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AUTOR


ÍNDICE TEMÁTICO 
51
Destinos do Trauma Psíquico
ano XXVI - Dezembro 2013
231 páginas
capa: Vera Montagna
  
 

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Resumo
A categoria de masoquismo no seu caráter transestrutural será analisada, aqui, à luz de uma reinterpretação do masoquismo moral em Freud a partir de alguns elementos da teoria do supereu. Trata-se de elaborar uma interpretação para a etiologia do masoquismo moral diferente da explicação freudiana introduzida em 1924 e apoiada no clássico “Bate-se em uma criança” (1919).


Palavras-chave
masoquismo moral; supereu; passividade; atividade.


Autor(es)
Maria Vilela Pinto Nakasu

é psicóloga, mestre e doutora em Filosofia da Psicanálise pela UFSCar, pós-doutora em Psicologia Social pela USP, membro do LATESFIP - Laboratório de Teoria Crítica, Filosofia e Psicanálise da USP. Atualmente é professora titular da Faculdade de Medicina de Itajubá FMIT, MG.

 



Nelson da  Silva Jr.
é doutorando no Laboratoire de Psychopathologie Fondamentale et Psychanalyse da Universidade Paris VII, bolsista do CNPq.


Notas

1.Este trabalho reúne resultados da pesquisa em nível de pós-doutorado fomentada pela fapesp. Agradeço a essa instituição.

2."Esta é a resposta de Freud ao grande enigma da filosofia política descrito por La Boétie em 1553 e conhecido como a Servidão Voluntária: "Por que milhares de pessoas voluntariamente sacrificam sua liberdade a um tirano sem serem coagidas a isso pela força física?" (Silva Junior & Gaspard, 2011, p. 17).

3.A.Green, Le travail du négatif, p. 34.

4.A partir da circunscrição das três modalidades de masoquismo (erógeno, feminino e moral), observa-se certa distinção entre, de um lado, o estatuto metapsicológico do masoquismo moral e do masoquismo feminino, de outro, o estatuto do masoquismo erógeno. A dinâmica do masoquismo feminino é regida pela lógica edípica: o sujeito masoquista deseja ser tratado como uma criança travessa, e, por detrás de seu comportamento, subjaz uma fantasia masturbatória construída na infância. Na gênese do masoquismo moral a situação é equivalente, pois o processo analítico sempre traz à tona um desejo incestuoso vinculado a uma tendência parricida. Na abordagem metapsicológica do masoquismo erógeno, diferentemente, não há nenhuma indicação no texto freudiano que conduza à sua articulação, seja com o complexo de Édipo, seja com qualquer outro desejo sexual recalcado. Pelo contrário, Freud (1924) concebe o masoquismo erógeno como um resíduo do processo de ligação entre Eros e pulsão de morte. Trata-se de um masoquismo originário, diretamente vinculado às tendências situadas para além do princípio de prazer, na medida em que se configura como expressão de uma dialética própria ao movimento pulsional.

5."O masoquismo moral é consequência direta da inibição cultural: passa a testemunhar a mescla de pulsões, pois ele é a libido intervindo sobre a pulsão de morte: sua periculosidade descende das pulsões de morte, da parte que não se exteriorizou como pulsão de destruição". (S. Freud, 1924, "O problema econômico do masoquismo", in Obras completas, vol. 19, p. 161-176, p. 175).

6."A terceira forma de manifestação do masoquismo, em certo sentido a mais importante, só recentemente foi apreciada pela psicanálise como um sentimento de culpa na maioria das vezes inconsciente" (S. Freud, op. cit., p. 167).

7.Rosemberg (1991) defende que a tendência masoquista implicaria igualmente fazer o outro sofrer.

8.J. Bergeret e M. Houser, "Le sadisme à travers ce qu'il n'est pas". Revue Française de Psychanalyse, n. 4, 2002, p. 1274.

9.Voltaire, Correspondence III (1749-1753), p. 221. Este lamento é para sua pequena amada Madame Denis.

10.    S. Freud, op. cit., p. 172. Para Freud (1924), é tentador olhar o masoquismo moral considerando-o independente da libido, somente uma volta da pulsão de destruição contra si mesmo. Se a parte relegada da pulsão de destruição incrementa o masoquismo do eu, isso não significa dizer que há pulsão de destruição em estado puro: como o próprio nome diz, pulsão de destruição é sempre pulsão de morte + libido. Inexiste masoquismo, qualquer que seja ele, erógeno, feminino, moral, sem o encontro libido e pulsão de morte. Ao afirmar que é tentador considerar o masoquismo moral independente da libido, Freud está elogiando a força de sua tese a respeito das pulsões de morte.

11.    Pode acontecer que a neurose melhora se uma pessoa contrai um casamento infeliz, perde seu dinheiro ou fica gravemente doente (Freud, 1924).

12.    Esta tese é mais bem desenvolvida em "Problemáticas del superyó: el masoquismo moral". M. V. P. Nakasu, In: Revista Topia: Sociedade, Psicanálise, Cultura.

13.    O masoquismo moral, portanto, seria diferente do "prolongamento inconsciente da moral" trabalhado em O eu e o isso (1923) ou simplesmente "culpabilidade". Neste caso seria incrementada a agressividade do supereu e no masoquismo moral tão somente o masoquismo do eu. (Rosemberg, 1991).

14.    Green, op. cit., p. 155.

15.    Grifo nosso. G. Deleuze, Sacher Masoch: o frio e o cruel, p. 14. Deleuze (1967) se recusa a definir o masoquismo pelo vínculo dor-prazer sexual, ele assume a posição de Krafftt-Ebing que define esta entidade clínica por comportamentos de escravidão e humilhação. O autor apresenta o projeto de seu livro: "Em vez de uma dialética que apressadamente reúne contrários, deve-se buscar uma crítica e uma clínica capazes de resgatar os mecanismos realmente diferenciais, assim como as originalidades artísticas" (G. Deleuze, op. cit., p. 14).

16.    S. Freud, op. cit., p. 175.

17.    Por isso tal objeto pode assumir a feição de pai, Destino, azar, morte, Deus, etc.

18.    A interpretação dos sonhos (1900) introduz os primeiros elementos da teoria do complexo de Édipo, que abarcaria o conjunto de desejos amorosos e hostis que a criança experimenta relativamente aos pais. Como se trata do complexo fundamental na estruturação da personalidade e na orientação do desejo humano, a destrutividade desempenharia um papel capital no modo de constituição do sujeito.

19.    S. Freud (1923), "O eu e o isso", in Obras completas, vol. 19, p. 23.

20.    S. Freud (1933), "31a Novas conferências de introdução à psicanálise. A decomposição da personalidade psíquica", in Obras completas, vol. 22, p. 62.

21.    Além disso, unir masoquismo moral ao paradigma de "Bate-se numa criança" (1919) implica igualmente desconsiderar os efeitos destrutivos da pulsão de morte sobre a posição masoquista da libido. Lembremos que, desde 1915, em "Pulsões e destinos das pulsões", o sadismo não engendra nenhuma finalidade de causar dor nem mesmo de gozar com o sofrimento, só o masoquismo introduz essa dimensão de satisfação, ou seja, um valor de gozo para o sujeito.

22.    Deleuze, op. cit., p. 65.

23.    Na interpretação à obra de Sacher-Masoch, A Vênus das peles, Deleuze (1967) pontua que, no momento do gozo masoquista, o sujeito denega a realidade do prazer para aceder ao novo homem. Ao lado do ideal de expiação, o ideal de renascimento seria, para Deleuze, o ideal masoquista por excelência.

24.    O pai obsceno reeditaria o autoritarismo do chefe da horda primeva.

25.    Deleuze, op. cit., p. 32.

26.    Reik elabora uma teoria independente da teoria freudiana em torno da concepção de masoquismo feminino, e deixa em segundo plano a explicação propriamente econômica do masoquismo.

27.    G. Deleuze, op. cit., p. 66.

28.    É preciso assinalar que estamos cientes da relevância da questão do prazer e da dor na dinâmica do masoquismo, porém, o foco do trabalho é a sua explicação etiológica. Deleuze (1967) assume uma posição interessante em relação a esta temática, discordando de Freud e de sua tese de que o sujeito deleita-se em fazer outro sofrer ao mesmo tempo que esconde no mais profundo de si uma relação entre prazer e sofrimento. Ouçamos a crítica deleuziana endereçada a Freud (1967): "Abstraem-se as relações prazer-dor das condições formais concretas em que ela se estabelece. Considera-se a mistura prazer-dor como uma espécie de matéria neutra, comum ao sadismo e ao masoquismo. Isola-se inclusive uma relação mais particular "seu prazer-sua-própria-dor", que se supõe igualmente vivida, identicamente vivida pelo sádico e pelo masoquista, independentemente das formas concretas de que ela resulta nos dois casos" (G. Deleuze, op. cit. p. 47). Green, op. cit., p. 56.

29.    Green, op. cit., p. 67.

30.    G. Deleuze, op. cit., p. 67.

31.    Green, op. cit., p. 33.



Referências bibliográficas

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Abstract
The trans-structural aspect of masochism is here studied through a reinterpretation of Freud’s concept of moral masochism and some elements of the theory of the superego. The result is somewhat different from the classical view (Freud, 1924). The authors suggest that a more adequate context for the meaning of moral masochism can be derived from Freud’s paper “A child is being beaten”.


Keywords
moral masochism; superego; passivity; activity.

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 TEXTO

Em defesa de uma certa autonomia: releitura do masoquismo moral em Freud

Pleading for a certain autonomy: a reading of Freud’s concept of moral masochism
Maria Vilela Pinto Nakasu
Nelson da  Silva Jr.

De fato, salta aos olhos que, mesmo em sua pretensa fase passiva, o exercício de uma pulsão, masoquista por exemplo, exige que o masoquista, se ouso me exprimir assim, trabalhe feito um burro

Lacan, 1964, p.189.

Introdução

 

Para Freud haveria um fundo masoquista irredutível. Servidão e submissão refletiriam a disposição constitucional ancorada na natureza pulsional do sujeito e na expressão insegura que o eu assume frente às exigências e punições do supereu[1]. Se o masoquismo erógeno é consubstancial à condição humana ela mesma, como afirma Bela Grumberger (1954), é sobretudo pelo fato de a pulsão de morte habitar o interior do eu como resíduo, sob a égide de um regime marital com a coexitação dolorosa, daí ele ser considerado a superestrutura do masoquismo feminino e moral. Nos termos de Green (1993), "o masoquismo é a falha na cura mas guardião de uma função desobjetalizante própria à pulsão de morte"[2]; por isso o masoquismo erógeno é classicamente considerado o "guardião da vida"[3].

 

Parece não haver objetalização da pulsão de morte no masoquismo moral, e sim movimento de reanimação do complexo de Édipo e, portanto, de reintrincação pulsional. Com o masoquismo moral, Freud reforça a tese que associa a obtenção de prazer a partir do desprazer e esboça uma tendência do eu inédita a qual ele denomina "genuíno masoquismo do eu", responsável por sua ativa busca por sofrimento. Se a fisiologia define o elemento "originário" em jogo no masoquismo, para explicar o perigo inerente ao masoquismo moral, Freud convoca a repressão cultural e suas exigências de renúncia.

 

A coerção pulsional imposta pela cultural impediria o sujeito de dirigir sua agressividade para fora, e o obrigaria a suportar a periculosidade da pulsão de morte advinda de sua permanência no interior do organismo. O masoquismo moral será marcado, por assim dizer, pela autodestruição produzida com satisfação libidinosa: na medida em que é considerado o "testemunho clássico" da existência da mescla de pulsões, o sofrimento que ele comporta vem sempre acompanhado de um ganho em termos de prazer[4].

 

Dentre as três formas de masoquismo descritas em "O problema econômico do masoquismo" (1924), o masoquismo moral será considerado por Freud sua mais importante manifestação[5]. As razões são evidentes. O masoquismo moral explicará a necessidade de punição presente em todos nós, produto da repressão cultural, e produzirá, ainda, um tipo de comportamento no qual o sofrimento é sua mais singular expressão.

 

Inúmeros comportamentos trazem a marca de uma tendência autopunitiva e autodestrutiva que não possuem relação aparente com a função sexual. Tal é a dimensão comum, por exemplo, aos problemas da autodestruição complacente, do fracasso após o sucesso, do pessimismo sistemático ou da sabotagem de potencialidades dos sujeitos limites. Condutas alimentares, ataques ao próprio corpo (Jeammet, 2000), "terrorismo do sofrimento" (Ferenczi, 1932), servidão voluntária, infelicidade crônica e um certo "dolorismo" que encontra alimento na vida social igualmente trazem a marca de um componente autodestrutivo; todos estes fenômenos apresentam-se como francamente inconscientes: o sujeito ignora sua responsabilidade na produção e manutenção do próprio sofrimento (Nacht, 1965)[6].

 

No entanto, nem toda autodestruição é sinônimo de masoquismo. Como afirma Bergeret & Houser (2002), "a maior parte de atitudes descritas em nossa clínica quotidiana como "masoquistas" correspondem na realidade a tendências autopunitivas, resultado não de uma agressividade ou de um sadismo, mas de uma violência voltada sobre o sujeito"[7].

 

Há sujeitos que incitam a realidade para se castigarem, atribuindo aos poderes do outro, de Deus ou do Destino a responsabilidade por suas mazelas. Evoquemos o lamento de Voltaire (1750): "O meu destino segue-me por toda parte"[8]. Onde se localiza o centro de gravidade do masoquismo moral? O que reinvindica o sujeito que se castiga? O que encobre a roupagem de seu sintoma e comportamento? Ele visa ao prazer puro e simplesmente? A autoaniquilação? Ele personifica tão somente as exigências de Tanatos e uma pequena dose de libido? Expia uma culpa inconsciente e por isso se sacrifica? O masoquista, como sustenta Freud (1924), submete-se à violência do pai em busca de seu amor, ocupando o lugar materno? Ele seria, finalmente, movido pela nostalgia do pai?

 

Amor, dependência e proteção parecem não constituir a única finalidade da empreitada masoquista. A busca parece ser igualmente por autonomia, independência e afirmação identitária: visada de discriminação e diferenciação do outro. A revivescência do Édipo em jogo no masoquismo moral se daria pela via da atividade, não da passividade. Tal é a tese a qual nos propomos sustentar.

 

I. Masoquismo moral em Freud

Em regra geral, os fantasmas só tratam o indefinido como máscara de um pronome pessoal ou de um possessivo: "bate-se em uma criança" se transforma rapidamente em "meu pai me bateu".

Deleuze, 1993, p. 13

 

A necessidade de castigo figura uma das manifestações mais expressivas do masoquismo moral. Duas operações produzem as mesmas consequências: a parte relegada da pulsão de destruição incrementa o masoquismo do eu, e a destruição que retorna do mundo externo aumenta o sadismo do supereu. Ao que diz Freud (1924): "[...] o sadismo do supereu e o masoquismo do eu se complementam um ao outro e se unem para provocar as mesmas consequências"[9]. Chabert (2000) é didática ao afirmar que no curso de um desenvolvimento natural a consciência e a moral derivam do complexo de Édipo, de seu deslocamento e de sua dessexualização. No masoquismo moral, pelo contrário, a moral é ressexualizada, o complexo de Édipo reanimado, conduzindo a uma via regressiva da moral ao Édipo. Uma parte da consciência moral é perdida em proveito do masoquismo, e o pecado é perseguido para se obter a punição[10].

 

O masoquismo moral implicaria, por assim dizer, um retrocesso a uma ordem neurótica, na qual o sujeito seria incapaz de dessexualizar seus vínculos e sublimar suas formas de obter satisfação. Claro, cientes de que, se o masoquismo moral é igualmente masoquismo erógeno, então, a libido já encontrou a pulsão de morte. Porém, contrariamente ao que se costuma supor, o encontro de Eros com Tanatos no interior da economia masoquista não mobiliza o aumento da agressividade do supereu, mas tão somente o automartírio do eu e sua necessidade de sofrer[11]. Para a segunda tópica freudiana, a única instância capaz de vigiar e castigar o eu é o supereu e seus representantes, eles são os jagunços, por assim dizer, no território euoico. No entanto, o supereu aparece, na economia do masoquismo moral, o mesmo sádico de sempre, nem mais, nem menos violento. O eu, no masoquismo moral patológico, sai em busca de castigo oferecendo sua face sempre que tem a oportunidade de levar uma bofetada (Freud, 1924)[12].

 

Freud (1924) é categórico ao afirmar que, para o masoquista, não importa de onde vem a punição. O eu não necessita de alguém amado, nem da perda desse amor para sofrer (Westerink, 2009). O sujeito não precisa de ninguém e nem do que quer que seja, se amando "passivamente na sua dor sacrificial de uma vã aceitação"[13]. É o sofrimento como tal que importa. No campo da fantasia, contudo, o objeto importa, existe e mobiliza inúmeras operações no interior da dinâmica masoquista. Para justificá-las, Freud retoma as teses de "Bate-se em um criança" (1919) e do lugar passivo ocupado pelo infans para se colocar no lugar da mãe e, assim, obter o amor do pai pela inversão do afeto. Por meio da surra o sujeito se sentiria amado pelo pai. A esse respeito, Deleuze diz (1967):

 

Parte-se então da premissa de que o masoquista quer se colocar no lugar do pai e quer se apossar da potência viril (etapa sádica). Em seguida, um primeiro sentimento de culpa, um primeiro medo da castração como castigo, o faria renunciar a essa tarefa ativa para se colocar no lugar da mãe e se oferecer ao pai. Mas com isso ele cairia numa segunda culpa, num segundo medo da castração implicada dessa vez na iniciativa passiva; e assim o masoquista substitui o desejo de uma relação amorosa com o pai pelo "desejo de ser espancado", o que não só representa uma punição mais leve, como se equivale à própria relação amorosa[14].

 

Masoquismo moral não pode ser confundido com masoquismo feminino, em um caso a inconsciência do sentimento de culpa e a independência do fator sexual são capitais; no outro caso, a sexualidade opera em toda sua dimensão. Freud, no entanto, em O problema econômico do masoquismo (1924), diz:

 

Sabemos que o desejo de ser golpeado pelo pai, tão frequente em fantasias, está muito relacionado com outros desejos, o de entrar com ele em uma relação sexual passiva (feminina) [...] o desejo de ser golpeado pelo pai, presente no masoquismo moral, encobre o desejo de vinculação sexual passiva (feminina) e representa a desfiguração regressiva deste último[15].

 

Isto é, o desejo de vinculação sexual passiva não é privilégio do masoquismo feminino; ele estaria, pois, igualmente presente no funcionamento do masoquismo moral. Haveria neste último uma aparente desqualificação objetal. A ressexualização edipiana se manteria mascarada, escondida atrás de figuras impessoais, mas, verdadeiramente, ela visaria ao pai edipiano (Rosemberg, 1991). A revivescência do complexo de Édipo se daria, deste modo, pela via da passividade, o sujeito se entregaria como objeto de amor ao pai e escaparia da perda do objeto e do desamparo; na sua fantasia, o lugar do Outro estaria assegurado[16]. Mediante pacto com o sofrimento, o masoquista buscaria amor e proteção. Expiando a culpa edipiana, gozaria na dor. Em outros termos, a estratégia masoquista para Freud revelaria uma relação de dependência e submissão ao objeto, revelaria assim o desejo de ser amado: sacrifico-me para não perder seu amor e proteção, meu sofrimento é endereçado a você e prova que me é caro que eu permaneço ligado a você.

 

Freud se apoia, portanto, sobre as seguintes teses para explicar o masoquismo moral:

 

1a) Tese biológico/constitucional (naquilo que o masoquismo moral herda do masoquismo erógeno);

2a) Tese pulsional/cultural (a partir do casamento libido e pulsão de morte selado pelas restrições culturais);

3a) Tese topológica (na qual o eu se comporta masoquisticamente em relação a um supereu sádico por natureza);

4a) Tese etiológica (sujeito assume o lugar passivo ocupado pela mãe e se oferece como "saco de pancada" do pai; porque o ama, ele tenta se furtar à castração).

 

O desamparo humano, a nostalgia do pai e a necessidade de amor e proteção ocupam o centro das preocupações de Freud, sobretudo, após a introdução da segunda tópica e da segunda teoria das pulsões. Segundo as lições de "Inibição, sintoma e angústia" (1926), a instância parental assegurava a criança do seu desamparo, após o declínio do Édipo a consciência moral assegura o eu em seu narcisismo, presenteando-lhe com o sentimento de orgulho sempre que ele se equipara ao seu ideal.

 

O amor e a dependência estão presentes em todos os momentos da formação subjetiva. O mesmo vale para seus pares opostos, o ódio e a independência[17]. Em certa medida, Freud não levou em consideração o elemento francamente destrutivo e emancipatório presente no complexo de Édipo ao desenhar os mecanismos disparadores do masoquismo moral. É certo que a complexa noção de ambivalência emocional esteve sempre na base dos fenômenos psíquicos, normais e psicopatológicos, orientando a técnica psicanalítica e o manejo da transferência.

 

Não esqueçamos, porém, que foi preciso esperar até 1920 para que a destrutividade finalmente ganhasse um lugar de cidadania no interior da metapsicologia. Mesmo presente desde O projeto de uma psicologia científica (1895), foi graças à hipótese filogenética - que faz nascer uma cultura de um crime cometido em conjunto - e à extensa pesquisa dos fenômenos repetitivos evidenciados na sintomatologia do neurótico, na vida normal e no dispositivo analítico, que a pulsão de morte foi introduzida.

 

Qual a razão pela qual a reanimação do complexo de Édipo na dinâmica do masoquismo moral implicaria, necessariamente, uma satisfação passiva? Talvez se possa dizer que, desde os "Três ensaios" (1905), Freud associa masoquismo à passividade e sadismo à atividade. Mas não se trata de sustentar a primazia da passividade a qualquer custo, mesmo porque nosso foco é a explicação de Freud do masoquismo moral e não do masoquismo feminino ou erógeno. Não se trata igualmente de ignorar a obviedade manifesta do lugar passivo que o sujeito masoquista ocupa no interior de sua formação sintomática, mas tentar lançar luz sobre um aspecto da dinâmica edipiana que parece ficar encoberto pela máscara da passividade.

 

Vejamos: ao se autodenegrir, o melancólico põe-se passivo. Desde "Luto e melancolia" (1917), originalmente, o objeto de sua agressão não é o eu, mas alguém ou algo que o sujeito perdeu e que lhe causou muita dor; isto revela que Freud não desconhecia o mecanismo de identificação narcísica com o objeto e, além disso, aceitava tranquilamente o fato de que a passividade poderia encobrir uma atitude ativa de agressão ao objeto. Isto dito, para ensaiar uma reinterpretação da teoria freudiana do complexo de Édipo e, por conseguinte, da etiologia do masoquismo moral, algumas teses a respeito da gênese do supereu e de sua dotação agressiva serão aqui retomadas.

 

II. Hipótese etiológica do masoquismo moral

1a tese) No momento crucial de demolição do complexo de Édipo, diante do medo da castração, o castigo que o filho espera do pai é proporcional ao castigo a que o filho quer submeter o pai. Por essa razão, a dotação agressiva presente na gênese do supereu será tributária de uma relação pai-filho reeditada na relação eu-supereu. Não apenas o medo de ser castigado pelo pai mas o desejo do filho de castigar o pai conduziria o sujeito a renunciar aos desejos incestuosos para, sem seguida, se identificar com a instância parental.

 

2a tese) Freud recupera o caráter agressivo e punitivo da figura parental, com a qual o eu se identifica e se modifica, para explicar, em "O eu e o isso" (1923), de que forma o supereu opera como formação reativa diante das escolhas objetais do isso. Do eu, o supereu exige que ele seja como o pai e, ao mesmo tempo, o obriga a ser diferente. "Seu vínculo com o eu não se esgota na advertência: ‘Assim, (como o pai) deves ser', senão, compreende também a proibição: ‘Assim, (como o pai) não é lícito ser, isto é, não pode fazer tudo que ele faz; muitas coisas são reservadas a ele'"[18].

Se o supereu exige do eu que ele seja igual ao pai ao mesmo tempo que o obriga a ser diferente, parece haver um elemento da teoria da identificação pouco discutido entre os comentadores dos textos freudianos, porém, extremamente relevante: ao introjetar os atributos dos pais, a criança introjeta um modelo a ser seguido, e igualmente um modelo a ser ignorado. Nesse sentido, se o declínio do complexo de Édipo pressupõe o abandono da mãe como objeto de amor e o reconhecimento do pai como lei, na identificação operada subsiste a instância parental como modelo a ser admirado e igualmente como modelo a ser ignorado, desrespeitado. Na demolição do complexo de Édipo, o reconhecimento da interdição (da castração) pressuporia, assim, duas renúncias e duas introjeções:

 

Renúncia aos desejos incestuosos e parricidas;

Introjeção de qualidades a serem imitadas e descartadas;

 

De onde se supõe que o processo de subjetivação favorecido pela dissolução do complexo de Édipo implicaria a dicotomia: ser como o modelo versus não ser como o modelo; ser como os pais e ser diferente dos pais; reencenar o modelo e criar outro modo de ser, em suma, repetir o modelo e diferenciar-se do modelo.

 

3a tese) De acordo com a 31a das "Novas Conferências de Psicanálise" (1933), no processo de demolição do complexo de Édipo, a criança não se identifica com os pais, mas com o supereu dos pais. "Assim, o superego de uma criança é, com efeito, construído segundo o modelo não de seus pais, mas dos superegos de seus pais; os conteúdos que eles encerram são os mesmos"[19]. Identificar-se ao supereu dos pais implicaria, deste modo, a introjeção de uma instância crítica em relação à qual o sujeito irá se curvar e, ao mesmo tempo, se opor, já que o supereu implicaria o modelo a ser seguido e o modelo a ser descartado.

 

Herdeiro do complexo de Édipo e representante do pai, o supereu reedita junto ao eu uma relação filial. Se o castigo que o filho espera do pai é proporcional ao castigo que o filho quer submeter o pai, e, se no processo de identificação com o supereu dos pais o filho introjeta igualmente um modelo a ser ignorado, a teoria do complexo de Édipo pode ser relida a partir de duas hipóteses: a primeira, situada no plano da ontogênese, e a segunda hipótese no plano da topologia do aparelho psíquico:

1a hipótese

O que seria revivido do complexo de Édipo no masoquismo moral seria menos o desejo de ser golpeado pelo pai e de se vincular sexual e passivamente a ele, e mais o desejo de golpear o pai, diferenciando-se dele. A explicação freudiana para a etiologia do masoquismo moral baseia-se em Eros, terno e sexual, no desamparo estrutural, elevando a primeiro plano a necessidade de proteção paterna e sua nostalgia. Realça-se, com esta tese, em contrapartida, a destrutividade do filho em relação ao pai, não sua necessidade de amparo; seu ódio ao pai, não seu amor; sua atividade, não sua passividade; sua busca por autonomia, não sua afirmação e perpetuação da dependência. Não absolutizemos a fantasia de "Bate-se em uma criança" (1919) que diz: "Meu pai me bate, me ama e disso eu gozo"[20].

 

Se a substituição do pai pelo sujeito se der em uma estrutura dual, estamos diante de um tipo de funcionamento regressivo. Não basta que o sujeito se identifique ao pai a partir de uma lógica dual para que ele adquira autonomia em relação a este, uma vez que ele continuará submetido à sua imagem. No entanto, se a substituição do pai pelo sujeito se der em uma estrutura triangular, o Édipo terá se realizado e o masoquismo moral poderá ter uma função sacrificial "normal".

 

Se o masoquista não se põe passivo à espera de uma surra do pai para se sentir amado e protegido, mas deseja eliminar o pai, talvez possamos supor que o que ele pretende eliminar é, mais precisamente, as semelhanças do pai, ou seja, a imagem do pai. É neste sentido que fazemos nossa a pergunta de Deleuze (1967):

 

Entretanto, quando nos dizem que o verdadeiro personagem que espanca no masoquismo é o pai, devemos igualmente perguntar: e quem, antes de tudo, está sendo espancado? Onde está o pai escondido? Não estaria, antes, no espancado? O masoquista se sente culpado, procura ser espancado e expia, mas o que e por quê? Não seria precisamente a imagem do pai, nele, que é miniaturizada, espancada, ridicularizada e humilhada? Não seria a semelhança com o pai que ele espia? A semelhança do pai? Não seria, o pai humilhado, a fórmula do masoquismo? Se assim for, o pai seria antes o espancado do que o espancador[21].

 

O sofrimento do masoquista encobriria um profundo sentimento de culpa. Na superfície, assistiríamos a uma "desqualificação objetal" e "narcisissação do sofrimento", mas, na realidade, a culpa assumiria lugar proeminente. Porém, de forma alguma seria uma culpa sua diante do pai, pelo contrário, é a semelhança com o pai que seria vivida como culpa. Por isso o sentimento de culpa no masoquismo se apresentaria como um fenômeno de acobertamento, de aparente culpabilidade com uma realidade de satisfação masoquista. O sujeito se culparia por se achar igual ao pai e se satisfaria ao abolir a semelhança do pai. A recusa da semelhança com o pai permitiria, finalmente, a possibilidade de se estabelecer novas identificações, ou, nos termos de Deleuze (1967), favoreceria o advento do "novo homem"[22].

 

Se o que dispara o masoquismo é a agressividade contra o pai que, em sua obscenidade, quer tutelar e amarrar o filho em sua imagem e semelhança, tal agressividade é tramitada por meio de duas operações psíquicas: a transformação no contrário e a orientação para a própria pessoa[23]. O sujeito ativo põe-se passivo e o ódio projetado é reintrojetado no eu. De outro modo, outros dois mecanismos encerrariam, a nosso ver, o percurso da libido no interior da dinâmica do masoquismo moral: a denegação da realidade, e sua idealização na fantasia. Denegar não é negar superficialmente ou destruir totalmente, é contestar a fundamentação do que é, o que implicaria uma espécie de suspensão e neutralização capazes de abrir, para além do que é dado, a uma nova perspectiva não dada. O masoquista se lançaria em "uma tentativa de escapar do mundo pelo sonho, criando asas"[24]. Em outros termos, denegaria o mundo para idealizá-lo na fantasia. Tal seria o lugar onde o masoquista se aprisionaria, seu desejo genuíno de se separar do pai e ser autônomo é realizado, porém seu voo se dá no plano da fantasia, a mil léguas da realidade. "Mal negócio" é o que, segundo Nach (1965), o masoquista faria, pois os sofrimentos e os sacrifícios que ele se inflige são reais, enquanto o perigo é puramente fantasmático.

 

III. O Contrato masoquista

Theodor Reik (1971) evidencia um certo formalismo da estratégia masoquista orientado por quatro características fundamentais: a significação especial da fantasia (a forma da fantasia: vivida por si, sonhada, dramatizada); o fator suspensivo (espera, angústia que impediria a tensão sexual de crescer); o traço demonstrativo ou persuasivo (pelo qual o masoquista exibe o sofrimento, o embaraço e a humilhação) e finalmente o fator provocador (o masoquista agressivamente exige a punição como aquilo que resolve a angústia e lhe proporciona o prazer proibido)[25]. Haveria, no entanto, um elemento crucial da fenomenologia masoquista que teria sido ignorado por Reik: o contrato. Na perversão masoquista, estaríamos diante de uma relação contratual propriamente dita, na qual o masoquista seria um adestrador por natureza.

 

A descrição da fenomenologia masoquista realizada por Reik e por Deleuze baseia-se inteiramente no masoquismo como perversão. Não obstante Deleuze se refira precisamente ao masoquismo feminino (perverso), talvez possamos generalizar sua sugestão para o universo masoquista e supor que a escolha do carrasco, no registro fantasmático, baseia-se em um contrato que encobre uma violência a outrem, e não o autocastigo, como se costuma supor. Logo, assim como segundo Freud haveria, no masoquismo feminino e no masoquismo moral, um fundo "passivo - feminino", assumiremos a hipótese segundo a qual o contrato seria outro elemento francamente operante nestas duas modalidades de masoquismo. Ouçamos Deleuze:

 

Pelo contrato, o masoquista faz com que o espanquem: mas o que ele faz espancar, humilhar e ridicularizar é a imagem do pai, a semelhança do pai, a possibilidade de uma volta ofensiva do pai. Não é "uma criança", é um pai que é espancado[26].

 

O masoquismo, desse modo, revelaria o esforço de se livrar da tutela do pai, recusando a semelhança do pai. Trata-se menos de uma inflexão da agressividade contra si mesmo do que uma proteção de si sobre o objeto sádico ("não sou eu que desejo castigar meu pai, é ele que me castiga"); em segundo lugar, trata-se de um desejo de discriminação do outro. No centro de gravidade do masoquismo moral não se encontraria, portanto, a dimensão autopunitiva, mas a dimensão narcísica, no sentido de garantir a existência do sujeito autônomo[27].

 

Os casos limites revelariam algo da dinâmica do masoquismo moral patológico bastante interessante. A invulnerabilidade que o sujeito busca por meio de sua fantasia se daria por meio da inversão das regras do jogo: quem ganha perde. Se se perde, corre-se o risco de tudo ganhar, transformar todo ganho em perda. Só assim o masoquista conseguiria "assegurar o resultado a cada vez pela anulação sistemática de toda dependência a respeito do objeto, mantendo o domínio, pois o Outro - adversário por definição - é assim preventivamente privado de uma vitória eventual"[28].

 

2a hipótese

Freud dirá (1924), acerca da ressexualização da moral em jogo no masoquismo moral, que o masoquista age sempre no sentido de um "trabalhar pecaminoso" que depois tem que ser expiado com as acusações da consciência moral sádica ou com os castigos do destino. Por que boa parte do seu senso moral naufraga? Como explicar a relação masoquismo e delinquência, a falência da consciência moral no interior da dinâmica masoquista? A ressexualização da moral não sugere, justamente, um reforço das exigências morais? Como se daria a compreensão desse movimento regressivo de ressexualização em termos topológicos? Ao contrário do que se costuma pensar, o poder do supereu é enfraquecido e não aumentado, é o eu que reina sozinho na dinâmica do masoquismo moral. Como o supereu abarcará junto ao eu a soma de todas as restrições a que o eu deve obedecer, sua suspensão é vivida pelo eu como uma grande festa (como no estado de mania no qual o véu da censura cai por terra).

 

No masoquismo, portanto, o eu triunfaria. Ele capturaria o objeto e endereçaria sua raiva não ao objeto, mas a si: a raiva se torna raiva de sua própria dependência ao objeto, raiva de si, pois, nos termos de Green (1993), "o si tem seu destino ligado a um objeto"[29]. Por sua vez, o supereu não é negado como o eu no sadismo: na verdade, o poder do supereu é aparentemente conservado, mas se revela derrisório, simples disfarce para outras coisas. Se a mulher, o Destino, Deus, enfim, se o espancador encarna o supereu, é dentro de condições de derrisão radical (de disfarce radical): como se brinca com uma pele de animal ou um troféu, ao final da caçada. "Pois na verdade o supereu está morto, não por efeito de uma negação ativa, mas de uma "denegação"[30].

 

Se o Édipo é reanimado e a moral ressexualizada, o supereu torna-se menos pós-edípico e mais "precoce", protegendo menos o eu. Diante disso, que saída teria o eu, desamparado, por seu mestre supereu? Como se viu, o sadismo do supereu não aumenta na dinâmica do masoquismo moral, ao contrário, é enfraquecido. É o eu que, ativamente, incita os castigos do Destino, dos poderes parentais externos para obter punição, transgredindo, já que seu senso moral está fragilizado. Mas sabemos que, na tópica freudiana, deve haver equilíbrio na relação entre as instâncias: o eu precisa do amor e da proteção do supereu para sobreviver. Logo, se ele promove a punição externa e não pode contar com o acolhimento do supereu, não resta outra saída, para não sucumbir, que erotizar a culpabilidade, "ressexualizar a moral".

 

O masoquismo moral operaria, deste modo, o exato sentido inverso da formação do supereu. Enquanto a formação do supereu depende de um processo de despersonalização da instância parental, isto é, de dessexualização das relações de objeto favorecidas pela identificação e de uma relativa desintricação pulsional, no masoquismo moral ocorreria o processo oposto: reintrincação pulsional (estabelecimento de novas ligações entre Eros e as pulsões de morte) e ressexualização do objeto em decorrência da reanimação do Édipo.

 

A vida pulsional é transferida ao objeto, e a busca pela relação ao outro alimenta uma reivindicação de autonomia, isto é, o objetivo dela é atingir um estado de separação e de individualidade necessário à estima de si fundada sobre a independência. Tal combate não possui como visada uma partilha do prazer mas a possibilidade de encontrar refúgio no preenchimento narcisista e na autossuficiência"[31].

 

Masoquismo moral em sete tempos: elementos para uma conclusão

Um esboço da tese aqui sustentada assumiria a seguinte forma:

 

Reanimação do Édipo:

O sujeito se atormenta (ativo);

Ódio ao pai, à semelhança no pai;

Transformação no contrário (de ativo para passivo); Orientação contra a própria pessoa (do ódio ao pai para ódio ao eu);

Denegação da realidade e sua idealização na fantasia;

 

Ressexualização da moral:

A moral não fica mais tirana ao ser ressexualizada, ela é suspensa;

O reinvestimento libidinal nas figuras edipianas resulta no enfraquecimento do supereu. Tudo se passa como se a regressão em questão ocorresse do ponto de vista estrutural, de modo que a volta à fase fálica implicaria a não existência do supereu.

Se o supereu é suspenso, o eu festeja ou, mais precisamente, se cristaliza uma posição de gozo.

 

O masoquismo moral nos ensina algo de nossa natureza constitucional, a saber: primeiro, que o Édipo nunca é totalmente ultrapassado; segundo, que o sexual pode se unir à dor; terceiro, que o sintoma masoquista é uma saída para a discriminação do outro, e não um meio de fusão ao outro ou desconsideração da castração. Quarto, o masoquismo moral reflete um traço inerente ao psiquismo, a tarefa de ser guardião da vida - masoquismo erógeno - já que Eros pode ligar a pulsão de morte sexualmente. Porém, masoquismo moral não é guardião da vida, ele é um produto dessa espécie de guardião da vida que insiste em conservar a infelicidade e o sofrimento, por isso ele é testemunha da intuição freudiana de que o homem só vive às custas de infelicidade e sofrimento, e que a felicidade é pura utopia.

 

Masoquismo moral nos ensina, igualmente, que a pulsão de morte ao ser tingida de erotismo será sempre endereçada a um objeto, nos ensina que a autopunição e o sacrifício masoquista possuem sempre um componente libidinal, que o acerto de contas consigo mesmo é sempre um acerto de contas com o outro e que a pulsão de morte nunca se expressa na psicopatologia como francamente desobjetalizada, isto é, mesmo na cultura pura das pulsões de morte (leia-se o suicídio do melancólico), o acerto de contas é com o outro introjetado, sequestrado na psique. Há um aparente acerto de contas, pois o que está em jogo parece ser uma tentativa mal-sucedida de ultrapassar novamente o Édipo mediante mecanismos de separação/diferenciação. Freud dirá: o Édipo é reanimado, e o sujeito quer o amor do pai, aceita seus castigos para se sentir amado. Nós sustentamos: o Édipo é reanimado, o sujeito quer se diferenciar do pai para se sentir vivo. Sou tão identificado ao meu pai que preciso me mutilar para conseguir tirá-lo de dentro de mim.

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