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Autor(es)
Gina Tamburrino
é membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, doutora em Psicologia Clínica pela PUCSP; professora e coordenadro do curso Para além da contratransferência: o analista implicado do Instituto Sedes Sapientiae, autora de Escutando com imagens. Clínica Psicanalítica (Vetor, 2007). Coautora dos livros Bion em nove lições (Escuta, 2011) e Balint em sete lições (Escuta, 2012).


Marina F. R. Ribeiro Ribeiro

é psicanalista, professora doutora no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). Com Elisa M. U. Cintra, publicou o livro Por que Klein? (Zagodoni, 2018); é autora de outros livros e artigos. Coordenadora do Laboratório Interinstitucional de Estudos da Intersubjetividade e Psicanálise Contemporânea, LipSic (IPUSP e PUC-SP).



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 LEITURA

Rêverie e interpretação: captando algo humano [Rêverie e Interpretação]

Rêverie and interpretation: capturing something human
Gina Tamburrino
Marina F. R. Ribeiro Ribeiro

Rêverie e interpretação. Captando algo humano é um dos primeiros lançamentos da coleção Kultur da Editora Escuta. A coleção tem como principal objetivo a apresentação de temas que refletem sobre a "natureza e a cultura humana". Não se trata de uma coleção versada apenas em autores psicanalíticos. Entretanto, é Thomas Ogden, um psicanalista norte-americano, o primeiro autor convidado a apresentar seu pensamento.

 

Rêverie e interpretação apresenta o conceito de rêverie com a profundidade esperada pelos clínicos da atualidade. É um livro que trata o tema de forma clara, sincera e sensível. É um verdadeiro presente para o clínico da atualidade.

 

Ogden prima por uma escrita lapidada; se autodenomina um "escritor analítico", e faz jus a esta designação. O texto é claro, vivo, interessante, bem cuidado. Os capítulos do livro têm como origem artigos publicados na década de 1990. Há um prefácio para a edição portuguesa, de outubro de 2013, do qual destacamos três pontos. O primeiro é a liberdade de pensamento a partir da qual o autor se expressa: "Um tema que trespassa subliminarmente pelo livro é a ideia de que precisamos criar a psicanálise para cada paciente" (p. 15). Uma psicanálise viva é criada a cada sessão, com cada paciente. O setting é a moldura que permite o enquadre para dupla analítica criar. O segundo ponto é o desapego a dogmas: "Ao ler os artigos neste volume, artigos que escrevi há mais de quinze anos, espanta-me que, em sentido relevante, compreendia então um bocado de coisas que hoje luto para compreender". O terceiro aspecto, importantíssimo, é quando ele escreve: "o papel indispensável dos ‘fracassos' do analista em se concentrar naquilo que o paciente está dizendo (porque tais ‘fracassos' constituem o lugar de nascimento da rêverie)". Ou seja, onde o analista se percebe fracassando, aí está o nascimento da rêverie. Ideia que Ogden desenvolve no capítulo seis que honrosamente leva o nome do livro, rêverie e interpretação, e que constitui o capolavoro do texto.

 

O primeiro capítulo, Sobre a arte da psicanálise, é uma visão atual de como Ogden pensa o trabalho analítico. Assemelha-se e complementa o capítulo dois (Do que eu não abria mão) de outro livro do autor também publicado no Brasil: Esta arte da psicanálise. Sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos (Artmed, 2010). Ambos os capítulos apresentam uma visão humanista da psicanálise e da vida: "[...] creio que a tarefa analítica envolva mais profundamente o esforço do par analítico para ajudar o analisando a se tornar humano em um sentido mais amplo do que o que ele conseguiu até o momento" (p. 30). E, mais à frente, Ogden também desilude o leitor: "a incapacidade de ser plenamente humano é um aspecto do ‘destino de toda a humanidade'" (p. 32). E loca a análise aí: "é nesse esforço de sermos plenamente humanos que estamos vivos enquanto analista e analisando; é nesse experimento que vive a arte da psicanálise" (p. 34).

 

O autor abre o primeiro capítulo do livro com uma frase interessantíssima: "A palavras e frase, bem como a pessoas, deve-se facultar certa imprecisão" (p. 21), "pois estão em constante movimento" (p. 23). "A imaginação", afirma ele, "depende de um jogo de possibilidades" (p. 21). Aquilo que é vivo é fluido e impreciso; a experiência analítica é dessa ordem, um desapego difícil de significados fixos; ao texto psicanalítico criativo também se deve facultar certa imprecisão.

 

É de grande beleza a aproximação que Ogden faz, também no capítulo um, da experiência humana de encontro entre o escritor analítico e o leitor e o analista e o analisando. O escritor analítico "deve" ser capaz de criar uma linguagem da experiência de vitalidade e/ou desvitalização humanas para si e para o leitor. Falar sobre vitalidade e desvitalização humanas não leva "ao aprender da experiência" (Bion, 1962) humana. É preciso criar sentido para poder transmiti-lo. E isto apenas se torna possível diante de uma fala dramática que comporta intimidade e pessoalidade. Ambos, escritor e leitor, precisam ter uma experiência de estar vivo e presente. "Para estar vivo e presente na própria linguagem, para ter ‘o próprio tom de voz da fala um pouco... emaranhado nas palavras', a pessoa que fala pede que um aspecto seu seja reconhecido pelo ‘ouvido da imaginação' (do ouvinte)" (p. 29).

 

Ogden, assim como Winnicott (um dos autores que o inspira, além de Bion, entre outros), consegue expressar o complexo com frases aparentemente simples. Não nos enganemos, Ogden escreve sobre a complexidade da interação humana, especificamente a analítica, de forma sofisticadamente simples, o que faz dele um dos destacados autores da psicanálise contemporânea.

 

Os capítulos dois e três são eminentemente clínicos, nos quais a bússola de Ogden é a análise de formas de vitalidade e desvitalização no processo analítico. A presença do conceito do terceiro analítico norteia o pensamento clínico do autor: "[...] compreendo o terceiro analítico intersubjetivo como um sujeito criado pela interpretação inconsciente analista e analisando" (p. 42). O autor trabalha com a concepção de Winnicott sobre "o lugar em que vivemos" (uma terceira área da experiência entre realidade e fantasia), e com a ideia de Bion de que o analista mantém vivos e traz à vida aspectos do paciente, através de uma continência bem-sucedida. Ogden dá especial relevo à espontaneidade do analista que o salva de uma neutralidade caricaturesca. A contratransferêcia é compreendida dentro da unidade transferência-contratransferência e "refere-se a uma construção inconsciente intersubjetiva" (p. 39). Há uma importante preocupação com as formas de manejo e com a técnica analítica para lidar com os sentimentos de vitalidade e desvitalização que emergem na experiência analítica.

 

O terceiro capítulo apresenta a análise da perversão através da "análise da transferência-contratransferência perversa tal como se desenrola na relação analítica" (p. 71). É uma visão ímpar o modo como Ogden dá a ver de que maneira "a cena analítica perversa e o sujeito perverso da análise são construídos [...] pela dupla analítica com o objetivo de evitar [a dolorosa] experiência de morte psíquica [...]" (p. 73). No caso clínico trazido pelo autor, vemos uma interessante discussão clínica sobre um caso de perversão e o uso da técnica: "Um elemento da técnica que se reflete na análise descrita é o uso que o analista faz de seus pensamentos, sentimentos, sensações, fantasias, devaneios, ruminações e outros, mundanos, reservados e cotidianos, no processo de tentar entender a rede de significados intersubjetivamente gerados que constituem a transferência-contratransferência" (p. 95). O que é um grande desafio em um caso de perversão que implica uma erotização defensiva, além de encenações (enactments) sexualizadas.

 

No capítulo quatro - Privacidade, rêverie e técnica analítica - Ogden retoma o papel do uso do divã enquanto dispositivo do processo analítico; o analista fora do campo visual do analisando possibilita "estados sobrepostos de rêverie". O divã favorece a privacidade da dupla para entrar em contato com seus estados de rêverie; mas isso não significa que o analista deve "insistir (de forma explícita ou implícita) que todo paciente de análise use sempre o divã". Discute a relação entre o número de sessões semanais com o uso do divã: deveria o analista usar o divã quando o número de sessões é menor do que a ideal? Nesse capítulo o autor também renuncia à regra fundamental da análise de que o paciente deve dizer tudo o que lhe vier à mente. Aborda o fato de que a "técnica deve facilitar o processo" (p. 114), e que tanto o paciente como o analista devem ter a liberdade de falar e de silenciar. Tanto a comunicação quanto a privacidade devem ser consideradas para preservar a vitalidade do processo analítico. Ogden apoia-se na concepção de Winnicott de que no âmago de todos nós há um elemento sagrado, isolado e não comunicável.

 

No capítulo cinco, o autor discute as associações de sonhos no contexto da sessão como um evento intersubjetivo, aliás, como tudo na sessão. Considerando sempre a intersubjetividade do terceiro analítico: [...] "Visto que as associações do analista com a experiência do sonho são extraídas da experiência do sonho no e do terceiro analítico, elas não são menos importantes, enquanto fonte de significado analítico em relação ao sonho, do que as associações do paciente" (p. 131). Entretanto, reconhecer o terceiro analítico intersubjetivo e tecer elaborações a partir dele não é tarefa fácil, o analista precisa dar tempo para que o paciente "responda ao seu próprio sonho, pois isso pode dar margem a uma forma de encenação transferencial-contratransferencial (enactment) em que o analista se serve dos sonhos do analisando e lhe oferece uma invenção narcisista" (p. 139). A experiência de sonhar é uma "experiência humana que não pode ser traduzida em uma narrativa linear, verbal, simbólica, sem perder a sintonia com o efeito criado pela própria experiência de sonhar..."; essa experiência se opõe ao significado do sonho, e, portanto, à sua compreensão (p. 139). Ao final do capítulo, retoma que a técnica analítica deve "servir ao processo analítico", e não engessar o analista em dogmas desvitalizantes para o processo, ou seja, a técnica deve favorecer o processo e não emperrá-lo!

 

Consideramos que o capolavoro do livro é o capítulo seis, pois traz uma lapidada descrição de rêverie: "[...] Trata-se de uma experiência primorosamente privada que envolve os mais constrangedores aspectos cotidianos (e ainda assim tão importantes) de nossas vidas. Os pensamentos e sentimentos que a constituem são raramente discutidos com nossos colegas" (p. 146). E, mais à frente: "Paradoxalmente, apesar de o analista sentir suas rêveries como privadas e pessoais, é enganoso vê-las como ‘suas' criações próprias, já que são, ao mesmo tempo, construções intersubjetivas inconscientes criadas em conjunto (embora assimetricamente), que chamei de ‘o terceiro analítico intersubjetivo'" (p. 147).

 

Ogden considera que o analista precisa tolerar "a experiência de estar à deriva" (p. 148), de ser levado pelas correntes inconscientes presentes na sala de análise. Entende que o movimento analítico é mais um estado de "deslizando em direção a" do que "chegando a" (p. 148).

 

A rêverie gera um desequilíbrio emocional no analista. "Os distúrbios emocionais associados com a rêverie geralmente são sentidos pelo analista como produto da interferência de suas preocupações do momento, de excessiva autoabsorção narcísica, imaturidade, inexperiência, fadiga, treino inadequado, conflitos emocionais não resolvidos, etc. A dificuldade de usar as rêveries no exercício da análise é facilmente compreendida, uma vez que tal experiência é tão próxima, tão imediata, que é difícil de ser vista: ela é, nas palavras de Frost (1942), ‘presente demais para se imaginar'" (p. 150).

 

A experiência de rêverie é sempre um elemento desorganizador para o analista, que ele tende a descartar, a se envergonhar, a considerar uma inabilidade, uma falha técnica. E, ao mesmo tempo, é a bússola emocional do analista, se ele tiver a condição e a liberdade psíquica de considerá-la; não é uma tarefa fácil. "Não há como ‘pular fora' dos problemas ao se fazer o esforço de utilizar analiticamente a rêverie" (p. 150).

 

Após a apresentação de um interessantíssimo caso clínico, o autor concebe "o processo analítico envolvendo a criação de novos eventos intersubjetivos inconscientes que nunca antes existiram na vida afetiva, seja do analista seja do analisando" (p. 174). Ogden evidencia, em sua apresentação clínica, como suas rêveries e os sonhos da paciente "são criados no ‘mesmo espaço onírico analítico intersubjetivo'" (p. 175). A análise é um processo transformador tanto para o analista quanto para o paciente, ou seja, o analista está completamente implicado no processo, sempre considerando a assimetria da dupla. Lembramo-nos da metáfora de Bion sobre o processo analítico: o analista está no campo de batalha; assim como o analisando, pode matar ou morrer, mas tem a responsabilidade de o comando, no caso da análise, manter-se pensante.

 

Ogden termina o capítulo escrevendo que considera o uso das rêveries no trabalho analítico como um componente fundamental da técnica analítica. As rêveries nascem "da complexidade infinita do interjogo da vida inconsciente do analisando e do analista e das sempre mutantes construções inconscientes geradas pela ‘sobreposição' dos dois" (p. 180).

 

No capítulo sete, Ogden discorre sobre o uso da linguagem em psicanálise, tanto a linguagem na sala de análise como a linguagem escrita. "O experimento de escrever, ler e escutar [...] tem muito em comun com o experimento de pensar, sentir e comunicar que está no cerne da experiência analítica" (p. 186). A linguagem que comunica a experiência inconsciente precisaria ser insaturada nos termos de Bion, ou seja, quando uma linguagem sempre aberta a novos significados se fixa em um sentido, esse é provisório. Essa é a linguagem viva, sempre aberta a novos sentidos: "é essencial que o analista use linguagem que aspire a uma forma específica de imprecisão evocativa, às vezes enlouquecedora, quase sempre perturbadora" (p. 196). De forma delicada, Ogden aproxima o leitor da riqueza que existe em compreender menos e experimentar mais a/na experiência analítica: como é escutar esse paciente? como é estar com esse paciente? Não se trata de compreensão, mas de um processo de não "saber demais" (Winnicott, 1971). Ou, trata-se da prática da "arte de não chegar (ao significado exato)" (Poirier, 1992).

 

O capítulo oito é um interessante exercício analítico literário; Ogden inicia o texto assim: "[...] Acrescentaria que a poesia é um grande disciplinador para a escuta analítica" (p. 211). Analisa três poemas de Frost e, ao final, escreve: "o poema não é sobre uma experiência; a vida do poema é a experiência" (p. 236). Diríamos que a vida, a vitalidade de uma sessão é a experiência transformadora que pode ocorrer através da e para a dupla analítica, mas para que isso ocorra precisamos estar à deriva das emoções inconscientes que circulam na sala de análise.

 

Ler Ogden é uma experiência transformadora, para aqueles que ousam se destituir da ilusão do conhecimento, e ficar à deriva.

 

A palavras e frases, bem como a pessoas, deve-se facultar certa imprecisão.

 

Boa leitura!


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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