inúmeras camadas de preto que a inundam... Ficamos olhando por bastante tempo aquele desenho... Nós duas, em silêncio. Eu pensava nesse preto-angústia - ausência de contornos-misturas... O silêncio nos envolvia e nos aproximava, cada uma com seus pensamentos.


Depois de muitas sessões contornando e desdobrando seus medos de existir separada de mim/mãe, Lívia pega um papel, começa a me olhar e desenhar. Pede para eu fazer uma pose... Pose? Ela desenha a mim. Transformação, traumatismo e metábola. O encontro lhe permite olhar para além das misturas... Faz um esboço de mim e um esboço de si. Observa as diferenças entre nós, que aparecem no desenho.


Lívia passa muitas sessões trabalhando esboços de formas... Esboços de si...
Transformação, traumatismo e metábola...
Um esboço de diferenciação está em andamento.


Gosto de pensar a análise como desdobramentos de linhas, tramas, desenhos que vão da repetição à diferença.


Alguns anos se passam. Lívia vai construindo novas formas de estar com os outros. Agora, mais discriminada, lembra intrigada do tempo do xixi na cama. Não consegue entender bem como ela se deixava fazer aquilo... Que força estranha era essa que fazia "isso" dela... nela... Se lembra aliviada desse passado recente-distante. Ela já é outra para si.


Começa a abrir novos espaços sociais. Já pode se pensar dormindo fora de sua casa, não gosta de esportes mas já pode brincar nos jogos coletivos, adora ler histórias e começa seu primeiro diário secreto, onde conta segredos que "não fala nem em análise..." Ela tem suas bordas, contornos.
Transformação, traumatismo e metábola.


Seus pais no decorrer do processo redescobrem a difícil práxis de falar e se escutar. O enquadre deixa aparecer a distância entre eles, construída a dois. Enfrentam encontros e desencontros, revisitam a história dessa relação, suas afinidades, cumplicidades... Onde ficou perdido o desejo? Que estranha construção os deixou tão sós?


O enfrentamento da tensão provocada pela falta de desejo num casal "jovem e saudável", como dizia Sergio, foi abrindo espaços. Lívia, em seu processo, descobre que seus monstros não são tão terríveis, eles não vão matá-la! Acha na sala de espera do meu consultório a coleção de livros infantis "Quem tem medo de..." Ri muito desses medos de criancinha...


Cada um tem um lugar, cada coisa em seu lugar. Lívia vai nomeando com humor... cabelo não é comida, colchão não é banheiro, bola não é bomba, vida é??????


Seus pais se perguntam, o que é a vida? O que fizeram de suas vidas? O que a vida fez deles? Como prosseguir? Eles, diferentemente de Lívia, não conseguem brincar com os medos, sofrem. O processo deles é mais árduo, triste. Mas se aliviam observando Lívia, ela está conseguindo viver melhor que antes... Como isso podia ser possível? Eles sofrendo tanto e ela prosseguindo...


Paula e Sergio se dão conta da diferença entre eles três; Lívia, na fantasia dos pais, já não é mais parte do casal... É o momento em que eles me pedem encaminhamentos para análises individuais. Um pouco mais tarde faço essas indicações e o trabalho com eles passa a ser esporádico.


Fim de análise
Perto de fazer 10 anos Lívia começa a falar de sua alta, ter alta... ser alta...
É um tempo em que em seu corpo de menina começam a aparecer transformações... Quer crescer com tempo, já pode se imaginar viva longe de mim, quer correr riscos.


Para Laplanche, o término de uma análise

...não pode significar a "dissolução da transferência", na medida em que esta é relação com o objeto enigmático... Pode apenas significar a transferência desse processo de transferência para um ou vários outros lugares, em uma ou várias outras relações. O único término concebível da psicanálise é, portanto, a "transferência da transferência" .

Lívia começa um grupo de expressão corporal para crianças. Vê-se desengonçada, mas quer se experimentar como garota... quer aprender a dar cambalhotas, esses jogos gostosos dos encontros consigo mesma. Pergunta-se se ainda dá tempo, se ainda há tempo de descobrir em si potências alegres não exploradas, brincar consigo, o prazer de descobrir-se na companhia de outros. Descobrir-se menina-moça.


Ela vai à professora de dança perguntar sobre o Tempo. Esta, esperta, diz que sempre há tempo para começar...


Ainda há tempo...


A bola está em jogo... E agora está com Lívia e com outros que a acompanharão.


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