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Resumo
Resenha de Renato Mezan, O tronco e os ramos. Estudos de História da Psicanálise, São Paulo, Companhia das Letras, 2014, 615 p.


Autor(es)
Ines Loureiro
é socióloga e psicóloga, mestre em Psicologia pela PUC-SP, e doutoranda na mesma instituição.

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 LEITURA

Por que ler um clássico

[ O tronco e os ramos. Estudos de História da Psicanálise ]


Reasons to read a classic
Ines Loureiro

"Cem vezes no tear repõe teu trabalho", recomenda um célebre manual de estilo do Classicismo. "Cem trabalhos publica sem muito preparo", exigem os guias de produtividade acadêmica. Felizmente, é na primeira divisa que Renato Mezan busca inspiração para o ofício intelectual: de volta ao tear, ele nos brinda com ensaios inéditos nos quais apresenta os resultados de uma pesquisa em curso há mais de trinta anos, além de reunir material até agora disperso em várias publicações.

 

Iniciada a leitura, deparamos com um trabalho de impressionante vigor. Algumas páginas adiante, já é possível vislumbrar avanços teóricos significativos e com riquíssimas possibilidades de desdobramentos. Tudo isso na prosa agradável que nos é familiar: clara e fluente, bem humorada e salpicada de boas metáforas. Um terço do livro percorrido basta para constatar que temos em mãos um verdadeiro clássico. Já no sentido lato do termo, não seria difícil incluir Renato Mezan no rol dos "clássicos" da psicanálise brasileira - obra ou autor modelar, cuja importância e perenidade o tornam referência imprescindível no campo em que se situa. Mas, como veremos, há outros motivos pelos quais O tronco e os ramos faz jus ao adjetivo.

 

Comecemos pelo título. Não é de hoje que a metáfora da árvore viceja nos escritos de Mezan - desde Freud: a trama dos conceitos (1982), lá está ela, assinalando a articulação orgânica entre noções e temáticas freudianas. Agora a imagem passa ao primeiro plano e é empregada para figurar outra dimensão: a relação dos autores/escolas pós-freudianos com a obra seminal de Freud, relação desde sempre opaca e complexa - de derivação e inflexão, continuidade e ruptura, apropriação e diferenciação, elaboração e criação, mesmo e outro.

 

A árvore pode ser útil também para figurar o conjunto da obra escrita de Mezan. Raízes tão variadas como uma ampla cultura geral, o judaísmo, a formação em filosofia e a análise pessoal (duas experiências com analistas de linhagens distintas) dão origem ao cerne do caule teórico constituído, a meu ver, por dois marcos do pensamento psicanalítico brasileiro: Freud: a trama dos conceitos e Freud, pensador da cultura. O material dos muitos livros que se seguem poderia ser alocado ao longo de três ramos distintos de atividade do autor, cujas folhagens se cruzam e se confundem: pesquisa, ensino e interlocução pública. O da pesquisa congrega a produção em torno do eixo história/epistemologia da psicanálise, com destaque para a obra freudiana e a de seus discípulos mais próximos, bem como para as vicissitudes culturais e institucionais que marcam a implantação da psicanálise em diversos países, inclusive no Brasil. O ramo central da interlocução pública se bifurca: de um lado, o diálogo com o público especializado sobre questões específicas e relevantes no contexto da comunidade psicanalítica; tais questões e as produções que elas ensejam mantêm com os interesses de ensino/pesquisa uma relação de retroalimentação. Na outra direção encaminha-se a produção endereçada ao público amplo, que inclui desde textos mais didáticos de divulgação até saborosas análises de objetos culturais e as mais recentes "intervenções" - comentários psicanalíticos sobre a vida coletiva - veiculadas na grande imprensa. O ramo do ensino desponta da forquilha pesquisa/público especializado, abrangendo os frutos de sua experiência como professor e orientador na pós-graduação em Psicologia Clínica da pucsp: reflexões sobre a escrita e a pesquisa psicanalíticas, sobretudo quando praticadas em ambiente universitário, bem como numerosas resenhas de trabalhos nele gerados. A seiva que alimenta tão frondosa árvore é substanciosa: um pensamento logicamente refinado, teoricamente erudito, clinicamente preciso e esteticamente elegante. Clássico.

 

A coletânea ora apresentada reúne quatorze artigos - seis dos quais inéditos - distribuídos em três partes: "Da história da Psicanálise", "Freud" e "Da atualidade". Deixemos a primeira para o fim, já que comporta as maiores e mais importantes novidades.

 

Sobre "Freud" versam os quatro artigos produzidos a partir da interlocução pública. Destaque para os dois ensaios monográficos dedicados, respectivamente, ao Caso Dora e a A piada e sua relação com o inconsciente. Mais do que leituras minuciosas de duas grandes obras de Freud, tais ensaios são conduzidos por questões (devidamente explicitadas...) que os articulam ao horizonte externo aos textos, como o contexto de produção, pontos de contato com demais trabalhos freudianos e interpretações de outros comentaristas. Com isso, Mezan é bem-sucedido na difícil empreitada de dizer algo novo sobre Freud.

 

"E daí - o que apareceu de tão interessante?" é a pergunta desdenhosa com a qual Dora praticamente dispensa os préstimos de seu psicanalista. Mezan mostra que a análise de Dora foi pautada pelo modelo de interpretação proveniente da investigação onírica, que prescinde do fator transferencial e enfatiza o aspecto de decifração do conteúdo sexual reprimido. Isso converte o tratamento em um debate "intelectual" no qual Freud tenta provar à paciente (e também aos leitores) a veracidade e o sentido lógico de suas interpretações. Mas o impacto emocional dos dois lados do divã não poderia ser ignorado: se a importância da transferência é o grande aprendizado advindo do fracasso dessa análise, é aos afetos contratransferenciais que Mezan atribui parte desse fracasso, bem como o motivo pelo qual Freud teria mantido o manuscrito inédito durante quatro longos anos. À maneira de uma "psicanálise aplicada", Mezan vai à letra do texto (cotejado em diferentes traduções e examinado à luz de vários comentadores) buscar vestígios dos sentimentos e conflitos que supõe presentes em Freud. Seduzido e desafiado pela jovem, Herr Doktor deixa transparecer hostilidade/impaciência quando contrariado em sua vontade de tudo esclarecer e de curá-la por completo. Eis-nos na intimidade desta que é das primeiras encenações do jogo de poder na relação analítica.

 

Publicado originalmente numa coletânea organizada por D. Kupermann e A. Slavutzky, "A ‘ilha dos tesouros': relendo A piada e sua relação com o inconsciente" propõe uma nova tradução para o termo Witz e garimpa algumas "pepitas" desse tesouro relativamente menosprezado pelos psicanalistas, a exemplo do próprio Freud. Mas o mais importante, parece-me, é que encaminha uma interessante discussão sobre a problemática do prazer em Freud. Mezan sustenta que o livro de 1904 enuncia a teoria freudiana "explícita/oficial" sobre o prazer (meramente quantitativa e solipsista: descarga da tensão), mas nele se esboçam os contornos de uma outra concepção, de caráter qualitativo e intersubjetivo. Vem de Monique Schneider a dica para conceber o prazer associado a uma disposição receptiva, de caráter oral, que não visa à eliminação da excitação e da expectativa, ao contrário. Com isso, torna-se possível compreender o prazer em sua dimensão narcísica, tal como aquele obtido, por exemplo, em atividades que requerem esforços penosos e duradouros (aprender um instrumento, praticar um esporte), mas nas quais o bom desempenho acaba por angariar o amor dos "outros significativos" - os pais infantis, o público e, sobretudo, o próprio eu. A Segunda Parte contém ainda um saboroso comentário sobre o filme Freud além da alma, de John Huston, enriquecido por uma análise sobre as relações de Sartre (autor do roteiro original) com a psicanálise.

 

A Terceira Parte, "Da atualidade", é composta por três capítulos que abordam a especificidade da psicanálise como saber e, mais particularmente, seu estatuto de cientificidade. Na verdade, encontramos aqui atualizações de temas sempre desafiadores para o campo psicanalítico: que tipo de ciência é a psicanálise, suas fronteiras com outras disciplinas e práticas, perspectivas do ofício em tempos de hipermedicamentalização do sofrimento psíquico e de concorrência com terapêuticas supostamente mais eficazes, e assim por diante. Enfatizo "atualizações" porque Mezan retoma questões já abordadas em diversas ocasiões, mas, de volta ao tear, acrescenta uma nova perspectiva ou aprofunda determinado aspecto. Nesse sentido, talvez conviesse batizar esses textos com títulos que realçassem a novidade da contribuição. Tome-se, por exemplo, "Pesquisa em psicanálise: algumas reflexões". Em meio a outras considerações, Mezan percorre as principais objeções à cientificidade da Psicanálise, mas toma como foco as críticas formuladas pelo filósofo americano Adolf Grünbaum. Estas incidem sobre um ponto específico: a recusa do método clínico como fonte de conhecimento válido, pois o material obtido por essa via seria inevitavelmente "contaminado" pelos efeitos sugestivos da transferência. Esse tipo de argumento acaba incitando os psicanalistas à busca de respostas pouco frutíferas - como as tentativas de validação experimental da psicanálise (com o uso de grupos-controle, instrumentos estatísticos, etc.); em vez disso, Mezan sugere reconhecer que a psicanálise possui uma racionalidade própria, formular conceitos que deem conta de descrevê-la (como a noção de pensamento clínico, de André Green), e aperfeiçoar métodos que lhe sejam mais compatíveis, como o estudo de casos singulares (single study research). Ora, parece-me que uma discussão interessante como esta corre o risco de passar despercebida sob a rubrica um tanto genérica de "pesquisa em psicanálise".

 

Cientificidade é igualmente o tema do capítulo seguinte. A insistência de Freud em sustentar a vinculação da psicanálise às ciências na Natureza decorre de sua concepção de ciência (busca de causas e leis, em prática sempre subordinada aos dados empíricos e com resultados sujeitos a retificações), bem como de seu pouco apreço pelas visões de mundo e ciências do Espírito. Hoje, no entanto, pode-se afirmar sem grandes problemas que a psicanálise se enquadra no campo das Ciências Humanas, composto por disciplinas que possuem seus objetos e métodos próprios, bem como critérios para validar as teorias produzidas (consistência, coerência, valor heurístico) e formar seus cientistas. Mas a grande "sacada" desse artigo é evidenciar o parentesco entre Darwin e Freud quanto ao modo de teorização. Frente a objetos que se furtam à observação direta e à experimentação (seleção natural e inconsciente, respectivamente), ambos têm que extrair de seus dados inferências convincentes. Apoiado em estudo da filósofa Ana Carolina Regner sobre Darwin e Newton, Mezan descreve os procedimentos usuais do naturalista: observação minuciosa, comparação de dados de diferentes fontes, estudo de variações e exceções, refutação de outras interpretações possíveis, movimento que parte do empírico para a generalização - tudo isso é bastante conhecido dos leitores de Freud. Compartilham ainda outras estratégias argumentativas, a saber, a ideia de uma causalidade múltipla, o estudo de casos exemplares e o jogo do atual/do possível. Em Freud isso se dá a ver na noção de sobredeterminação, na importância dos casos clínicos, e na convicção de que as causas dos fenômenos presentes/observáveis podem ser racionalmente reconstruídas.

 

Em certo sentido, os capítulos da Terceira Parte podem funcionar como um panorama prévio bastante útil para a leitura da Primeira. Natureza da teoria freudiana, seus modos de teorização, nexos com modelos adjacentes - estamos em pleno território epistemológico já palmilhado anteriormente (lembre-se, por exemplo, o ensaio "Sobre a epistemologia da psicanálise", em Interfaces da psicanálise). É também sobre epistemologia que versa a Primeira Parte deste livro, cujo eixo central é a obra de Freud (e os subsistemas teóricos nela contidos) como solo gerador das escolas pós-freudianas. Ou melhor, o tronco do qual derivam os ramos... Este é o grande mote da pesquisa em andamento desde a década de 1980, conforme atesta o artigo de 1988 aqui republicado, em sua terceira versão, com o título "Questões de método na história da Psicanálise". Haja tear! Como afirma Ítalo Calvino em Por que ler os clássicos, um clássico nunca termina de dizer aquilo que tinha para dizer. Nesta potência de gerar pensamento, creio eu, reside o grande atrativo dos sete capítulos que compõem "Da história da psicanálise".

 

Parêntese: "estudos de história da psicanálise", "da história da psicanálise"... Afinal, é de história ou de epistemologia que se trata? Das duas perspectivas, indissociavelmente. O termo "história" soa menos obscuro que "epistemologia", que tende a evocar assuntos áridos ou demasiado abstratos. Na "Apresentação" do livro, Mezan se coloca como uma espécie de Jacó bígamo às voltas com a Raquel histórica e a Lia epistemológica. Lembremos, porém, que Raquel é a irmã cortejada, restando à mais velha o incômodo papel de obstáculo; tendo Lia essa (injusta) fama de chata, é compreensível que se evite usá-la como chamariz... Mas o fato é que as duas perspectivas estão entrelaçadas - Lia e Raquel habitam a mesma tenda, reconhece Mezan. Isto porque a pergunta-chave que norteia esses Estudos é de natureza simultaneamente histórica e epistemológica: "como é possível que Freud dê origem a teorias e práticas tão variadas? Como compreender os vínculos existentes entre as diversas correntes da psicanálise contemporânea e a obra freudiana?"

 

Tal questão requer uma reflexão sobre a teoria - como ela forma/transforma seus conceitos, a maneira como estes se articulam, a quais problemas tentam responder, etc. Grosso modo, este é o sentido que aqui se confere à epistemologia: olhar vertical sobre uma disciplina, buscando explicitar o modo de produção de seus conceitos. Porém a indagação de Mezan incide mais precisamente sobre os vínculos entre Freud e seus sucessores, o que exige também uma abordagem diacrônica, horizontal; mesmo internamente à obra de cada autor, há um antes e um depois, uma mudança ao longo do tempo, processos que ocorrem na dimensão da duração. E, para entender como linhagens tão díspares derivam da mesma origem, é imprescindível levar em conta a história dos conceitos e das ideias, mas também a história do movimento psicanalítico, de seus personagens, da época e dos lugares em que se situam. Tudo isso para dizer: epistemologia não é um bicho de sete cabeças, e esses Estudos são, evidentemente, de natureza histórica e epistemológica. Fecha parêntese.

 

A grande e laboriosa construção que testemunhamos na Primeira Parte ocorre, a meu ver, em três movimentos. O primeiro deles é a montagem de uma estrutura lógico-metodológica que permita pensar o surgimento das escolas a partir da fonte freudiana: Mezan organiza o problema, propõe hipóteses, estabelece convenções terminológicas, explicita pressupostos, elege interlocutores preferenciais. Corresponde aos dois capítulos iniciais do livro - o já mencionado "Questões de método na história da Psicanálise" e "Paradigmas e matrizes clínicas". Segundo movimento: sendo necessário encontrar na obra de Freud os fundamentos dos desenvolvimentos posteriores, é hora da escavação minuciosa da metapsicologia freudiana em busca dos diferentes modelos que nela coexistem (capítulos 3 e 4). Por fim, o passo inicial rumo a um "para além de Freud": a composição de um painel detalhado sobre a psicanálise dos anos 1920, época de grandes transformações teórico-clínicas e de intensos debates no seio do movimento psicanalítico, agora envolvendo protagonistas que darão origem ao embrião das escolas (sobretudo capítulos 6 e 7).

 

Vamos à armação do problema. Em "Questões de método..." reencontramos o conjunto de teses que vem sendo enunciado e refinado ao longo desses anos. Muito sucintamente: a) Freud edifica sua teoria com elementos provenientes de três coordenadas ou focos: clínica, autoanálise e cultura; b) a obra freudiana é constituída por quatro dimensões ou vertentes, tal como os gomos de uma laranja: teoria geral da psique (metapsicologia), teoria da gênese e do desenvolvimento psíquico, teoria do funcionamento normal e patológico (psicopatologia) e teoria do processo terapêutico (concepção de tratamento); c) para ser considerada uma escola, uma teoria psicanalítica deve avançar proposições originais e coerentes nessas mesmas quatro vertentes; d) considerando a exemplaridade da obra freudiana, supõem-se igualmente três focos na origem de cada escola: uma matriz clínica própria, o clima cultural no qual se desenvolve, uma leitura específica da obra de Freud (quais aspectos do corpus freudiano privilegia ou critica, a partir das questões clínicas e culturais com que se defronta); e) há vários tipos de história da psicanálise; Mezan situa seu approach dentre os modelos sobredeterminantes, na medida em que considera uma teoria como produto de vários conjuntos de determinações entrecruzadas; f) é possível esquematizar uma história das ideias e do movimento psicanalítico em quatro períodos: "pensamento de Freud" (1895-1918), "era dos debates" internos à psicanálise (1918-1939), "era das escolas" - Klein, Lacan, psicologia do ego, relações de objeto (1940-1970/5), "atualidade", com autores híbridos e maior porosidade entre as escolas (1975/80 até hoje).

 

No capítulo seguinte, "Paradigmas e matrizes clínicas", Mezan aperfeiçoa algumas distinções metodológicas e revê posições assumidas anteriormente. A partir do diálogo com Greenberg e Mitchell, por exemplo, volta a considerar pertinente o uso do termo "paradigma" em Psicanálise, agora o reservando para designar certas convicções fundamentais de alto grau de abrangência e de abstração. Esses compromissos "filosóficos" se traduzem em conceitos básicos que organizam todo o edifício teórico-prático de um paradigma. Como um paradigma se define a partir de uma problemática, pode vir a conter diferentes modelos ou autores. Mezan acredita ser possível divisar ao menos três grandes paradigmas em Psicanálise: pulsional, objetal e subjetal (neologismo que remete à noção de sujeito). Freud e Hartmann fariam parte do primeiro; Klein ocuparia lugar intermediário entre pulsional e objetal; Fairbairn, Balint e Winnicott comporiam o objetal. O subjetal abrigaria o Lacan do real e do simbólico. Tal hipótese dos três paradigmas não chega a ser detalhada e desenvolvida aqui, mas é um excelente exemplo da fecundidade desses artigos, que contêm o embrião não de um, mas de numerosos programas de pesquisa.

 

A afirmação do primado da metapsicologia é o mais recente postulado metodológico de Mezan. Em Freud a experiência clínica seria uma das fontes, mas não a única fonte da teorização; a clínica possui uma função problematizante - dela provêm os problemas, nela se testam as soluções -, mas Freud possui uma ambição maior: construir uma teoria geral da psique em moldes científicos. Por isso, produz teoria para a clínica, mas não se restringe a uma teoria da clínica; seria Ferenczi o fundador da linhagem de autores que toma a clínica como solo e foco exclusivos da teorização. Se Freud trabalha tão arduamente para erigir uma teoria geral e seus conceitos fundamentais, isto quer dizer que no que se refere às quatro vertentes que compõem sua obra (metapsicologia, teoria do desenvolvimento, psicopatologia, processo terapêutico), a primeira se vê alçada à condição proeminente.

 

Este me parece um ponto crucial, até porque implica, em última instância, a necessidade de ponderar formulações anteriores e quiçá posteriores. Anteriores: se à metapsicologia é atribuído esse poder configurador das demais vertentes, haveria que se incluir (ou dar maior destaque, porque está subentendido) a própria teoria como uma das coordenadas/focos determinantes da obra freudiana. Em escritos anteriores, Mezan já apontara a diversidade interna de Freud, ressaltara que o Freud de 1920 é tributário do da década de 1910, etc. Porém, dado o caráter indutor agora reconhecido na metapsicologia, talvez coubesse enfatizar o papel que ela desempenha dentre as fontes mesmas da conceptualização freudiana: clínica, autoanálise, cultura e exigências internas da própria teoria. Os ensaios que se seguem mostram que "Freud leitor de Freud" é ainda mais importante do que se supunha.

 

Também em termos prospectivos a postulação do primado da metapsicologia requer modulações. Decerto não é a vertente decisiva no caso dos autores ligados às relações de objeto (onde, ao contrário, as dimensões mais empíricas do desenvolvimento, psicopatologia e terapêutica ganham relevo), mas talvez o seja para a obra lacaniana, e assim por diante. Mezan deixa entrever essa possibilidade en passant, quando sugere, em uma rápida nota de rodapé, que escolas e autores pós-freudianos podem ser agrupados conforme produzam teorias da clínica (Klein, relações de objeto) ou teorias para a clínica (Lacan, Hartmann). Outro ótimo exemplo de programa de pesquisa concentrado.

 

Encaminhamo-nos para a proposição central do livro. A partir de uma sugestão de Paul Bercherie, em Genèse des concepts freudiens (1983), Mezan desenvolve a ideia de que na obra de Freud é possível discernir quatro modelos metapsicológicos distintos, calcados em quatro matrizes clínicas diferentes: histeria, psicose, neurose obsessiva e melancolia. Essa é a hipótese que vai ser demonstrada no decorrer dos dois capítulos seguintes. Também em Bercherie se encontra a indicação, tão preciosa quanto "telegráfica", de que cada uma das principais escolas pós-freudianas teria seu ponto de ancoragem em um desses modelos metapsicológicos: Lacan (modelo da histeria), relações de objeto (psicose), psicologia do ego (neurose obsessiva), escola kleiniana (melancolia). Esse desdobramento não chega a ser explorado, permanecendo em nível hipotético - uma "mega-hipótese" que descortina todo um horizonte de pesquisas e requer imenso volume de trabalho.

 

Aqui e ali, Mezan vai apontando "afinidades" entre as escolas e os modelos metapsicológicos freudianos, mas as perguntas só fazem se multiplicar: como situar autores como Bion ou Kohut? Em que medida este esquema é capaz de dar conta das derivações do lacanismo ou do kleinismo, ou das sutis nuances que colorem o campo das relações de objeto? Será proveitoso para esmiuçar a obra de autores híbridos, como André Green e tantos outros? Ou a psicanálise contemporânea é de tal forma "miscigenada" que requer o uso de uma lógica ainda mais complexa? Para voltar à metáfora-título: um esquema "multitroncos", a exemplo de certas plantas trepadeiras cujos ramos enraízam novamente ao tocar o solo?

 

Essas rápidas considerações bastam para mostrar como as perspectivas abertas por essa pesquisa ultrapassam o alcance individual. É nessa medida que O tronco e os ramos se oferece à leitura como um generoso convite à investigação coletiva - "que venham as andorinhas", saúda Mezan na "Apresentação". De qualquer modo, a parcela já realizada desse ambicioso projeto de compreensão da psicanálise atual justifica que evoquemos novamente as palavras de Calvino, segundo quem "os clássicos servem para entender quem somos e aonde chegamos"...

 

Passemos ao segundo movimento - o da incursão pela obra de Freud, com o objetivo de cernir e caracterizar os quatro modelos metapsicológicos. Tal é a tarefa realizada em "A construção da metapsicologia (1892-1914)" e "Reformulações da metapsicologia (1914-1926)". Sendo impossível retraçar o minucioso percurso de Mezan nesses capítulos, apontemos apenas o núcleo conceitual de cada modelo. Em que pese a hipersimplificação: a) modelo da histeria: vigora entre 1892 e 1905, encontrando seu ápice nos Três ensaios e no Caso Dora. Tem como fulcro a teoria da libido e da repressão; b) modelo das psicoses: elaborado entre 1909 e 1914 a partir das discussões sobre a paranoia, alcança seu auge em "Introdução ao narcisismo". Conceitos-chave: narcisismo e teoria da regressão (com novas concepções de eu, de objeto, e do eu como objeto); c) modelo da neurose obsessiva: desponta em O Homem dos Ratos, é retomado em "Pulsões e seus destinos", e segue sendo elaborado nos anos 1920. Centrado sobre o ódio como alvo do recalque, sobre a polaridade ódio/amor e seus vínculos com pulsões do ego/sexuais, e, posteriormente, com a impulsividade desenfreada do id; d) o modelo da melancolia: esboçado a partir de "Luto e melancolia", tem em O ego e o id e "Inibição, sintoma e angústia" suas principais referências. Gira em torno de uma noção ampliada de identificação, agora concebida como momento fundamental do processo de subjetivação. O ego torna-se personagem central em suas estratégias defensivas contra a angústia, inclusive de castração.

 

Vale ressaltar: os modelos não se substituem e não se excluem, mantêm vínculos diferenciados com as matrizes clínicas que lhes dão origem, possuem distintos graus de abrangência e de nitidez. Os modelos da histeria e da psicose, por exemplo, são bem mais nítidos do que os da neurose obsessiva e da melancolia (que se entrecruzam e não atingem o mesmo patamar de acabamento que os dois primeiros). Mezan, na esteira de Bercherie, admite que os modelos tendem a ir se "encavalando" conforme a obra de Freud avança em complexidade, e, nessa medida, não devem ser tomados senão como certas "tonalidades" predominantes; são ferramentas heuristicamente úteis, mais do que esquematismos redutores. Neste mesmo volume, por exemplo, é interessante acompanhar o primeiro modelo em pleno funcionamento nos capítulos sobre o caso Dora e A piada e sua relação com o inconsciente. Esse tipo de "teste heurístico" pode servir de padrão para inúmeros outros exercícios de "ciência normal" (Kuhn) - uma releitura de "Gradiva" à luz do modelo das psicoses, por exemplo, ou a análise vertical de textos "mistos" (que comportam mais de um modelo), como Totem e tabu e "Inibição, sintoma e angústia", ou o exame de uma entidade metapsicológica (pulsão, superego) sob o prisma de cada um dos modelos, e assim por diante.

 

Para fechar as observações sobre esta mais recente incursão de Mezan pela metapsicologia freudiana, chamo a atenção para algumas problemáticas instigantes que perpassam a exposição sobre os quatro modelos, apresentando-se de forma peculiar em cada um deles. Alguns exemplos dessas "pistas" valiosas que merecem ser trilhadas com mais vagar: a) o problema do agir (concebido em termos mais quantitativos, como descarga motora, ou qualitativos, como transformação da realidade) e daquilo que lhe é oposto (alucinação, fantasia, pensamento, palavra): o que é primeiro? Qual dos polos é associado a um funcionamento psíquico espontâneo/adquirido, primitivo/desenvolvido, mais ou menos patológico? b) estatuto do objeto: objeto do desejo, da pulsão e do amor/ódio não são de mesma natureza; a perda do objeto é associada à alucinação (primeiro modelo), desinvestimento (segundo), destruição pelo ódio (terceiro), conservação por meio da identificação (quarto); c) concepções de psiquismo: Freud propõe uma primeira descrição do aparelho psíquico composto por sistemas e percorrido por excitações, com ênfase na dinâmica intrapsíquica. Gradativamente - e aqui a noção de narcisismo é o divisor de águas, anuncia-se uma abordagem mais globalista (termo de Bercherie), que leva em conta a existência propriamente de um sujeito. A dimensão intersubjetiva ganha relevo, seja para focar o sujeito nas relações com seus objetos, seja para descrever as relações entre as instâncias psíquicas (agora dotadas de características e "vontades" próprias).

 

Após esses ensaios de metapsicologia hard, segue-se um capítulo mais leve sobre os primórdios do movimento psicanalítico. Quase um texto de divulgação, é o comentário de algumas cartas e bilhetes de Freud e Jung pertencentes ao acervo de um banco privado brasileiro. Com a costura hábil de fragmentos heterogêneos, Mezan consegue compor um vívido retrato dos primeiros tempos da "horda selvagem". Opera-se, assim, a transição para os dois últimos capítulos dessa Primeira Parte: os conflitos e dissensões no movimento psicanalítico irão transbordar para outros planos na década de 1920, plasmando-se em significativas divergências teóricas e técnicas entre Freud, seus discípulos e sucessores.

 

O sexto capítulo, "Mudanças do pós-guerra (1919-1923)", começa com um útil panorama de história geral, de história do movimento psicanalítico (apresentando as principais figuras de três gerações de analistas) e do estado da arte da psicanálise nos anos 1919-1920. Mas o ponto alto do capítulo é o desenvolvimento da sugestão de que a noção de trauma é o grande organizador (ou mesmo disparador) das mudanças teóricas dos anos 1920. O problema das neuroses de guerra traz à tona a discussão sobre as neuroses traumáticas, e conduz a uma profunda reformulação na metapsicologia do trauma. No curto prefácio que escreve para a coletânea sobre neuroses de guerra, Freud já anuncia (de certa forma, retoma...) a ideia de que toda neurose possui um fundo traumático. Esse fio se prolonga em Além do princípio do prazer com a noção de compulsão à repetição, confirmada pelos fenômenos repetitivos e, sobretudo, pelos sonhos das neuroses traumáticas. O trauma seria uma inundação do psiquismo por grandes quantidades de excitação, decorrente da ruptura da película protetora constituída pelo para-excitações.

 

Daí a necessidade de dominar essas excitações, ligando-as a representações; a repetição seria uma das maneiras de tentar ligar, isto é, uma das formas de elaborar as consequências do trauma. De modo que "ligação" passa a ser uma tarefa psíquica primordial, o que inverte os propósitos do processo terapêutico: em vez de desligar (afrouxar o vínculo entre libido e sintomas, liberando excessos represados), a análise haveria que promover ligações. Se as neuroses de transferência pedem desatamento, as neuroses narcísicas colocam um problema anterior, de um excesso flutuante que precisa ser "amarrado" para então ser submetido a outro destino. Recorrendo a um artigo de Luis Carlos Menezes, Mezan lembra que o trauma é bem mais que um problema energético: é um excesso de intensidade que impede a constituição de algo ou destrói algo já constituído - uma rede de vínculos entre as representações, base da produção de sentido. No limite, produzir ligações é produzir sentido.

 

Tais mudanças na concepção de trauma terão profundas repercussões no plano clínico ao longo das décadas seguintes. Afinal, se o tratamento pode ser visto como uma ocasião para reparar traumas precoces, colocam-se em xeque vários princípios da técnica clássica, a começar da noção de abstinência. As interrogações sobre o manejo dos diferentes tipos de transferência, sobre as modalidades de interpretação e os fundamentos de sua eficácia, a importância assumida pela contratransferência e pelo funcionamento psíquico do analista - todos esses problemas irão alimentar as discussões sobre técnica, assunto do capítulo 7.

 

Mezan tenta mapear o enorme impacto que as mudanças dos anos 1920 (pulsão de morte e segunda tópica) tiveram sobre a técnica. A partir do problema suscitado pelas resistências, começa por retraçar os primórdios da técnica ativa, por meio de uma didática apresentação dos textos seminais de Ferenczi (1919, 1920, 1923) e de Rank, bem como das severas críticas a ela formuladas por Edward Glover (1924). Em seguida, mostra como o interesse pela psicose/casos difíceis faz que o problema das relações entre ego e realidade, bem como o do superego alimentado por impulsos agressivos, venha ao primeiro plano. Ego e superego tornam-se as noções centrais do debate teórico-clínico que dará origem a três das grandes escolas: kleiniana, psicologia do ego e relações de objeto.

 

Entre 1925-1935, assistimos à formação de dois grandes grupos. Por um lado, os autores que sublinham a importância do superego na dinâmica psíquica e no adoecimento, tomando-o como alvo privilegiado da interpretação analítica (que visa diminuir sua crueldade); é o embrião da escola kleiniana. Mezan percorre detidamente os vários textos que se tornaram balizas deste campo: Alexander (1925), os escritos kleinianos do final dos anos 1920 (Erna, 1928; Dick, 1929), James Strachey (1934) e a noção de interpretação mutativa endereçada ao superego, e assim por diante. Um outro grupo enfatiza o estudo do ego, suas funções e estratégias defensivas, elegendo-o como foco da intervenção terapêutica. Mezan também resenha os textos principais desta tendência, que é o germe da psicologia do ego: Nunberg (1926, 1931), Radó (1928), o artigo de Sterba (1934) no qual se anuncia a noção de aliança terapêutica, etc. Em um período marcado por discussões em torno de resistências e defesas, não se poderia deixar de mencionar os trabalhos de Wilhelm Reich sobre a análise do caráter. Os textos escritos entre 1927 e 1933 geram grandes controvérsias - afinal, o ataque à couraça defensiva e, portanto, ao próprio modo de ser do paciente, não deixa de ser agressivo... - o que acabou por consolidar a nascente psicologia do ego: tanto o livro de Anna Freud sobre os mecanismos de defesa quanto o de Heinz Hartmann sobre a adaptação podem ser lidos como respostas aos abalos reichianos.

 

Na parte final do capítulo, Mezan retorna a Ferenczi, examinando os textos decisivos do período 1928-1931. A questão do tato e da auto-observação do analista, o princípio da indulgência, a noção de relaxamento, a atitude de aceitação e acolhimento - tudo isso estaria no ponto de partida da escola das relações de objeto. A ideia de que a psique se constitui a partir de um núcleo relacional (a pulsão busca primariamente objetos) funda um novo paradigma em psicanálise - o relacional. Os trabalhos de Balint nos anos 1930 (com as noções de novo começo e de falha básica) e de Fairbairn situam-se na origem do grupo independente, que tem em Winnicott seu principal expoente.

 

Com isso, Mezan nos deixa às vésperas da Segunda Guerra e na soleira de três grandes regiões da psicanálise contemporânea. Somente um autor com muitos anos de janela é capaz de circular com tamanha desenvoltura por entre pós-freudianos de diferentes linhagens e calibres (aguardemos o estudo que deve vir sobre Lacan...).

 

Ao se perguntar "O que é um clássico" (1944), o poeta T.S. Eliot não hesita em resumi-lo a uma ideia, a de maturidade: maturidade da mente (que implica aguda consciência da história, motivo pelo qual Virgílio seria o clássico dos clássicos...), maturidade das maneiras, ausência de provincianismo - eis uma descrição precisa de alguns atributos que Mezan esbanja nesse lançamento. É certo que O tronco e os ramos vai gerar muitos frutos e, esperamos, ainda outros clássicos.


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