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Resumo
Este artigo pretende mostrar que Winnicott redescreveu o conceito de Id, tal como Freud o estabeleceu, expandindo a compreensão da vida instintual e diferenciando-a da sexualidade, considerando esta última como sendo uma maneira específica de viver a vida instintual. Procura-se mostrar que Winnicott nunca utiliza o termo Id no seu sentido metapsicológico, como uma instância de um aparelho psíquico, mas sempre no seu sentido empírico, referido às efetivas pressões da vida instintual.


Palavras-chave
Id; instância; metapsicologia; instintualidade; sexualidade; redescrição


Autor(es)
Leopoldo Fulgencio
é psicanalista, mestre pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP com a dissertação "Sentidos sem-sentido", e doutorando pela mesma instituição com a tese "O Método Especulativo em Freud".


Notas

1.        Para padronizar o modo de referência ao termo ou conceito de Id, estarei sempre grafando-o desta forma, ainda que seu referente possa não ser o mesmo em seus diversos usos.

2.        S. Freud (1900a), Interpretação dos sonhos, in Sigmund Freud. Oeuvres completes (ocf.p), vol. 4, p. 589. Freud será citado segundo a classificação estabelecida por A. Tyson & J. Strachey, "A chronological hand-list of Freud's works", The International Journal of Psychoanalysis (ijp).

3.        Sobre o método especulativo em Freud, veja L. Fulgencio (2003), "As especulações metapsicológicas de Freud", Revista de Filosofia e Psicanálise Natureza Humana, 2003, vol. 5, n. 1, p. 127-164 e L. Fulgencio, O método especulativo em Freud.

4.        Kant (1997), Crítica da razão pura. Sobre o kantismo de Freud, veja L. Fulgencio (2008), op. cit.

5.        S. Freud (1933a), "Nouvelles suite des leçons d'introdution à la psychanalyse", in ocf.p, p. 157.

6.        S. Freud (1933a), op. cit., p. 274-275.

7.        J. Laplanche & J-B. Pontalis (1986), Vocabulário da psicanálise, p. 286.

8.        S. Freud (1923b), "Le moi et le ça", in ocf.p, p. 268.

9.        Sobre a diferença entre o conceito de Trieb (pulsão) em Freud e o de instinto em Winnicott, veja Z. Loparic (1999), "O conceito de Trieb na filosofia e na psicanálise", in J. A. T. Machado (1999), Filosofia e Psicanálise: um diálogo, p. 97-157; e L. Fulgencio (2006), "Winnicott e uma psicanálise sem metapsicologia", Revista de Filosofia e Psicanálise Natureza Humana, 8 (Especial 1), p. 401-420.

10.     D. W. Winnicott (1965n), "A integração do ego no desenvolvimento da criança", in O Ambiente e os Processos de Maturação, p. 55. A obra de Winnicott estará sendo citada a partir da classificação estabelecida por K. Hjulmand (1999), "Lista completa das publicações de D. W. Winnicott", Revista de Filosofia e Psicanálise Natureza Humana, vol. 1, n. 2, p. 459-517, dado que esta classificação estará sendo usada na publicação das obras completas de D. W. Winnicott, tal como informou J. Abram (2008), "Donald Woods Winnicott (1896-1971): A brief introduction".

11.     Cf. em D. W. Winnicott (1988), Natureza humana; em especial, p. 57 (para a caracterização do que são os instintos) e cap. iv e v para as outras afirmações feitas nesse parágrafo.

12.     D. W. Winnicott (1965m), "Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self", in O Ambiente e os Processos de Maturação, p. 129.

13.     D. W. Winnicott (1947a), "A criança e o sexo", in A criança e seu mundo, p. 167-168.

14.     D. W. Winnicott (1971f), "O conceito de indivíduo saudável", in Tudo começa em casa, p. 6.

15.     D. W. Winnicott (1971f), op. cit., p. 21.

16.     Para uma análise da distinção destas duas linhas, veja, por exemplo, em Z. Loparic (2007), "Elementos da teoria winnicottiana da sexualidade", Revista de Filosofia e Psicanálise Natureza Humana.

17.     D. W. Winnicott (1971f), op. cit., p. 8.

18.     D. W. Winnicott (1971f), op. cit., p. 27.

19.     D. W. Winnicott (1971f), op. cit., p. 10.

20.     D. W. Winnicott (1989vl). "Psiconeurose na infância", in Explorações Psicanalíticas, p. 53.

21.     D. W. Winnicott (1988), op. cit., Parte III. Para uma análise inicial sobre o lugar da teoria da sexualidade em Winnicott, com alguns comentários sobre suas raízes, veja Z. Loparic (2007), op. cit., p. 311-358.

22.     D. W. Winnicott (1962a), "Adolescência. Transpondo a zona das calmarias", in A família e o desenvolvimento individual, p. 119.

23.     D. W. Winnicott (1962a), op. cit., p. 123.

24.     D. W. Winnicott (1971l), "Inter-relacionar-se independentemente do impulso instintual em função de identificações cruzadas", in O brincar & a realidade, p. 177; os itálicos são meus.

25.     D. W. Winnicott (1971g), "A criatividade e suas origens", in O brincar & a realidade, p. 120.

26.     D. W. Winnicott (1962a), op. cit., p. 117.

27.     D. W. Winnicott (1971g), op. cit., p. 7.

28.     D. W. Winnicott (1958c), "A tendência antissocial", in Privação e delinquência, p. 143.

29.     D. W. Winnicott (1965s), "Influências de grupo e a criança desajustada", in A família e o desenvolvimento individual, p. 215.

30.     D. W. Winnicott (1971g), op. cit., p. 115.

31.     D. W. Winnicott (1963b), "O desenvolvimento da capacidade de se preocupar", in O Ambiente e os processos de maturação, p. 116.

32.     D. W. Winnicott (1965ve), "A psicoterapia de distúrbios de caráter", in Privação e delinquência, p. 282.

33.     Green (2005), "Winnicott at the start of the third millennium", in Sex and sexuality: Winnicottian perspectives, p. 13.

34.     Sobre o lugar da metapsicologia no pensamento de Winnicott, veja discussão em andamento entre M. Girard (2010), op. cit., e L. Fulgencio (2007), "Winnicott's rejection of the basic concepts of Freud's metapsychology", IJP.



Referências bibliográficas

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_____. (1962a). Adolescência. Transpondo a zona das calmarias. In A família e o desenvolvimento individual. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

_____. (1963b). O desenvolvimento da capacidade de se preocupar. In O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.

_____. (1965m). Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self. In O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.

_____. (1965s). Influências de grupo e a crianças desajustada. O aspecto escolar. In A família e o desenvolvimento individual. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

_____. (1965ve). A psicoterapia de distúrbios de caráter. In Privação e delinquência. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

_____. (1971f). O conceito de indivíduo saudável. In Tudo começa em casa. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

_____. (1971g). A criatividade e suas origens. In O brincar & a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

_____. (1971l). Inter-relacionar-se independentemente do impulso instintual em função de identificações cruzadas. In O brincar & a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

_____. (1971va). Os elementos masculinos e femininos ex-cindidos [split-off] encontrados em homens e mulheres. In Explorações psicanalíticas: D. W. Winnicott. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

_____. (1988). Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990.

_____. (1989vl). Psiconeurose na infância. In Explorações psicanalíticas: D. W. Winnicott. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.





Abstract
Winnicott redescribed the concept of id, expanding our understanding of instinctual life and distinguishing it from sexuality. For him, the latter is a way to live instintual life. The author shows that Winnicott never uses “id” in a metapsychological sense (part of a psychic apparatus), but always in an empirical sense, connected to the urgent pressure of instinctual life.


Keywords
id; part of a psychic apparatus; metapsychology; instinctual life; sexuality; redescription.

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 TEXTO

A noção de Id para Winnicott

Winnicott’s conception of the id
Leopoldo Fulgencio

Neste estudo pretendo mostrar que, para Winnicott, o termo Id[1] tem como referente os aspectos instintivos da existência psicossomática, aspectos estes que não correspondem à biologia pura e simples, mas à biologia que, pressionando por ações, é elaborada imaginativamente; mais ainda, que a vida instintual se organiza (no quadro de um amadurecimento saudável) conquistando a integração que caracteriza os neuróticos, ou seja, pessoas inteiras que se relacionam com os outros como pessoas inteiras e encontram dificuldades e conflitos na administração da vida instintual nas relações interpessoais. Para isto procuro: 1. retomar o sentido descritivo e metapsicológico que Freud dá ao conceito de Id; 2. mostrar que Winnicott caracteriza o Id como sendo sinônimo das pressões instintuais, e não como uma instância ou sistema de um aparelho psíquico (conceito metapsicológico); 3. analisar que este sentido está de acordo com as diversas passagens dos textos de Winnicott em que ele usa este termo.

 

1.
Os sentidos descritivos e metapsicológicos
do termo-conceito de Id em Freud

Para Freud o Id é um conceito especulativo, um conceito metapsicológico com o qual ele figura uma das instâncias da ficção teórica de um aparelho psíquico[2]. O gráfico feito por Freud, em "O Ego e o Id", corresponde a um modelo espacial para o psiquismo, servindo como uma nova construção auxiliar[3] que ajudaria na procura da explicação de diversos fenômenos não adequadamente abordáveis pelo esquema da primeira tópica (tais como as neuroses narcísicas, o sadismo, o masoquismo, a hipocondria, a reação terapêutica negativa, a compulsão à repetição, etc.). Esta nova descrição metapsicológica das partes (sistemas) do aparelho psíquico não é feita sem que Freud procure preencher suas especulações com conteúdos empíricos, seguindo a prescrição kantiana que afirma que conceitos sem intuições são vazios e intuições sem conceitos são inúteis para o conhecimento científico[4].

 

Tratarei, aqui, de retomar o que Freud considera como sendo os conteúdos e as dinâmicas de funcionamento desta instância psíquica, diferenciando, nesse sentido, um aspecto totalmente especulativo (o Id como conceito metapsicológico para o qual não há referente possível no mundo factual) de outro aspecto descritivo, no qual Freud procura indicar quais seriam os seus conteúdos e dinâmicas factuais.

 

Para Freud, no Id, como um dos sistemas que compõem o aparelho psíquico, encontramos, em primeiro lugar, aquilo que, advindo do corpo, apresenta-se como força ou impulso psíquico, ou seja, o que ele denominou de pulsões: "[o Id] enche-se de uma energia proveniente das pulsões, mas não tem organização, não promove qualquer vontade geral, a não ser a tendência a procurar satisfação para as necessidades pulsionais na observância do princípio do prazer"[5]. É neste aspecto metapsicológico como referente do conceito de Id que Laplanche & Pontalis comentam, citando Freud: "o Id é concebido como ‘o grande reservatório' da libido e, mais geralmente, da energia pulsional[6]. A energia utilizada pelo ego é retirada desse fundo comum nomeadamente sob a forma de energia dessexualizada e sublimada"[7].

 

Além dessas descrições metapsicológicas, Freud também se refere aos conteúdos empíricos que compõem o Id, incluindo aí tudo aquilo que é fruto do processo de recalcamento, ainda que o recalcado seja apenas uma parte dos conteúdos desta instância: "o recalcado mistura-se igualmente com o Id, do qual é apenas uma parte"[8]. Por um lado o Id é descrito metapsicologicamente como uma instância psíquica, um lugar habitado por forças e energias psíquicas (as pulsões e a libido), por outro é descrito empiricamente como contendo a expressão psíquica das pressões corporais (biológicas) e os elementos inconscientes (representações e desejos) reprimidos. Trata-se, pois, de afirmar que há dois tipos de referente, dois tipos de formulações teóricas sobre o Id: uma metapsicológica, que faz parte da superestrutura especulativa da teoria psicanalítica, composta de conceitos para os quais não há referente possível na realidade empírica; e outra, empírica, composta por conceitos (representações, ideias, desejos, etc.) para os quais há referentes adequados na realidade factual interna.

 

2. Redescrição winnicottiana do conceito de Id

Nas diversas vezes que Winnicott utiliza o termo Id, via de regra, este está associado àquilo que advém do corpo como uma pressão biológica, pressão instintual[9], como aquilo que, advindo do corpo, é já organizado de determinada maneira, e não propriamente o corpo ele mesmo.

 

No seu artigo "A integração do ego no desenvolvimento da criança", ele diz:

 

No corpo de um recém-nascido anencefálico podem ocorrer acontecimentos funcionais, inclusive localização instintiva, acontecimentos esses que seriam denominados vivências da função do Id, se houvesse um cérebro. Poder-se-ia dizer que, se houvesse um cérebro normal, haveria uma organização dessas funções, e a essa organização se poderia dar o rótulo de ego. Contudo, sem aparato eletrônico não há experiência, e consequentemente não há ego. Contudo, normalmente o funcionamento do Id não é perdido; ele é reunido em todos os seus aspectos e passa a ser experiência do ego. Assim, não faz sentido usar a palavra "Id" para fenômenos que não são registrados, catalogados, experienciados e finalmente interpretados pelo funcionamento do ego[10].

 

Aqui é necessário fazer a distinção entre a vida instintual (com suas correspondentes excitações corporais) e a sexualidade propriamente dita. Os instintos são, para Winnicott, efetivas pressões biológicas que exigem ação; desde que exista um cérebro intacto que possa registrar e dar sentido ao que se passa com o corpo. Neste início não há, ainda, para o bebê, uma realidade não self. Quando o ambiente se adequa às necessidades do bebê, este viveria a satisfação de suas necessidades como se delas mesmas adviessem os objetos que as satisfazem (do ponto de vista do observador, dados pelo ambiente, mas do ponto de vista do bebê, advindos dele mesmo). É por isso que Winnicottt diz que o bebê, neste início, mama num seio que é ele mesmo. Noutra maneira de dizer, pode-se afirmar que o bebê cria o seio no qual mama, ou, de forma mais geral, que os objetos que satisfazem as suas necessidades são objetos subjetivos, vivenciados como se adviessem destas necessidades e, neste sentido, criados pelo bebê[11].

 

Os instintos ou pressões instintuais não são, eles mesmos, uma necessidade para o bebê, eles criam necessidades. Neste sentido, a vida instintual não é vivida pelo bebê como algo que ele cria, como advindo dele, mas como algo externo a ele, tão externo quanto um trovão: "Deve-se ressaltar que ao me referir a satisfazer as necessidades do lactente não estou me referindo à satisfação dos instintos. Na área em que estou examinando os instintos não estão ainda claramente definidos como internos ao lactente. Os instintos podem ser tão externos como o troar de um trovão ou uma pancada"[12]. Só bem mais tarde, no processo de desenvolvimento afetivo, é que os instintos serão integrados à pessoa total da criança e serão, então, vivenciados como algo que advém dela mesma.

 

A sexualidade corresponde a uma determinada maneira de viver a vida instintual quando esta já está integrada como algo que pertence e advém da própria pessoa. Sobre a caracterização do que é a sexualidade, diz Winnicott:

 

[Freud] Verificou existir uma situação triangular que não podia ser descrita senão dizendo que o menino tinha amor pela mãe e estava em conflito com o pai como rival sexual. O elemento sexual foi demonstrado pelo fato de que tais coisas não aconteciam unicamente em fantasia: havia acompanhantes físicos, ereções, fases de excitação com clímax, impulsos homicidas e um terror específico: o medo de castração[13].

 

No início o bebê não tem maturidade para viver os instintos (fantasias, cenário edípico, reconhecimento de excitações corporais associadas a determinadas partes do corpo e a determinados objetos, etc.), mas isto não significa que ele não tenha experiências instintuais. Numa criança, com o cérebro intacto, é possível dizer que suas excitações corporais são vividas, registradas, catalogadas, reunidas, etc., constituindo um campo de experiências específico, o campo da instintualidade ou campo de experiências do Id. Ao lado deste aspecto da existência existira outro, não ligado diretamente aos instintos, mas aos aspectos relativos ao desenvolvimento do ego, à necessidade de ser e continuar sendo. Cabe afirmar que os instintos para Winnicott não são o corpo, ele mesmo, mas o corpo que é "interpretado" pelo funcionamento do ego ou da tendência inata à integração, o que só pode ocorrer num cérebro que não esteja danificado (como é o caso extremo de uma criança anencefálica).

 

Winnicott reconhece que a psicanálise surgiu focada na questão dos instintos, formulando uma teoria da sexualidade (da instintualidade) pensada em termos de zonas erógenas. É justamente neste contexto que ele se refere, no seu artigo "O conceito de indivíduo saudável", ao Id como sinônimo de instintualidade, ligado às zonas erógenas. Assim, podemos ler: "Na primeira metade do século de Freud, toda avaliação da saúde precisava ser feita em termos do estágio em que se encontrava o Id, de acordo com as predominâncias sucessivas das zonas erógenas. Isso ainda tem validade. A hierarquia é bem conhecida - inicia-se com a predominância oral [...]"[14].

 

A teoria do desenvolvimento da sexualidade, pensada em termos de zonas erógenas, corresponde a uma tentativa de compreender a linha instintual do amadurecimento, mas este desenvolvimento é díspar do desenvolvimento do ego: "Assinalar a importância dos processos maturacionais que se referem ao ego, mais dos que aos relacionados à consideração das posições do Id na hierarquia das zonas erotogênicas"[15]. Para Winnicott, o desenvolvimento ou amadurecimento do ser humano ocorre na consideração de duas linhas paralelas: uma que diz respeito aos instintos e às relações que a vida instintiva impulsiona e determina, e outra, a que constitui o ego e seus desenvolvimentos, ou, também caracterizável, como a linha identitária do amadurecimento[16].

 

O que Winnicott afirma é que a análise do desenvolvimento focado na questão da administração da vida instintual é algo importante de ser considerado, mas que o amadurecimento não tem a ver apenas com a administração dos instintos. Ele caracteriza o trabalho de Freud como tendo sido aquele que construiu uma teoria do desenvolvimento das relações objetais, pensadas em termos das excitações corporais que pedem satisfação ou eliminação, ocupando-se da compreensão da vida psíquica em termos das suas relações com as pressões instintuais, mas que esta abordagem corresponde a um dos aspectos da vida psicoafetiva, uma vez que não aborda a linha do desenvolvimento que se refere à constituição do ego enquanto um aspecto da existência que não pode ser redutível ou referida à questão da administração dos instintos nas relações inter-humanas. Diz Winnicott, neste sentido:

 

Se prosseguirmos, começaremos a utilizar uma linguagem diferente. Esta seção se iniciou em termos de impulso do Id e termina referindo-se à psicologia do ego. No entanto, hoje em dia não nos sentimos satisfeitos com uma avaliação da saúde em termos das posições do Id. É mais fácil descrever os processos desenvolvimentais em relação à função do Id do que em termos do ego e de sua complexa evolução, mas mesmo assim o segundo método não pode ser evitado. Temos que tentar fazê-lo[17].

 

Winnicott está chamando a atenção para o fato de que o processo de desenvolvimento deve considerar, em primeiro lugar, a constituição do ego (tomado aqui como sinônimo de um tipo de integração à qual o indivíduo alcança), primeiro como um tipo de experiência fugaz (a experiência de ser associada ao self que encontra os objetos subjetivos, com a ajuda do ambiente), para se consolidar mais firmemente em termos da diferenciação mais estável que separa o Eu do não Eu, como também, num momento mais tardio, alcançando o estado em que o indivíduo é uma pessoa inteira que se relaciona com os outros como pessoas inteiras. É também neste sentido que Winnicott diferencia o ser do fazer, colocando que, primeiro, devemos conquistar a possibilidade efetiva de ser para, depois, ter sentido tudo aquilo que se pode fazer (e, como um dos aspectos deste fazer, o fazer que diz respeito às pressões instintuais e ao encontro erótico). Diz Winnicott: "De ser vem o fazer, mas não pode existir o fazer antes do ser"[18]. Os processos que levam ao ser são díspares daqueles que levam o indivíduo a fazer algo com seus instintos.

 

Ao comentar que a saúde pode ser pensada em dois grandes campos, o da neurose e o da psicose, ele também colocará ênfase na diferenciação entre chegar a Ser e ter problemas com o Fazer [reconhecendo na psiconeurose os problemas relacionados com o fazer e relacionado com a administração dos instintos nas relações interpessoais (que caracterizaria os neuróticos)]. Diz Winnicott:

 

Fica-se claro que não nos satisfazemos com a ideia da saúde como uma simples ausência de doença psiconeurótica - ou seja, de distúrbios relativos à progressão das posições do Id em direção à genitalidade plena e à organização de defesas relativas à ansiedade e a relações interpessoais -, podemos dizer que, em tal contexto, a saúde não é fácil[19].

 

Para Winnicott, os neuróticos são aqueles que conquistaram uma unidade na qual os instintos, antes sentidos como elementos externos, agora, são vividos como advindos de dentro do indivíduo; mais ainda, os neuróticos são pessoas inteiras que se relacionam com os outros como pessoas inteiras no quadro do cenário edípico. Diz Winnicott:

 

na psiconeurose, o paciente existe como uma pessoa, é uma pessoa total, que reconhece objetos como totais; acha-se bem-alojado em seu próprio corpo e a capacidade de relacionamentos objetais está bem-estabelecida. Desde este ponto de vista, o paciente encontra-se em dificuldades, e estas surgem dos conflitos que resultam da experiência dos relacionamentos objetais[20].

 

Reconhecendo que Freud construiu sua teoria do desenvolvimento da sexualidade em função da análise de seus pacientes neuróticos, é compreensível que ele tenha tomado como processo universal a questão do complexo de Édipo e da administração dos instintos nas relações interpessoais.

 

Podemos, pois, para compreender a posição de Winnicott em relação à vida instintual, dizer que os instintos estão presentes desde o início, mas que a sexualidade, como uma determinada maneira de viver a vida instintual, é algo que será alcançado a partir de certo grau de maturidade do ego. Cabe, pois, reiterar, neste sentido, que, para Winnicott, instintualidade e sexualidade não são a mesma coisa. Pode-se afirmar que a sexualidade é uma determinada maneira de viver a instintualidade, quando esta última está integrada na pessoa, em especial, quando foi atingido o estágio edípico e os relacionamentos interpessoais acontecem permeados por sensações e fantasias de natureza erótica e devem, pois, ser administrados nas relações interpessoais[21].

 

Quando um indivíduo conquistou saúde suficiente para ser um neurótico, então a vida instintual é vivida como algo que pertence ao indivíduo e que exigirá sua administração, tanto em termos da realidade quanto em termos das fantasias a elas associadas, nas relações interpessoais.

 

Ao referir-se à adolescência, como um momento em que a vida instintual retoma suas pressões com intensidade, ele também usa o termo Id referindo-se aos instintos, afirmando que:

 

é possível estudar o adolescente em termos das reações do ego às mudanças do Id, e o psicanalista praticante deve estar preparado para enfrentar este tema central, seja tal como se manifesta na vida do paciente, seja tal como se apresenta no material do paciente trazido ao contexto analítico ou na fantasia consciente e inconsciente e nas partes mais profundas da realidade psíquica, pessoal e interior do paciente[22].

 

No entanto, a vida instintual - que retoma seu desenvolvimento na adolescência, acrescentando ao indivíduo uma potência motora e a uma potência sexual, com efetivas possibilidades de matar e gerar - não é o centro determinante de tudo o que ocorre na adolescência. Winnicott reconhece que neste momento também há que se considerar a questão da linha identitária do amadurecimento: mais importante do que os problemas com o corpo e as excitações corporais nas relações interpessoais, há o problema existencial que coloca a questão ou busca fundamental de ser alguém em algum lugar[23].

 

A questão da administração da vida instintual, referível ao Fazer (ou deixar que façam), se mescla com as questões identitárias, como um amadurecimento assentado na experiência psicológica de ser:

 

No decurso do desenvolvimento emocional do indivíduo, chega-se a um estádio no qual se pode dizer que o indivíduo se tornou uma unidade. Na linguagem que utilizei, este é o estádio do "eu sou" e (seja como for que o denominemos) o estádio possui significação devido à necessidade do indivíduo de chegar a ser antes do fazer. "Eu sou" tem de preceder o "eu faço", pois, de outra maneira, "eu faço" torna-se desprovido de significado para o indivíduo. Esses estádios de desenvolvimento, como supomos, aparecem em forma tenra em estádios muito primitivos, mas recebem reforço do ego materno e, portanto, têm, nos primeiros estádios, uma intensidade que se relaciona ao fato da adaptação da mãe às necessidades não ser apenas uma questão de satisfação de instintos, mas há que pensar nela primariamente em função do segurar e do manejar[24].

 

Winnicott afirma, dando ênfase no que é fundamental e base do existir: "Após ser - fazer e deixar-se fazer. Mas ser, antes de tudo"[25].

 

Bem mais à frente, no processo de desenvolvimento afetivo, quando chega a adolescência, encontramos uma complexa e diversa constituição de padrões de ser e se relacionar (fazer) nesse momento da existência em que a organização pré-existente do ego (com a conquista de um Eu sou, diferenciado do mundo externo) reage à nova investida do Id[26], ou seja, reage à retomada das pressões instintuais, agora com um colorido sexual mais claro, acrescido de potência motora (a agressão, agora, pode matar!) e sexual (o ato sexual e a procriação são, agora, um fato possível), meninos e meninas vivem um mundo de turbulência e instabilidade, um mundo no qual só as soluções pessoais são válidas. Winnicott aponta para a mensagem que a vivência adolescente nos ensina: "À medida que rapazes e moças adolescentes deixam este estágio, começam a se sentir reais, e adquirem um senso de self e um senso de ser. Isto é saúde. A partir do ser, vem o fazer, mas não pode haver o fazer antes do ser - eis a mensagem que os adolescentes nos enviam"[27].

 

Quando Winnicott se dedica ao problema da atitude antissocial, também há uma referência ao Id como sendo a instintualidade, opondo o universo de problemas e questões relativos aos instintos ao dos problemas identitários ou relacionados com o sentimento de ser. Ao diferenciar, então, as necessidades do Id das necessidades do Ego, referindo-se aos cuidados maternos, Winnicott diz:

 

A mãe necessariamente falha em satisfazer as exigências instintuais, mas pode ser completamente bem-sucedida em não decepcionar o bebê, em satisfazer as necessidades do ego até que o bebê tenha uma mãe-suporte do ego introjetada e tenha idade suficiente para manter esta introjeção a despeito de deficiências de suporte ao ego no ambiente real[28].

 

Aqui Winnicott diferencia os cuidados do ambiente que dizem respeito às satisfações das necessidades instintuais, necessidades do Id, dos cuidados ambientais que dizem respeito às necessidades de ser, o que pode, aqui, ser tomado como sinônimo de necessidades do ego. Noutro momento de sua obra, faz o mesmo tipo de diferenciação:

 

A psicanálise preocupa-se primordialmente (e não poderia deixar de ser assim) com as necessidades instintivas (do ego e do Id), mas neste contexto estamos mais preocupados com as condições ambientais que tornam possível todo o restante; isto é, estamos mais preocupados com a mãe segurando (holding) o bebê que com a mãe alimentando o bebê. O que constatamos, no tocante ao processo de crescimento emocional individual, quando o holding e todos os demais cuidados são suficientemente bons?[29]

 

Para que o ser humano possa, no decorrer do seu processo de amadurecimento, reconhecer que existem objetos externos que podem servir para atender às suas necessidades instintuais, é necessário que ele tenha alcançado a capacidade de diferenciar entre o Eu e o não Eu. Conquistado esse lugar ou modo de ser no mundo, atingida uma unidade do sujeito psicológico com o reconhecimento de um mundo externo díspar do mundo interno e, mais ainda, com a integração dos instintos nessa unidade (ou seja, com os instintos sendo experienciados como sendo algo interno e pertencente ao indivíduo), poderão ocorrer, de maneira mais objetiva, a frustração e a raiva em relação aos objetos, como reações à não satisfação das pressões instintuais. Isto, que ocorrerá de maneira mais consistente e mais estável na fase do concernimento (ou posição depressiva), é prenunciado nos momentos, intermitentes, em que o bebê concebe a qualquer de seus objetos (subjetivos ou transicionais) uma realidade não self, objetificando-os: "Assim que se acha disponível a organização do ego, o bebê concede ao objeto a qualidade de ser não eu, ou separado, e experimenta satisfações do Id que incluem a raiva relativa à frustração. A satisfação dos impulsos acentua a separação do objeto quanto ao bebê e conduz à objetivação do objeto"[30].

 

Assim, no decorrer do processo de amadurecimento, quando a criança atingiu a fase do concernimento, ocorrerá um modo específico de administrar os instintos, com a integração do amor e do ódio, a integração dos aspectos amorosos e destrutivos, dos indivíduos e de seus objetos:

 

Quando se estabelece a confiança neste ciclo benigno e na expectativa da oportunidade, o sentimento de culpa em relação às pulsões do Id se modifica e, neste caso, precisamos de um termo mais positivo, como envolvimento. A criança está agora se tornando capaz de se envolver, de assumir a responsabilidade por seus próprios impulsos instintuais e pelas funções ligadas a eles. A fantasia que acompanha as pulsões vigorosas do Id contém ataque e destruição. Não é só que o bebê imagina que come o objeto, mas também quer apossar-se do conteúdo do objeto. Se o objeto não é destruído, isso se deve à sua própria capacidade de sobrevivência, não ao fato de o bebê protegê-lo. Este é um aspecto do quadro[31].

 

Certamente, quando o desenvolvimento leva o indivíduo à integração, na saúde, em termos de pessoa inteira, estes aspectos instintuais e identitários são vividos em conjunto. Como diz Winnicott: "A análise que leva em consideração tanto a distorção do ego como a exploração pelo paciente de suas pulsões do Id durante as tentativas de autocura"[32]. Não obstante, são fenômenos díspares que podem exigir cuidados psicoterapêuticos díspares, seja no cuidado com o setting seja no cuidado com o manejo da transferência.

 

Consideração final sobre a redescrição não metapsicológica do conceito de Id

A retomada destes diversos momentos em que Winnicott utiliza o termo Id pôde mostrar que ele refere-se ao Id como sinônimo de vida instintual, tanto num momento inicial do desenvolvimento quanto num posterior quando a vida instintual pode também ser caracterizada como vida sexual. Em todos estes momentos em que Winnicott usou o termo Id, em nenhum deles o fez referindo-se a uma parte (sistema ou instância) de um constructo teórico (o aparelho psíquico) ficcional, com o objetivo de figurar o psiquismo, tendo em vista explicitar suas dinâmicas de funcionamento. Como já observou Green[33], Winnicott não usa a noção de aparelho psíquico, logo, também não usa a de instância psíquica, preferindo referir-se à estrutura e organização da vida emocional, ela mesma, qualificando e diferenciando fenômenos e relações do indivíduo com os objetos, com o ambiente, e consigo mesmo. Não se trata apenas de uma questão de nomenclatura, dando nomes diferentes para as mesmas coisas; ao contrário, são nomes díspares para fenômenos díspares, estabelecendo distinções epistemológicas e metodológicas importantes, tanto para a teoria como para a clínica psicanalítica, que aumentam o poder de descrever e agir sobre os processos afetivos em jogo nas relações inter-humanas e, especialmente, na prática psicanalítica[34].


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