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AUTOR


ÍNDICE TEMÁTICO 
53
O Estranho em nós: clínica, sociedade, cultura
ano XXVII - Dezembro de 2014
203 páginas
capa: Nayra C. P. Ganhito
  
 

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Resumo
Para desenvolver uma discussão epistemológica da obra freudiana A interpretação dos sonhos, dois textos servirão de interlocutores: “Introdução (in Binswanger)” de Michel Foucault e “Sinais, raízes de um paradigma indiciário” de Carlo Ginzburg. A partir da hipótese da psicanálise como um saber inserido na produção do paradigma indiciário (filológico), discutiremos elementos de uma perspectiva baseada na semiótica.


Palavras-chave
interpretação dos sonhos; paradigma indiciário; epistemologia; enigma; Michel Foucault; Carlo Ginzburg.


Autor(es)
Ana Gebrim Gebrim

é socióloga; mestre em Sociologia Clínica e Psicossociologia pela Université Paris Diderot – Paris 7; doutoranda em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo; em formação no curso de Psicanálise do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.




Notas

1.     G. Spivak, Pode o subalterno falar?, p. 23.

2.     Em referência ao conceito proposto por Thomas Kuhn.

3.     C. Ginzburg, "Traces, racines d'un paradigme indiciaire", in Mythes, emblemes, traces, p. 220.

4.     C. Ginzburg, op. cit., p. 220.

5.     C. Ginzburg, op. cit., p. 222.

6.     C. Ginzburg, op. cit., p. 222.

7.     C. Ginzburg, op. cit., p. 223.

8.     S. Freud, O Moisés de Michelangelo, p. 389.

9.     C. Ginzburg, op. cit., p. 228.

10.   C. Ginzburg, op. cit., p. 231.

11.   M. Foucault, Les mots et les choses, p. 374.

12.   S. Zizek, Comment lire Lacan, p. 9.

13.   C. Ginzburg, op. cit., p. 244.

14.   C. Ginzburg, op. cit., p. 245.

15.   L.A. Garcia-Roza, Introdução à metapsicologia freudiana 2, p. 11.

16.   L.A. Garcia-Roza, op. cit., p. 9.

17.   Mesmo que nessa obra, em 1900, Freud ainda não a formule como tal.

18.   S. Freud. A interpretação dos sonhos, p. 163.

19.   S. Freud, A interpretação dos sonhos.

20.   M. Foucault, "Introdução (in Binswanger)", in Dits et écrits, p. 75.

21.   Prolegômenos à lógica pura, Husserl, 1900.

22.   Foucault, "Introdução (in Binswanger)", p. 75.

23.   Foucault, "Introdução (in Binswanger)", p. 76.

24.   Foucault, "Introdução (in Binswanger)", p. 76.

25.   Foucault, "Introdução (in Binswanger)", p. 77.

26.   Foucault, "Introdução (in Binswanger)", p. 80.

27.   Foucault, "Introdução (in Binswanger)", p. 82.

28.   Foucault, "Introdução (in Binswanger)", p. 88.

29.   Foucault, "Introdução (in Binswanger)", p. 81.

30.   Refiro-me aqui ao debate travado entre autores do chamado pensamento pós-colonial, ou descolonial.



Referências bibliográficas

Endo P.; Sousa E. (2012). Itinerário para uma leitura de Freud. In: Freud S. A interpretação dos sonhos. Porto Alegre: L&PM Pocket, v. 1.

Garcia-Roza L.A. (2008). Introdução à metapsicologia freudiana 2. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Ginzburg C. (2010). Traces, racines d'un paradigme indiciaire. In: Mythes, emblemes, traces. Paris: Verdier Poche.

Foucault M. (1994). Introdução (in Binswanger). In: Dits et écrits I (1954-1969). Paris: Gallimard.

____. (2012). Les mots et les choses. Paris: Gallimard.

____. (1994). O que é um autor. In: Dits et écrits I (1954-1969). Paris: Gallimard.

Freud S. (2012). A interpretação dos sonhos. Porto Alegre: L&PM Pocket, v. 1 e 2.

____. (2012). O Moisés de Michelangelo. São Paulo: Companhia das Letras, Obras Completas, v. 11.

Spivak G. (2012). Pode o subalterno falar?. Belo Horizonte: Editora UFMG.

Zizek S. (2011). Comment lire Lacan. Paris: Editora NOUS.





Abstract
To develop an epistemological discussion of Freud’s work The interpretation of dreams, two texts have been used as the main interaction: “Introduction (in Binswanger)” by Michel Foucault and “Clues, roots of an evidential paradigm” by Carlo Ginzburg. From the hypothesis of psychoanalysis as knowledge inserted in the production of an evidential paradigm (philological), we will discuss elements of a perspective based on semiotics.


Keywords
interpretation of dreams, evidential paradigm, epistemology, enigma, Michel Foucault, Carlo Ginzburg.

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 TEXTO

Sonho e enigma: a descoberta freudiana sob o paradigma indiciário

Dream and enigma: Freud’s discovery under the evidentiary paradigm
Ana Gebrim Gebrim

De que lugar o teorizador fala? Quais os efeitos e desdobramentos da produção de uma teoria? Movida por essas questões disparadoras que permeiam a relação do leitor com o texto, pretendo iniciar uma reflexão epistemológica acerca da obra A interpretação dos sonhos, a fim de investigar alguns dos conjuntos de conhecimento que condicionaram o surgimento da teoria freudiana acerca dos sonhos.

A perspectiva arqueológica introduzida por Michel Foucault pretende historicizar as formações discursivas problematizando a teoria desde a posição de sua enunciação. Com essa postura, Foucault questiona a inscrição de teorias em práticas discursivas. Isto é, trata-se de compreender as modalidades históricas, culturais e epistemológicas nas quais surgem determinados discursos. Toda produção de verdade, em algum momento, nasceu de um período histórico imerso em um contexto epistemológico próprio. Cada época produz igualmente sobreposições de alguns discursos sobre outros, ou seja, podemos pensar que existam sempre discursos hegemônicos. Assim, teorias nascem da composição de determinadas relações de poder de um tempo histórico. Todo discurso supõe uma formação discursiva imersa em seu tempo.

Nesse sentido, podemos reformular uma vez mais, a título ilustrativo, nossas questões disparadoras. Tendo em vista uma determinada formação discursiva, quem enuncia a teoria? Para quem a teoria está enunciada? Ou, então, em outras palavras: de onde surgem os discursos?

Análises arqueológicas, assim como algumas críticas de Foucault à psicanálise, nos dão algumas pistas acerca de uma determinada inscrição epistemológica da produção freudiana da Interpretação dos sonhos.

Segundo Michel Foucault, em sua obra Les mots et les choses, desde essa perspectiva arqueológica, é possível compreender a história das ciências humanas a partir do século XIX através de três grandes modelos epistemológicos: o biológico, o econômico e o filológico-linguístico. A psicanálise, para o filósofo, insere-se como produção discursiva no terceiro modelo epistemológico, o filológico-linguístico. É a partir dessa categoria que podemos disparar, finalmente, nossa reflexão acerca das bases epistemológicas da análise freudiana dos sonhos.

Para Foucault, a perspectiva filológica consiste no pensamento da interpretação e da descoberta do oculto, do escondido; já o linguístico refere-se à ação de estruturar e atualizar o sistema significante. Dito de outra forma, é mediante a consolidação desse modelo epistemológico que se insere na história das ciências humanas a perspectiva interpretativa de descoberta do sentido oculto e enigmático, através de um modelo estrutural de lógica significante.

Em suma, é também dessa constatação que parte nossa reflexão. O presente artigo pretende, portanto, abordar a perspectiva interpretativa da psicanálise sob o surgimento desse novo modelo epistemológico. A obra A interpretação dos sonhos será nosso estudo de caso para trabalharmos essa hipótese inicial. Assim, com base em uma formulação que questione a posição do investigador[1], nossa proposição é entender quais os desdobramentos e efeitos de um discurso imerso em uma perspectiva indiciária (filológica), a ser elucidada a seguir.

O método morelliano e o surgimento
de uma nova epistemologia

O historiador italiano Carlo Ginzburg, em seu texto "Sinais, raízes de um paradigma indiciário", trabalha a hipótese do surgimento "silencioso" de um novo modelo epistemológico nas ciências humanas no final do século XIX. Segundo o autor, esse modelo epistemológico, que pode ser igualmente chamado de paradigma[2], pode ser ilustrado através do surgimento de um novo método de atribuição de quadros antigos. É, portanto, por meio do método morelliano, inaugurado pelo historiador de arte Giovanni Morelli, que foi possível visualizar traços de um paradigma indiciário que tomaria forma poucos anos mais tarde.

Para Ginzburg, assim como para Foucault, a psicanálise, como saber e formação discursiva, insere-se na produção desse novo modelo epistemológico-paradigmático. No entanto, antes do surgimento, propriamente dito, da psicanálise, podemos identificar, através de alguns exemplos, pistas do desenvolvimento dessa nova epistemologia.

Até a segunda metade do século XIX, diante da incerteza acerca da originalidade de um quadro, especialistas de arte esforçavam-se para indicar, pelos estilos de cada pintor, quais quadros nos museus eram originais e quais eram cópias. Em suma, tratava-se de distinguir originais de cópias. Para o italiano Giovanni Morelli, a identificação de uma obra de arte original ou falsa exigia um exame distinto do convencional, que até então procurava basear-se nos estilos estéticos de cada pintor. Isto é, até a introdução do modelo morelliano, os historiadores, críticos e especialistas encarregados da atribuição de quadros baseavam-se em um método que distinguia as obras através dos estilos próprios dos pintores.

Inversamente a esse modelo de atribuição, Morelli centrava sua análise em outra perspectiva, e, portanto, seu método de atribuição representou uma ruptura em relação a tudo o que fora realizado até então nesse domínio. Para Morelli, a atribuição de obras originais ou falsas não se dava pela identificação estética do estilo próprio de cada pintor, mas nos "detalhes mais negligenciáveis e os menos influenciados pelas características próprias à escola à qual pertencia o pintor: o lóbulo das orelhas, as unhas, a forma dos dedos das mãos e dos pés"[3]. Era justamente observando os detalhes mais irrelevantes, discretos e ocultos das pinturas que Giovanni Morelli lograva descobrir "os traços presentes nos originais, mas ausentes nas cópias"[4].

Tendo introduzido uma lógica interpretativa de análise das obras de arte, o método morelliano foi duramente recebido. Grande parte da crítica artística da época repreendia Morelli por seu método não se ocupar dos problemas de ordem estética dos autores, e sim de "problemas preliminares, de ordem filológica"[5]. Para contextualizar as críticas estéticas realizadas na época ao método morelliano, Ginzburg retoma um ensaio do historiador de arte Edgar Wind a propósito dessa nova invenção:

 

Os livros de Morelli têm um aspecto mais insólito se comparados a outros historiadores da arte. Eles são repletos de ilustrações de dedos e orelhas, registros minuciosos desses detalhes característicos que traem a presença do artista, assim como um criminoso é traído por suas impressões digitais... todos os museus de arte estudados por Morelli tomam imediatamente o aspecto de um museu do crime...[6]

 

Características desse mesmo método indiciário, segundo Ginzburg, são comparadas com a atuação do personagem literário Sherlock Holmes, de Conan Doyle, uma vez que para ambos a análise do objeto é realizada a partir de indícios negligenciáveis. Aproximando o método morelliano à conduta policial do personagem Sherlock Holmes, segundo o historiador italiano: "o conhecedor de arte é comparável ao detetive que descobre o autor do delito (do quadro) sobre a base de índices imperceptíveis para a maior parte das pessoas"[7].

Através desses exemplos, Ginzburg ilustra o surgimento de um novo modelo de pensamento, de uma perspectiva científica baseada na semiótica. Impunha-se sobre a produção das ciências humanas o paradigma indiciário. A partir de então, segundo o autor, é possível pensar em um novo modelo epistemológico que estabelecia outra relação entre sujeito e objeto. A produção e a busca pela verdade adquirem uma nova dimensão: a do método indiciário de análise dos traços ocultos. Se antes a autoria de uma produção era questionada através dos grandes traços manifestos e de referenciais estéticos pertencentes a movimentos artísticos, o novo paradigma indiciário busca a verdade a partir do conteúdo latente, do imperceptível, do involuntário, do evitado e ocultado à sombra do enunciado.

Ainda nesse mesmo texto, Ginzburg nos lembra que, em 1914, Freud, em O Moisés de Michelangelo, brilhantemente se dá conta dessa semelhança e compara a psicanálise ao método morelliano:

 

Foi de grande interesse para mim, então, saber que por trás do pseudônimo russo se escondia um médico italiano chamado Morelli. Quando morreu, em 1891, ele era senador do reino da Itália. Acredito que seu procedimento era bastante aparentado à técnica da psicanálise médica. Também essa costuma adivinhar coisas secretas a partir de traços menosprezados ou não notados, a partir da escória - do "refuse" (refugo) - da observação[8].

 

Para Ginzburg, é, portanto, sob a égide do paradigma indiciário que se deu a produção científica da psicanálise. E não à toa, como vimos na citação acima, o próprio Freud já havia identificado a profunda semelhança entre o método morelliano e o método psicanalítico. É, então, justamente com base nessa analogia que podemos nos servir da hipótese central de Carlo Ginzburg, em seu texto, para sublinhar o surgimento da psicanálise como um saber inserido no paradigma indiciário (ou, então, em uma epistemologia filológica, como sugere Michel Foucault em Les mots et les choses).

A leitura de Morelli por Freud representou em sua obra a proposição de um método de interpretação que nas palavras do autor era: "baseado sobre os desvios, sobre os fatos marginais, considerados como reveladores"[9]. Uma vez que é justamente através dos traços mais negligenciáveis que se dá a possibilidade de aceder aos conteúdos íntimos ou inconscientes do objeto de análise. O método morelliano introduz a crença de que a individualidade está mais presente nos traços marginais e negligenciáveis do sujeito do que no conteúdo manifesto enunciado: "para Morelli, esses fatos marginais eram reveladores porque constituíam os momentos em que o controle do artista, ligado à tradição cultural, se relaxavam para dar lugar aos traços puramente individuais, que lhe escapam sem que ele se dê conta"[10].

Por meio dos elementos de análise propostos por Carlo Ginzburg, podemos estabelecer outros paralelos entre o método morelliano e a obra freudiana. Segundo o próprio Freud, a invenção da psicanálise infringiu à humanidade sua terceira grande ferida narcísica através da descoberta do inconsciente (sendo a primeira quando Copérnico revelou que a Terra não era o centro do universo e a segunda quando Darwin provou a teoria da evolução, questionando a criação divina). Assim, pela terceira vez consecutiva, o homem deixava de ocupar o lugar central de onipotência e saber absoluto. Com o inconsciente, tudo o que era produzido como verdade até então passou a ser questionado, uma perspectiva radical havia sido revelada: a verdade do sujeito não estava mais no conteúdo manifesto, mas no latente.

Para Michel Foucault, a descoberta psicanalítica do inconsciente introduz uma ruptura epistemológica em que a dicotomia do normal e patológico fora substituída pela bipolaridade entre consciência e inconsciência. Toda a produção científica do século XX no campo das humanidades passa a ser atravessada pela noção de inconsciente: "Diremos então que não há ‘ciência humana' em tudo o que for questionamento sobre o homem, mas em todo o lugar onde podemos analisar, na dimensão própria ao inconsciente, as regras, os conjuntos de significantes que desvelam à consciência as condições de suas formas e de seus conteúdos"[11].

Segundo os psicanalistas Paulo Endo e Edson Sousa, Freud instaurou uma ruptura profunda com a tradição ocidental do pensamento racional sobre a consciência até aquele momento histórico. Nessa nova perspectiva, a psicanálise, como método, inaugura modalidades de apreensão do conteúdo subjetivo latente, dos traços ocultos que até então eram menosprezados pela observação ordinária.

Na perspectiva psicanalítica, a realidade subjetiva das experiências de conflitos e sofrimentos inconscientes na qual o sujeito está imerso se expressa através das "entrelinhas" do discurso, ou seja, muito mais em seu conteúdo latente do que no manifesto. Sobre a insistência do inconsciente na perspectiva freudiana, o filósofo esloveno Slavoj Zizek propõe a seguinte fórmula: "Se o inconsciente de Freud provocou tamanho escândalo não é porque ele pretende que o eu racional seja subordinado a um domínio infinitamente mais vasto de instintos irracionais e cegos, mas porque ele demonstra como o inconsciente mesmo obedece à sua própria gramática e à sua própria lógica: o inconsciente fala e pensa"[12].

E como sabemos do inconsciente? Através de traços e indícios. Isto é, a introdução da noção de inconsciente se faz através da perspectiva indiciária de interpretação. É por meio da interpretação de pistas e sinais que acedemos aos conteúdos inconscientes do sujeito. Sintomas, atos falhos, lapsos, sonhos são, nessa ótica, traços da presença recalcada do inconsciente.

Ainda nesse mesmo texto, Ginzburg aborda também uma outra figura bastante ilustrativa da perspectiva indiciária: o caçador. Se pensarmos no caçador, em sua função, como aquele que é capaz de narrar uma história coerente, por meio de diversos traços mudos, ou seja, aquele que chega até sua presa através de pistas e traços silenciosos interpretados por ele, inserimos essa lógica na mesma dos exemplos anteriores. Assim sendo, é possível traçar um paralelo entre a postura do caçador e a do analista diante de um objeto na perspectiva indiciária, indutiva, de busca e produção de verdade. Segundo Ginzburg, o caçador deve possuir uma percepção minuciosa da realidade para "descobrir os traços de eventos dos quais o observador não pode ter acesso direto"[13]. O analista-caçador é, nessa perspectiva, aquele capaz de designar "coisas através das coisas"[14].

E, como é possível designar coisas através das coisas? Ou, em outras palavras, como se daria a atribuição de sentido por meio de indícios/huellas? Através da interpretação.

"Traumdeutung" sob a ótica
do paradigma indiciário

Tendo em vista a hipótese epistemológica da psicanálise como um saber indiciário (filológico), podemos tentar situar o sonho em sua dimensão enigmática. Isto é, compreender o sonho como enigma. Ora, só pode haver obscuridade e ambiguidade em uma dimensão que se refere a uma outra que não é a manifesta. Por definição, o inconsciente alude à esfera oculta que insiste em se fazer presente através de distorções e dissimulações que reatualizam sua presença.

O sujeito da psicanálise é o sujeito dividido, é o sujeito que tem que se haver com seu duplo. E por que é que só podemos acessar o conteúdo inconsciente através de traços e indícios distorcidos? Por que o desejo inconsciente só pode ser realizado por veículos ocultos, inconscientes? Garcia-Roza sugere que o enigma central da psicanálise reside no "fato desconcertante e perturbador [...] de que somos dois sujeitos, um dos quais nos é inteiramente desconhecido"[15]. Pois bem, permanecem inconscientes os desejos que, "por incompetência ou por medo"[16], não puderam ser efetivamente realizados. Ou então, podemos supor que torná-los inconscientes tenha sido a saída para a entrada na cultura.

Mas pensemos tudo isso através da obra freudiana A interpretação dos sonhos. Uma das hipóteses levantadas por Freud para compreender a formação dos sonhos é o fenômeno da distorção onírica. Isto é, sonho é incoerência, é loucura, no sentido de que a forma de aparecer do sonho nos é, à primeira vista, muitas vezes incompreensível.

Poderíamos supor que o trabalho de Freud, nessa obra, resume-se à tentativa de atribuir um sentido, uma lógica, uma gramática, à incoerência imagética e sensorial da realidade onírica dos sonhos tal qual ela nos aparece. Freud aposta na existência de um sentido oculto dos sonhos. Ou seja, se eles nos aparecem distorcidos, dissimulados, fragmentados, condensados e deslocados é porque também são fruto de uma instância de censura superegoica[17].

"O melhor que podes saber não deves contar aos meninos."[18] Convocando Fausto, Freud ilustra algo bastante significativo do funcionamento onírico: todo o trabalho de distorção é um ato de censura. No entanto, se nos perguntarmos o porquê dessa lógica oculta que teima em censurar o conteúdo onírico através dessas distorções, obteremos, finalmente, a resposta que nos leva à tese central de Freud na Interpretação dos sonhos: todo sonho tem, de fato, um sentido. Todo sonho é a realização de um desejo.

Como vimos, tendo sido originalmente recalcado, o desejo só pode se manifestar em sua forma distorcida. Mas ainda assim, todo sonho realiza um desejo inconsciente. Essa é a tese sustentada por Freud ao longo de toda sua obra, e é a partir dessa hipótese que dezenas de exemplos servirão de ilustração e sustentação de um discurso que, sobretudo, visa atribuir um sentido oculto a uma realidade fragmentada.

Segundo Garcia-Roza, a psicanálise constitui-se como uma técnica da decifração. Formulação bastante coerente, se pensarmos na inscrição indiciária (filológica) do saber analítico. Ao atribuir um sentido aos sonhos, Freud expressa o esforço em constituir um saber que visa transformar o mundo imagético em discurso. Não em um discurso qualquer, mas em um discurso que supõe a divisão do sujeito, um discurso que supõe o enigma.

Para que possam ser interpretados, como vimos anteriormente, os sonhos, sob a ótica freudiana, expressam a perspectiva de uma dimensão latente. O que implica em conjecturar que, para poder interpretá-los, então, é necessário guiar-se através da crença de que há um pensamento por detrás da fenomenalização do sonho. Pensando na inscrição epistemológica dessa obra, e na consequente inauguração de uma nova relação paradigmática entre sujeito e objeto, podemos insinuar uma possível paronomásia de que, por detrás de um discurso que supõe a existência de uma dimensão derrière (por detrás), situa-se a perspectiva de que há uma verdade intrínseca ao objeto, e, nesse sentido, cabe ao caçador/analista/detetive atribuir e ordenar seu sentido secundariamente. Ou, em outras palavras, cabe a um terceiro o papel de traduzir o conteúdo onírico do material psíquico do sujeito.

Mas voltemos à tese central sustentada em Traumdeutung. Tendo em vista a dimensão inconsciente do desejo, Freud a reescreve a fim de elucidar de forma ainda mais precisa o funcionamento da realidade onírica: "o sonho é a realização (disfarçada) de um desejo (reprimido/recalcado)"[19]. Assim, também a resistência à interpretação é compreendida como um ato de censura dos sonhos. Em cada sonho sonhado, atualiza-se, então, um desejo inconsciente que deixa suas marcas e pegadas através de rastros, indícios e traços distorcidos.

Nessa perspectiva, tendo atribuído um sentido aos sonhos, Freud fundamentou suas bases metapsicológicas de uma gramática do funcionamento inconsciente. É também através do sonho que sabemos de nós mesmos. Que sabemos, no entanto, precisamente daquilo que parecemos não querer saber, mas que, sem embargo, insiste-se em se fazer saber. Mas como enigma.

Foucault e a interpretação dos sonhos

Para Foucault, é nessa obra que reside a lógica do inconsciente freudiano. É igualmente através dessa mesma obra que o filósofo francês fundamentou sua crítica epistemológica à psicanálise.

As formulações de Foucault acerca da psicanálise ao longo de toda sua produção não são em nada homogêneas. Ora elogiosas, ora devastadoras, de forma geral, todas suas proposições a respeito da psicanálise são no mínimo bastante provocadoras de reflexões profundas. Aluno de Merleau-Ponty na École Normale Supérieure e amplamente influenciado pelo pensamento heideggeriano, muitas das críticas dirigidas à psicanálise referem-se a uma perspectiva bastante fenomenológica do sujeito.

O texto em que Foucault constrói essa crítica consiste em uma introdução escrita no ano de 1954, por ocasião da reedição francesa da obra O sonho e a existência de Ludwig Binswanger, um dos maiores precursores da chamada Daseinanalyse, a prática terapêutica da psicologia existencial. Em "Introdução (in Binswanger)", Foucault parte da perspectiva fenomenológica fundamentada por Binswanger para fundamentar sua crítica à interpretação freudiana dos sonhos.

Segundo Michel Foucault, o ano de 1900 é profundamente marcado pelo que nomeia como um "duplo esforço do homem para reassumir suas significações e reassumir-se a si próprio em sua significação"[20]. Nesse mesmo ano, são publicados concomitantemente as obras Traumdeutung de Freud e Logische Untersuchungen[21] de Husserl. Ou seja, pode-se dizer que aquele momento foi marcado por uma determinada busca de significação do mundo através da autossignificação na produção científica nas ciências humanas.

Para Foucault, Sigmund Freud, na Traumdeutung, parecia inverter a concepção do sonho como o "non-sens da consciência", atribuindo então a esse fenômeno um sentido inconsciente. Depois da proposição de Freud, o sonho deixou de integrar somente o campo místico de suposições da realidade onírica para integrar o saber científico de significação. Assim, segundo o filósofo francês, o sonho parecia, nessa perspectiva, "desapertar e desatar finalmente o nó das significações"[22].

No entanto, ainda que considere o pioneirismo da descoberta freudiana, a crítica de Foucault a essa obra é fundamentalmente em torno de um ponto que consideramos central. Segundo ele, ao interpretar e significar os sonhos como tendo um sentido inconsciente, Freud negligenciou um grande problema: ao serem interpretados, os sonhos não receberam sua linguagem própria como sonho.

Tratemos de compreender essa crítica. Segundo Foucault, Freud não concebe o sonho como objeto, mas como um meio de sentido. Isto é, para o filósofo, a interpretação freudiana negligencia justamente a dimensão hermenêutica do sonho. Ou seja, sua crítica implica em dizer que em Traumdeutung os sonhos só foram analisados em sua função semântica, pois, para ele, "a análise freudiana deixa na sombra sua estrutura morfológica e sintática"[23].

Diante dessa crítica podemos nos perguntar: por que, segundo o filósofo francês, a interpretação dos sonhos freudiana não deu aos sonhos sua linguagem própria? O que significa analisar o sonho somente em sua função semântica? Por que Foucault considera que Freud ignorou a linguagem morfológica e sintática dos sonhos? Para tentarmos elucidar essas questões, alguns exemplos dados por Foucault parecem ser bastante esclarecedores:

 

O incêndio que significa o ardor sexual, poder-se-ia dizer que ele ali está apenas para designá-lo, ou que ele o atenua, o esconde e o obscurece através de um novo clarão? A essa pergunta há duas maneiras de responder [...] O sonho é a realização do desejo, mas, se justamente ele é o sonho e não desejo realizado, é porque ele realiza também todos os "contradesejos" que se opõem ao próprio desejo. O fogo onírico é ardente satisfação do desejo sexual, mas o que faz com que o desejo tome forma na substância sutil do fogo é tudo aquilo que recusa esse desejo, buscando sem cessar apagá-lo.[24]

 

Para Foucault, a dimensão imaginária da expressão significativa dos sonhos é ignorada: há uma insuficiência do uso da imagem. Todos os signos que compõem a realidade onírica são compreendidos através de uma perspectiva interpretativa que tem em vista outro fim, que não o significado próprio aos símbolos. Assim, por ignorar a estrutura da linguagem dos sonhos, "no rigor de suas regras sintáticas e com a solidez de suas figuras morfológicas"[25], a interpretação freudiana não é, segundo ele, uma apreensão compreensiva de sentido próprio. Nessa perspectiva, a interpretação de Freud sobre os sonhos leva em conta apenas o modelo semiótico, semântico, de compreensão.

Ao supor, no sonho de Dora, que o incêndio é somente um indício do ardor sexual pelo Senhor K., tendo em vista sua tese central do sonho como realização de desejo, Freud deixa de compreender esse signo em sua perspectiva singular a partir de outros referenciais. Segundo Foucault, na citação anterior, por que não poderíamos conceber esse mesmo incêndio onírico em sua dimensão hermenêutica em vez de interpretativa-indutiva?

Nesse mesmo texto, Foucault também diz: "a psicanálise jamais conseguiu fazer falar as imagens"[26]. Isto é, para o filósofo, o conteúdo da imagem não é suficientemente explorado em si mesmo e levado em conta nessa abordagem. Para ele, Freud não vê o sonho como um objeto em si, mas apenas como meio de sentido para sua análise sobre o desejo.

 

Vejo buracos na neve, espécies de estrelas regulares, cristais de sombra. Um caçador aí verá os rastros frescos de uma lebre. Estas são duas situações vividas; seria vão dizer que uma comporta mais verdade do que a outra; mas, no segundo esquema se manifesta a essência da indicação, no primeiro não. É para o caçador, somente, que a pequena estrela escavada na neve é um signo. Isso não quer dizer que o caçador tem mais material associativo do que eu, e que a uma percepção ele pode associar a imagem de uma lebre que me falta na mesma situação.[27]

 

Por meio desses elementos, podemos pensar que, fundamentalmente, a crítica de Foucault à interpretação dos sonhos é uma crítica epistemológica e paradigmática da psicanálise como formação discursiva. Para o filósofo francês, o sonho não recebe sua linguagem própria na interpretação psicanalítica porque toda a expressão onírica só é compreendida através da perspectiva do desejo.

Para Foucault, a organização própria do sonho, ou, em outras palavras, o conteúdo de sua expressão imagética é ignorado pela compreensão psicanalítica, porque Freud, baseado em uma perspectiva indiciária, não foi capaz de reconhecer a expressão dos sonhos como uma linguagem própria, detentora de sentido. Toda a compreensão freudiana dos sonhos é organizada através do âmbito do desejo. O que implica em dizer que o desejo, como elemento central de análise, é o alvo principal almejado pelo/a interpretador/a, e, dessa forma, todos os elementos do sonho são apreendidos como meros índices que remetem ao desejo, não valendo por si mesmos. Todos os elementos presentes na realidade onírica são interpretados não em sua qualidade expressiva, mas como traços e índices do desejo:

 

Freud fez habitar o mundo do imaginário pelo Desejo, tal como a metafísica clássica fizera habitar o mundo da física pelo querer e pelo entendimento divinos.[28]

 

Segundo Foucault, o desejo na perspectiva psicanalítica atua como um princípio ordenador central. Assim, para ele, o conceito de desejo opera consequentemente como um entendimento quase que divino e inquestionável na interpretação onírica.

A partir dessa crítica, podemos propor novamente a aproximação da análise realizada anteriormente sobre o texto de Carlo Ginzburg e a crítica foucaultiana. Partindo de pressupostos e análises distintas, é possível considerar que, tanto o filósofo francês, quanto o historiador italiano situam o pensamento freudiano através de uma mesma perspectiva. Isto é, indiciária para Ginzburg e filológica para Foucault. De forma geral, as duas conceitualizações tratam da mesma discussão. No entanto, pode-se considerar que a crítica de Foucault à interpretação dos sonhos psicanalítica se dá, justamente, pela crítica ao método indiciário, semiótico de deciframento. Ou seja, a crítica de Foucault à interpretação onírica freudiana é uma crítica epistemológica. Enquanto as formulações de Ginzburg acerca da influência do paradigma indiciário para a psicanálise se dão através da construção histórica de uma determinada epistemologia.

A negligência freudiana na problemática dos sonhos, segundo Foucault, se dá fundamentalmente pela perspectiva indiciária, pois, segundo ele, a psicanálise "confundiu a realização das significações com a indução dos indícios"[29]. Portanto, podemos entender que uma vez que o desejo opera como elemento central e ordenador, a psicanálise interpreta todos os elementos oníricos como indícios, traços e pegadas para decifrar o enigma do desejo. Segundo a crítica filosófica de Foucault, toda perspectiva indiciária é indutora, uma vez que o sentido é sempre atribuído externamente e em um momento secundário.

Para Foucault, a psicanálise não se interessa propriamente pelo modo de aparecer do sonho, isto é, a fenomenalização do sonho. A interpretação freudiana do sonho, como vimos, está profundamente articulada em torno do ordenamento do desejo, e não do significado próprio de cada imagem. Quando se analisa um sonho tem-se em perspectiva as formações inconscientes e o desejo do sujeito, não sua produção imagética presente na realidade onírica.

É nesse sentido, então, que Foucault também compara a figura do psicanalista com a do caçador. Pois, segundo ele, no âmbito psicanalítico, cada elemento interpretado em um sonho é visto como um traço ou um indício em busca de sua presa final: o desejo. Na perspectiva da interpretação onírica, o psicanalista é o caçador de desejo.

Como vimos, para Foucault, o indício não tem significação em si, e todo o sentido só é adquirido secundariamente, ou seja, é um sentido atribuído exteriormente (pelo caçador/analista). A partir dos exemplos de citações, vemos que a perspectiva indiciária da interpretação dos sonhos, em contraposição à compreensão fenomenológica dos signos, opera através da objetividade de um sentido ulterior. Para Foucault, em Traumdeutung, Freud não explorou a hermenêutica dos símbolos, mas realizou uma interpretação exterior, semântica, de ordem indiciária do deciframento, e não morfológica e sintática.

Considerações finais

Questionar o lugar de onde o teorizador formula sua teoria, ou em outras palavras, problematizar a inscrição epistemológica de um discurso é, de certa forma, também assumir um posicionamento epistêmico, ou talvez, como alguns autores dizem[30], apenas sustentar uma postura política. Interrogar o discurso psicanalítico, desde formulações que sugerem problematizar sua inscrição epistemológica, tem como aposta fazer com que esse saber deixe de ser reproduzido como verdades normativas, para que possa, assim, assumir-se em seu caráter genuinamente crítico. Nesse sentido, abordar determinadas críticas epistemológicas de Michel Foucault refere-se a uma tentativa de se apropriar da psicanálise menos como uma explicação e mais como um questionamento do mundo. Ter em vista a problematização epistemológica dos discursos e a investigação do lugar de enunciação é supor que: meu discurso sobre um objeto diga (talvez) até mais sobre mim do que sobre o objeto mesmo.

Lacan abordou a frase de Picasso: Je ne cherche pas, je trouve, para ilustrar, também, a irrupção deflagrada do inconsciente. Contudo, em relação a essa imagem, poderíamos pensar, igualmente, que só se acha/encontra o que, antes, ou em algum momento, se supôs não estar. Assim, a psicanálise, como um saber inscrito sob a produção de uma epistemologia indiciária (filológica), utiliza-se não da pesquisa (recherche) para produzir seu discurso, mas de um outro instrumento: a interpretação. Como vimos, interpretar é atribuir um sentido secundário ao objeto. É ordenar e apreender um sentido onde não havia previamente (necessariamente). É, portanto, encontrar (trouver) um sentido através de alguns sinais ou pistas. Não há atividade de interpretação possível, sem que haja a crença em uma dimensão latente ao objeto. Vimos, em uma citação de Foucault, que um buraco na neve não pode ser interpretado como uma pegada, senão por um caçador em busca de sua presa. Ou seja, a perspectiva indiciária é aquela que supõe o conteúdo latente e que busca a verdade através dos traços tácitos do enigma.

A invenção da psicanálise, como discurso sobre o sujeito, é fruto de um contexto epistemológico marcado por seu tempo. O paradigma indiciário (filológico), que, como vimos, dá os primeiros indícios de surgimento no final do século XIX, representa, assim, o balizador da produção psicanalítica. Assim sendo, tratamos de abordar a obra freudiana A interpretação dos sonhos a partir dessa perspectiva.

 Situar a inscrição epistemológica do saber analítico sob a ótica indiciária (filológica) é sustentar a crença em um sujeito do inconsciente. E é precisamente desse lugar que o analista/detetive/caçador de desejo opera através do instrumento interpretativo. Tendo em vista a noção de enigma, Freud, em Traumdeutung, sugere a ideia de que devamos "consultar o travesseiro" para termos acesso a essa dimensão quase oracular de nós mesmos. Considerando a perspectiva indiciária (filológica) da psicanálise, os sonhos representam aqueles traços decifráveis que nos dão pistas de nossa própria subjetividade, da verdade de nós mesmos. Sonhos são, portanto, desde esse discurso, a dimensão que nos desvela aquilo que insiste em se ocultar.


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