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Resumo
Resenha de Silvana Rea, Pelos poros do mundo – uma leitura psicanalítica da poética de Flávia Ribeiro, São Paulo, Edusp/FAPESP, 2012, 268 p.


Autor(es)
Renato Tardivo

é psicanalista e escritor. Mestre e doutor em Psicologia Social pela usp. Pós-doutorando em Psicologia da Saúde (Metodista/capes). Autor, entre outros, de Porvir que vem antes de tudo– literatura e cinema em Lavoura arcaica.



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 LEITURA

Memória do corpo

[ Pelos poros do mundo – uma leitura psicanalítica da poética de Flávia Ribeiro ]


Memory of the body
Renato Tardivo

Pelos poros do mundo - uma leitura psicanalítica da poética de Flávia Ribeiro nasce da inquietação da autora, a psicanalista Silvana Rea, que, ao concluir o mestrado[1] em Psicologia Social da Arte, pesquisa centrada "no processo criativo e em suas relações com a psicanálise" (p. 25), questionou-se: "Até que ponto a psicanálise serviria à leitura em profundidade da poética de um único artista, sem a preocupação direta com o processo de criação de uma obra específica?" (p. 25). Essa questão deu origem ao seu doutorado no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, sob orientação de João A. Frayze-Pereira, como já ocorrera no mestrado.

 

Nesse sentido, Pelos poros do mundo, organizado a partir da tese de doutorado de Silvana Rea, insere-se em uma forma de trabalhar que marca os trabalhos em Psicologia da Arte realizados por Frayze-Pereira e orientandos desde o fim da década de 1980. Conforme explicitação de Frayze-Pereira no prefácio do livro: "Trata-se de uma maneira de trabalhar, designada psicanálise implicada [...] ou seja, assim como cabe à escuta do psicanalista permitir o livre curso das associações do paciente, é característico da psicanálise implicada trabalhar com as associações singulares suscitadas pela obra em contato com o psicanalista-intérprete-espectador" (p. 16).

 

A poética escolhida por Silvana Rea foi a da pintora, gravadora e escultora Flávia Ribeiro, uma das artistas plásticas brasileiras contemporâneas mais significativas. Nascida em 1954, em São Paulo, a artista já possui um vasto percurso, que inclui prêmios, exposições individuais e coletivas pelo mundo, aulas com os artistas José Resende e Carlos Fajardo, aperfeiçoamento em gravura na Slade School of Fine Art, em Londres, entre outros. Silvana Rea a acompanhou, com intervalos, entre 1995 e 2007, e durante esse longo período pôde realizar entrevistas no ateliê da artista. O resultado é o trabalho registrado neste belo livro, que tem por elementos estruturais a reflexão efetuada em convívio com a artista enquanto uma modalidade de crítica de arte e, além disso, uma estratégia curatorial.

 

Trata-se de uma modalidade de crítica, uma vez que o interesse da crítica contemporânea de arte reside na legibilidade da obra e na participação das situações que os artistas propõem[2], o que solicita do crítico uma reflexão sobre a sua própria experiência. Essas questões são amplamente discutidas no Capítulo 1 - "Uma proposta de curadoria". Norteada, dentre outros autores, pelo esteta italiano Luigi Pareyson, Silvana Rea vale-se da proposição de que o leitor deve se tornar congenial à obra, ou seja, de que é no encontro profícuo de perspectivas (formas da obra / pontos de vista do espectador) que o leitor realiza a obra, pois devolve a ela a vida de que é feita. Em suma, ao solicitar uma execução, a obra paradoxalmente não reclama nada que já não seja dela - e abre-se para vir a ser aquilo que, afinal, ela é[3].

 

Nessa direção, ancorado às especificidades da psicanálise implicada, o recurso ao método psicanalítico não se dá com o intuito de encerrar a poética de Flávia Ribeiro em conceitos previamente construídos, o que engessaria as possibilidades contidas na obra e nada acrescentaria à psicanálise. Em outra direção, trata-se de "introduzir a psicanálise no campo da estética pela principal via de acesso aos fenômenos que seu procedimento permite. Pois [...] cabe ao receptor-analista, na arte, adotar uma atitude mental aberta ao outro e trabalhar com a manifestação singular da obra na relação consigo" (p. 54). E é justamente essa articulação entre estética e psicanálise que leva a autora a pensar a sua própria pesquisa como uma proposta de curadoria, pois o curador empreende cortes seletivos para um projeto, de modo que, permeado pelo convívio com o artista e sua obra, se estabeleça um conhecimento hermenêutico "quase clínico"[4].

 

Os capítulos subsequentes apresentam a leitura de Silvana Rea da poética de Flávia Ribeiro, articulada em três eixos: "Imagens poéticas", "Corpos em contato" e "Jogos de olhares: olhares em jogo". Muito ricas são as reflexões propostas; seria impossível apresentar todas aqui. Gostaria, contudo, de mencionar algumas.

 

É inspiradora, na seção dedicada às "Imagens poéticas", a reflexão acerca do ritual alquímico enquanto retorno à origem, mas também enquanto passagem através da qual se constitui a pele, reflexão poética fundamentada na perspectiva bioniana, tais como a capacidade materna de rêverie, função-alfa e barreira de contato. Outro exemplo. Em "Corpos em contato", a artista comenta sua "matriz mutante" (p. 140). Diz Flávia Ribeiro: "É trabalhar na mesma chapa. Comecei a gravurar aqui, nesta matriz e fui gravando até um certo ponto. Daí eu volto. Começo a raspar para trazer o branco de volta. É uma construção que não para, vai e volta. Quase que não tem fim. Mas os vestígios estão todos aí. Posso polir essa chapa novamente, mas ainda vão ficar alguns vestígios. Gosto dessa ideia" (p. 139). A analogia com o modelo do aparelho perceptual proposto por Freud em "Uma nota sobre o bloco mágico"[5] alude à "própria temporalidade; na memória do papel, do tecido, do látex" (p. 141), uma memória do futuro, poderíamos dizer em companhia de Bion, e, visto que "o corpo, na obra de Flávia Ribeiro, é questão central de sua poética" (p. 142), talvez possamos afirmar que se trata de uma memória do corpo.

 

Não menos inspiradoras são as análises do terceiro eixo, "Jogos de olhares: olhares em jogo", em que, por meio de autores como Winnicott, Merleau-Ponty e Ogden, Silvana Rea discute a questão da fundição, da parceria, do espaço do "entre". E não estariam esses aspectos já aludidos no título do livro? Se uma das principais elaborações da tese é que - pelos poros do mundo - espectador e obra entram em contato, analogamente o próprio texto de Silvana Rea, sem perder o rigor teórico, configura-se enquanto uma poética psicanalítica, sustentada pela confiança que Flávia Ribeiro depositou na autora, mas também pela experiência demorada e comprometida que Silvana Rea entregou à poética cuja leitura viria a construir. Um trabalho realizado entre corpos, com efeito, a profundidade deste Pelos poros do mundo está em prensar o encontro do outro em si.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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