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Resumo
Este artigo aborda a relação entre o leitor e o texto literário de um ponto de vista psicanalítico. Serão apresentados, de um lado, apontamentos de críticos literários que enfatizam o leitor, a recepção e o efeito estético; de outro, considerações freudianas e de autores que se valham do solo psicanalítico para suas proposições. Ao leitor pressuposto na tessitura do texto, pretendemos articular a singularidade do efeito que uma obra literária pode produzir em cada leitura, no encontro com cada leitor. Em cada página do livro o sujeito-leitor estampa sua marca e reescreve sua própria narrativa: devaneios são suscitados, recortes são feitos e lapsos são cometidos neste campo que se constitui entre leitor e texto literário.


Palavras-chave
Psicanálise; Psicanálise e Literatura; leitura; leitor.


Autor(es)
Débora Ferreira Leite de  Moraes

é professora da Fundação Getúlio Vargas. Mestre e doutoranda pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.



Ana Maria Loffredo

é professora livre-docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.




Notas

1.        Este artigo é decorrente da dissertação de mestrado intitulada "Ensaio psicanalítico para uma metapsicologia do leitor literário: uma leitura de Água viva de Clarice Lispector" desenvolvida pela primeira autora, sob a orientação da segunda, e defendida em 2011, no Instituto de Psicologia da usp.

2.        W. Iser, O ato da leitura: uma teoria do efeito estético, p. 10.

3.        H. R. Jauss, História da Literatura como provocação literária, p. 23.

4.        H. R. Jauss, op. cit., p. 23.

5.        W. Iser, op. cit., p. 73-79, grifos nossos.

6.        R. Barthes, O prazer do texto, p. 58.

7.        R. Barthes, op. cit., p. 11.

8.        U. Eco, Lector in Fabula: a cooperação interpretativa nos textos narrativos, p. 1.

9.        U. Eco, Lector in fabula, p. xi.

10.     U. Eco, Interpretação e superinterpretação, p. 29.

11.     Freud, ainda que fixe limites para a Psicanálise no campo da patografia, se alinha, de certa forma, nessa vertente, por exemplo, em "Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância" (1910) e incorre justamente no risco de colocar o artista num divã. As críticas a este tipo de "aplicação" da Psicanálise podem ser encontradas em Frayze (2005) e Passos (1995).

12.     U. Eco, Interpretação... op. cit., p. 77.

13.     Y. Rosenbaum, "Um sonho inquietante". In: A psicanálise e a clínica extensa: iii Encontro Psicanalítico da Teoria dos Campos por Escrito, p. 145.

14.     F. Pessoa, Livro do Desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, p. 233.

A.Green, O desligamento: psicanálise, antropologia e literatura, p. 42.

15.     U. Eco, Interpretação... op. cit., p. 61.

16.     U. Eco, Interpretação... op. cit., p. 76.

17.     S. Freud (1900). A interpretação dos sonhos. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. 4, p. 304.

18.     J. Birman, Por uma estilística da existência: sobre a psicanálise, a modernidade e a arte, p. 79.

19.     J. Frayze-Pereira, Cartas de Mario de Andrade a Portinari: uma questão de sobrevivência In: Bartucci, G. (Org.) Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação, p. 336.

20.     W. Iser, op. cit., p. 15-16.

21.     H. R. Jauss, op. cit., p. 23.

22.     W. Iser, op. cit., p. 123.

23.     S. Freud (1914), O Moisés de Michelangelo. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. 13, p. 217.

24.     S. Freud (1901), Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 6, p. 121.

25.     S. Freud (1901), op. cit., p.122.

26.     S. Freud (1919). O "Estranho", Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. 17, p. 267.

27.     S. Mijolla-Mellor, "A escrita é um escudo contra a loucura?". Colóquio Razão, loucura e criação. Material distribuído durante o evento no Instituto de Psicologia, p. 3, grifo nosso.

28.     T. H. Odgen, Os sujeitos da psicanálise, p. 1, grifo nosso.

29.     J. Bellemin-Noel, Psicanálise e Literatura, p. 20, grifo nosso.

30.     Não é nosso objetivo tratar da questão da transferência no percurso freudiano. Remetemos o leitor para o excelente trabalho de M. Minerbo, Transferência e contratransferência.

31.     Freud (1923), Dois verbetes de Enciclopédia, p. 264.

32.     J. Bellemin-Noel, op. cit., p. 20.

33.     A.C. Carvalho, "Escrita: remédio ou veneno?" Percurso n. 18, p. 85.

34.     N. Silva-Junior, "Ficção e Interpretação na Teoria dos Campos", in Herrmann, L. e Barone, L. (Org.) Interpretação e Cura: v Encontro Psicanalítico dos Campos por escrito, p. 168.

35.     F. Herrmann, Introdução à teoria dos campos, p. 59.

36.     A.M. Loffredo, "Interpretação e Ficção I", in Herrmann, L. e Barone, L. (Org.) Interpretação e Cura: V Encontro Psicanalítico dos Campos por escrito, p. 145.

37.     P. Assoun, Metapsicologia freudiana: uma introdução, p. 217, grifo nosso.

38.     J. Bellemin-Noel, op. cit., p. 34.

39.     A. Green, op. cit., p. 24, grifo nosso.



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Abstract
The relation between the reader and a literary text is here discussed from a psychoanalytic point of view. Notes by literary critics on the reader, on reception and on aesthetic effect are confronted to remarks by Freud and other analysts. In its organization, every text presuposes a reader; we articulate this reader to the unique effect produced by every single reading of a literary work. The subject-reader, so to say, prints his own mark, and rewrites his own narrative: daydreams are stirred up, personal cuttings and slips are made in this intermediate field between reader and literary text.


Keywords
Psychoanalysis; Psychoanalysis and Literature; reading; reader

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 TEXTO

Considerações psicanalíticas sobre a leitura literária

Psychoanalytic considerations on literary reading
Débora Ferreira Leite de  Moraes
Ana Maria Loffredo

Ler é também narrar. Trata-se de uma abertura para uma história que ainda não foi contada e que não está nas páginas do livro, mas na imaginação do leitor. O devaneio e as fantasias decorrentes da leitura literária estampam em cada página uma marca do sujeito: recortes são feitos e lapsos cometidos neste ambiente que se constitui entre leitor e texto literário. É dessa perspectiva que este artigo, escrito na interface da Crítica Literária com a Psicanálise, pretende explorar a relação entre o leitor e o texto literário. A palavra "entre" denuncia o espaço de interlocução e, além disso, aponta para o movimento de travessia e não para o ancoradouro. Interessa-nos, como objeto, o campo que se forma entre o leitor e o texto ficcional e, para estudar esse lugar de entrelaçamento, tanto a Crítica Literária quanto a Psicanálise nos trarão subsídios importantes.

 

Serão apresentados, de um lado, apontamentos de críticos literários que enfatizam o leitor, a recepção e os efeitos estéticos; de outro, considerações freudianas e de autores que se valham do solo psicanalítico para suas proposições. Embora esses dois alicerces teóricos balizem o perímetro de alcance das considerações que seguem, cabe um contorno mais preciso. As inquietações expostas no âmbito deste trabalho foram cultivadas em terreno psicanalítico e, portanto, se direcionam para essa área do saber. Essa condição é importante de ser mencionada porque há que se delimitar a abrangência das hipóteses propostas.

 

Leitor na tessitura do texto

Preocupados com a recepção estética e o efeito da leitura de uma obra ficcional, Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser representam, no âmbito da Crítica Literária, o que ficou conhecido genericamente como "Escola de Constança". No final da década de 1960, na Alemanha, esses autores inauguram um campo específico de interesse: a leitura. Eles "não mais se concentravam tanto na significação ou na mensagem, mas sim nos efeitos dos textos e em sua recepção"[1]. Dessa forma, representam um deslizamento de uma tradição hermenêutica - advinda de uma orientação semântica, que buscava no texto uma significação oculta ou a intenção cifrada deixada pelo autor - para uma ênfase na recepção, na leitura e no efeito proporcionado pelo texto. De uma história dos autores, das obras e dos gêneros, de uma ênfase na intenção do autor e do texto, os críticos literários passam a considerar também o leitor.

 

É por meio de uma vertente metodológica histórico-sociológica que Jauss, considerado o principal expoente da Estética da Recepção, fará suas proposições acerca da recepção da obra literária:

 

A relação entre literatura e leitor possui implicações tanto estéticas quanto históricas. A implicação estética reside no fato de já a recepção primária de uma obra pelo leitor encerrar uma avaliação de seu valor estético, pela comparação com outras obras já lidas. A implicação histórica manifesta-se na possibilidade de, numa cadeia de recepções, a compreensão dos primeiros leitores ter continuidade e enriquecer-se de geração em geração, decidindo, assim, o próprio significado histórico de uma obra e tornando visível sua qualidade estética[2].

 

A intertextualidade, a validação de permanência e qualidade estética de uma obra seriam, dessa maneira, indicadores e operadores em uma Crítica Literária que pretende investigar a recepção. Ademais, a importância do contexto de ambos, leitor e obra, é de extrema estima para esse tipo de análise porque "a obra literária não é um objeto que exista por si só, oferecendo a cada observador em cada época o mesmo aspecto. [...] Ela é, antes, como uma partitura voltada para a ressonância sempre renovada da leitura"[3].

 

Isso quer dizer também que cada nova leitura, cada leitor e cada época podem produzir combinações diversas que incorrerão em interpretações distintas de um mesmo texto literário. Mantendo a metáfora: diferentes sons podem ser produzidos embora a partitura se mantenha a mesma. E se o texto é a partitura por meio da qual a obra pode ser produzida pelo leitor, há que se considerar a imprescindível presença do intérprete para que se torne audível. Essa é a condição de singularidade da interpretação literária e, portanto, de cada leitura, de cada encontro entre o leitor e o texto ficcional.

 

Esse aspecto, que coloca o leitor no lugar de intérprete, aponta para a subjetividade da interpretação, que será discutida, principalmente por Iser (1996), como uma qualidade que não pode ser arbitrária nessa relação entre texto e leitor. É no embate entre a subjetividade do leitor e a materialidade do texto que o sentido é construído. Para este estudo, a consideração da subjetividade do leitor envolvida no processo não só é importante como é imprescindível.

 

Iser, conhecido por sua teoria do Efeito Estético, tem como norteador para suas hipóteses o fato de que o que o texto provoca no leitor já está pressuposto em sua elaboração e, portanto, pode ser encontrado em sua estrutura formal. Para discutir esta questão, propõe o constructo teórico de leitor implícito:

 

o leitor implícito não tem existência real; pois ele materializa o conjunto das preorientações que um texto ficcional oferece, como condições de recepção, a seus leitores possíveis. [...] os textos só adquirem sua realidade ao serem lidos [...]. Apenas a imaginação é capaz de captar o não dado, de modo que a estrutura do texto, ao estimular uma sequência de imagens, se traduz na consciência receptiva do leitor. [...] A concepção de leitor implícito descreve, portanto, um processo de transferência pelo qual as estruturas do texto se traduzem nas experiências do leitor através dos atos de imaginação[4].

 

Essa implicação da imaginação, como possibilidade aventada pela estrutura formal do próprio texto ficcional, nos remete mais uma vez à condição subjetiva da leitura , já que pressupõe que o leitor precisa participar criativamente da composição dos sentidos do texto por meio justamente de suas fantasias. E se há um sujeito-leitor convocado ao devaneio criativo, neste ponto podemos encontrar a possibilidade de diálogo com o campo psicanalítico. Se o próprio texto, em sua estrutura, contém um potencial suscitador de fantasias e se é só no ato da leitura que esse potencial pode se atualizar, então é plausível se perguntar se cada leitura é dependente exclusivamente da capacidade de fantasiar de seu leitor.

 

Freud, em "Escritores criativos e devaneios" (1908), compara o ato de criar com o ato de brincar da criança e com as fantasias e devaneios do adulto, indicando que na escrita estaríamos falando de uma atualização das fantasias do escritor. Deste ponto de vista, jogar com as palavras substituiria o jogo infantil, daí a hipótese de que a obra literária, assim como o sonho diurno, seria uma espécie de suplente para o brincar da infância. Birman (1996) propõe uma inversão desta formulação ao afirmar que o texto, ao ser lido, promove uma atualização das fantasias do leitor. Também para Barthes, o prazer da leitura está relacionado às fantasias promovidas a partir dela. O "leitor pode dizer incessantemente: eu sei que são apenas palavras, mas mesmo assim... (emocionalmente como se essas palavras enunciassem uma realidade)"[5]. E, de fato, enunciam, já que estão ligadas à capacidade de imaginar, de fantasiar e de remeter o conteúdo lido a conteúdos inconscientes.

 

Podemos unir estas duas vertentes e pensar que há uma dupla atualização de fantasias quando estamos nos referindo aos textos literários: uma atualização por parte do autor, no processo criativo da escrita, e uma atualização das fantasias do leitor no processo criativo da leitura. Ainda que especificidades sejam reservadas para cada processo, podemos considerar que, dessa perspectiva, à criação literária da escrita soma-se uma criação literária da leitura. Isso acontece justamente porque o próprio texto exige uma cooperação do leitor por meio de sua imaginação. O leitor é levado à produção de novos sentidos a partir do texto por meio de suas próprias associações - é nesse aspecto que deparamos com a dimensão irruptiva da leitura. O "prazer da leitura vem evidentemente de certas rupturas (ou de certas colisões)"[6]. Uma obra literária, deste ponto de vista, parece propiciar ao leitor uma situação semelhante àquela que constitui a situação analítica. Deixemos esta consideração em suspenso para retomá-la mais adiante em vista de outros argumentos. Voltemos aos críticos literários.

 

Umberto Eco, também representante dessa tradição pragmática, postula que uma obra literária pode oferecer, "de um lado, uma livre intervenção interpretativa a ser feita pelos próprios destinatários e, de outro, apresentar características estruturais que ao mesmo tempo estimulassem e regulassem a ordem das suas interpretações"[7]. Segundo esse autor, trata-se de movimentos cooperativos que fazem com que o leitor preencha os espaços vazios que o texto oferece; que permite que o destinatário tire do texto aquilo que ele não diz; que faz com que possa intertextualizar o texto, imaginar e fantasiar a partir da trama que se apresenta. É de importância perceber que, dessa maneira, estamos considerando que o "leitor constitui parte do quadro gerativo do próprio texto [...] um texto não requer a cooperação do próprio leitor, mas quer também que esse leitor tente uma série de opções interpretativas que, se não infinitas, são ao menos indefinidas"[8]. Será que poderíamos pensar em um encontro entre leitor e texto que não fosse direcionado nem pelo texto, nem pelo leitor, mas pela experiência que emerge justamente desse "entre" da relação?

 

Assim como na narrativa clínica, que se destina ao analista, a polissemia da palavra parece nos levar para possibilidades infindáveis de interpretação também de um texto ficcional. Contudo, se por um lado o texto apresenta uma multiplicidade de linhas que podem ser provocativas de interpretações diversas, por outro lado também abarca nas palavras que o compõem limitações que não permitem qualquer tipo de construção.

 

Para Eco, há uma intenção do autor ao produzir a obra, uma intenção do leitor ao entrar em contato com essa obra a fim de interpretá-la e uma intenção do próprio texto vista por meio de elementos que o estruturam:

 

Sugeri que entre a intenção do autor (muito difícil de descobrir e frequentemente irrelevante para a interpretação de um texto) e a intenção do intérprete que (para citar Richard Rorty) simplesmente debasta o texto até chegar a uma forma que sirva a seu propósito, existe uma terceira possibilidade. Existe a intenção do texto[9].

 

Desse triângulo, base para a aproximação crítica de uma obra literária, estamos privilegiando dois aspectos neste trabalho: a intenção do texto e a intenção do leitor. A intenção que o autor teve ao criar aquela obra, a subjetividade e o processo criativo do próprio autor, dimensão que para Freud nunca perdeu espaço em suas análises estéticas, mas que deparou com mais críticas que concordâncias[10], para Eco torna-se irrelevante. Isso não quer dizer que tenha menor importância ou valor, mas além de não termos acesso a essa particularidade, uma vez escrita, a obra está disponível para o leitor e tem sua própria intenção na escritura que se tornou palpável. "Todavia pode parecer um tanto rude eliminar o pobre autor como algo irrelevante para a história de uma interpretação"[11]. É plausível questionarmos se de fato podemos nomear como irrelevante a intenção do autor. Seria de fato sem relevância que, por trás do texto, haja um escritor mesmo que ausente e inacessível no ato da leitura?

 

Se, por um lado, o autor pressupõe a existência de um outro ausente para quem se dirige no ato da escrita, o leitor, em contrapartida, também se relaciona com esse outro ausente no ato da leitura. A interrogação que se apresenta é: quem é esse outro para o leitor, o escritor ou o texto? Por um lado, podemos pensar que é com o texto que a relação cooperativa, criativa e promotora de efeitos se faz. Dessa perspectiva, a experiência de leitura ocorre com o texto ficcional e não com o autor do texto; "a obra, uma vez publicada, não se curva mais ao seu autor e dele se torna independente"[12]. Nesse caso, é por meio de uma espécie de relação específica com o texto, promovida pelo pacto ficcional, que o leitor produz sentidos. Por outro lado, o pacto ficcional é proposto pelo autor e é possível presumir que o leitor também se dirige para o autor-ausente e, a partir dessa situação de desamparo inicial, é que coloca o texto como o outro necessário para instaurar o jogo textual. Afinal, "Ler é sonhar pela mão de outrem"[13]. André Green, em seu livro O desligamento: psicanálise, antropologia e literatura, referindo-se especificamente à leitura e à interpretação de textos feita pelo crítico psicanalista, esclarece que o texto "carrega marcas. É a partir de tais marcas, que têm o poder de emitir incessantes sinais para o inconsciente do leitor analista"[14], que o processo de leitura acontece.

 

Se considerarmos que a relação é estabelecida entre leitor e texto, é preciso notar que o próprio texto servirá de limite para as possibilidades hermenêuticas. Mas se as tentativas de interpretação de um texto tendem ao interminável, "segundo que critério concluímos que uma determinada interpretação textual é um exemplo de superinterpretação?"[15]. A resposta dada por este crítico é a seguinte: a "única forma é checá-la com o texto enquanto um todo coerente [...] qualquer interpretação feita de uma certa parte de um texto poderá ser aceita se for confirmada por outra parte do mesmo texto, e deverá ser rejeitada se a contradisser"[16].

 

Neste ponto podemos recordar o que Freud nos ensina sobre a interpretação de um sonho: partes de um quebra-cabeças pictórico podem ser substituídas por palavras até que se forme um verso; podem ser checadas diante de outras partes deste mesmo quebra-cabeças e isso não quer dizer que tenhamos que atribuir ao todo um sentido único. Nas palavras freudianas:

 

Só podemos fazer um juízo adequado do quebra-cabeças se pusermos de lado essa crítica da composição inteira e de suas partes, e se em vez disso, tentarmos substituir cada elemento isolado por uma sílaba ou palavra que possa ser representada por aquele elemento de um modo ou de outro. As palavras assim compostas já não deixarão de fazer sentido, podendo formar uma frase poética de extrema beleza e significado[17].

 

Em outras palavras, "considerar o sonho como uma tessitura multifacetada de signos sem atribuir a ele, a priori, um sentido totalizante, pressupõe que sua estrutura seja análoga a de um texto"[18]. Por analogia, portanto, podemos encontrar em um texto literário essa mesma tessitura multifacetada de signos e nos valermos do mesmo método para inscrevê-lo na ordem do sentido - a interpretação. É imperativo ressaltar que, para isso, diferentemente do sonho, não contamos com as associações do autor do texto. Essa peculiaridade fornece os limites da interpretação de textos literários e sua especificidade. Trata-se de uma demarcação inflexível, apontada por Frayze-Pereira, quando se refere às cartas de Mário de Andrade a Portinari:

 

a angústia e o sofrimento que atravessam as cartas, com base apenas nelas, não são passíveis de uma interpretação mais exata, mais fina e encarnada. E esse é um limite inexorável que o psicanalista encontra ao se voltar para a literatura e para a arte. Afinal, não tenho Mario ao meu lado, em pessoa, disponível para o devaneio associativo e o trabalho paciente da escuta[19].

 

Leitor: intérprete ou interpretado?

Retomemos alguns alicerces para avançar em nossas hipóteses. De acordo com Iser[20], "o texto literário é um potencial de efeitos que se atualiza no processo de leitura [...] o efeito estético deve ser analisado, portanto, na relação dialética entre texto, leitor e sua interação". Para Jauss[21], a obra literária "é, antes, como uma partitura voltada para a ressonância sempre renovada da leitura". Umberto Eco (2008) corrobora esta vertente quando menciona que o texto é uma obra aberta e, portanto, só se completa no encontro com o leitor. Potencial de efeitos, partitura ou obra aberta, o texto literário se apresenta como uma possibilidade que só se efetiva durante a leitura. Há uma particularidade do efeito causado na relação entre leitor e texto, uma singularidade em cada leitura que nos remete para a subjetividade envolvida neste encontro.

 

O intérprete, da partitura sempre renovada, participa criativamente do som que ajuda a produzir. Ou seja, "o texto ficcional exige imperiosamente um sujeito, isto é, um leitor. Pois enquanto material dado, o texto é mera virtualidade, que se atualiza apenas no sujeito"[22]. O movimento do desejo do sujeito-leitor em relação ao texto e os efeitos advindos desse caminho nos aludem, mais uma vez, à participação ativa do leitor. E cada encontro com o texto literário pode promover interpretação diversa da partitura oferecida - um efeito que está vinculado a cada experiência de leitura. Isso quer dizer que nem todos os textos literários oferecem da mesma maneira o convite ao leitor; também significa que nem todo leitor será afetado da mesma forma.

 

Com relação aos efeitos da obra de arte, Freud afirma em "O Moisés de Michelangelo" que o artista "visa é despertar em nós a mesma atitude emocional, a mesma constelação mental que nele produziu o ímpeto de criar"[23]. Para o psicanalista "isso não pode ser simplesmente uma questão de compreensão intelectual". A compreensão fica em segundo plano para dar caminho para o efeito agenciado pelas fantasias do espectador ou, no caso deste trabalho, do leitor. Isso quer dizer que estamos incluindo os movimentos do desejo do leitor como condição necessária e imprescindível para a leitura.

 

Nessa vertente relacional entre leitor e texto, Freud, em "Sobre a psicopatologia da vida cotidiana", afirma que "é a predisposição do leitor que altera a leitura e introduz no texto algo que corresponde a suas expectativas ou que o está ocupando"[24]. O leitor projetaria, assim, nos textos, o seu desejo de ali encontrar ressonância de suas próprias questões. Ao mesmo tempo, em contrapartida, é também o texto que provoca o leitor:

 

num segundo grupo de casos, é muito maior a participação do texto no lapso de leitura. Ele contém algo que mexe com as defesas do leitor - alguma comunicação ou exigência que lhe é penosa - e que, por isso mesmo, é corrigida pelo lapso de leitura, no sentido de um repúdio ou uma realização de desejo[25].

 

Cabe observar que nem o texto se oferece como papel em branco passível de qualquer projeção de fantasias, nem tampouco se apresenta fechado às associações e recortes feitos durante a leitura. Estamos falando essencialmente de um potencial de criação que só pode acontecer na presença do sujeito-leitor. É importante destacar que se estabelece uma espécie de acordo entre autor-leitor para que este encontro com o texto se torne terreno fértil para a criação literária da leitura. Freud, no artigo "O Estranho", afirma que "adaptamos nosso julgamento à realidade imaginária que nos é imposta pelo escritor"[26]. É diante desse pacto ficcional, neste campo oferecido pelo escritor, nesse espaço comum de habitação, que o leitor reside.

 

De acordo com Mijolla-Mellor, "a fantasia que sustenta a atividade da escrita é, conscientemente ou não, aquela de contaminar o leitor, de o perverter, ou então, de lhe revelar as pulsões análogas que irão se desvendar nele durante a leitura"[27].

 

Se o escritor pretende despertar em nós a mesma constelação mental que nele produziu o ímpeto de criar, se nos é imposta uma realidade imaginária, se o intuito é o de nos contaminar ou de nos revelar pulsões análogas, há aqui um espaço comum criado entre o par autor-leitor capaz de promover um encontro estranho-íntimo entre leitor e texto.

 

Ogden, na primeira página de seu livro Os sujeitos da psicanálise (1996), alerta o leitor que pretende dar continuidade à experiência de leitura daquele livro. Trata-se, nas palavras desse autor, de uma

 

perturbadora experiência de se ver transformado num sujeito que você ainda não conhece, mas mesmo assim reconhece [...]. Ler não é uma simples questão de examinar, ponderar ou até pôr à prova as ideias e experiências apresentadas pelo escritor. Ler implica uma forma de encontro muito mais íntima. Você, o leitor, precisa permitir que eu o ocupe - seus pensamentos, sua mente, já que não tenho outra voz para falar a não ser a sua. Se você pretende ler este livro, precisa dar-se o direito de pensar meus pensamentos, enquanto que eu preciso permitir tornar-me seus pensamentos, assim nenhum de nós será capaz de reivindicar o pensamento como sua criação exclusiva[28].

 

Esse vínculo estabelecido como suscitador de interpretações e de efeitos, esse encontro mais íntimo como o solo propício para transformação do leitor, esse espaço de criação, arriscamos nomear, por analogia, como campo transferencial. Uma série de devaneios, lapsos e fantasias forma a rede onde o desejo se movimenta e serve de sustentação para pensarmos que "é uma espécie de situação transferencial que parece instaurar-se no momento da relação com um texto, capaz de provocar identificações, de mobilizar investimentos afetivos intensos, de exercer uma espécie de sedução sobre o ego"[29].

 

Vale notar que Freud[30] considera que a transferência pode ser um obstáculo para a rememoração do material recalcado, mas, ao mesmo tempo, é a condição necessária que lhe permite o acesso. Esse paradoxo é constituinte da relação transferencial e remete à ambivalência diante das figuras parentais:

 

Ela varia entre a devoção mais afetuosa e a inimizade mais obstinada e deriva todas as suas características de atitudes eróticas anteriores do paciente, as quais se tornaram inconscientes. Essa transferência, tanto em sua forma positiva quanto negativa, é utilizada como arma pela resistência; porém, nas mãos do médico, transforma-se no mais poderoso instrumento terapêutico[31].

 

A partir desta condição de ambivalência da situação transferencial, podemos também pensar na resistência diante de trechos de livros que nos são penosos ou de leituras que exigem um caminho tortuoso e uma disposição para uma travessia nem sempre agradável. A oscilação entre a devoção mais afetuosa e a inimizade mais obstinada também acontece diante das páginas ficcionais do livro.

 

A transferência, tanto no âmbito da situação de análise quanto no contexto da obra ficcional, serve como suporte para a interpretação, como condição necessária, mas não suficiente, para que o método psicanalítico possa operar. No que concerne à relação entre leitor e texto literário, a alusão a uma espécie de situação transferencial é proposta por Bellemin-Noel da seguinte maneira:

 

os elos que se criam permitem uma ação nos dois sentidos: meu próprio inconsciente modifica minha visão do que leio e o que o livro delineia na penumbra alimenta em mim sonhos que adquirem cor inesperada. A leitura não constitui, na verdade, um tratamento; mas pode-se pensar que no tratamento o analista incita-me e ajuda-me silenciosamente a ler o texto que minha confiança escreve no divã e dedica a nós dois[32].

 

De acordo com esse ponto de vista, assim como o analista, o texto ficaria no lugar deste outro necessário para que o encontro estranho-íntimo seja instaurado. Se voltarmos às considerações de André Green sobre a interpretação de textos literários, encontraremos respaldo para a hipótese de que os efeitos provocados pela leitura poderiam sugerir que o texto ocupa um lugar aparentado à posição do analista:

 

O analista transforma-se então no analisado do texto [...] A interpretação do texto passa a ser a interpretação que o analista deve fornecer sobre o texto, mas, na verdade, trata-se de sua própria interpretação quanto aos efeitos do texto sobre seu inconsciente.

 

A oscilação entre as posições de intérprete e de interpretado, de analista e analisando do texto, neste espaço que estamos chamando, por analogia, de transferencial, marcaria essa experiência propiciada pela leitura. E uma vez habitado esse espaço comum, o intérprete deixaria de ser soberano. A soberania daria lugar ao embate entre as marcas do texto e os movimentos do desejo do leitor.

 

No caso do setting clínico convencional, embora o intérprete não ocupe o lugar de soberania, há que se pensar em uma necessária assimetria do par analítico, considerando que há uma espécie de desencontro fundamental, já que, convidado a pertencer ao campo do analisando, o analista, para escutá-lo, deve deixar um pé fora desse espaço. Também o leitor "permanece em sua leitura a uma distância que permite um certo grau de objetividade"[33]. A fertilidade dessa assimetria é apontada por Silva Junior: "O não encontro, o vazio da ruptura das expectativas presentes na comunicação podem assim ser pensados enquanto motor fecundo do método analítico, que nada mais seria que a própria forma a priori de todas as rupturas de campo possíveis"[34]. Esses apontamentos encontram ressonância nas considerações de Fábio Herrmann (2001) sobre os conceitos de campo e de ruptura de campo. Nas palavras do autor:

 

campo significa uma zona de produção psíquica bem definida, responsável pela imposição de regras que organizam todas as relações que aí se dão [...] Ruptura de campo é uma descrição essencial do efeito das interpretações psicanalíticas na sessão e, por causa disso, é também a forma mesma de todo o conhecimento legítimo[35].

 

Portanto, se pensarmos a transferência como esta zona privilegiada de produção psíquica, podemos autenticar como campo transferencial o espaço que é estabelecido entre leitor e texto literário. Cabe dizer que, se na situação analítica devemos interpretar com o analisando e não o analisando, diante da obra literária, interpretaremos com o texto e não o texto. Como efeito dessa interpretação, as rupturas de campo também acontecerão no ambiente literário. Relembrando Barthes, o prazer da leitura vem, justamente, de certas rupturas e de certas colisões.

 

O termo campo transferencial também nos parece adequado se pensarmos a transferência como

 

o espaço dramático e dinâmico em que se encena a rede complexa de sobredeterminação do sintoma e, por isso mesmo, como palco, a ela se ajusta com propriedade o termo campo, mais passível de comportar teoricamente a dinâmica mutante das personagens em cena[36].

 

Valendo-se da mesma metáfora, Assoun enuncia com precisão a seguinte questão: "De onde partir para pôr em cena o teatro organizado pela leitura, senão do encontro entre um sujeito e aquilo que oferece ao ler (um lectum) - evento que se inscreve no leitor por um certo efeito?"[37]. Pois é justamente a partir deste encontro como evento inscrito no leitor que podemos dizer que ao interpretar com o texto e não o texto, ao habitar este espaço comum de produção psíquica privilegiada, o intérprete-leitor interpreta-se a si mesmo. Como vimos, frente ao texto, o leitor oscila entre as posições de analista e analisando. Reconhece as páginas do livro ao mesmo tempo que se reconhece por meio delas. A cada linha do tecido, o leitor enreda seu próprio novelo: identifica-se, mobiliza afetos, comete lapsos e joga com as palavras. Afinal,

 

O que é que eu leio quando leio? O que um escritor lê quando escreve? A resposta é a mesma: lemos primeiro a nós mesmos, seja qual for a obra literária, quer a produzamos, quer a consumamos[38].

 

Dessa perspectiva, voltamos às considerações que deram início a este artigo: ler é também narrar. Trata-se de uma abertura para uma história que ainda não foi contada e que não está nas páginas do livro. Uma narrativa que só poderá ser escrita ou reescrita a partir deste palco dinâmico e dramático que se instaura entre o leitor e o texto literário. Uma espécie de campo transferencial que permite que o leitor ocupe ambas as posições: de intérprete e de interpretado.

 

O leitor diz ao escritor: "Mostre-se", na mesma hora em que o escritor o interpela dizendo: "Olhe para mim". Proposição que, com certeza, pode ser invertida sem mudar nada de fundamental, fazendo com que o leitor diga "Mostre-me", no momento em que ele encontra o chamado do escritor "Olhe para si", utilizando todos os recursos polissêmicos dessa inversão[39].


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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