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Resumo
Resenha de Sylvia Salles Godoy de Souza Soares, Envelhescência – um fenômeno da modernidade, São Paulo, Escuta, 2012, 216 p.


Autor(es)
Beatriz Helena Peres Stucchi

é psicóloga e psicanalista, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – sbpsp, membro docente do Departamento de Psicopedagogia do Instituto Sedes Sapientiae.



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 LEITURA

Envelhescência – um fenômeno da modernidade [ Envelhescência – um fenômeno da modernidade ]

Coming of old age – a modern phenomenon
Beatriz Helena Peres Stucchi

Já a partir do título, que propõe afirmativamente um novo termo - Envelhescência - caberia perguntar se essa expressão estaria mesmo se referindo a um fenômeno da modernidade. O substantivo, que não consta no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, foi tomado de empréstimo de uma crônica de Mário Prata, em que o autor define a Fase da Envelhescência como o tempo entre os quarenta e cinco e sessenta e cinco anos - "e se você ainda não passou um dia chega lá..." [1].

 

Se podemos facilmente compartilhar o sentido de Envelhescência, ele seria um fenômeno atual? Há um paralelo implícito e feliz com Adolescência, este também um termo da modernidade. Mas envelhescência refere-se ao prenúncio da morte ou de nova fase da vida, a velhice? Parece que todos querem viver mais, mas... sempre jovens. Seria isto um desejo atual?

 

O conteúdo proporcionado pelo texto de Sylvia Godoy é fruto de uma tese de doutorado, constituída por muitas pesquisas e reflexões e também por um rico trabalho clínico. Empreitada de monta, da qual podemos aproveitar a generosa exposição de citações de grandes autores do campo das ciências, da literatura, da filosofia e da psicanálise, expressando suas considerações sobre envelhecer, desde tempos remotos até a crônica, já citada, de dias recentes. Cícero, Sêneca, Russell, Beauvoir, Ariès, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Clarice Lispector, Lipovetsky, além de Freud e outros mais.

 

As reflexões da autora, a partir de seu estudo dos vários pensadores, conjuntamente com a experiência clínica, embasam sua visão das questões presentes no envelhecer atual. Visão que nos fornece estofo para pensar a respeito da noção de velho, da temporalidade subjacente a esta noção, assim como para refletir sobre aquele que é considerado velho, sobre sua identidade, sua exclusão, sua solidão e sua separação, e ainda sobre os sentidos que para ele tem a morte, parte inerente da nossa existência.

 

Todos nós temos contato com as dificuldades reais e com as angústias que a velhice, na maioria das vezes, traz. Mas, como diz Newton Bignotto em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo: "a realidade não desaparece pelo simples fato de construirmos um discurso sobre ela. Criar um discurso é uma maneira de interferir no real" [2].

 

De acordo com esta ideia, o discurso criado por Sylvia Godoy pode nos instrumentar para a clínica de nosso tempo, ajudando-nos a intervir, na medida do possível, na nossa própria subjetividade e apurar nossa escuta sobre os fantasmas da passagem do tempo. Ou seja, considero que a longevidade que conquistamos nos desafia a ter também maior vitalidade psíquica nos tempos de envelhecer. Apenas a geriatria não atende à complexidade do fenômeno de termos mais tempo de vida. Mais tempo de vida sem os fantasmas atuais do que envelhecer tem reservado no imaginário social talvez seja algo a ser construído. O mais velho não tem mais o status social que outrora por ventura já teve. Experiência de vida, memória, sabedoria, serenidade não combinam com as mudanças socioculturais que a tecnologia nos têm proporcionado.

 

Como contextualizar as palavras de Cícero, Sêneca e outros tantos com que a autora nos brinda dos estudiosos do envelhecer ao longo da história? Quando é que se fica velho? Como identificamos o velho?

 

Se "o que define o sentido e o valor da velhice é o sentido atribuído pelos homens à existência, é o seu sistema global de valores" (p. 48)[3], como encontramos no capítulo III do livro - "O cenário do envelhecimento na contemporaneidade" -, podemos depreender da leitura desta obra que a identidade a respeito da qual estamos conversando não se restringe a um tempo cronológico que corresponderia à existência de cada um, pois a identidade do velho parece mudar com as mudanças socioculturais, ou com os valores de cada organização social.

 

Concordo com a autora quando afirma que a concepção de velhice "está assentada através dos tempos na cultura e na civilização da qual procede, e está à mercê de mudanças e de como cada cultura em sua época e lugar a distingue" (p. 195), mostrando assim sua reflexão crítica bastante abrangente.

 

Muitas ideias vão se engendrando a cada capítulo, abordam o tempo, a representação, o envelhecimento sob a égide da ideologia do poder, a contemporaneidade, concepções teóricas da Psicanálise, o envelhecimento do corpo e sua imagem na construção da identidade, narcisismo, luto e melancolia.

 

No capítulo "Identidade feminina - herança ou mito?", há um enfoque maior no trabalho clínico onde são apresentadas três mulheres na envelhescência - independente de suas idades: quarenta, cinquenta e oitenta anos. Toda a reflexão clínica que nos é apresentada mostra os efeitos dessa confrontação com o tempo para três mulheres, ou a passagem do tempo, no tempo atual para a alma feminina, e pode ir muito além. São mulheres de um mesmo tempo em diferentes tempos próprios: talvez a envelhescência não traga a marca do tempo cronológico - seria um vislumbre do tempo da velhice.

 

Com tanto conhecimento incorporado pela autora, como poderíamos dizer, há uma constante em seus comentários: refere-se à inquietante estranheza que nos causa o espelho que nos revela o envelhecer acontecendo.

 

Mas como enfrentar o medo de algo tão desconhecido como a morte?

 

Na busca de uma resposta, encontramos o seguinte na narrativa da autora: "dificuldades em envelhecer podem ser reveladoras de equilíbrio psíquico ou não, e nesse caso pertencem ao domínio da Psicanálise [...]. E a Psicanálise se oferece hoje não só como uma fonte de pontos de vista e perspectivas, mas também de instrumentos que permitem alcançar os desatinos do envelhecimento" (p. 69).

 

A autora prossegue: "E que recursos podem ser despertados para que a mente venha dar conta do processo em marcha?" (p. 74). Surge então a outra boa questão: "Mas qual o lugar do desejo num corpo que envelhece? O corpo é próprio de um tempo e lugar", afirmação exemplarmente ilustrada com uma vinheta clínica: "meu corpo não obedece à minha cabeça (ou desejo); e, muitas vezes ao contrário, o corpo tem força, mas a mente não acompanha" (p. 77).

 

Podemos ver com nitidez a riqueza dos processos de análise para auxiliar a redimensionar o movimento basculante entre o corpo físico e a imagem de si, sempre em alteração com a passagem do tempo. Impossível então não abordar com destaque a questão da identidade, discutida em diferentes aspectos de sua constituição durante todo o texto.

 

Narcisismo e luto serão ingredientes indispensáveis e bem aproveitados pela autora. Com pertinência, não se deixou de pensar na envelhescência com seus aspectos de perdas e do trabalho exigido para novos investimentos objetais.

 

"No processo de envelhecimento, as lutas e perdas sucessivas que tramitam em seu cerne convergem para o descumprimento de antigos padrões e sua subsequente renúncia" (p. 97). Eis a questão! Mas a mudança por si só pode levar a um abalo nos andaimes de seu edifício identitário. "Será, quem sabe, o maior dos esforços contrapor-se à força do hábito; toda desabituação é uma violência para o espírito" (p. 97)[4].

 

Talvez a maior violência para o espírito ainda seja a passagem do tempo! Ela exige de todos nós a confrontação com o mistério: de onde viemos e para onde vamos?

 

Se assim concordamos com o texto, não estamos com o novo termo abordando um fenômeno exclusivo do mundo feminino. Sylvia nos proporciona a companhia de grandes homens de todos os tempos para mostrar suas escutas clínicas.

 

Podemos quiçá compreender que a alma feminina só existe em justaposição com o olhar da alma masculina. Em suas conversas analíticas, os homens são referências fundamentais para que cada uma de suas analisadas faça importantes reconhecimentos de si mesma.

 

A autora nos revela sua intenção: "minha intenção, ao trazer à luz essas ideias, não foi colocar em discussão pontos de vista de Freud sobre as diferenças de gênero, mas demonstrar a eficácia do instrumento analítico em campo por ele inexplorado: a análise de mulheres em idades mais avançadas" (p. 194). No entanto, foi também com as mulheres que Freud pôde abrir um universo mais amplo de compreensão da alma humana.

 

Estará mais difícil envelhecer quando estamos ao mesmo tempo criando condições para uma vida pretensamente mais longa? Talvez estejamos nos defendendo da vida ao não encontrarmos um novo lugar de reconhecimento para a velhice ou para o velho.

 

A coragem da autora aponta para além dos temas sempre presentes na clínica: passagem do tempo, fantasmas da velhice, prenúncio da morte. Mas para a urgência de fazer surgir uma nova identidade para a velhice, para um tempo que estamos conseguindo criar na nossa existência. E que estamos criando transformações das concepções de infância, adolescência, idade adulta, envelhescência, velhice, ao estarmos em sintonia com a escuta clínica de nossos tempos, conforme a autora nos incentiva com seu livro.

Lembrei-me de um poema de Cecília Meireles que nesse momento parece concentrar muitas das ideias que me foram sugeridas pela leitura e que quero compartilhar com os leitores:

 

       Retrato

       Eu não tinha este rosto de hoje,

       assim calmo, assim triste, assim magro,

       nem estes olhos tão vazios,

       nem o lábio amargo.

 

       Eu não tinha estas mãos sem força,

       tão paradas e frias e mortas;

       eu não tinha este coração

       que nem se mostra.

 

       Eu não dei por esta mudança,

       tão simples, tão certa, tão fácil:

       - Em que espelho ficou perdida

       a minha face?


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