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Resumo
No texto que se segue, proponho uma reflexão sobre a escrita nos blogues, sobretudo a das mulheres e dos adolescentes. Formulo algumas indagações sobre o que é um autor e questiono se haveria uma escrita feminina. O texto termina com uma proposição de profanação dos blogues.


Palavras-chave
blogues, dispositivo, autoria, feminino, arquivo, profanação.


Autor(es)
Paula Patrícia S. N. Francisquetti
é psicanalista e psiquiatra, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Participa do Grupo de Transmissão e Estudos de Psicanálise. Atua na Cia Teatral Ueinzz e é mestre pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades de Estética e História da Arte da USP.


Notas

1 S. Plath, Poemas, p. 27.

2 J. Kristeva, As novas doenças da alma, p. 163.

3 E. Roudinesco, A análise e o arquivo, p. 52.

4 E. Roudinesco, op. cit., p. 52.

5 S. Beauvoir, O segundo sexo / 2. A experiência vivida, p. 9.

6 M. Foucault, Ditos e escritos III. Estética: literatura e pintura, música e cinema, p. 269.

7 M. Foucault, op. cit., p. 275.

8 M. Foucault, op. cit., p. 274.

9 E. Roudinesco, op. cit., p. 9.

10 G. Agamben, Profanações, p. 73.

11 O escrito de Robert Smithson para o catálogo da V Documenta de Kassel foi incluído na antologia Art in theory 1900-2000 que consta da bibliografia, p. 970-71.

12 G. Agamben, op. cit., p. 76.



Referências bibliográficas

Agamben G. (2007). Profanações. São Paulo: Boitempo.

Beauvoir S. (1980). O segundo sexo / 2. A experiência vivida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Birman J. (1999). Mal-estar na atualidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Foucault M. (2001). Ditos e escritos III. Estética: literatura e pintura, música e cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

Harrison C.; Wood P. (2005). Art in theory 1900-2000: An anthology of changing ideas. Oxford: Blackwell Publishing.

Kehl M. R. (2007). Pensamento: ética: criação, Percurso, n. 39, São Paulo, ano XX, dez.

Kehl M. R. (2007). O que pode uma mulher, O Estado de São Paulo, 30 dez.

Kristeva J. (2002). As novas doenças da alma. Rio de Janeiro: Rocco.

Plath S. (1994). Poemas. São Paulo: Iluminuras.

Roudinesco E. (2006). A análise e o arquivo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.





Abstract
In this text, I propose to refl ect about blog writing, especially by women and teenagers. Some questioning comes up about what an author is and if there is a feminine writing. The text closes with a proposition about internet and blogs.


Keywords
blogs; device; authorship; feminine; fi le; profanation.

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 TEXTO

Autorias dissonantes

blogues: culto de si ou espaço de alteridade?


Dissonant authorships
blogs; device; authorship; feminine; fi le; profanation.
Paula Patrícia S. N. Francisquetti


Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça sobre mim,
buscando em minhas margens sua imagem verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha,
emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível
.
[Silvia Plath, O espelho] [1]

Ocupar espaço é um ato político. É o que fizeram milhares de mulheres com os blogues. Através deles tiveram a oportunidade de introduzir seus textos e escritos no domínio público. Esse novo dispositivo da internet nos confronta com um espaço aberto, a certo derramamento da escrita. Muitos dos usuários confessam ser amantes do ato de escrever.

O blogue dá lugar a experimentações; sua estrutura aberta, com um espaço vazio, convida o usuário da internet à criação de páginas e de textos variados, à interação com outros. Muitos deles são páginas pessoais, diários íntimos; funcionam também como varais de fotografias, desenhos, músicas, poesias etc. Os temas abordados são bem variados: cotidiano, política, viagens, amores, amizades, cinema, artes, poesia etc.

É impressionante a quantidade de adolescentes e pré­ adolescentes que criam blogues. A associação entre a adolescência e a escrita não é nova: o novo é esse dispositivo que dá lugar aos devaneios, às efervescências desse período da vida e, ainda, possibilita uma circulação antes inimaginável. Uma menina de 13 anos, no blogue Fragile inside, escreve sobre os que já criou: "Esse é o quinto blog que eu tenho. O primeiro se chamava Inutilidade a mil e era beeem falido. Logo depois, tive contato com o goticismo e fiz Noites de insônia, um blog tipicamente pouser. Cansei de ser pouser e criei o Stupid angel, que não durou nem um mês, e foi logo substituído pelo Apenas eu, até que percebi que esse nome não combinava comigo... Fragile inside é uma tentativa de autoaceitação. Quero admitir para mim mesma que sou fraca, frágil e indefesa. Não levem meu blog a sério. Muito do que escrevo é invenção de uma mente doentia".

Kristeva nos fala de uma "estrutura psíquica aberta" presente no adolescente, que se abre ao recalcado, flexibiliza o superego e favorece a criação. O adolescente pode encontrar na escrita um continente ou uma forma capaz de abarcar o período de transição tumultuado em que vive, ou seja, uma possibilidade de elaboração semiótica. Segundo a autora, esse processo que reorganiza o espaço psíquico seria "cúmplice dos processos primários despertados na adolescência, reproduzindo a dramaturgia das fantasias adolescentes, absorvendo estereótipos, mas também capaz de verdadeiras inscrições de conteúdos inconscientes que afloram no pré­ consciente adolescente" [2].

A estrutura psíquica aberta está presente na adolescência, mas não é privilégio desse momento da vida. Na clínica, testemunhamos este acontecer. Períodos turbulentos, de grande fluxo psíquico, solicitam dispositivos que propiciem trabalho, camadas de elaboração e criação. Os diários pessoais podem ser vistos como uma maneira de lidar com um certo excesso "existencial", como uma tentativa de interação com o outro e uma forma de intervir no mundo.

Culto de si?

Os blogues seriam espaços propícios a processos de elaboração semiótica, de criação ou seriam meros espaços de culto de si? No blogue espelhofeminino.zip.net, encontramos a seguinte afirmação: "o mundo ao seu redor é um reflexo... aqui é o meu espelho, reflexo da minha alma". Nesse comentário, encontramos a indicação de que o blogue é visto apenas como um reflexo de si mesmo, ou seja, da alma da pessoa que o escreve. Esse viés autorreferente faz um contraponto forte com a poesia da epígrafe. Nela, há uma busca de si no espelho do lago, mas o reflexo não mostra a alma, apenas repõe a escuridão de onde emerge um peixe terrível. São muitos os espelhos, e nem sempre um espelho tem um tom narcísico; pode haver também um que nos abra em direção ao escuro... Um blogue poderia nos conduzir ao desconhecido, ao que não é nós?

Como entender o excesso de narratividade do eu presente nos blogues? Uma primeira ideia é que essa narratividade seria uma forma de culto de si. No livro A análise e o arquivo, Roudinesco aborda tal questão no contexto da economia globalizada. Segundo ela, surgiu, no último quarto do século passado, nos Estados Unidos e países sob domínio da cultura americana, uma cultura do narcisismo ou o culto de um arquivo de si. Estaria em primeiro plano a figura imaginária de um sujeito desprovido de sentido histórico e limitado a sua imagem especular.

A figura de Narciso viria a substituir a de Édipo, e seu culto seria a fórmula moderna de uma consumação da família patriarcal. A esse respeito, diz Roudinesco: "Narciso é o drama de um eu que se subtrai progressivamente a qualquer encontro com a verdade ao substituir o peso das tradições pelo deleite de si e a punição da lei pelo cuidado terapêutico de si" [3]. Não é à­ toa que deparamos hoje com um crescimento vertiginoso de tipos de terapias. E essas terapias, ligadas ao culto de si, teriam como objetivo reforçar o ego, a autoestima, não se levando em conta a alteridade que o mundo e os outros podem ser para nós.

No livro Mal-estar na atualidade, Birman também se refere ao momento atual como cultura do narcisismo. Segundo ele, encontraríamos hoje, nas formas da subjetividade, tanto o autocentramento como o valor da exterioridade, em que o olhar do outro passa a ocupar uma posição estratégica na economia psíquica. Nessa dinâmica, o outro se transforma em objeto de usufruto, em instrumento de incremento da autoimagem, em alguém que pode ser eliminado como dejeto se resiste ao gozo ou em alguém que tiraniza e oprime.

A narratividade exacerbada do eu é uma forma particular do culto de si. Está presente na prática do diário íntimo e funciona como expressão das angústias individuais de massa. De forma paradoxal, é uma tentativa de se destacar da massa para melhor se adaptar a ela. Muito diferente de uma autobiografia, não pressuporia uma reconstrução do passado.

Os blogues são páginas pessoais, diários íntimos a céu aberto, repletos de confissões, de derramamentos de si. Em alguns deles, podemos notar essa dimensão narcísica, o culto de si, o arquivamento de si. A questão é que esse giro sobre si mesmo incrementaria um ódio de si. Segundo a psicanalista francesa [4], a obsessão em torno do eu é portadora de uma rejeição do outro que pode ser transformada em ódio de si. Então esse excesso de narratividade do eu nos levaria a uma intolerância em relação a si mesmo e ao outro?

Uma autoexaltação de si implicaria uma crescente volatilização da solidariedade, o correlato de relações inter-humanas fundamentadas na alteridade, nas relações em que se reconhece a diferença e a singularidade do outro. E os efeitos terríveis desse afrouxamento da solidariedade seriam a violência e a intolerância.

Não podemos esquecer que nos blogues não encontramos apenas o culto de si, o narcisismo proliferante e a volatilização da solidariedade, mas também espaços para comentários, links, formação de coletividades e redes de pessoas. Cada pessoa que faz e lê um blogue comenta e divulga o blogue do outro; há solidariedade e cumplicidade. Apesar de ser possível encontrar blogues que sejam uma espécie de vitrine, eles não são meros dispositivos individuais, fechados. Podem ser lugares para compartilhar com outros, por exemplo, imagens, escritos, experiências. Em A cidade surpreendente, encontramos algumas fotografias, colocadas em ordem cronológica, do fim de tarde do dia 29 de dezembro de 2007 na cidade do Porto (Portugal). São fotos misteriosas em que a cidade parece desaparecer envolta em névoa. Janela para o mundo, vários comentários de internautas estavam anexados às fotografias, pessoas comovidas em ver o Porto naquele dia, naquela hora, a tão grande distância espacial e temporal.

Insisto na pergunta: na blogosfera, encontraríamos um movimento em direção a uma adaptação ao instituído ou ao disruptivo? Nos blogues parece haver de tudo um pouco; encontramos em alguns violência, culto de si, excesso do arquivo de si, adaptação ao instituído e, em outros, a solidariedade, o compartilhar, a troca e, por que não dizer, a revolta.

As mulheres e os blogues

Segundo Maria Rita Kehl, no artigo "O que pode uma mulher", só no século XX é que a fala das mulheres migrou do espaço privado para o público e passou a produzir diferença. Os blogues, no final do século XX e início do XXI, alargaram em muito a possibilidade de escrita para as mulheres, assim como sua visibilidade e circulação. Comenta-se que a grande maioria dos usuários são mulheres. Mas a escrita das mulheres implicaria uma autoria feminina?

A discussão sobre autoria e feminino é complexa. Sobre isso há uma extensa discussão. Para muitos, a escrita feminina seria impossível, pois o feminino é o irrepresentável; é o que escapa à simbolização e tem a ver com o Real, o pulsional, o corpo, o silêncio, a gestação e a criação. A escrita, então, seria efeito de um processo que passa pelo feminino? Depende, pois nem toda escrita passa pelo feminino. A escrita das mulheres não seria necessariamente feminina e, ainda, alguns homens poderiam passar pelo feminino ao escrever.

Neste ponto é necessário fazer algumas distinções no que diz respeito à mulher e ao gênero, à feminilidade e ao feminino. Quanto à mulher, temos a famosa frase de Simone de Beauvoir: "Ninguém nasce mulher: torna-se mulher" [5]. A mulher se constrói como gênero por uma diferença que é dada no corpo e pelos significantes que vêm da família e do mundo ao seu redor.

A feminilidade, por sua vez, é uma construção imaginária e cultural que tem se transformado muito nos últimos anos. Na época de Freud, por exemplo, feminilidade tinha a ver com docilidade, delicadeza, sensibilidade. E hoje, por onde passaria a feminilidade? Já o feminino teria a ver com uma posição que pode ser ocupada por mulheres e homens. Poderíamos dizer que o feminino seria a possibilidade de se deixar penetrar, gerar, criar, o que seria acessível a homens e mulheres.

Feita essa distinção, voltemos aos blogues. No texto "Cyberfeminismo x feminismo: o que as mulheres fizeram com os blogs da Web", Oliveira, estudiosa do gênero e da web, comenta que os blogues de mulheres tratariam na sua grande maioria do mundo doméstico, espiritual e interior, e os blogues dos homens tratariam de relatos militares, viagens, aventura, política. Ainda viveríamos nessa dicotomia tão estreita?

A jornalista portuguesa Carla Hilário, do blogue Bomba inteligente, ao se pronunciar no evento "Falar de Blogues", da Livraria Almedina de Lisboa, disse que "as diferenças no modo como as mulheres observam os temas (como atualidade, política, cotidiano, cinema, moda, literatura) está relacionada com o que são como pessoas e não com o simples fato de serem mulheres".

Já Isabel Ventura, também presente no mesmo evento, declarou que "blogues no feminino são diários que assumem um papel político... são atos políticos porque contam, partilham e reivindicam um determinado espaço". Há mesmo uma ocupação da internet pelas mulheres, o que tem uma dimensão política.

Segundo Oliveira, os blogues permitiriam tanto a homens como a mulheres apresentar e modelar as próprias identidades. Sendo assim, representariam uma abertura, um espaço de expressão. Poderiam os blogues ser aberturas para a quebra de estereótipos em vez de modeladores de identidades?

Os blogues são também um palco de debate sobre feminilidade e masculinidade. Mas será que podemos dizer que há uma identidade feminina, se cada mulher é uma mulher, uma constelação própria? A internet levaria a certa homogeneização do discurso das mulheres ou estaria aberta à diferença? São questões difíceis.

Outro aspecto: os blogues são vistos, muitas vezes, como lugares para a livre expressão pessoal, o que pode ser um engodo. Talvez seja mais interessante pensar neles como lugar de jogo, de invenção. Muitas pessoas criam personagens, inclusive de outro sexo. E, mesmo aqueles que acham que são sinceros e falam de si criam, ali na tela, uma espécie de personagem de si, um recorte de si.

A indiferença seria um princípio ético da escrita contemporânea, um princípio que domina a escrita como prática. Mas é indiferente quem fala? Para Foucault, a escrita seria um jogo de signos comandado pela própria natureza do significante e não uma expressão de uma interioridade. E, na abertura desse espaço de escrita, o sujeito não para de desaparecer. Ainda segundo Foucault, a relação da escrita com a morte se manifesta no desaparecimento das características individuais do sujeito que escreve. Diz ele: "o sujeito que escreve despista todos os signos de sua individualidade particular; a marca do escritor não é mais que a singularidade de sua ausência; é preciso que ele faça o papel do morto no jogo da escrita" [6].

A adolescente do blogue Fragile inside adverte: "não levem meu blog a sério. Muito do que escrevo é invenção de uma mente doentia". Ela sabe que escrever é um jogo inventivo.

Uma autoria possível?

A história dos homens seria um corpo a¬ corpo com os dispositivos (linguagem, escritura) que eles criaram, nos diz Agamben, no livro Profanações. O sujeito, o autor, não é algo que possa ser alcançado diretamente, em carne e osso; ele é o que resulta do encontro, do confronto, do corpo a corpo com os dispositivos que criou e nos quais se pôs e foi posto em jogo.

A internet e os blogues são novos dispositivos. Eles fazem surgir o autor? Podemos chamar de autor aquele que escreve num blogue? Quem escreve num blogue está do lado do redator ou do lado do autor? Haveria uma posição intermediária entre o redator e o autor?

Primeiro será necessário definir o que é um autor. Para Foucault, essa função autoral não é universal, nem constante em todos os discursos, e teria se transformado ao longo da história. Sobre isso, ele afirma: "Houve um tempo em que textos que hoje chamamos de literários eram aceitos, postos em circulação, valorizados sem que fosse colocada a questão do seu autor. Em comparação os textos que chamaríamos hoje de científicos não eram aceitos na Idade Média e só mantinham um valor de verdade com a condição de serem marcados pelo nome do seu autor. As referências a Hipócrates, Plínio, por exemplo [...] eram os índices com que estavam marcados os discursos destinados a serem aprovados" [7].

No fim do XVII e XVIII produziu-se uma mudança, uma inversão que chega até nossos dias. Nos discursos ditos científicos, a função do autor se apaga, perde valor, diante do anonimato de uma verdade estabelecida, demonstrável. E os discursos literários dependem cada vez mais dessa função, sendo que seu valor depende de quem escreveu, da circunstância na qual escreveu etc.

No fim do século XVIII, o discurso e os textos se transformaram em produto, em propriedade. Antes disso o discurso era um ato carregado de riscos. Na modernidade, a possibilidade de transgressão, de risco, que pertencia ao ato de escrever, migra da ciência para a literatura.

Quanto aos blogues, muitos deles carregam o nome próprio de quem os escreveu, outros trazem pseudônimos. Além disso, eles têm em geral títulos, como, por exemplo, Aspirina light, The last cigarette, Solta no mundo, Caderno insone, Caraminholas, Efervescência, Ferida narcísica etc.

Na internet, encontramos os blogues oficiais, como aqueles de jornalistas ligados a determinados jornais, e os blogues não oficiais, que, aliás, possibilitam uma circulação de textos capaz de driblar os circuitos mais institucionalizados. Reencontramos aqui uma dicotomia, um campo bipolar entre o lícito e o ilícito. A web seria um novo campo de transgressão e de profanação?

Ainda segundo Foucault, a função do autor seria: "característica do modo de existência, de circulação e de funcionamento de certos discursos no interior de uma sociedade" [8]. E, em nossa sociedade, alguns discursos seriam desprovidos dessa função do autor (uma carta particular, um contrato ou um texto anônimo que se lê na rua e tem um redator). O autor manifestaria a ocorrência de certo conjunto de discurso, com certo status.

Os blogues ampliaram numa escala nunca vista a possibilidade de produção e circulação de textos, de certo tipo de discurso. Mas qual seria o status dos blogues? Haveria diferentes valorações para os diferentes discursos na internet? Uma ideia: nos blogues encontramos autorias dissonantes em relação ao que havia antes, isto é, jorro, invenção que encontra possibilidade de transgressão e circulação inusitadas.

O excesso de arquivo e o improfanável

A falta de arquivo, o sumiço do arquivo e também o excesso de arquivo são ambos problemáticos e têm seus efeitos. Deter-me-ei, neste momento, no aspecto do excesso do arquivo, pois interessa problematizar o arquivo de si, o excesso de narratividade do eu. Os blogues arquivam certo recorte do presente, mas não são autobiografias, pois não incluem a história.

No texto "O poder do arquivo", Roudinesco aponta-nos a questão do arquivo absoluto que remete à ideia de que se pode arquivar tudo. Diz ela: "existe em todo historiador, em toda pessoa apaixonada pelo arquivo, uma espécie de culto narcísico do arquivo... [mas] se tudo está arquivado, se tudo é vigiado, anotado, julgado, a história como criação não é mais possível: é então substituída pelo arquivo transformado em saber absoluto, espelho de si. Mas se nada está arquivado, se tudo está apagado ou destruído, a história tende para a fantasia ou o delírio, para a soberania delirante do eu, ou seja, para um arquivo reinventado que funciona como dogma" [9]. Em outras palavras: tanto a recusa do arquivo como a obediência a ele, ao seu poder absoluto, nos levariam a uma falta de imaginação, a uma impossibilidade de se pensar a história como construção.

O computador e os blogues são dispositivos de arquivo. O excesso de arquivo contemporâneo nos levaria a uma perda no que diz respeito à imaginação? No texto "Elogio da profanação", Agamben nos fala dos museus, outro dispositivo de arquivo e da mumificação do mundo. Para ele, o museu é o lugar tópico da impossibilidade de usar: "Uma após outra, progressivamente, as potências espirituais que definiam a vida dos homens - a arte, a religião, a filosofia, a ideia de natureza, até mesmo a política - retiraram-se, uma a uma, docilmente, para o Museu. Museu não designa um lugar ou um espaço físico determinado, mas a dimensão separada para a qual se transfere o que há um tempo era percebido como verdadeiro e decisivo, e agora já não é... De forma mais geral, tudo hoje pode tornar-se Museu, na medida em que esse termo indica simplesmente a exposição de uma impossibilidade de usar, de habitar, de fazer experiência" [10].

O Museu traz o perigo de morte da experiência e da vida. Seria o Templo de antes, mas sem a possibilidade de participação no ato sacrificial que restabelecia as relações entre o humano e o divino. Por exemplo, os turistas, hoje, escondidos atrás de suas máquinas fotográficas, defendem-se do mundo, ficam impedidos de experimentar, de serem tocados pelo mundo e de usá­ lo de forma diversa. Importam mais as fotos, a posse da imagem, uma prova de que se esteve em tal lugar, do que a viagem, o contato direto com a carne do mundo.

Robert Smithson, um artista americano que trabalhou com land art, faz uma crítica contundente aos museus. Em 1972, escreveu para o catálogo da V Documenta de Kassel [11] um importante texto sobre o confinamento cultural e contra a metafísica da arte. Segundo ele, o confinamento cultural teria lugar quando um curador impõe um limite para a arte a ser exibida, em vez de perguntar ao artista sobre sua proposta. Os museus seriam feitos de celas, de jaulas, ou seja, de espaços neutros que retirariam a força dos trabalhos de arte. Ele se refere a essa estética como estética da convalescença, em que o curador é uma espécie de enfermeiro com a função de separar a arte do resto da sociedade. Apenas quando o trabalho de arte estiver neutralizado, seguro, lobotomizado politicamente, é que estaria pronto para ser consumido pela sociedade. Sendo assim, as inovações artísticas só serviriam se suportassem um confinamento desse tipo.

Numa perspectiva semelhante, Agamben considera que os dispositivos midiáticos teriam como objetivo neutralizar "o poder profanatório da linguagem como meio puro, impedir que o mesmo abra a possibilidade de um novo uso, de uma nova experiência da palavra" [12].

Desejável seria que os blogues não fossem meros dispositivos de arquivo e escapes para a impossibilidade de habitar, de profanar e de experimentar a vida. O mais interessante seria fazer uma inversão, inventar um uso diferente dos blogues e do computador. Profaná­ los, em vez de fazer deles um arquivo morto de si e do mundo. Deixar de lado um antigo uso, desmontá­ lo: um desafio para todos nós, possibilidade de surgimento de algo novo, que não seja mera língua morta, neutralizada.

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