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ÍNDICE TEMÁTICO 
51
Destinos do Trauma Psíquico
ano XXVI - Dezembro 2013
231 páginas
capa: Vera Montagna
  
 

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Resumo
Resenha de Flávio C. Ferraz, Lucia B. Fuks e Silvia L. Alonso (orgs.), Psicanálise em Trabalho, São Paulo, Sedes/Escuta, 2012, 275 p.


Autor(es)
Renato Mezan
é psicanalista, membro Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professor titular da PUC/SP, e autor de vários livros, entre os quais O tronco e os ramos: estudos de história da Psicanálise (Companhia das Letras).

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 LEITURA

Clínica e contemporaneidade, segundo a prata da casa

[ Psicanálise em Trabalho ]


Clinical work and contemporary times in the view of some colleagues of our Department
Renato Mezan

Dando continuidade à publicação dos ciclos de debates nos quais apresentam sua produção, neste quinto volume os professores do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae tomaram como mote a ideia de trabalho. Presente em conceitos bem conhecidos, como Traumarbeit (trabalho do sonho), Trauerarbeit (trabalho do luto) e outros, tomada em sentido amplo ela pode incluir a atividade do analista durante as sessões. Esta, contudo, não se dá num vácuo a-histórico: sem dúvida, todos os autores subscreveriam a observação com que Mara ­Caffé abre o seu artigo - "a clínica psicanalítica requer o interesse e o posicionamento do analista ao que se passa no contexto social do seu tempo".

 

Tal postura, fiel à vocação política e crítica que na visão de Madre Cristina devia singularizar o Sedes, imprime aos dezoito textos reunidos no livro um tom comum, permitindo destacar com clareza algo a que, em nossos debates internos, às vezes chamamos de "pensamento do Departamento". Seria absurdo imaginá-lo como totalmente idêntico em todos os seus membros; é antes um conjunto de ideias e de valores compartilhados sobre o que é a Psicanálise, sobre o que deve e pode ser o trabalho de um analista - e outra faceta dele surge de imediato nesses escritos: a constante referência aos conceitos elaborados por Freud.

 

Será por que, como sugere Cleide Monteiro, as questões levantadas pelo fundador conservam "atualidade"? Em parte, sim - mas é inegável que essa atualidade depende do modo com que se o lê, e das perguntas endereçadas à obra. A leitura é também um trabalho, e ao longo do livro encontramos análises de diversos textos freudianos (A Interpretação dos Sonhos, "Pulsões e Destinos de Pulsão", O Ego e o Id, Moisés e o Monoteísmo, Psicologia das Massas e Análise do Ego, "O Estranho", "Análise Terminável e Interminável"...), cuja finesse as torna utilíssimas para leitores tanto iniciantes quanto avançados.

 

Essa atenção minuciosa à herança de Freud nada tem, contudo, de veneração reverencial: ao contrário, é temperada com o recurso à obra dos sucessores, e enriquecida por um elenco impressionante de especialistas em outras disciplinas, convocados para esclarecer tópicos que dizem respeito ao humano em geral. Assim, além de gigantes do porte de Lacan e de Winnicott, vemos nossos colegas dialogando com Jean Laplanche, Arnaldo Rascovsky, Pierre Fédida, Christopher Bollas, Daniel Kuperman, Georges Lantéri-Laura e outros; quanto aos autores não analistas, vão de Rousseau a Adorno e Benjamin, de Goethe a Coleridge e Bram Stoker, de Zygmunt Bauman a Antonio Negri e Anthony Giddens, sem contar antropólogos (Tolba Phanem) e especialistas em música popular brasileira (Muniz Sodré).

 

Mais do que resumir as diversas contribuições, convém aqui assinalar traços comuns a várias delas, o que não impede eventuais diferenças de ênfase, ou até discordâncias quanto a certos pontos, naturais num grupo que valoriza o diálogo, mas também o respeito às diferenças individuais. É o caso, como veremos, do diagnóstico sobre a sociedade contemporânea, e, em certa medida, da análise de um processo crucial para a criação da e na esfera da cultura, a saber a sublimação.

 

Quanto ao primeiro tópico, a maioria dos autores aceita uma visão da contemporaneidade que se tornou praticamente consensual: as transformações ocorridas nas sociedades ocidentais desde a Segunda Guerra Mundial impuseram às pessoas, às relações delas umas com as outras e com as coisas um regime "líquido", inconsistente, marcado pelo consumo voraz e pela dificuldade (quando não pela recusa) em aceitar limites de qualquer natureza. Combinadas com a promessa (irrealizável) de gozo imediato e intenso, de eterna juventude e de quase imortalidade do Eu, essas características promovem cada vez mais alienação.

 

A submissão voluntária a regras para a vida em comum racionais e legitimadas por meios democráticos, com a concomitante valorização de renúncias à satisfação pulsional em nome de ideais tidos por superiores às vontades individuais, estaria sendo substituída por um "desinvestimento ético e estético dos ideais" e pela não homologação social da castração (Nelson da Silva), pela aversão à tristeza e ao luto (Lucia Fuks, Isabel de Vilutis), pelo estranhamento em relação às coisas que nos cercam (Mario Fuks). Tudo isso converge para uma caracterização da atualidade como particularmente sujeita à perversão - não em sentido moral, é claro, mas como regida pela lógica do "eu sei, mas e daí?", ou seja, pela dissociação/convivência paradoxal entre a proibição do objeto e o incentivo à incorporação mágica e irrestrita dele (Mario Fuks, Maria Silvia Bolguese, entre outros).

 

Nesse panorama relativamente uniforme, a voz dissonante é a de Mara Caffé. Num texto alicerçado em Derrida, Foucault e Lantéri-Laura, ela adverte que, transformada em "sintoma do discurso analítico", a opinião predominante corre o risco de favorecer interpretações conservadoras e normatizadoras das "novas formas de subjetivação". Muito crítica das leituras que "fomentam a culpabilização" e a idealização da castração simbólica como "bem supremo das neuroses bem analisadas", seria interessante vê-la debatendo por exemplo com Maria Cristina Ocariz e/ou com Nelson da Silva Jr., que trazem bons argumentos em favor de uma visão mais cética quanto ao valor dessas mesmas novas formas de subjetivação.

 

Seja como for, o impacto das condições contemporâneas sobre a estruturação da subjetividade é um dos temas que atravessam o livro. É evidente que elas estão ligadas ao trabalho clínico, que lida precisamente com conflitos e com sofrimentos em boa parte gerados pelas exigências e pelos valores que servem como cimento das modalidades atuais do laço social. Segundo o modo como o sujeito lida com tais exigências e conflitos, que depende também da sua constituição e da sua biografia, delineiam-se dois grandes campos, que Decio Gurfinkel caracteriza como "clínica do recalcamento" e "clínica da dissociação". Com nomes diferentes, essa divisão perpassa boa parte dos artigos, e fundamenta observações tanto de ordem metapsicológica quanto referentes às particularidades do trabalho com cada espécie de estrutura psíquica.

 

Se um dos traços definidores do "pensamento do Departamento" está na permanente interlocução com Freud, a leitura de Psicanálise em Trabalho sugere que uma das vias pelas quais ela se materializa consiste na importância conferida em nosso grupo à reflexão metapsicológica. Quer se trate das condições favoráveis ou desfavoráveis à simbolização (Decio e Flávio Ferraz, entre outros), das peculiaridades do luto (Lucia Fuks e Isabel de Vilutis), da temporalidade psíquica (Silvia Alonso), ou da sublimação (Nelson da Silva e Mario Fuks, novamente entre outros), chamam a atenção o rigor, a argúcia e a inventividade do trabalho realizado nesse segmento da teoria psicanalítica.

 

Rigor pela leitura cuidadosa dos textos, argúcia pela revelação da potência heurística deles para elucidar temas diferentes daqueles que abordam explicitamente, e inventividade na produção de novas noções, como (mais uma vez entre outras) as de "analista suposto sonhar" (Decio), "desdobramentos" (Alcimar A. de Lima), "funções aferente e deferente dos sonhos" (Flávio), "dimensão civilizatória da pulsão" (Fátima Vicente), ou, numa chave um pouco diversa, "instituição não-toda" (Maria Beatriz Vannuchi). Mesmo quando se apoiam em ideias coligidas em outros autores, como René Kaës (Miriam Chnaiderman), Dio Bleichmar (Myriam Uchitel) ou Alain Didier-Weill (Fátima), é notável a forma como elas são "postas a trabalhar", justificando - se preciso fosse - de modo convincente o título da coletânea.

 

A mesma atenção dedicada à dimensão metapsicológica subjaz ao estudo em detalhe de uma série de conceitos de Freud - por exemplo, os de pulsão, sintoma, instâncias psíquicas, sublimação - que os autores consideram indispensáveis para compreender as subjetividades e o mal-estar da nossa época. Um dos pontos de convergência entre vários deles é a ideia de um excesso pulsional rebelde às formas de canalização descritas por Freud, que vêm se escoar seja no corpo (somatizações), seja em agires impulsivos ou compulsivos: na vertente lacaniana, que informa os trabalhos de Maria Cristina Ocariz e Fátima Vicente, essa problemática é elaborada por meio das noções de gozo e de real. O artigo de Fátima, aliás, contém uma interessantíssima discussão da sexuação masculina e feminina, ilustradas respectivamente pelos jogos com bola e pela dupla pular corda/dançar, cujos papéis na formação da identidade de gênero ela destaca com originalidade.

 

Outro ponto de convergência reside na valorização - não na idealização, note-se bem: na valorização - da sublimação como saída possível (e saudável) para os conflitos psíquicos, naturalmente quando a organização própria ao sujeito a comporta. Nesse tópico, o contraponto é dado pelo artigo de Nelson da Silva Jr., ao se debruçar sobre um aspecto dela pouco ressaltado na literatura analítica em geral: seu potencial patologizante.

São dignas de nota a maestria e a clareza com que acompanha as vicissitudes da construção desse conceito e da compreensão do processo que ele designa (antes e depois da Primeira Guerra Mundial), que resultam numa visão dramática dos impasses aos quais, na qualidade de motor da criação civilizatória e cultura, a sublimação pode conduzir aquilo mesmo que contribui para criar: como está vinculada à desfusão pulsional, à constituição do superego, e portanto do masoquismo moral, a sublimação da sexualidade pode provocar um perigoso incremento da agressividade, capaz de esgarçar a trama do tecido social.

 

Alguns exemplos de como isso pode acontecer - além dos fenômenos de violência que vimos assistindo no Brasil - encontram-se reunidos no estudo de Maria Laurinda de Souza, sob a figura do "predador", cuja ação ela discerne em diversos âmbitos da vida contemporânea: economia, relações interpessoais, desprezo pelo ambiente, dominação pelo biopoder.

 

Frente a esse contexto social, e dadas suas implicações no que concerne à vida emocional dos sujeitos no nosso tempo, o que pode a Psicanálise? Com cautela e com as reservas próprias de quem conhece as sutilezas do psiquismo e as armadilhas a que está sujeito o trabalho terapêutico, vários artigos lançam sugestões que poderíamos chamar "técnicas". Alguns exemplos: a disposição do analista para oferecer seu self como auxiliar na construção do "sonho do paciente" (Decio Gurfinkel), as particularidades do manejo da transferência com pacientes não neuróticos (Myriam Uchitel, Silvia Alonso...), enlutados (Isabel de Vilutis), depressivos (Lucia Fuks), transgressores (Mara Caffé), etc.

 

De modo geral, a ênfase é colocada na "construção de molduras para o eu" (ou seja, na esfera narcísica), de formas mais eficazes e ao mesmo tempo mais "individuais" de defesa contra a pressão pulsional (ou seja, na esfera de sintomas mais ego-sintônicos), e no incentivo às possibilidades de simbolização/sublimação, sempre respeitando as limitações que elas possam apresentar nos sujeitos particulares.

 

Talvez se possa resumir a impressão deixada pela leitura deste excelente livro dizendo que, para a maioria dos autores, a Psicanálise está numa posição de "resistência" (Lucia) contra o que consideram nefasto nas modalidades de subjetivação próprias à contemporaneidade. E isso não porque acalentem a nostalgia de eras situadas "em algum lugar do passado" - nossa disciplina sempre foi nietzscheanamente unzeitgemässig, crítica do seu tempo - mas porque, assim como Freud, acreditam no valor da autonomia ( = outorgar-se por si mesmo - auto - regras - nómoi - de conduta) possibilitada pela constituição de uma experiência própria.

 

Esse conceito (que os iluministas alemães conheciam como Erfahrung) se relaciona com o de vivência (Erlebnis), mas não se confunde com ele. Denota antes a sedimentação e a integração tanto quanto possível harmoniosa das vivências, num processo de construção de si (Bildung) que incorpora a herança da civilização, e ao mesmo torna o sujeito apto a contribuir para o avanço dela. Um eco distante dessa concepção está presente no que Fédida denomina depressividade, algo bem próximo da noção kleiniana de posição depressiva, nos seus aspectos de integração e de condição para uma vida psíquica rica e criativa.

 

Nesse sentido, parece adequado que, nas páginas finais do livro, Mario Fuks faça o elogio da passagem de uma "subjetividade de massas" (alienada, diríamos usando o bom e velho conceito de Marx) para uma "subjetividade de indivíduos, livre, ativa, desejante e habilitada para o prazer". Evocando o "mito do herói" de Psicologia das massas, e acrescentando-lhe sua própria pitada de sal, ele oferece uma visão sem ilusões, mas também sem lamentos, do que pode ser um "laço social baseado no compartilhamento afetivo e na cooperação".

 

Politicamente progressista, eticamente emancipatória, e psicanaliticamente conforme as melhores possibilidades do humano, essa visão condiz com os propósitos do Departamento, e com as amostras do que nele se produz aqui comentadas. Elas fazem de Psicanálise em Trabalho uma obra indispensável a quem - parafraseando o título de um opúsculo de Kant - quiser "orientar-se no pensamento" psicanalítico, e no que ele tem a dizer sobre o mundo em que vivemos.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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