EDIÇÃO

 

TÍTULO DE ARTIGO


 

AUTOR


ÍNDICE TEMÁTICO 
53
O Estranho em nós: clínica, sociedade, cultura
ano XXVII - Dezembro de 2014
203 páginas
capa: Nayra C. P. Ganhito
  
 

voltar
voltar ao sumário

Resumo
A clínica da psicose requer um manejo específico para que o analista não se torne um objeto persecutório nem precipite o analisando em uma crise. Desta forma, o psicanalista deve saber qual é o seu lugar transferencial e quais as demandas a ele impostas. Por meio da discussão de um relato clínico, esses aspectos serão trabalhados em articulação com três elementos fundamentais na clínica da psicose: a temporalidade, a identidade e a alteridade.


Palavras-chave
psicose; manejo; identidade; alteridade; paranoia; transferência.


Autor(es)
Daniel Lirio Lirio

é psicanalista, psicólogo e mestre em Psicologia Social pela usp; membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae; autor de diversos artigos sobre psicanálise e cultura e do livro Suspensão corporal, novas facetas da alteridade na cultura contemporânea.




Notas
1. S. Freud, "Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia [caso Schreber]".

2. Obviamente, as clínicas da neurose e da perversão também apresentam seus próprios impasses e nuances. Esses, contudo, fogem do escopo deste texto.

3. A. Quinet, Teoria e clínica da psicose.

4. J. Lacan, "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose", p. 581.

5. A. Quinet, op. cit., p. 14.

6. Sistema de Atendimento ao Usuário - serviço de uma instituição responsável por acolher as críticas, sugestões e opiniões dos usuários.

7. A. Quinet, op. cit.


Referências bibliográficas

Freud S. (1976 [1911]). Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia [caso Schreber]. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.

Lacan J. (1998). De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Quinet A. (2003). Teoria e clínica da psicose. Rio de Janeiro: Forense Universitária.





Abstract
The clinic of the psychosis requires specific management so that the analyst does not become a persecutory object or precipitate the patient in a crisis. Thus, the analyst must know which is his transferential spot and which demands are imposed. Through discussion of a clinical case, these aspects will be worked in conjunction with three key elements in the clinic of psychosis: temporality, identity and otherness


Keywords
paranoia; psychosis; otherness; transference; management; identity.

voltar ao sumário
 TEXTO

O manejo clínico na psicose: estratégias para o fortalecimento da identidade

Clinical management in psychosis: strategies to strengthen identity
Daniel Lirio Lirio

Daniel, eu sou esquizofrênico, vou ter que vir no CAPS até o fim da vida, passar com psiquiatra e tomar remédio até o fim da vida!

 

Essa era a fala mais recorrente de Fábio, que insistia em um determinismo atemporal para afirmar quem era e o que faria de sua vida. Após uma infância aparentemente normal, aos 12 anos Fábio tem a primeira crise: fica muito assustado com a ideia de que estão "puxando sua mente", o que deixaria sua cabeça vazia. Depois deste episódio, ele teve grandes problemas de socialização e aprendizado. Fábio falava sobre si de forma concreta e estereotipada, restrito às denotações de "esquizofrênico" e "bicha" e buscava compulsivamente uma palavra que definisse a sua aparência.

Filho de um pai japonês com uma mãe negra, ele tinha dificuldade de classificar seu fenótipo dentro de uma categoria: não era como os brasileiros nem como os japoneses ou africanos. Ele se dizia parecido com turco, mexicano, colombiano, mas não se satisfazia com essas nomeações. Em outras palavras, não conseguia integrar uma noção de si com a sua filiação. Da perspectiva do registro Imaginário, a noção de si era feita com base em signos superficiais como a cor da pele, a cor e o formato dos olhos, cabelos, estatura, pelos trejeitos afeminados e pela condição de esquizofrênico. Ele dividia as pessoas entre as bonitas, com aparência europeia, e as feias, com traços africanos ou orientais. Ele, portanto, achava-se feio. Em um registro Simbólico, esses significantes permitiam que ele falasse de si em um discurso para outras pessoas. Em suma, construiu um arremedo de identidade que lhe conferia estabilidade no tempo, mas insuficiente para perceber suas transformações, relacionar-se afetivamente e integrar-se subjetivamente.

Desde o início, Fábio espera que eu confirme suas convicções: ele é bicha, esquizofrênico e incapaz; Deus existe e o observa; sexo é pecado, um pecado que jamais será repetido. Contudo, diante de uma pergunta de um psicótico, a pior coisa a fazer é responder como alguém que possui um saber superior ao seu. Se o fizesse, tamponaria suas questões e surgiria como Outro persecutório, terrível, que tudo sabe sobre ele, tudo pode e tudo exige. É esse o erro em que incorrem muitos psiquiatras. Por exemplo, no caso Schreber[1], tal como descrito por Freud, seu psiquiatra Flechsig é reconhecido e venerado como o grande responsável pela superação de sua primeira crise. Não é de estranhar, portanto, que na segunda crise o próprio Flechsig ressurja no delírio como seu grande inimigo e terrível perseguidor. Fábio, aliás, referia-se a alguém que o tratara mal com a expressão: "ele me deu uma resposta!". Ao fechar a questão, "dar uma resposta" é recebido como uma violência.

Se não seria indicado responder às perguntas desde um lugar de saber, por um lado, também não seria proveitoso corroborar simplesmente com suas convicções, por outro, pois elas impediam seu pensamento e o deixavam engessado e isolado do mundo. Era fundamental, portanto, ajudar o analisando a, devagar, ampliar seus questionamentos, fazer novas questões e, por si mesmo, aprofundar um saber sobre a própria existência. Esse processo precisa ser especialmente lento, pois, ao se colocar em questão, o psicótico perde o apoio de concepções que funcionam como "bengalas imaginárias", isto é, ideias responsáveis pela coesão de sua frágil instância egoica, cujo colapso implicaria a emergência de uma nova crise.

Este é o campo do difícil manejo da psicose, em que, diante das certezas do analisando, não é possível simplesmente corroborá-las nem refutá-las, nem tampouco oferecer uma opinião supostamente mais adequada[2]. Há uma única brecha pelo fomento do protagonismo do analisando no desenvolvimento do seu discurso e na ampliação dos seus questionamentos. Na linguagem de Quinet[3], trata-se de sair da posição de mestre para a de secretário.

 

Fábio Daniel, você é uma pessoa bonita, você é loiro, tem olhos verdes, você nem precisa ser psicólogo, pode ser professor, garçom, enfermeiro, o que você quiser... só não pode ser médico nem policial.

Daniel Ah, não?

Fábio Não, para isso tem que ser muuuito bonito!

 

Caso sejam escutadas e ampliadas, as convicções do psicótico revelam seu conteúdo profundo, a saber, os questionamentos humanos universais: quem sou eu? De onde vim? O que é o outro? Como me relaciono com o outro? Nossas posições, aparência e opiniões poderiam divergir, mas isso não significava uma hierarquia entre nós, apenas indicava a nossa diferença. Em suma, ele conseguiria se apropriar de seus pensamentos ao construir uma narrativa que desse sentido aos seus sentimentos e à sua vida e, assim, ampliasse sua noção de si. Esse processo era possível porque era compartilhado comigo e, ao diferir de mim, pacificamente, ele podia pensar sua história como singular, e o próprio compartilhamento daria sentido e consistência a sua história. Dessa forma, o conjunto imaginário de suas lembranças era endereçado a um outro com vistas a uma ordenação simbólica, o que melhoraria o compasso entre imaginário e simbólico.

Mudança de tempo

[...] ao se reconhecer o drama da loucura, põe-se a razão em pauta, sua res agitur, porque é na relação do homem com o significante que se situa esse drama[4]

 

Fábio sentia-se profundamente angustiado quando chovia, trovejava ou quando o clima parecia instável. Quando o tempo estava "ruim" ele ficava nervoso, cismado, sentia-se misturado. Quando o tempo esfriava, via um monte de sujeira, de gente feia. Há aqui uma questão quanto ao significante "tempo": "o tempo está ruim", "o tempo está feio", "o tempo mudou" eram as falas recorrentes nessas situações. Ou seja, há uma questão quanto à irrepresentabilidade da transformação do tempo. Quando esta ocorria, só poderia vir com o terror chumbo das nuvens.

 

Assim como em Schreber havia um curto-circuito pela duplicidade do significante "beatitude"(selig), com Fábio era o significante "tempo" que o deixava desconcertado. Em ambos, a ausência do significante Nome-do-pai, responsável por organizar a cadeia simbólica, os deixavam à mercê da ambiguidade do significante. Dessa forma, para Fábio, a frase "o tempo mudou", referida à percepção do clima, confundia-se com a mudança temporal irrepresentável de sua história. Analogamente, "o tempo está feio" confundia-se com "as pessoas estão feias" ou "o mundo está feio, sujo".

Em suma, a ausência de uma função paterna é correlata à impossibilidade de fazer metáfora, isto é, a substituição de uma apreensão concreta do mundo por uma compreensão simbólica, abstrata ou poética, como se queira falar. Nesta, as palavras dizem sempre menos ou mais do que se propõem e, por isso, pedem a ajuda de outras para a costura do sentido. A incapacidade metafórica fazia com que seu uso da linguagem fosse literal, concreto. Esse ponto será retomado em breve, ao discutirmos a concretude de suas lembranças que deveriam passar literalmente para a minha cabeça, permitindo o seu esquecimento.

Costura de um tecido narrativo

Fábio lembrava-se de diversos episódios marcantes em sua vida. Contudo, não havia uma organicidade entre eles, não havia articulação a uma história única. Eram como uma infinidade de barquinhos de papel boiando em uma grande piscina, movimentando-se a esmo e chocando-se aleatoriamente. Ao longo dos atendimentos, esses episódios começaram a ser inseridos em categorias ou raias, por onde os barquinhos poderiam navegar. Um tema bastante recorrente eram os desencontros com as pessoas: conhecia uma pessoa, queria se aproximar dela, mas não era correspondido ou sentia-se por ela abusado.

Os pais cuidavam dos aspectos objetivos de sua vida: vestimenta, alimentação e medicação, mas as trocas afetivas eram precárias, eles não aturavam seus insistentes questionamentos. Cada mínima rejeição causava grande frustração e irritação em Fábio, que se colocava como dependente do cuidado dos pais. A possibilidade de superar essa condição de tutela só era vislumbrada na hipótese de eles morrerem. De qualquer forma, ele pôde falar sobre seus encontros e desencontros e da busca por enlaçamento afetivo com outras pessoas.

Outro tema eram as escolas frequentadas. Entre públicas e particulares, a tônica era a mesma: incapacidade de acompanhar o conteúdo, dificuldade de aprendizagem, exclusão e humilhação pelos colegas e professores. Dessa forma, pode-se perceber a constituição de categorias de vivências: as escolas, os amigos, os familiares. Essas categorias eram atravessadas por temas comuns, como a solidão, a carência afetiva e a submissão - era sempre um outro tido como invasor, ausente, ameaçador, indiferente, gozador, surdo, aproveitador. Obviamente, não havia nas sessões a intenção de organizar os acontecimentos, mas era possível observar como sua narrativa, aos poucos, constituía fios de vida que alinhavavam outros fios de vida e sentimentos e costuravam um tecido minimamente coeso para a identidade de Fábio.

Com pouco mais de um ano de atendimento, ele pergunta: "Daniel, o que é amigo?". Não havia sequer o artigo antes de "amigo", mas um estranhamento fundamental quanto à relação que poderia estabelecer com uma outra pessoa. O outro não é mais exclusivamente aquele que o domina e submete, mas pode estabelecer uma relação pautada por uma lógica inédita, ainda que ele desconheça qual seja. Alguns meses depois, outra pergunta: "Daniel, como faço um amigo?". Aqui ele já se coloca com uma vontade, uma carência de uma modalidade inédita de relação com o outro. Conforme discutido anteriormente, meu papel como analista não seria o de responder simplesmente a essas perguntas, mas de ajudá-lo a construir um saber singular sobre elas: como ele poderia fazer um amigo? Ele gostaria de ser amigo de quem?

 

Seguiram alguns meses e, na véspera das minhas férias, ele pergunta quando eu voltaria e diz que ainda "me encheria o saco" por muito tempo, mas também pede para que eu não fique chateado, porque já ajudara muito. Achei a fala bonita, agradeci e nos despedimos.

Impossibilidade de esquecer

Esse atendimento colocava o analista em uma série de impasses. Ao final de cada sessão, Fábio pedia para eu relatar o que ele havia me dito e o que eu teria entendido. Eu fazia uma síntese dos pontos principais e pensava que, com isso, ajudava no processo de costurar uma identidade como produto de uma história. Era verdade, minhas sínteses ajudavam Fábio a alinhavar sua história. Contudo, isso o deixava intranquilo, ele parecia ficar ambivalente. Só compreendi o que estava em jogo quando ele me falou:

 

Fábio Olha, eu vou falar umas palavras e você memoriza: chapéu, camisa, boné, caneta. O que eu falei?

Daniel Por que você tá perguntando isso?

Fábio Olha, aqui tem o computador, tem a janela, tem isso (a pia), se você vê e fecha os olhos (fecha os olhos com as mãos) você continua lembrando, o computador, a janela, isso... eu sou assim com as coisas ruins, eu vejo as coisas ruins e fico lembrando na minha cabeça.

 

Muito se fala, em psicanálise, sobre a importância de trazer os conteúdos ocultos para o consciente. Casos como este, contudo, nos permitem reconhecer o alívio que é poder tirar os conteúdos desprazerosos da consciência. Fábio sofria muito com essa incapacidade, pois todas as vivências ruins acossavam-no a todo instante. Aqui vale retomar a teorização freudiana do fort-da para pensar a simbolização não apenas como controle e presentificação do objeto ausente, mas como forma de permitir a ausência do objeto. Fábio havia levado um grande dicionário para essa sessão e leu a definição da palavra "esquecer": "...descartar, tornar sem importância, deixar de lado...". Aqui é interessante observar como ele recorre ao Outro, ao tesouro dos significantes, para vislumbrar a possibilidade de que as vivências do passado saíssem do plano principal para se tornarem secundárias, menos importantes. Ele continua: "Daniel, esquece o passado, fique no presente, eu tô fazendo tratamento aqui, não tô internado, tava esperando na sala de espera, passei pela porta, agora to conversando com o Daniel, esquece o passado!".

Nesse momento, compreendo a narrativa compulsiva das vivências desprazerosas como expectativa de que elas saíssem concretamente da sua cabeça e passassem para a minha, daí eu deveria esquecê-las para não mais importunarem. Se inicialmente eu estava apegado à "importância do passado" e problematizava sua vontade de esquecê-lo, finalmente compreendi o quanto o passado o obsedava; concordei com ele, mudei de atitude e confirmei a possibilidade de esquecer: "você tem razão, me convenceu".

Aqui temos duas consequências da foraclusão do Nome-do-pai. Em um nível eminentemente simbólico, ela impede o sujeito de fornecer um significado ao significante e, assim, um ponto de basta à cadeia associativa. Com a foraclusão, os significantes fluem incessantemente[5], daí a insistência de Fábio para eu dar sentido e, por conseguinte, barrar o fluxo verborrágico: "o que você entendeu do que eu falei?". Obviamente, sintetizar a sua fala, como eu fazia, não seria suficiente para cumprir esse papel. Se eu tentasse fornecer um sentido ao seu discurso, poderia até aliviá-lo momentaneamente, mas correria o risco de assumir o lugar de mestre perseguidor. Esta, aliás, constitui a outra grande implicação da foraclusão do Nome-do-pai: uma distinção tênue entre eu e Outro, o qual aparece como perseguidor, gozador, invasor etc. Constitui-se, portanto, uma segunda demanda ao analista que é a de barrar esse Outro sem se tornar, ele mesmo, um novo perseguidor. Nessa medida,

Fabio podia usar a análise para falar mal dos pais - sobretudo da mãe -, imaginar o dia em que morressem e, principalmente, constituir um espaço inacessível a eles. Compreendemos, assim, a recusa de Fábio à minha proposta de conversar com a sua mãe e o seu pedido insistente: "não conta isso pra minha mãe".

Havia, portanto, uma trégua do Outro que tanto o ameaçava, uma possibilidade de respiro quando Fábio, ao narrar e amarrar sua história, constituía uma identidade singular, isto é, não baseada em pares de oposição, como bicha x macho, branco x negro, bonito x feio, jovem x velho; mas baseada em suas próprias peculiaridades: moreno, bonitinho, adulto etc. Com isso, a noção de si tornou-se mais consistente e constante, conferindo-lhe alguma autonomia, ainda que precária, na difícil tarefa de atribuir significados, estancar a cadeia significante e barrar a invasão do Outro. Essa autonomia manifestou-se, por exemplo, quando os pais brigavam entre si e ele chamou a polícia.

 

* * *

 

Fábio ficava preocupado com seu futuro, com a ideia de ficar desamparado quando os pais morressem. Filho único, ele imaginava catar latinha para vender, ficar internado, viver com uma aposentadoria do pai ou algum benefício por ser "doente mental". A ideia de ter mais autonomia quando os pais morressem lhe era agradável, mas também o deixava "culpado", sempre reafirmando não desejar a morte deles. Juntamente com o restante da equipe, propusemos encaminhá-lo para algum programa de cotas em empresas, mas ele recusou. Fábio conseguia imaginar o futuro, mas não conseguia se ver como responsável, capaz de construir um futuro melhor. Tinha muita resistência a ocupar um lugar além de "doente mental" destinado a fazer tratamento psiquiátrico eternamente.

Identidade e alteridade

- Daniel, você já me conhece, né?

- Conheço uma parte de você

- Não, você já me conhece, que eu já venho aqui há muito tempo...

 

A construção de uma narrativa permitia o adensamento de sua identidade. A noção que fazia de si tornava-se, a cada dia, menos estereotipada, mais complexa e mais profunda. Essa noção se enriquecia à medida que falava sobre suas relações afetivas.

Conforme dito inicialmente, Fábio tinha dificuldade de se classificar como pertencente a uma determinada raça. Dizia parecer um "turco, mexicano, boliviano" por ter a pele morena, os olhos amendoados e ser feio. Nos atendimentos, pôde falar do preconceito sofrido por ser mestiço e ampliar a noção de "brasileiro" para pensar que os brasileiros podem ter as aparências mais diversas, inclusive a dele. Também passou a se considerar "bonitinho". Além disso, mais para o fim dos atendimentos, passou a problematizar a relação entre aparência e essência, pela impossibilidade de saber quem era uma pessoa apenas pela sua aparência. Havia, por exemplo, "doentes mentais" loiros e dos olhos azuis e, portanto, bonitos. Ou seja, uma pessoa podia ser bonita, mas não ter a "cabeça boa".

Dessa forma, a apreensão da própria imagem tornou-se menos determinada pelo juízo impositivo do Outro, pois conseguiu interpor uma reapropriação singular dos significantes disponíveis na cultura: passou a se descrever como "bonitinho" e "moreno jambo, que é a cor mais bonita que tem". Embora ainda fizesse um juízo de valor com base na aparência, havia a possibilidade de gradação. O pensamento de Fábio começou a ficar cada vez mais organizado: ele faz uma reclamação no SAU[6] pela demora no atendimento de enfermagem e diz sofrer preconceito por não ter cara de brasileiro, daí os outros passarem na sua frente. Em determinada sessão, falávamos sobre pessoas que não são o que parecem, até Fábio dizer: "as aparências enganam". Valorizei essa fala. Ele disse parecer mexicano, mas ser brasileiro, fato apreensível apenas a quem conversar com ele e perceber a ausência de sotaque. Agora as identidades podem extrapolar a imagem em direção a uma verdade profunda, expressa pela fala. Em suma, está em questão a disjunção entre o sujeito e sua imagem.

Fábio avança na problematização da própria imagem, a qual não expressava mais quem ele sentia ser. Sem instrumentos para aprofundar essa disjunção simbolicamente, ele a trata ainda de forma estereotipada: não quer mais a aparência de 18 anos, não quer fazer "coisas de rapazinho", como transar, masturbar-se e idolatrar cantores e atores. Ao contrário, quer ter um celular como outros adultos, deixar a barba e o bigode crescerem para ser um "senhor", quer aparentar 38 anos, sua idade verdadeira. Enfim, há uma tentativa de adequar sua imagem com a sua história, seu tempo e sua idade.

O seu sentimento de si aprofundava-se ao falar da história de sua relação com as pessoas. O ponto de enlace era o tipo de sentimento, frustração, raiva, mágoa, tristeza ou revolta, eliciado nas relações. Dessa forma, partes soltas de sua subjetividade começavam a se integrar. A denominação "bicha", por exemplo, pôde ser distinguida da denominação "homossexual". Para Fábio, "bicha" passou a significar a pessoa afeminada, que desmunheca, enquanto "homossexual" significaria o homem que gosta de homem. Dessa forma, abria-se um caminho para ele se indagar sobre sua preferência sexual. Contudo, ele não conseguia se aprofundar nesse assunto, pois estava perseguido pela ideia de a sexualidade ser um pecado passível de punição. Assim, manteve a autodenominação de bicha, pelos trejeitos afeminados, mas afirmou gostar de mulher. Enfim, começa a haver uma disjunção entre sua aparência e sua subjetividade.

Conforme Quinet, a precariedade da dimensão simbólica restringe a relação com o semelhante ao registro Imaginário, isto é, à especularidade[7]. Por conseguinte, essa relação com um outro do mesmo sexo faz confundir identificação e erotização. Devido a essa confusão, a relação intensa e indiferenciada com o semelhante será apreendida pela cultura e pelo próprio sujeito no âmbito da homossexualidade. Assim, frequentemente, o psicótico poderá falar de suas relações afetivas por meio de um discurso comum à homossexualidade neurótica. Essa conjuntura se apoia na condição estrutural de vulnerabilidade diante do Outro, sentido como invasor terrível, e poderá ganhar consistência imaginária por meio da fantasia de ter sido abusado por um semelhante, como observamos no caso Schreber, no caso de Fábio e no caso de paranoicos em geral. Essa cena acrescenta ao discurso do psicótico as cores do erotismo, da agressividade e da retaliação, fazendo com que ele eventualmente atue seu delírio com atos desatinados e intempestivos.

Contudo, como também aponta Quinet, ao não passar pela castração, o psicótico está aquém da diferença sexual, isto é, não se coloca como homem nem como mulher. Nesse sentido, pensar em termos de homo ou heterossexualidade não tem o menor cabimento. Fábio era fascinado por atores de novela loiros e de olhos azuis, pois eles encarnavam um ideal estético. A beleza masculina era para ele um sinal de valor, consistência e realidade, repercutindo em uma interessante expressão para se referir a pessoas dos Estados Unidos ou a pessoas brancas e ricas: "é gente de verdade".

Fábio dizia se masturbar com muita frequência, mas considerava o ato pecaminoso e ficava muito perseguido. Ele também ia ao banheiro constantemente para urinar, indicando haver algo no corpo impossível de controlar. Por fim, dizia ter tido relações sexuais com mulheres e com homens, as quais teriam ocorrido em banheiros públicos ou durante as internações. Esses relatos, contudo, eram confusos e telegráficos, lançando dúvida sobre sua veracidade. Uma forma possível de compreendê-los é supor que a ideia delirante de alguém capaz de esvaziar sua cabeça ao "puxar sua mente" teria ressurgido como pessoas que o tirariam do eixo, ou o deixariam excitado ou surpreso pela incapacidade de circunscrever a excitação corporal ao campo do desejo ou da sexualidade. De qualquer forma, por não conseguir simbolizar a diferença sexual, as excitações corporais eram irrepresentáveis, assustando-o e deixando sua mente "vazia".

 

Fábio Vamos supor que aqui é uma sala de psiquiatria, e aqui tem uma cama, eu tô deitado aqui com mais de trinta pacientes, será que eles conseguem mexer com a mente da gente?

Daniel Fazendo o quê?

Fábio Falando alto, gritando, deitando em cima da gente...

 

E, em outra ocasião, Fábio falava sobre sua vontade de esquecer as experiências sexuais e voltar a ser virgem como antes:

 

Daniel E por que você queria esquecer?

Fábio Porque eu me senti usado.

Daniel  Como assim?

Fábio Usou o meu corpo.

Daniel Mas você gostou?

Fábio Gostei.

Daniel Então, se você gostou, qual o problema?

 

Fábio parece espantado por eu tratar o fato com naturalidade.

 

Fábio Mas não é errado?

Daniel Por que seria errado?

Fábio Não é errado não?

Daniel O que teria de errado?

 

Fábio fala que a religião não permite, diz que é errado.

 

Daniel Então o que a religião diz é diferente do que você sente...

Fábio Mas não conta pra minha mãe não, eu não contei pra ela, contei só para o meu pai.

Daniel E o que ele falou?

Fábio Disse que usou o meu corpo...

Daniel Mas você gostou...

Fábio Gostei... mas eu sinto muita culpa.

 

A conotação dessa "culpa" sugere antes uma persecutoriedade, pois baseia-se em valores e punições exercidas por entidades exteriores. Ao longo da sessão, ele vai se empoderar do seu ato, seja ele fantasioso ou verídico: gostou do que fez. Ainda assim, quis deixar a porta da sala e a janela abertas, para mostrar que não estava escondendo nada de ninguém. Ele pergunta se eu acredito em Céu, pergunta se o rapaz poderia se lembrar do ato quando morresse e contar pra Deus.

Fábio começa a se identificar com livros cujos protagonistas se relacionam com homens e mulheres. Por meio dos relacionamentos - reais, delirantes, literários - sua identidade vai se tornar mais complexa. Se, por falta da função metafórica, ele não consegue se aprofundar em nuances de sua subjetividade, pode ao menos justapor várias facetas superficiais para pensar sobre quem ele é.

 

Fábio Hoje vamos falar sobre personalidade. Eu sei que eu sou bonitinho... alguns falam que eu sou bicha, outros falam que eu sou doente mental, quem sou eu?

 

Fábio repete várias vezes essa pergunta, "quem sou eu?", só consegue pensá-la pelas aparências:

 

Fábio Eu pareço nordestino, caminho igual mulher, as pessoas da escola particular chamavam eu de bicha, eu enxergo coisa... o que você está vendo?

 

Ele traz uma revista que diferencia deísta, teísta, ateu e panteísta. Ele identifica onde eu estou e onde a mãe dele está, depois identifica onde ele próprio está. Quando conversávamos sobre esquizofrenia, eu perguntei se todos os esquizofrênicos são iguais e se têm o mesmo destino. Ele diz que não, cada um é de um tipo, são diferentes. Enfim, por meio de uma constituição egoica mais constante, ele pode se comparar aos outros enquanto semelhante e manter sua singularidade.

 

Fábio O meu defeito é que as pessoas não vêm falar comigo e eu não vou falar com elas.

 

Fábio fala de si como isolado, não consegue se relacionar com as pessoas e isso o deixa triste, queria ter amigos e receber mais atenção das pessoas em geral. Pergunta-me como fazer amigos. Para ele, algumas pessoas têm um "ímã" que atrai as outras, mas ele não tem esse ímã, pergunta se eu tenho. Fábio diz ainda precisar passar comigo por muitos anos. Em suma, a noção de identidade se aprofunda atrelada a uma indagação sobre a alteridade.

 

* * *

 

Em um dos últimos atendimentos, Fábio conta ter ficado muito irritado com a mãe e batido nela. Ela não aguenta mais a convivência e ameaça interná-lo ou expulsá-lo de casa. Enfim, posso agendar uma sessão com os dois. Nesta, marco firmemente que ele não pode jamais bater nos pais e sugiro fazer mais atividades fora de casa como um jeito de desafogar essa relação com a mãe. Por outro lado, ela é rude com ele: manda calar a boca, xinga de "trouxa", "burro" e, diante dos seus delírios, acusa-o de mentiroso. Eu marco que ela também não pode agir assim, que seus maus-tratos só o deixam mais nervoso e que ele tem uma forma própria de compreender os acontecimentos, a qual não deve ser menosprezada. Ele diz que se eu tivesse uma mãe assim eu também bateria nela. Respondo que não, que nunca se bate na mãe. Pela primeira vez, foi necessário assumir uma posição claramente oposta à dele, para garantir um valor cultural absoluto e, principalmente, apontar para uma interdição materna.

Fim do Processo

Certo dia, Fábio falta à sessão, mas me liga para dizer de sua mudança com a família para o interior. Ele fala que eu o ajudei muito e que virá mais algumas vezes para se despedir de mim. Após três anos de análise, o processo será encerrado. A essa altura, Fábio considera melhor a realidade, está mais integrado e consegue se colocar de uma forma mais complexa, articulando diversas facetas de si, ainda que estereotipadamente.

Na última sessão:

 

Fábio Eu fiquei aqui vários anos, mas o Michel (enfermeiro) nem sente que eu fiquei aqui vários anos... eu sou o mais velho aqui do CAPS.

Daniel E você, o que sente?

Fábio Sinto que eu estou lendo um livro sobre Deus... você tem um anel, quando você se casar você vai pôr na mão direita, por enquanto você está só namorando... né?

Daniel Eu sou casado.

Fábio É? Então por que não compra um anel de ouro?

Daniel Esse é de ouro branco...

Fábio Esse é de prata... você é casado?

Daniel Sou.

Fábio Tem filho?

Daniel Minha mulher está grávida.

Fábio Hum... tem gente que fica no CAPS pra toda a vida?

Daniel Não, fica alguns anos, depois vai pra outros lugares, centro de convivência, CEU, posto de saúde...

Fábio Então o CAPS é passageiro? Depois de um tempo não vai mais ter CAPS?

Daniel É...

Fábio Então tá, é só isso... eu nunca mais vou te ver.

Daniel Se você quiser me ver, você pode vir aqui.

Fábio Tá, tchau.

Daniel Tchau.

 

Cumprimento Fábio, ele vai embora. Nesta última conversa ele finalmente conseguiu me ouvir, entendeu algo da minha singularidade, entendeu que eu sou casado - ele sempre discordava quando eu o afirmava. Perguntou se eu tinha filho com uma curiosidade genuína e, mais importante de tudo, entendeu a transitoriedade do CAPS. Possivelmente não sejamos demasiado otimistas em supor, nessas colocações, algo que aponte para uma capacidade de se colocar como terceiro excluído. Excluído de uma relação que perdura entre analista e sua família, excluído de uma instituição que o acolheu e que continuará existindo quando ele tiver alta. Dessa forma, essa instituição e essas pessoas poderão se constituir como experiência passada. Em síntese, a capacidade de constituir uma identidade minimamente autônoma em relação ao Outro permite a entrada em um nível de socialização cujos atores possam entrar e sair de cena sem colocar em xeque a sua constância subjetiva, possibilitando a apropriação de uma temporalidade. Por tudo isso, podemos inferir que, com os atendimentos, Fábio conseguiu melhorar seu contato com o tempo, a realidade, a alteridade e conseguiu constituir uma identidade mais genuína, menos baseada na oposição com os outros e mais fundamentada em uma distinção pelas diferenças. Enfim, fico feliz em imaginar que, neste momento, ele talvez nem se lembre mais de mim.

 

topovoltar ao topovoltar ao sumáriotopo
 
 

     
Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
Sociedade Civil Percurso
Tel: (11) 3081-4851
assinepercurso@uol.com.br
© Copyright 2011
Todos os direitos reservados