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Autor(es)
Georges Gaillard

é maître de conférences no Centre de Recherches en Psychologie et Psychopathologie Clinique (Université Lumière, Lyon 2). É também psicanalista, membro do Quarto Grupo.




Notas

1.        F. Kafka, Na colônia penal.

2.        G. Agamben, Homo sacer: o poder soberano e a vida nua, p. 161.

3.        E. Peters, História da tortura, p. 7.

A. Freire, Relatório de prisão, encaminhado à Secretaria de Justiça e de Defesa da Cidadania de São Paulo.

A. Arantes, "Ordem dos Advogados do Brasil divulga documentos sobre maus-tratos", Petição aos Membros do Conselho de Justiça da 1a Auditoria da II Circunscrição Judiciária Militar, O Globo, 2 set. 1977.

4.        H. Lima, op. cit., O Globo, 2 set. 1977.

5.        P. Levi, Os afogados e os sobreviventes, p. 175.

6.        S. Freud (1932), "Por que a guerra?", p. 243.

7.        S. Freud, op. cit., p. 252-254.

8.        S. Freud, op. cit., p. 258.

9.        M. Crépon; M. Launay, Anthropologie de la guerre, p. 9-10.

10.     M. Crépon, M. Launay, op. cit., p. 19.

11.     S. Freud, O mal-estar na cultura, p. 137.

12.     S. Freud, op. cit., p. 140.

B. Coimbra, in T. Merlino, Direito à Memória e à verdade: Luta, substantivo feminino - mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura, p. 157.

13.     Frei Tito, preso em 1968, posteriormente exilado, matou-se em 1974 na França. Maria Auxiliadora Barcellos, presa em 1969, foi banida em 1971, matou-se em 1976 na Alemanha; Solange Lourenço Gomes, presa em 1971, matou-se em 1982 no Rio de Janeiro.

14.     N. Zaltzman (Org.), La résistence de l'humain.

15.     S. Freud, O mal-estar na cultura, p. 184.



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 TEXTO

Aparelhagem psíquica, destrutividade e Kulturarbeit

Psychic apparatus, destructiveness and Kulturarbeit
Georges Gaillard

Enquanto Eros inventa processos de ligação, organizações de desejo, vias de alianças possíveis entre as exigências pulsionais do Id e as exigências narcísicas do Ego, Tânatos exige do indivíduo e do conjunto humano que a Kulturarbeit, obra conjunta do singular e do coletivo, invente uma alternativa à atração do assassinato e à atração da autodestruição, mas que possa contentar Tânatos.

[Nathalie Zaltzman, De la guérison psychanalytique]

 

Os avanços da psicanálise foram produzidos a partir das suas margens, pela extensão progressiva do seu campo de aplicação. A eclosão e a multiplicação dos trabalhos sobre as dimensões inter- e transubjetivas da psique surgiram do encontro de alguns psicanalistas com novos objetos - o "objeto grupo", o "objeto família" e o "objeto instituição" - e, de modo mais geral, das interrogações sobre a configuração psíquica do laço social. De fato, numerosos impasses epistemológicos forçaram-nos a ampliar o campo de observação, a nos descentrarmos do foco exclusivo na dinâmica intrapsíquica, a retomar e a continuar aquilo que nos trabalhos de Freud sobre o campo social havia sido durante um tempo pouco considerado.

 

No mesmo período, também ocorreram outros desenvolvimentos, com a passagem da primazia da neurose à dos estados (ditos) limites, passando pela exploração das potencialidades psicóticas. Ora, estas pesquisas psicanalíticas em torno do campo da psicose e sua progressiva evolução foram construídas simultaneamente à investigação do campo dos conjuntos plurissubjetivos (grupo, família e instituição). Junto com a pesquisa acerca do campo social e da cultura, elas revelaram a importância das configurações arcaicas da psique. Para nos tornar sensíveis a estas dinâmicas, foi necessário levar em conta a intersubjetividade e a transubjetividade, e nos interessarmos pelas configurações dos vínculos (as "alianças inconscientes", na terminologia de Kaës), pela resposta do objeto na psicogênese do sujeito, e pelas dimensões mais profundas da psique.

 

A propósito da resposta do objeto, toda uma ala da psicanálise atual (que não se refere diretamente à metapsicologia dos vínculos de grupos) apoiou-se no aforismo de D. W. Winnicott: "Não existe esta coisa chamada bebê!". A exploração centrou-se então no espaço do encontro, nos processos que fazem com que ele seja "suficientemente bom", ou, ao contrário, um "mau encontro", e que, a partir daí, vão especificar a história de um sujeito e do seu grupo de pertencimento. Tais pesquisas contribuíram, pois, para colocar a intersubjetividade em foco.

 

Diversos desafios foram colocados à psicanálise, posteriormente às descobertas freudianas, pelas diferentes barbáries que caracterizaram o século XX. Elas levaram a prolongar as intuições de Freud acerca da dualidade pulsional Eros/Tânatos, a considerar a importância central da pulsão de morte na compreensão da dinâmica entre humanização e desumanização, e a queda sempre possível para o lado da destrutividade[1].

 

1. Organização da proposta

Quando consideramos a instituição, esta aparece como um espaço de articulação entre o sujeito e o socius. Por este motivo, os processos psíquicos que nela se dão constituem um dos terrenos que continuam a requerer atenção dos psicanalistas. Numa perspectiva metapsicológica, proporei nas páginas seguintes alguns elementos para uma clínica da instituição. Interrogarei a noção de instituição (em sua dimensão psíquica), e o registro da negatividade, na medida em que este especifica a psicanálise. Em seguida, nos voltaremos para aquilo que numa dada sociedade caracteriza as instituições de saúde e de trabalho social, assim como o trabalho que elas realizam em prol do coletivo. Assinalo desde já que estas instituições ganham em legibilidade se forem pensadas a partir da primazia do desligamento (em seu aspecto mortífero), a partir da primazia da negatividade, da primazia de Tânatos.

 

Seguindo esta trilha, seremos levados a considerar as mutações contemporâneas e a transformação dos metaquadros que afetam nossa hipermodernidade, as incidências disso sobre o vínculo social, e sobre a própria construção do sujeito[2]. Basta pensar numa das transformações mais manifestas da nossa modernidade tardia, que, dando sequência à individualização progressiva dos sujeitos (no projeto de emancipação proveniente das Luzes), desembocou no excesso contemporâneo que promove um individualismo furioso, ao mesmo tempo que ataca e destrói o vínculo grupal e a figura do Outro. Interrogaremos a maneira como essas mutações impactam as funções de intermediário e articulador ocupadas pelas instituições em prol do socius.

 

2. A metapsicologia dos vínculos

Embora para vários psicanalistas a prática com grupos tenha se tornado um instrumento de trabalho cotidiano, este ponto de vista ainda está longe de ser compartilhado pela comunidade analítica. Devemos, pois, assinalar a ancoragem da metapsicologia do(s) vínculo(s) no corpus freudiano.

 

Uma noção que se tornou central no pensamento psicanalítico sobre os grupos é a de aparelhagens. Trata-se de uma proposta de René Kaës, que a vem desenvolvendo desde 1976, data da primeira edição de O aparelho psíquico grupal[3]. Apoiando-nos no que ele denomina "metapsicologia de terceiro tipo", ou "metapsicologia dos espaços psíquicos coordenados", é possível pensar num "aparelho psíquico institucional", num "aparelho psíquico grupal", etc.

 

Nessa proposta, a ênfase colocada sobre a noção de aparelhagem retoma a afirmação de Freud em Introdução ao Narcisismo: "o indivíduo, efetivamente, leva uma dupla existência: ele mesmo é seu próprio fim, e também elo de uma corrente à qual está submetido contra sua vontade, ou pelo menos involuntariamente".

 

René Kaës insiste no fato de que o sujeito está inserido numa "cadeia intrassubjetiva e intergeracional da qual é ao mesmo tempo elo, servidor, herdeiro e beneficiário"[4]. O sujeito é o sujeito do vínculo, sujeito no vínculo. Para continuar com aquilo que no texto freudiano oferece bases para fundar um pensamento da intersubjetividade, mencionemos um texto de 1921:

 

O contraste entre a psicologia individual e a psicologia social ou de grupo, que à primeira vista pode parecer muito importante, perde grande parte de sua nitidez quando examinado mais de perto. [...] Na vida psíquica do indivíduo tomado isoladamente, o outro está regularmente envolvido como modelo, objeto, auxiliar ou oponente, de maneira que desde o começo a psicologia individual - nesse sentido ampliado, mas inteiramente justificável - é simultaneamente psicologia social[5].

 

A esta afirmação freudiana faz eco uma nota tardia datada de 22 de agosto de 1938, que soa como programática para a ampliação teórica e prática do campo de exploração da psicanálise: "é possível que a espacialidade seja a projeção da extensão do aparelho psíquico. Nenhuma outra derivação é provável. Em vez das condições a priori do aparelho psíquico segundo Kant. A psique é extensa, nada sabe a respeito"[6]. Tal afirmação desloca e desconstrói a ideia de uma psique circunscrita ao intrapsíquico, abrindo espaço para as dimensões inter- e transubjetivas.

 

3. A instituição matriz da subjetividade

A respeito das instituições, lembro que elas são emergências da sociedade que asseguram a estruturação, o ordenamento e a perenização de um grupo social, e que constituem a própria condição desta estruturação - numa "recursão organizacional", no dizer de Edgar Morin. Participam da construção de um pano de fundo, este mesmo que condiciona a emergência de uma forma[7]. São as matrizes transubjetivas da construção dos sujeitos (em seu ser subjetivo e em seu social. Concernem portanto ao próprio processo de humanização, e à manutenção dele. Correlativamente, as instituições têm por função estabilizar e ligar a negatividade inerente à humanidade do homem (o fundo de onipotência jamais erradicada de "Sua Majestade, o Bebê", sua avidez predadora), negatividade que para todo sujeito constitui a vertente mortífera do narcisismo (A. Green), "do desejo de ser tudo" (G. Bataille) quando o narcisismo não mais se apoia em suas amarras com a alteridade (falta de apoio que constitui justamente uma das características da nossa hipermodernidade).

 

Esta dupla dimensão - inscrever o sujeito e designar-lhe limites - coloca as instituições na posição de encarnar o "bem comum" (E. Enriquez). Em outras palavras: os aspectos instituintes das instituições as configuram como essenciais aos diferentes processos envolvidos na subjetivação, ao mesmo tempo que servem de depósito para os aspectos arcaicos (simbióticos) da psique, estudados entre outros por Elliot Jaques e José Bleger. Elas estão, portanto, simultaneamente a serviço do desconhecimento, da negativação e da constituição de um impensado necessário ao vínculo. Diz Bleger:

 

Toda instituição é uma parte da personalidade do indivíduo, a ponto de a identidade ser sempre completa ou parcialmente institucional, no sentido de que ao menos uma parte da identidade se estrutura pelo pertencimento a um grupo, a uma instituição, a uma ideologia, a um partido, etc. [...]. As instituições funcionam sempre, em graus variados, como delimitação da imagem do corpo e como núcleo de base da identidade[8].

 

Tais aspectos instituintes produzem a ligação, e fazem obstáculo (potencialmente) à ameaça constante de desligamento mortífero, à volta do arcaico e do caos que o acompanham - esse registro da subjetividade no qual, para todo sujeito ou grupo, se encontram as figuras da barbárie, graças à atração do intrincamento assassino do incesto e do desligamento incestuoso do assassinato. As estabilizações momentâneas que concorrem para a Kulturarbeit estão sempre sob a ameça de se reverterem[9] e darem livre curso aos caos do qual protegem o grupo social. É possível, pois, pensar as instituições a partir da primazia da pulsão de morte.

 

4. Sobre a negatividade

No plano da metapsicologia, podemos considerar que a atenção ao registro da negatividade e ao conjunto das dinâmicas próprias a Tânatos caracteriza a metapsicologia freudiana, e diferencia a psicanálise das demais abordagens do cuidado e da terapia[10]. Ao propor a hipótese da pulsão de morte e enfatizar aquilo que no humano resiste à humanização (fracassa e se retira principalmente quando dos "maus encontros" precoces), Freud reafirma que - a despeito do que gostaríamos de acreditar - o fundo de destrutividade e de barbárie inerente à constituição do sujeito nunca é totalmente transformado: existe uma atração pela destrutividade e pelo aniquilamento, pela abolição do desejo (o desejo do não desejo) e pela renúncia ao difícil trabalho de viver[11].

 

Sem dúvida essa abordagem, que confronta o humano à atração do incesto, do assassinato e da destrutividade, continua a suscitar resistências maciças. Por sua vez, a "hipermodernidade" (J. Lyotard), a "modernidade tardia" em sua forma ultraliberal, procura negar esta negatividade demasiado incômoda, e menospreza as incidências das suas ações (e da complexidade) a médio e longo prazo, preferindo o engodo de uma cultura do imediato, do gozo, e da destruição que acompanha este último. A compreensão das relações humanas que considera o registro do inconsciente encontra-se mais uma vez desacreditada; ela se torna alvo de uma vontade de romper com as filiações anteriores, precipitando uma verdadeira "crise genealógica". É recorrente a tentação de erradicar a história[12], e de operar uma ruptura de filiação, as quais permitiriam ao sujeito desembaraçar-se dos seus laços de pertencimento (de suas atribuições e dívidas, das obrigações, dos vínculos que elas configuram).

 

Podemos pensar aqui na tentação que certos adolescentes encarnam à perfeição: a que pretende se autofundar e questionar a legitimidade de toda posição de autoridade, a fim de escapar a qualquer atribuição[13].

 

Se a negatividade que trabalha ao contrário do processo de simbolização, da Kulturarbeit, não for objeto de uma atenção e de uma consideração que autorizem sua transformação, ela pode apenas se repetir indefinidamente, com o que se subvertem as configurações do vínculo, porque são levadas ao extremo: à massificação que confunde, e/ou a um hiperindividualismo fragmentador.

 

Nos grupos instituídos (as equipes em instituição), a dimensão da negatividade deve também ser considerada no conjunto das configurações constitutivas desta grupalidade; necessitam, portanto, de uma atenção plurifocal que considere as modalidades de ligação e de articulação entre os diferentes níveis (indivíduo/grupo/instituição; profissional/"usuário"; configuração narcísica e edípica, vínculo com a história, etc.).

 

Duas questões centrais subjazem, assim, ao olhar clínico sobre as instituições:

 

que trabalho de reconhecimento e de integração progressivos da negatividade pode ser feito, tanto no nível intrapsíquico e intersubjetivo, quanto no plano do sujeito e dos grupos instituídos?

 

de que maneira é possível tomar em conta alguns aspectos do registro inter- e transubjetivo, os mesmos que acabam sempre excedendo nossa capacidade de os pensar?

 

5. As dinâmicas que especificam
as instituições de saúde e de trabalho social

As instituições de saúde, de trabalho social, etc. foram designadas por Alain-Noël Henri como constitutivas do campo da "desinscrição" (mésinscription). Escolher tal designação leva a enfatizar a função ocupada por estas instituições em prol do grupo que as gerou e pereniza seu funcionamento. Com efeito, a tarefa delas é cuidar das inevitáveis falhas do processo de civilização, ou seja, daquilo que, da pulsão que anima e "trabalha" os sujeitos, não chegou a se ligar, a simbolizar-se suficientemente, a se humanizar num vínculo com o outro.

 

Essas instituições se dirigem aos sujeitos para quem a inscrição como sujeito entre outros (outra maneira de designar o "contrato narcísico" estudado por Piera Aulagnier) encontrou-se de alguma forma impedida, o que engendra sintomas que perturbam a ordem simbólica, conforme os três registros do sintoma: psíquico, somático e do agir. Elas têm, portanto, fundamentalmente a função de restabelecimento da trama simbólica.

 

A matéria-prima dessas instituições da desinscrição nada mais é do que a angústia, o terror e a vergonha em suas múltiplas variações, ou seja, esse conjunto de afetos que se referem a experiências extremas, a configurações nas quais o sujeito se debate em confusões desumanizantes. Os trabalhos baseados na metapsicologia psicanalítica que esclarecem essa clínica nos familiarizaram com a ideia de que as instituições são "organizadas" por seu "objeto", com a ideia de que as experiências brutas, as partes da psique do sujeito à espera de humanização, são transferidas para diferentes cenas institucionais, acarretando confusão e destrutividade[14].

 

Para dar um pouco de substância a estas afirmações, permito-me mencionar algumas das situações evocadas num grupo de análise da prática enquanto eu redigia este texto. Isso permite ter a medida do que tende a ser recalcado, e mesmo recusado, tão considerável é o confronto com a carga de afeto encontrada nestas situações. Uma das psicólogas deste grupo mencionava como em sua última intervenção (uma sessão de análise da prática junto a educadores que intervêm por ordem judicial no quadro da proteção da infância) se reatualizaram, no espaço da sessão, traços de um infanticídio acontecido numa família no momento em que o serviço se encarregou de uma medida educativa. Este infanticídio fez desabar emocionalmente o chefe do serviço, que nas palavras da equipe nunca se recuperou, e desde então ocupa no grupo uma função "melancolífora".

 

Ora, durante a mesma sessão, também foram mencionados a imolação de um pai (situação em que subsiste a dúvida de saber se se trata de um suicídio pelo fogo ou de um acidente), e o suicídio de uma mãe após uma descompensação puerperal.

 

Enunciando assim o que será sucessivamente evocado durante uma única sessão, podemos entender a carga de afeto atualizada neste grupo, a invasão potencial e sua correlação com o trabalho psíquico requerido em tais enquadramentos - tanto para os profissionais que trabalham nestas estruturas quanto para aqueles que podem ajudá-los a restaurar seu profissionalismo, auxiliando-os a se libertar da fascinação, do horror e da sideração.

 

Nestes confins da experiência humana, aquele que intervém deverá se constituir como testemunha: testemunha da barbárie, na medida em que esta é constitutiva da humanidade do homem. Essa posição permite reintroduzir tais registros da experiência na esfera da experiência humana; permite humanizar o que Nathalie Zaltzman denomina "esse fundo de baixeza e de barbárie", trabalhar para aceitar a "realidade psíquica no que ela tem de pior"[15].

 

Convém assinalar que as instituições da desinscrição são também depositárias daquilo que, da história e do impensado traumático de um grupo social (família, comunidade, nação, etc.), ficou momentaneamente excluído da representação. Trata-se dos buracos negros da história, que só podem ser abordados e cicatrizados no tempo longo do trabalho da integração transgeracional (os genocídios, as guerras, a escravidão, a colonização...). Verificamos constantemente como o sujeito, em sua dimensão essencial de "elo" geracional, recebe como herança o trauma. Cabe-lhe transformá-lo, ou se alienar nele. O distúrbio que um sujeito atualiza pode, assim, ser pensado como componente de uma dinâmica intersubjetiva transgeracional insuficientemente subjetivada, a qual se refere a esta dimensão de herdeiro, à sua dívida geracional, e ao trabalho da transformação que deve ser conduzido em prol do grupo que o acolhe e o institui como sujeito do grupo.

 

Estes "buracos negros" têm relação com os processos de desumanização - situações em que um grupo de humanos decide retirar a outro grupo de humanos a sua humanidade, e considerá-los "homo sacer"[16], homens matáveis. A humanização é, ao contrário, caracterizada pelo trabalho de renúncia ao assassinato, o que permite que a vida seja apropriável pelo sujeito fora de um domínio mortífero e/ou assassino.

 

Considerada a partir do trabalho da negatividade, a escuta clínica psicanalítica dos grupos instituídos obriga pois a colocar no centro da escuta e da atenção a questão da ligação pulsional, da urdidura no interior da psique e entre as psiques (individuais, grupais e institucionais), e do trabalho de diferenciação correlato.

 

Lembremos que, se o trabalho de ligação é o próprio trabalho requerido pelo sujeito com relação à pulsão (Freud), é também aquele "imposto à psique sob o efeito de uma série de correlações de subjetividade" (Kaës). Desta forma, da psique individual à grupal institucional, vemos a mesma exigência ser requerida: ligar, diferenciar, metabolizar, simbolizar.

 

6. Destinos da negatividade
nas instituições: um esboço

Para avançar na localização dos processos em jogo nas instituições da desinscrição, reitero que nestes lugares a negatividade diz respeito à totalidade dos registros concernidos. Quanto à evolução dessa negatividade, vamos encontrar movimentos análogos aos que se manifestam na construção da economia psíquica do sujeito.

 

Uma parte é progressivamente incluída, e é objeto de uma tripla ligação simbolizante:

 

ligação que opera a partir da preocupação psíquica, do trabalho de pensamento que os profissionais mantêm como lugar do investimento dos sujeitos junto aos quais intervêm;

ligação que opera a partir da manutenção de um pensamento sobre os dispositivos de saúde e/ou assistência, e da aplicação cotidiana destes dispositivos;

e a partir da referência de cada profissional ao seu grupo de pertencimento (sua equipe) e à instituição (suas garantias e sua história), por meio dos diferentes espaços de trabalho institucionais.

 

Uma parte não subjetivável da negatividade vai, por oposição, ser mantida fora da representação, conforme a modalidade do depósito no enquadramento e no vínculo (trata-se, aqui, de uma ligação silenciosa, simbiótica, de uma configuração em "núcleos aglutinados", como diz Bleger). Como escreveu Freud na sua nota de 22/08/1938, uma parte da psique do sujeito está "fora de sua psique" e se configura na inter- e na transubjetividade.

 

Uma parte da negatividade será expulsa sobre os objetos externos. Trata-se de colocar algo para fora, de exportar o que ameaça a integridade do grupo (e/ou do ego de certos profissionais), de colocá-lo fora do campo da representação consciente, e de emprestá-lo ao outro como sendo característico deste. Ao se considerar por exemplo a fundação, este movimento é facilmente perceptível: toda fundação é também (em parte, mais consequente ou menos) uma fundação "contra", na medida em que todo grupo fundador busca encarnar uma parte criativa, e passa assim a acreditar que está gerando o "novo", regenerando o mundo (à sua medida). Este movimento supõe que outros projetos, outras instituições, outras equipes, outras práticas, sejam consideradas caducas, inadequadas, tóxicas, etc.

 

Este "não subjetivável" ativamente excluído e evacuado pelo grupo profissional está relacionado com o que excede demasiado radicalmente a sua capacidade de acolhimento e de transformação, e que não consegue ser configurado como ligação silenciosa (ou seja, sob a modalidade do "depósito").

 

As partes da psique mantidas fora da ligação simbolizante permanecem, assim, como fontes de desligamento mortífero que ameaçam retornar, principalmente durante situações atualizadas por qualquer usuário, entrando em colusão com estes elementos psíquicos não ligados na psique dos profissionais e/ou na configuração psíquica institucional em relação aos avatares da sua história, e da história do grupo social. São essas colusões que, com muita frequência, precipitam a entrada em crise das instituições, ou dos profissionais[17].

 

Numa instituição para crianças colocadas sob a guarda da Justiça, o estupro de um adolescente por outro mais velho despertou a lembrança do abuso de outros adolescentes por um profissional em outra unidade da associação, o que desregulou o conjunto dos equilíbrios institucionais. Esses abusos haviam sido alvo de uma negativação, de um silêncio na história da associação da qual dependia a unidade.

 

Devido a este acontecimento, as autoridades tutelares decretaram que a configuração institucional não permitia "vigiar" e "controlar" os jovens, e que convinha fechar a unidade, destruindo a experiência específica daqueles profissionais no cuidado dos adolescentes em grande sofrimento, e o trabalho institucional (referido à psicoterapia institucional). Deste lado do Atlântico, tornou-se moda a partir de então criar microestruturas distribuídas pelo território, substituindo o trabalho institucional sob suspeita de apresentar demasiada opacidade.

 

7. As mutações atuais e a necessidade dos panos de fundo

A existência das instituições da desinscrição requer que certas facetas da vida psíquica sejam silenciadas - silenciamento que faz parte do acordo inconsciente (o "pacto denegativo", na terminologia de René Kaës). Ora, estas próprias instituições contribuem para o silenciamento, e são portanto constituintes de um pano de fundo que beneficia o corpo social. Elas são diretamente impactadas pelas mutações em curso, que na desconstrução das formas anteriores procedem a uma autêntica desinstitucionalização, e portanto a uma "desmutificação" do que necessita ser mantido em silêncio. Tais movimentos colocam em jogo dinâmicas na verdade paradoxais:

 

o movimento que gostaria que as instituições tivessem uma função ativa de ligação da violência mortífera opõe-se ao fato de que elas estão submetidas a um movimento de desmantelamento e à violência do desligamento.

 

o movimento que necessita que elas preencham uma "função de depósito", de ligação silenciosa, opõe-se ao fato de que as mutações contemporâneas desmutificam e desalojam as partes simbólicas objeto de um depósito silencioso, justamente o que Bleger denominava "configuração em núcleos aglutinados".

 

o movimento que gostaria que elas fossem os quadros da fábrica do sujeito choca-se com o fato de que elas são deslegitimadas em sua função de mediação social e em sua função terceirizante.

 

Num movimento recursivo, esta desinstitucionalização amplifica o desencaixe dos sujeitos dos seus pertencimentos, o que por sua vez amplifica o processo de desinstitucionalização.

 

8. Preservar a criatividade

Os movimentos de reestruturações incessantes que afetam as instituições da desinscrição (a acumulação das obrigações processuais, mencionadas por E. Diet, as exigências de normatização, etc.), subjacentes à crise dos metaquadros, desmutificam o que deve permanecer mudo, velado, encoberto, de modo que os profissionais possam acolher a negatividade inerente à sua tarefa primária sem serem invadidos pela negatividade vinda da própria instituição e do socius. As dinâmicas de controle são correlatas à angústia; a criatividade indispensável, pelo contrário, é proporcional à tolerância ao caos criador e ao indeterminado.

 

A capacidade de brincar e de sonhar, o trabalho de apropriação criativa, supõem que se garanta ao sujeito um sentimento suficiente de segurança. Estas configurações (momentâneas) são caracterizadas por uma suspensão da ameaça assassina e de seus avatares, das desqualificações assassinas do exercício profissional, mas também da ameaça de uma deriva simbiótica e fusional. Como as instituições nas quais exercemos nosso trabalho participam desta estabilização? Como os psicanalistas, os psicólogos e outros profissionais (internos e/ou em posição de exterioridade) podem se tornar sensíveis a estas dinâmicas?

 

Um dos campos a desenvolver em nosso mundo contemporâneo consiste em prestar atenção ao modo como os sujeitos e os grupos são capazes de lidar com o limite, e de aceitar o trabalho da morte. Como, nas diferentes configurações do vínculo, nas instituições enquanto lugares de fabricação de sujeitos, é possível atribuir novamente a Tânatos seu devido lugar a fim de proteger a vida?


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