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ÍNDICE TEMÁTICO 
52
Figuras políticas do mal: limites do humano
ano XXVI - Junho 2014
213 páginas
capa: Sérgio Sister
  
 

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Resumo
O autor procura centrar o problema da tortura planejada como assunto político e cidadão, afastando-se da tradicional medicalização vitimológica. Considera que seus efeitos e consequências excedem o sofrimento psíquico e fazem adoecer o laço social por várias gerações. As marcas danosas ou criativas desse processo são definitivas, e é ilusório pensar em uma reparação integral, como implícito nas noções de PTSS (post traumatic stress disorder) e de resiliência.


Palavras-chave
traumatismo; violência; sujeito; simbolização; horror extremo.


Autor(es)
Marcelo Viñar
é psicanalista, membro da Associação Psicanalítica Uruguaia, autor do livro Exílio e Tortura, publicado na França e que brevemente será editado no Brasil.


Notas
1. É difícil precisar, sem correr o risco de omissão, a lista de autores (colegas e escritores da literatura concentracionária, tanto europeus quanto latino-americanos) que nos ajudaram a compreender esse ponto crucial: a distinção entre medicalização e inscrição na cultura é um divisor de águas que conduz a sequências e itinerários diversos. Mas, falando em Paris, não posso deixar de manifestar meu reconhecimento aos relevantes trabalhos de Janine Altounian.
2. O original castelhano fala em andariveles. Estes são as cordas que, numa piscina, separam as faixas designadas a cada competidor. Na ausência de um equivalente exato em nossa língua, optamos pelo termo balizas, que expressa bem a ideia do autor [Nota dos tradutores].
3. Sigla de Konzenstrationslager, ou campo de concentração [Nota dos tradutores].
4. E. Gómez Mango, "El llamado de los desaparecidos".
5. Idem.
6. "A multidão daqueles que não viveram suficientemente... Não é de uma pranteadora que precisam, mas de um adivinho... Precisam de um Édipo que lhes explique seu próprio enigma, cujo sentido eles ignoram. É preciso ouvir palavras que jamais foram ditas, que ficaram no fundo dos corações (procurem no seu, elas estão lá). É preciso escutar os silêncios da história". (Cf. Traumatismes et ruptures: I Colloque International des Églises Du Moyen Orient, Centre Universitaire de Beyrouth, Líbano, out. 2002).
7. Conferência de Imre Kertész: "Patria, hogar, país".
8. Aqui é preciso assinalar a importância dos trabalhos de Nathalie Zaltzman e de Pierre Fédida (ver referências bibliográficas ao final deste artigo).
9. A obra publicada em 1989 sob a direção de Janine Puget, René Kaës e Marcelo Viñar (Violence d'état et psychanalyse) foi pioneira na exploração deste campo. A estes autores, convém acrescentar o nome de Janine Altounian e o de Sylvia Amati-Sas (ver referências bibliográficas).
10. Cf. R. Kaës, L'appareil psychique grupal. Entre os pesquisadores que desenvolveram abordagens próximas, vale lembrar Isidoro Berenstein e Janine Puget, que propuseram, na Argentina, uma Psicanálise do Vínculo (2008).
11. Cf. R. Kaës, Les théories psychanalytiques du groupe.
12. S. Freud, Psicologia das massas e análise do ego.
13. S. Freud (1938), Résultats, idées, problèmes II.
14. A contribuição dos sociólogos para a compreensão deste registro "instituinte" das instituições é, obviamente, das mais importantes. Cf. os trabalhos pioneiros de Cornelius Castoriadis, Claude Lefort, etc. Minha intenção, no entanto, não é me aprofundar neste histórico, além dessas poucas referências.
15. José Bleger, "Psychanalyse du cadre psychanalytique" (1966), in R. Kaës et al., Crise, rupture et dépassement, p. 257.
16. A reversão (Umkehr) constitui segundo Freud um dos processos inerentes ao funcionamento do aparelho psíquico.
17. No campo da psicologia, desenvolve-se atualmente uma corrente que se designa como "Psicologia positiva", caricaturando a "negação do negativo" que evocamos aqui.
18. S. Freud (1933), Novas Conferências de Introdução à Psicanálise.
19. Cf. G. Gaillard, "La généalogie institutionelle et les écueils du travail d'historisation: entre filicide et parricide".
20. Marcelo Viñar assinalou este aspecto em uma intervenção no colóquio do CRPPC Lyon 2, em março de 2014. Tais temas fazem eco ao trabalho de J.-P. Pinel, que vê nestes adolescentes o arquétipo do sujeito pós-moderno. Cf. J. P. Pinel, "Les adolescents en grandes difficultés psychosociales: errance subjective et délogement généalogique", e J. P. Pinel; G. Gaillard, "Les institutions soignantes à l'épreuve de l'hypermodernité".
21. São numerosas as fórmulas que tentam explicar esta dinâmica (principalmente Bleger: "as instituições de saúde têm uma tendência a funcionar da mesma maneira que o problema para cujo tratamento foram criadas"). P. Racamier assinala os mecanismos de "projeção cisional"; J. P. Pinel designou este processo próprio ao funcionamento institucional como "homologia funcional", etc. Em 2007, este mesmo autor retomou o histórico da reflexão sobre esse processo institucional, e mostrou como uma das suas primeiras formulações pertence aos pesquisadores A. H. Stanton e M. S. Schwartz, que em 1954 evidenciaram esta "estrutura em imagem especular". Pinel sugere, portanto, denominar esta dinâmica "efeito Stanton-Schwartz".
22. N. Zaltzman, "De surcroît ...? Le travail de culture? La guérison? L'analyse elle-même?", p. 237.
23. Cf. G. Agamben, Auschwitz: Homo Sacer I - Le pouvoir souverain et la vie nue (1997), e Auschwitz: Homo Sacer III: Ce qui reste d'Auschwitz (1998).
24. Por vezes, tais configurações desencadeiam uma retomada do processo de formação.


Referências bibliográficas

Altounian J. (1990). Les chemins d'Arménie. Paris: Les Belles Lettres.


Antelme R. (1996). La Especie Humana. Montevideo: Trilce.


Gómez Mango E. (2004). El llamado de los desaparecidos. Montevideo: Cal y Canto.


Kertész I. (1999). Patria, hogar, país. In Un instante de silencio en el paredón. El holocausto como cultura. Barcelona: Herder.


Levi P. (1988). Si esto es un hombre. Buenos Aires: Ed. Editor.


Puget J.; René K. (orgs.) (2006). Violencia de Estado y Psicoanálisis. (Amati-Sas; Braun; Galli; Kaës;

 

Pelento; Puget; Ricón; Ulriksen Viñar; Viñar). Buenos Aires: Lumen.


Puget, P. et al. (1989). Violence d'état et psychanalyse. Dunod: Paris.


Semprun J. (2002). La escritura o la vida. Barcelona: Fábula Tusquets.


Steinberg P. (1996). Chroniques d'ailleurs. Paris: Ramsay.


Viñar M.; Ulriksen de Viñar M. (1989). Exil et torture. Paris: Denoël.





Abstract
The author seeks to situate the problem of systematic torture as a political issue that concerns political subjects, and to turn away from the prevailing medical perspective of victimization. He argues that the consequences of political violence largely exceed individual psychic suffering; on the contrary, they should be regarded as a sickness of the social link. Whether harmful or creative, the marks of this kind of violence are definitive, and notions like PTSD (Post Traumatic Stress Disorder) or resilience, which aim at a complete reparation/cicatrization of the trauma, lead to dangerous illusions.


Keywords
traumatism; violence; subject; symbolization; extrreme horror

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 TEXTO

O enigma do traumatismo extremo

The enigma of extreme trauma
Marcelo Viñar

A noção de trauma adquiriu tal extensão e amplitude, tanto na diversidade das suas causas como na magnitude ou intensidade dos seus efeitos, que é necessário reconhecer sua heterogeneidade, a fim de recuperar a precisão do conceito e evitar que se torne um saco de gatos, transformando a problemática em questão numa Torre de Babel.
 

Sabemos que o uso do termo não é o mesmo em Medicina e em Psicanálise. Na primeira, trata-se de reparar o dano atual, e tudo depende da adequação ou proporcionalidade entre causas e efeitos. Em nosso ofício, a ação après coup e a ressignificação - costuma-se dizer a ressimbolização do trauma - configuram o essencial do problema; é uma reparação ou cicatrização de longa duração, que repercute inclusive na transmissão entre gerações.

 

O tema da sedução originária e do choque sexual primário (cuja conceitualização ocupou Freud por muito tempo e seus sucessores até o presente) tem relação distante com o horror dos campos, do genocídio e da tortura, que foi e continua sendo uma obsessão da atualidade. Tampouco podemos utilizar as mesmas coordenadas de análise para o trauma que ocorre na intimidade do incesto e para o que se desenvolve na esfera pública e maciça da violência política, para aquele que resulta de catástrofes naturais, ou para o que resulta de ações humanas iníquas e cruéis, concebidas lúcida e metodicamente. O assunto é, pois, de uma vastidão que obriga a fragmentá-lo em capítulos ou tópicos capazes de serem abarcados por um enfoque até certo ponto consistente.

 

Minha proposta é abordar o trauma extremo, formular algumas conjecturas sobre seus efeitos a longo prazo, no que concerne à violência política (tortura e desaparecimento, guerra e genocídio), e também sobre o genocídio frio da marginalização e exclusão que caracterizam a organização produtiva e societária em vários países da América Latina. Esses traços talvez constituam uma relíquia atual daquela mentalidade colonial tingida de suposta superioridade étnica dos brancos de origem europeia frente à população nativa.

 

Medicalização vs inscrição na cultura
Para começar - com o devido respeito e reconhecimento às instituições que convocaram este colóquio, e sem querer centralizar o problema numa querela de palavras ou numa guerra nominalista - preciso expressar minha discrepância frente às noções de neurose traumática, P.T.S.S. (Post Traumatic Stress Syndrome) e resiliência. As primeiras medicalizaram o problema e promoveram uma taxonomia de sintomas e síndromes que, ao enfatizar as consequências sobre o corpo afetado, sublinham o acessório e se desviam do essencial: o efeito devastador sobre a estrutura psíquica do afetado e do seu meio, tanto na atualidade candente quanto no longo prazo da transmissão intergeracional.


A noção de resistência, mais recente, inspira-se na Física: denota a capacidade de, após ter sido submetido a condições extremas, algo como um elástico ou uma mola recuperar ou não suas condições originais de textura e resistência. Extrapola-se desse fato a capacidade de regeneração da psique ao cessarem certas condições extremas de violência. Esta noção tem a virtude de combater a vertente vitimológica do dano, e denunciar o benefício secundário dos sintomas. Sugere abrir um desenlace criativo em vez do valor que ordinariamente se atribui à sequela, porém comporta uma vocação normalizante que nos parece errônea, e mesmo nociva.


Seria absurdo paralisar-nos numa guerra de palavras. O que importa é resistir à medicalização do problema, e não contribuir para a ficção de uma sociedade de afetados e ilesos. Tentamos nos posicionar de outro modo, em outra lógica: colocamo-nos na perspectiva que enfatiza ou sublinha a noção de marca ou de inscrição, daninha e/ou saudável. E, sobretudo, postulamos que como consequência de um macrotraumatismo tudo o que somos fica tingido - de modo evidente, oculto ou subreptício - pela experiência traumática, tanto no padecimento como na atividade sublimatória e criativa. A divergência no posicionamento inicial é radical e tem pesadas consequências nas metas de um processo terapêutico, assim como na escolha dos itinerários a percorrer. Não é o mesmo pensar em termos de neurose traumática ou de marca/ inscrição, e isto evidentemente tem consequências nos desenvolvimentos e na compreensão que extraímos do processo.


Por conseguinte, a querela não é terminológica, e sim doutrinária. Uma visão ressalta o dano, a cicatrização ou o aspecto ileso do corpo e da alma (do soma e do aparelho psíquico); sua vocação é inscrever-se no discurso médico ou psicopatológico. Já a outra, que subscrevemos, acentua a inscrição na cultura e na história. A mudança terminológica aponta também para uma mudança na valoração: não consideramos o trauma univocamente como despojo ou infâmia, mas como violência capaz de reverter sua dimensão danosa e de proporcionar um destino de criatividade.


Pensamos que o efeito da normalização visado pela ideia de resiliência, assim como a ação catártica com a qual trabalha o modelo P.T.S.S., deixa na sombra uma dimensão essencial do problema. É certo que, enquanto recriação do momento traumático, a catarse não é apenas repetição alucinatória, porque a testemunha (um ser humano auxiliador e coparticipante) é algo novo e inédito. Mas obter esse espaço relacional íntimo é um ponto de partida, não de chegada. As testemunhas - no singular e no plural - são decisivas para que o narrador assuma a transmissão da sua experiência. Não existe narrador sem ouvinte, nem humanidade sem narração: somos feitos tanto de palavras como de carne. É nesse espaço íntimo que se engendra a produção de psiquismo, estabelecendo balizas e itinerários nos quais se constroem amores e solidões.  

 

Horror e vazio representacional
Mas as figuras do mal (tortura, desaparecimento, guerra, genocídio) não geram experiência nem ensinamento, e sim vazio representacional. A experiência catastrófica é um buraco na continuidade das representações inerente à vida psíquica. O horror e a dor extrema não produzem experiência, mas espanto; não produzem representações nem relato, apenas vazio representacional. Por conseguinte, o que aconteceu é difícil de transmitir e de compartilhar. A palavra catártica se torna robotizada e configura uma paródia, um simulacro do seu valor de troca entre humanos. Não há processo de interiorização/subjetivação da experiência. Os soldados vinham mudos das trincheiras de Verdun, nos contou Walter Benjamin. Tornar representável - isto é, transmissível - o que suprimiu as condições de representabilidade, de produção de um relato compartilhável, é tarefa árdua. A exteriorização compulsiva de uma palavra catártica é algo diverso do insichgehen (entrar em si): este é um movimento de interiorização, de exame de si mesmo, de autorreflexão. É esse movimento que dá substância ao acontecer, significando-o, criando uma alternância entre as experiências transitiva e reflexiva, ou reinstalando a diferença entre pensamento e alucinação. Ora, é tal alternância que se interrompe na experiência do horror.


Talvez seja mais simples e eloquente apoiar esse debate com palavras de um anônimo sobrevivente do campo: "Quem nunca esteve em Auschwitz nunca terminará de entrar; quem esteve, nunca acaba de sair...". O mundo concentracionário - como paradigma do horror - não é processável como memória: é dor insuportável, e sempre atual. Como diz Semprun, "algo de si sempre fica lá, mesmo que outra parte sempre possa continuar amando, odiando, trabalhando, empenhando-se em projetos ou enfurecendo-se". Esta profunda clivagem é própria do traumatismo extremo; o equilíbrio ou a perpétua elaboração dela será o núcleo de preocupação no desenvolvimento do presente texto.


"Quem nunca esteve no universo concentracionário jamais terminará de entrar; quem esteve jamais acaba de sair." Como pensar o abismo dos universos simbólicos que separam um e outro, ao que parece de maneira definitiva e irredutível? Essa sentença colou-se em mim como uma sanguessuga (ou carrapato), se me impôs como assédio psíquico, como enigma a decifrar. Um colega alemão, Hans Stoffels, conta que, após ter escrito a Divina Comédia, Dante era evitado pelos habitantes de Verona, porque tinha visitado o inferno.


Como conceber, então, a especificidade da memória do terror? A experiência do espanto, como dissemos, não gera ensinamento nem experiência, mas apenas vazio representacional. A dor originária do trauma se reitera alucinatoriamente, e são lentos os recursos psíquicos para fazer com que esse animal furioso que é a alucinação se torne metabolizável. Da mesma forma, são lentos os recursos para conseguir, não digo domesticá-lo, mas ao menos torná-lo menos "queimante" para a pele psíquica, de forma que a sideração do sujeito afetado possa dar lugar a representações significativas para ele.


Sabemos que as palavras se referem aos fatos e os representam, às vezes de perto, às vezes a uma distância inexorável. Posso dizer "estou enamorado", "estou horrorizado", ou mais especificamente "esta noite fiz amor", ou "tive um orgasmo", e posso dar a estas afirmações a maior trivialização, ou, ao contrário, ficar emocionadíssimo. Em outros termos, podemos fazer destas experiências uma palavra plena ou vazia. Não dispomos do espaço de intimidade próprio da simbolização como dado inicial originário, como fazemos com o ar que respiramos, com a luz e com as cores para poder ver. É um registro que se constrói trabalhosamente, e nem sempre com sucesso: por vezes fracassamos na empreitada. É a distância entre a comunicação comum e a poética. Para poder comunicar-se, são sempre necessários dois, ainda que o outro seja eu mesmo, e esta tensão entre experiência imediata e pensamento é imprescindível.


Mas se a distância entre o fato experiencial e sua representação é sempre problemática, tal dificuldade se multiplica de modo exponencial nas zonas extremas do prazer e do horror. A linguagem não é a verdade, diz Paul Auster, mas nosso modo de residir no mundo. E mesmo que o pathos habite e até inunde as palavras, é mister distinguir entre o afeto catártico da palavra evacuativa da dura experiência interior e a palavra que exprime a dor psíquica. Chegar a esse ponto é árido e árduo - talvez seja a parte mais longa e tediosa de um processo terapêutico - mas este não é um ponto de chegada, apenas de partida. É onde terminam os trilhos alucinatórios da repetição traumática, essa sideração da experiência que não pode ligar nem expulsar o espanto, e se paralisa no terror: o que algum autor chama "colapso na transicionalidade entre alucinação e pensamento". É o que brota como aresta mais visível da chamada neurose traumática ou de guerra. Outra vez com palavras de Semprun: "É necessário que apareça um eu da narração que se tenha alimentado da minha vivência, mas que a supere, que seja capaz de incluir nela o vivido e o imaginário, a ficção, e por conseguinte, a ilusão. Uma ficção que fosse tão ilustrativa como a verdade, que contribuísse para que a verdade fosse verossímil e não siderante".


Nada do que propomos se parece com a cicatrização do P.T.S.S., nem com a normalização psíquica para a qual aponta o conceito de resiliência. Trata-se de reconhecer, no trauma coletivo da barbárie totalitária, não apenas os danos corporais que a medicina deve reconhecer e tratar, nem somente os da sintomatologia psíquica, que a medicina integral ou psiquiátrica pode contribuir para atenuar, mas sim de centrar o foco ali onde o ser humano é um ser falante. Sua condição de ser político - como se sabe desde Aristóteles - não é um atributo adjetivo, mas uma condição constitutiva da sua humanidade. Esta utopia é tão inalcançável como imprescindível, irrenunciável. Sem ela, a solidariedade lúcida e consciente cai fatalmente no tobogã do assistencialismo altruísta, e reinstala no par terapêutico a dicotomia do doente e do ileso. Neste mundo de injustiça, quem está isento de ser vítima, algoz ou cúmplice da violência política? Por isso é necessário manter essa utopia como referência: quem está doente é o laço social, não a vítima. Quando o trauma da violência política reassume seu verdadeiro estatuto - de ato político, e não de doença - o processo terapêutico será interminável, tão longo como a história da humanidade. "Eu não sou um doente, mas expressão do meu tempo", dizia Hans Mayer, e depois Jean Améry, em Além do crime e do castigo (Au-delà du crime et du châtiment).


Vocês recordarão o pesadelo recorrente de Primo Levi no KZ : sonhava com o reencontro com seus seres queridos, e, no meio da narração das suas penúrias, eles se afastavam, frios e indiferentes... Da tortura "ninguém quer saber, ninguém pode crer", enfatizava Michel de Certeau, e a incredulidade dos outros redobra a intensidade patógena do traumatismo. A empatia da testemunha envolvida é decisiva na recuperação do indivíduo afetado.


As mães e avós dos desaparecidos, as "Loucas da Plaza de Mayo" , com seu deambular silencioso segurando a efígie de seus filhos, socializando lutos, penas e dores, mudaram o curso da história do nosso continente graças ao seu combate insubornável pela memória. Contra a memória oficial da celebração patriótica imposta pelas ditaduras, foram tecendo, passo a passo, o laço social destroçado pela tirania. Não se mede em anos, mas em décadas de trabalho e esforço, o tempo gasto para reverter a injunção de silêncio, para transformar a proscrição da memória em prescrição da memória. Unfinishable business (assunto interminável) é o título de um poema alusivo que Primo Levi escreveu pouco antes da sua morte. Assim ocorreu com o genocídio armênio, com a Shoá, com as desaparições na América Latina, confirmando que se necessitam três gerações para construir e modelar a humanidade de um ser humano.


Sabemos que o terror emudece e trancafia a vítima na sua dor e no seu silêncio . Isto ocorre no horror quente da guerra, do genocídio e da tortura, ou no horror gélido da marginalização e da exclusão, que privam o sujeito do seu direito a ter direitos. A cura, que em medicina é o silêncio dos órgãos, no trauma é o retorno da vítima à sua condição de sujeito, à sua condição de ser falante (parlêtre) e cidadão. Percorrer palmo a palmo o caminho da reparação é sempre um caminho singular e diferente, mas invariavelmente passa por resgatar a palavra e restituir uma memória apta a configurar um presente e projetar um futuro.

 

Possibilidades de reparação
La foule de ceux qui n'ont pas vécu assez... Ce n'est pas une pleureuse qu'il leur faut, c'est un devin. Il leur faut un Oedipe qui leur explique son propre énigme, dont ils n'ont pas les sens. Il faut entendre des mots qui ne furent jamais dits, qui restèrent au fond des coeurs (fouillez le vôtre, ils y sont) Il faut faire parler les silences de l'histoire .
 

Coloco em epígrafe esta citação para evitar a suspeita de um sectarismo psicanalítico, e esclareço que não foi dita por nenhum grande psicanalista, mas por Jean Michelet no seu Journal de 30 de janeiro de 1842. Para uma humanidade capturada na jactância do progresso civilizatório, a data resulta impressionante, e pioneira da palavra criadora como fator terapêutico.


Escolho estas frases, escritas há mais de um século e meio, porque vão no sentido pertinente e preciso de desmedicalizar o problema do trauma maciço, de estender uma ponte sobre o abismo aparentemente insuperável entre os universos simbólicos daqueles que viveram e daqueles que não viveram o horror da experiência concentracionária, ou do genocídio frio e às vezes imperceptível da exclusão, que tantas vezes tratamos com o recurso da "distração cortês". Escolho-as porque mostram como romper a dicotomia falaciosa de que há afetados e não afetados por esse agente patogênico inexorável e temível que a civilização continua produzindo - como argumenta Zygmunt Bauman em Wasted Lifes (Vidas desperdiçadas), e também em Modernidade e Holocausto.


Escolho esse trecho porque mostra, reitero, como estabelecer um espaço humano - compartilhado e coloquial - onde havia alheamento e desconhecimento (para mim, a medicalização vai nessa direção). E porque situa ou recoloca o trauma coletivo em dois eixos essenciais: a condição falante do ser humano e seu imperativo de transmissão entre gerações. Estamos convencidos de que, mais aquém e mais além do trauma, são imprescindíveis ao menos três gerações para construir e modelar o perfil de um ser humano. Nosso nascimento não é somente produto da união de um óvulo e um espermatozoide, nem apenas da dotação genética que lhe é inerente. Somos herdeiros e mensageiros (ou porta-vozes) do desejo parental e das suas proibições explícitas ou inconscientes, e é através deles que nos chegam os códigos e imperativos da linguagem e da cultura. Para dizê-lo com as palavras de Marc Augé em Antropologia e vida cotidiana: "O par natureza/cultura é indissolúvel na condição humana e coextensivo à sua condição de falante. Não há dicotomia entre o homem individual e o homem cultural. A identidade individual é na e pela relação com outros homens. A relação com o outro pode ser de exterioridade (o outro como distante e externo) ou de proximidade participante (empatia e interioridade)".


A observação panóptica reificante ou o estabelecimento de um campo dialógico são as alternativas opostas nas quais se dá um encontro ou um desencontro entre seres humanos. A compreensão dos efeitos e das consequências do trauma e da exclusão são apenas um capítulo - relevante e crucial, sem dúvida - desta lógica na gênese da condição humana, que nossa clínica às vezes desconhece. Só nos humanizamos graças a pertinências e lealdades conflitivas com nossos ancestrais e contemporâneos, no interior de uma língua e de uma cultura, em continuidade ou em ruptura com a tradição, processando dores e alegrias dos nossos ascendentes, e constituindo um espaço próprio que iremos transmitindo aos nossos descendentes. Como lucidamente postula Hannah Arendt, "temos que abandonar a noção de identidade humana como mesmidade autorreferida. A humanidade dos homens só ganha relevo no contexto da copertinência ao mundo dos outros homens".


Diz Imre Kertész:

O historiador francês Renan, grande especialista na questão, assinala que nem a raça nem a língua determinam uma nação; os homens percebem no seu coração que seus pensamentos e sentimentos são afins, como o são suas recordações e ilusões. Eu, porém, percebi muito cedo que recordava tudo de outra maneira, e que minhas ilusões se distinguiam também daquilo que a pátria exigia de mim. Essa diferença, considerada vergonhosa, ardia em mim como um segredo, e me excluía do altissonante consenso ao meu redor, do mundo unânime dos homens. Carregava meu eu com um sentimento de culpa e com uma sensação de consciência cindida, até que - muito mais tarde - percebi que não era uma doença, e sim saúde, e que qualquer perda ficava recompensada pela lucidez e pelo ganho espiritual. Viver com um sentimento de desamparo: hoje em dia, é esse provavelmente o estado moral em que, resistindo, podemos ser fiéis à nossa época .

 

Como afirmava Freud, "os escritores sabem mais que os psicanalistas". A citação do autor húngaro, prêmio Nobel de Literatura, poderia ser lida como definindo o objetivo de um processo terapêutico.
Nestas coordenadas - e não na alternativa entre o silêncio e a estridência dos sintomas - é que se dá o processo de elaboração do trauma e da exclusão, que não são enfermidades do aparelho psíquico de um indivíduo, mas doenças do laço social. Pois não é a mesma coisa processar e transmitir o legado jubiloso com o qual, supõe-se, a espécie humana acolhe e beneficia seus filhos, e ser herdeiro do opróbrio, da humilhação e da vergonha dos ascendentes maculados.


Há um século, em Totem e Tabu, Freud assinalava que nenhum ato significativo de uma geração - ainda mais se for infamante ou vergonhoso - poderia ser ocultado da seguinte. A intimidade familiar é a caixa de ressonância que amplifica a peripécia da dor interior do traumatizado. O assédio recorrente de uma origem vergonhosa e humilhante transita sem fim ao longo das gerações, como sagazmente sugeria Michelet, cento e setenta anos atrás. A nobre tarefa das nossas instituições solidárias e dos nossos consultórios é necessária, porém não suficiente. Não se trata do uso midiático da tortura e do genocídio como espetáculo do horror, comovedor, mas no fundo apenas espetáculo; trata-se de vencer o escândalo e a repugnância que nos provocam o devolver à luz, à cena pública, uma das facetas mais abjetas de que nossa espécie é capaz.


O fato é que aquilo que chamamos de progresso civilizatório por vezes se desloca na direção de um retorno à barbárie. A comunidade, concernida não apenas como espectadora indiferente, mas como testemunha comprometida ou cúmplice por omissão, é o polo que triangula a tarefa de reparação, que nos diz respeito não apenas como profissionais, mas sobretudo como cidadãos. A sensibilização coletiva pela denúncia do crime em eventos desse gênero é algo tão reparador e terapêutico quanto o compromisso da nossa clínica. Tarefa de longo curso, talvez interminável. Recorde-se como a pequena primeira edição da Espécie Humana de Robert Antelme demorou mais de uma década para se esgotar, mas depois se converteu em leitura imprescindível. As leis de impunidade e ponto final sufocaram durante décadas a memória na América Latina. Houve longos anos nos quais somente uns poucos abordávamos esses temas, e o gemido das vítimas era tratado pela maioria bem pensante com indiferença, quando não com ironia e com ódio. Hoje, um pujante movimento de direitos humanos, de justiça e condenação aos crimes de lesa-humanidade percorre o continente e o planeta, institucionalizando-se na Convenção Internacional pela Abolição da Tortura, e no Tribunal de Haia para crimes de lesa-humanidade (com exceção de Bush e seus sequazes).


Todos sabemos a importância e os limites deste tipo de instituições, como também da massa anônima militante a que chamamos "opinião pública mundial". Quero concluir com a moral já conhecida: o horror do trauma cresce na escuridão do segredo e da impunidade, e diminui quando assumimos a responsabilidade e o risco da denúncia - ainda que arrepiados pelo escândalo e pelo impudor. Termino com a epígrafe do livro de meu amigo Daniel Gil, O terror e a tortura, que evoca um provérbio chinês: "Há assuntos que não agradam a ninguém. A mim também não".


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