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Resumo
Resenha de Tiago Corbisier Matheus, Adolescência: história e política do conceito na psicanálise, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2007, 356 p.


Autor(es)
Renata Udler Cromberg
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanalise do Instituto Sedes Sapientiae, doutora pelo Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Professora dos cursos de especialização de Psicopatologia e Saúde Pública na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e Teoria Psicanalítica da Pontifíca Universidade Católica de São Paulo. Autora dos livros Cena Incestuosa e Paranóia, da coleção Clínica Psicanlítica da Editora Casa do Psicólogo.


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 LEITURA

A vivacidade da adolescência

Adolescência: história e política do conceito na psicanálise


The vividness of adolescence
Renata Udler Cromberg


Resenha de Tiago Corbisier Matheus, Adolescência: história e política do conceito na psicanálise, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2007, 356 p.


O discurso adolescente se apresenta como lugar de inquietação, a partir do qual é possível manter vivo o sujeito, que depende de alguma irreverência para encontrar o jogo da sua palavra (p. 47).
[Tiago Corbisier Matheus]


A mente inquieta de Tiago Corbisier Matheus não o levou a escrever mais um livro sobre a adolescência, e sim a utilizar a adolescência como analisador da ideologia do indivíduo emergente na modernidade e na contemporaneidade. Faz-nos, com ele, seguir a positivação, ao máximo, da inconformidade do discurso adolescente frente ao estabelecido, para apresentar toda a tensão que os discursos sobre o adolescente trazem, seja na história, na política ou na psicanálise. Lúcida inconformidade do autor, em teimar em não excluir as relações entre psicanálise e história e psicanálise e política, convocando uma gama enorme de autores dos séculos xx e xxi, para este trabalho de tecitura do campo de saberes envolvidos. Convoca o leitor para conservar algo do adolescente sempre vivo, em sua curiosidade tensa e isenta em relação ao mundo e a si mesmo. É aí que inova.

A posição de compromisso do autor com o discurso adolescente fica claramente enunciada quando ele problematiza o temor que paira sobre cada adolescente, ao buscar realizar “um gesto ou sinal heroico, como algo único que o singulariza e lhe confere, contraditoriamente, o estatuto de semelhante” (p. 295). Se não seria a própria ambivalência da expectativa um dos componentes da esperada crise adolescente. Mantendo, em princípio, seu compromisso com a escuta da singularidade do sujeito, a psicanálise, nesta situação, ainda teria que se haver com a dimensão política ou darse conta de um risco, o “do preço a ser pago pela defesa da ética do desejo, quando esta é descolada da dimensão política da escuta psicanalítica: distanciamento e suspeita frente ao que diz respeito ao coletivo e ao que lhe diz respeito” (p. 295). Por outro lado, não lhe caberia restringir o campo da política à facticidade do momento adolescente, necessário para a enunciação do sujeito enquanto tal, o que a faria situar-se numa posição questionável, a tornar-se “cúmplice do silêncio frente ao coletivo e ao domínio público” (p. 295).

Logo na introdução, aparecem as perguntas que guiarão o autor: quais as várias posições dos saberes sobre a adolescência e quais os usos desses saberes.

A questão política parece ser o recorte capaz de pôr em foco os vários campos de força que de algum modo se entrecruzam: primeiro, ao manter pulsante a tensão entre o instituído e o discurso adolescente. Segundo, porque as próprias teorias são fruto de diferentes embates teóricoclínicos e, em terceiro lugar, porque a política parece ser o recorte de uma dimensão abafada que incide sobre o próprio objeto privilegiado da psicanálise, o corpo em sua dimensão sexual. Corpo que se mantém como enigma quando se pensa a adolescência em sua relação incerta com o advento da puberdade. Corpo que vive os efeitos das marcas que sobre ele se inscrevem, o universo simbólico e suas imagens marcando os corpos que a ele se oferecem. “A política, então, está lá, registrada nos próprios corpos e com eles se mantém pulsante” (p. 16).

Matheus propõe-se então uma verdadeira passagem adolescente, “um caminho empreendido a fim de estabelecer um campo de diálogo entre o discurso psicanalítico e outras áreas afins, lembrando que a psicanálise é um saber que colabora significativamente com a questão adolescente” (p. 16). Mas entende que isto não basta e que é preciso que a psicanálise se mantenha “disponível à escuta daquilo que vem de outras margens, de algo que nela pode ser silenciado, mantendo viva a interrogação do que pode parecer consolidado” (p. 16).

Assim, fiel aos seus propósitos, o autor vai nos contar, à guisa de introdução ainda, sobre o uso do termo adolescente desde a idade Antiga até a idade contemporânea: do efebo da Grécia antiga, objeto da Paideia, que visava à formação e ao aprimoramento do comportamento global de cada jovem a fim de cultivar valores praticados pelas dimensões inseparáveis entre si do individual e do coletivo, passando pela adulescentia de Roma, etapa marcada pela submissão a uma rígida hierarquia familiar e social, depois a juventude da Idade Média, uma experiência ambivalente, de recriminação, mas também de festividade. Somos conduzidos ao nascimento do estado moderno, onde adolescência e juventude ganham um status mais discriminado, e lembrados de que, a partir de Rousseau, a adolescência é considerada especificamente um momento de crise decisiva na constituição do indivíduo.

Matheus recupera trabalhos clássicos como de Stanley Hall, Philippe Ariès e o famoso livro de Maria Alice Foracchi, A juventude na sociedade moderna, para mostrar de que modo a noção de crise vai ganhando um lugar central: crise subjetiva, crise do sistema, crise de socialização, descontinuidade entre o sistema educacional e o mercado de trabalho. Em todas essas formulações, havia um esforço para articular o contexto histórico e social com a experimentação juvenil. É assim que esta obra também se inscreve no compromisso entre a realidade e a reflexão e pretende compreender a formação da chamada crise da adolescência, que se consolidou no século xx, e problematizar o conceito tal como foi e tem sido abordado pela psicanálise. É a partir de um resgate historiográfico que o autor tem por objetivo pensar a adolescência tal como se configura na contemporaneidade, como experiência individualizada, “na qual cada um se vê frente à demanda de estabelecer um caminho próprio diante dos impasses que neste momento de passagem surgem para o sujeito aí implicado, em função do modo de organização social que se estruturou na modernidade” (p. 44). Para isto, ele utiliza como instrumental fundamental o conceito de ideologia de Zizek, que lhe permite manter vivo o espírito crítico e analítico. Ideologia não como falsa consciência, mas que, coerente com o referencial conceitual, mostra-nos que nenhuma posição é isenta de ideologia. Possibilita-nos pensar nos diferentes momentos de constituição da ideologia, “quando a naturalização dos conceitos e a institucionalização de práticas e discursos se entrelaçam produzindo realidades que, como tais, são vividas como algo dado e inevitável” (p. 45). É assim que Matheus cria seu ponto de âncora, semelhante ao ponto de sustentação que encontra na realidade social: “a ideologia do indivíduo, que é o fundamento dos diferentes campos simbólicos que se constituem a partir da modernidade, encontra na noção e advento da crise adolescente – subjetiva, individual e necessária – um suporte indispensável para sua efetivação” (p. 46).

O autor pode então traçar o roteiro de sua passagem pelos mares da adolescência. A primeira região de pesquisa é em torno da âncora: os fundamentos da crise da adolescência a partir da discussão sobre a ideologia do indivíduo. A segunda região pesquisa as concepções da adolescência nas principais vertentes da psicanálise de modo a confrontá-las, destacando as suas diferenças e as implicações resultantes. E, finalmente, a terceira região reúne as pesquisas anteriores para refletir, a partir do tema da adolescência, sobre os dois pontos de tensão que se mantêm pulsantes entre a psicanálise e as outras áreas de ciências humanas, em especial as perspectivas histórica e política.

Fundamentos da crise da adolescência e ideologia do indivíduo

Se a adolescência é o momento em que o tempo faz uma reviravolta e se abre e a noção do que é realidade se transtorna, o texto, nesta parte, faz o mesmo com o leitor que segue seu movimento. Se Freud fez emergir a noção de realidade psíquica diferente da realidade material, Lacan fez emergir a noção de Real, diferente de realidade material e simbólica. Se Lacan entra como leitor de Freud diferenciando-se deste, Zizek entra aqui seguindo as pegadas de Lacan, mas dele se diferenciando por afirmar a perspectiva política de seu próprio trabalho, construindo um diálogo entre psicanálise e marxismo para pensar “a tensão que subsiste entre o sujeito psíquico em sua perspectiva singular e inconsciente e a realidade social à qual se reporta, tal como esta veio a se configurar na modernidade, a partir do advento do capitalismo” (p. 56).

Zizek, leitor de Lacan – que resgata a análise da fantasia, do lado da psicanálise, e do fetichismo da mercadoria, do lado do marxismo – reafirma a desconstrução das dicotomias entre realidade e representação, mundo externo e subjetividade, individual e coletivo. Pois há sempre uma realidade socialmente estabelecida a partir da alienação necessária ao funcionamento do sistema capitalista. Ideologia é para ele não uma falsa consciência, mas a fantasia compartilhada da qual depende a realidade social, realidade compartilhada que estrutura as relações sociais reais e efetivas, para mascarar um insuportável núcleo real impossível, que não pode conquistar inscrição simbólica. Matheus toma a ideologia como seu eixo crítico, tal como Zizek, e o traz para a questão da adolescência, apontando que tanto o conceito como a experiência subjetiva são momentos específicos da ocorrência de uma mesma realidade: “Nas diferentes produções teóricas que tentam elucidar o estranhamento vivido pelos sujeitos adolescentes, ecoa o silêncio do antagonismo insuportável, negação ou renegação da inscrição política que fundamenta o descentramento do sujeito psíquico” (p. 76). Para além deste velamento inevitável que a ideologia constitui, a alienação ganha outras proporções quando o simbólico é aprisionado em um todo fechado, impedindo que o real pulsante possa fecundar o simbólico a partir de sua indeterminação radical.

É ao sair do longo mergulho no pensamento de Zizek que o autor afirma sua posição. Para ele, é “em favor das possibilidades que representam o real, que se anuncia com a adolescência, que se mostra necessário o exercício crítico do discurso sobre a adolescência, sempre no intuito de manter em aberto o campo simbólico que em torno desta se estabelece” (p. 76). Assim, a crise adolescente, em diferentes versões teóricas, apesar da propriedade de seu conteúdo específico, teria passado por uma naturalização da ordem simbólica, servindo como instrumento de poder. Para o autor, “a crise adolescente ocupa um lugar específico na ideologia que estrutura a organização social na modernidade: é um derivado necessário de seu fundamento primeiro, a saber, a noção de indivíduo” (p. 78).

Num segundo longo mergulho em obras de vários autores ligados à política, à sociologia e à filosofia política, o autor vai em busca da constituição do indivíduo como significante primeiro na modernidade. Matheus emerge com uma reflexão simultânea a respeito da crise subjetiva que vive o adolescente e do conceito de crise da adolescência. O trajeto que se anuncia para o sujeito adolescente prevê uma crise subjetiva, como exercício de uma interioridade própria, expressão do desamparo que sua condição (imaginária) de autonomia exige, como condição para a conquista do status de indivíduo, pois esta é a referência do mundo adulto a que almeja pertencer, tal como o ideário da modernidade que preconiza a liberdade e autodeterminação prevê.

A ideia de crise da adolescência encontra-se diretamente atrelada à ideologia do indivíduo, como condição mesma de sua realização. Ela traduz um traço relevante da organização social que se difundiu na modernidade, em função da estrutura capitalista de produção e consumo globalizada. O conceito de crise da adolescência é produto de uma história e de uma política que nele se inscrevem e silenciam, mas que estão presentes e ultrapassam o universo psíquico na individualização de processos. Torna-se instrumento político, dependendo do sentido que lhe é atribuído e do uso que dele é feito, nas diferentes práticas institucionais, sejam elas médicas, pedagógicas ou mesmo clínicas. A crise é um sintoma para daquilo que resta, para cada um, da desmedida que sustenta a lógica mercantil e da ausência de sentido da lei que fundamenta a ordem social vigente. Num último mergulho histórico, que finaliza esta fundamental primeira parte do livro, Matheus traça o trajeto da emergência da adolescência em crise no século xx.

Psicanálise, puberdade e adolescência

Na psicanálise, é predominante a referência à adolescência como crise necessária, a ser vivida, elaborada ou superada, nos mais variados entendimentos da natureza e determinação desta crise, que os autores de diferentes nacionalidades e escolas propõem. Matheus começa fazendo um longo percurso pela referência freudiana. Em 1905, nos Três ensaios para uma teoria sexual, a puberdade é apresentada como o momento de definição da vida sexual, caracterizado pelo primado das zonas genitais, pela efetivação da escolha objetal a partir da reedição das marcas infantis. Ela é caracterizada como o momento de definição entre uma conformação normal ou patológica da vida sexual de acordo com a complexa equação dos fatores responsáveis pela constituição definitiva do aparelho psíquico. Com a desistência das fantasias incestuosas, ocorre o desligamento da autoridade dos pais, uma das conquistas psíquicas das mais importantes e dolorosas do período da puberdade. Depois de fazer uma profunda e didática reflexão sobre o conceito de pulsão, o autor aponta o modo pelo qual Freud inscreve a metamorfose da puberdade numa encruzilhada: “é tanto o momento em que o impulso orgânico volta a marcar presença, pela maturação previamente determinada, quanto o momento segundo da experiência sexual, que não se prende ao biológico, tendo em vista a capacidade de o anímico interferir também nas funções orgânicas e se impor como determinante” (p. 143).

Um dos pontos culminantes dessa trajetória realizada pelo autor é atingido quando, após ter destacado o a posteriori, tempo de configuração do psiquismo e da sexualidade em dois momentos, ele aponta um segundo momento da sexualidade distinto daquele em que predomina a lógica fálica, a partir dos textos de Freud sobre a sexualidade feminina. Aponta o período da puberdade como a possibilidade de emergência de uma outra sexualidade, em função da descoberta de um órgão que se apresenta como cavidade, sugerindo a presença de uma interioridade que anuncia a dimensão enigmática da sexualidade humana. A partir daí, o leitor é posto diante de uma conclusão da mais alta importância: “A própria condição enigmática da sexualidade feminina seria, portanto, a descoberta a ser feita no segundo momento da vida sexual dos seres humanos, quando a ilusão da lógica fálica mostra sua fragilidade e fica entreaberta a porta para o caminhar múltiplo e indeterminado que fundamenta a condição humana” (p. 154).

Finalizando o percurso freudiano, o autor destaca que, se no princípio a questão da puberdade estava marcada por um determinismo endógeno finalista, a exposição do complexo de Édipo, a partir do jogo identificatório e da questão da castração privilegiarão a perspectiva simbólica. Fatores corporais e experiências traumáticas se complementam com base no entendimento freudiano das séries complementares que compõem a predisposição e o acidental. No entanto, a partir da formulação final de Freud em torno do desamparo, que permeia a missão de cada um de se despreender do universo familiar, o segundo momento da sexualidade “é pautado por esse movimento paradoxal, de ressignificação da singularidade do sujeito, mas também amarração do tecido social; configuração da diferença, produção da série que compõe um conjunto; promoção de um ideário que ilude e impulsiona, mas que opera no vácuo do desamparo inevitável e no velamento das hostilidades que permanecem pulsantes nos laços sociais” (p. 164).

Ainda nesta segunda parte, acompanhamos mais um longo trajeto, este, através da concepção dos mais variados pensamentos psicanalíticos sobre a adolescência e sua crise. Na década de cinquenta do século xx, Anna Freud comparece com a ideia de uma adolescência normalmente patológica e Erikson traz a ideia da adolescência como crise de identidade. Aberastury e Knobel, herdeiros da corrente inglesa, falam da síndrome normal da adolescência. Os representantes da Self Psychology trazem uma concepção adaptativa e organicista da adolescência, voltada à busca de uma síntese e coesão. Já Lacan, ao contrário, traz a impossível síntese da psicanálise da adolescência, rompendo com a perspectiva desenvolvimentista e organicista que formava o consenso em torno da questão da adolescência. Num breve mas inspirado estudo de sua obra, o autor mostra como a entrada em cena de Lacan traz para a adolescência a divergência e a discussão das concepções prevalecentes em psicanálise sobre o assunto. Para ele, “a adolescência, na modernidade, representa a experiência de um sacrifício a ser teatralmente vivido pelo indivíduo, no silêncio de sua singularidade, frente aos espectadores que o assistem, quando depara com as injunções de poder (saber desigual) que fundamentam a lei injusta e sem sentido da ordem social” (p. 214). Já os lacanianos Rassial, Melman, Lesourd, Rufino e outros são trazidos na esteira de Lacan numa concepção da adolescência como o trabalho psíquico exigido por este golpe, supondo a operação simbólica de reinscrever o Nome do Pai (a interdição da função paterna) no psiquismo e, a seguir, inventar novos Nomes do Pai. Há a ênfase, também para além da função paterna, no encontro com o feminino que vem romper o modelo infantil fálico, já que a puberdade é a irrupção do Real da carne, por meio da irrupção do sexual genital. Aponta-se o luto a ser vivido neste momento, que deixaria um traço melancólico no percurso adolescente e sua crise narcísica, de identidade e de valores.

Psicanálise, história e política

Tal como o adolescente que se tensiona entre as transformações psíquicas de que tem que dar conta e o conhecimento do mundo em que será levado a tomar uma posição, o autor retorna então ao campo, também tenso, que existe entre a psicanálise, que defende a importância da singularidade psíquica, e os outros saberes das ciências humanas, que falam do homem privilegiando a perspectiva coletiva. Após explorar ao máximo essa tensão, sobretudo em Freud e Lacan, Matheus traz o importante pensamento de Leon Rozitchner que se apoia na referência marxista para resgatar a perspectiva histórica e propor a autocrítica da psicanálise: haveria uma articulação necessária entre o psíquico e a estrutura social, conforme a crescente complexidade dos processos de dominação. Algumas vertentes da psicanálise promoveriam uma atomização do indivíduo em função do ocultamento da história dos processos de dominação. Matheus amplia esta colocação: esta atomização é fruto da ideologia do indivíduo. Põe em destaque sua ideia de que a questão adolescente traz de maneira especial a tensão entre psicanálise e história. Analisa o mito do ritual de passagem nas sociedades primitivas e o seu enfraquecimento, ou perversão, na passagem adolescente nas sociedades contemporâneas. Termina seu instigante livro, dissertando, com brilho, sobre as relações entre política, psicanálise e adolescência, retomando as seis principais vertentes psicanalíticas que havia apontado. Conclui, de maneira contundente, sem se furtar a um posicionamento crítico. Para ele, a escuta psicanalítica pratica, inevitavelmente, uma política, de acordo com os recursos de que dispõe e nos quais se fundamenta. Quando ela reduz a crise do sujeito à adolescência, enquanto momento de passagem por ser superado, silencia a crise que acompanha o sujeito humano na modernidade, denega a condição política que marca, do princípio, a constituição do sujeito.

A clínica da adolescência é um dos momentos em que a problemática da travessia da angústia que marca a invasão por um real insuportável se faz presente, “seja pela abertura que oferece como momento decisivo no modo como a estrutura psíquica se estabelece, seja pela convergência de preocupações que ocorre atualmente em torno das imagens adolescentes” (p. 316).

À maneira de um adendo, o autor introduz casos clínicos na parte que ele, sugestivamente, chamou de “Para não dizer que não falei da clínica”, alusão à famosa canção de protesto de 1968, de Geraldo Vandré, “Para não dizer que não falei das flores”, cujo refrão é

“Vem, vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer”. Que, com a leitura deste livro, o leitor possa aprender e, antes de mais nada, ressignificar sua própria adolescência.
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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