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Resumo
Resenha de Mara Caffé, Crítica à Normalização da Psicanálise, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2014 – (Coleção Clínica Psicanalítica / dirigida por Flavio Carvalho Ferraz), 264 p.


Autor(es)
Danielle Melanie Breyton
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante do grupo O feminino no imaginário cultural contemporâneo, co-organizadora do livro Figuras clínicas do feminino no mal-estar contemporâneo (Escuta).

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 LEITURA

Em busca da sublimação [Crítica à Normalização da Psicanálise]

In search of sublimation
Danielle Melanie Breyton

Resenha de Mara Caffé, Crítica
à Normalização da Psicanálise
, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2014 - (Coleção Clínica Psicanalítica / dirigida por Flavio Carvalho Ferraz), 264 p.

 

Por algum motivo que me escapa à razão, à medida que lia o livro de Mara Caffé, imaginava outros títulos para ele. Não que tenha alguma reticência àquele escolhido pela autora, Crítica à normalização da psicanálise, título forte e fiel ao livro constituído como um conjunto de trabalhos em que Caffé, atenta e crítica às práticas normalizadoras, reflete por diferentes caminhos sobre as condições atuais da psicanálise. Colocando-a em diálogo com autores de outras áreas do conhecimento, como história, filosofia, direito, deslocando-a de seu território clínico clássico (consultório) para pensá-la em contextos institucionais compósitos, pondo seus conceitos à prova frente às novas formas de subjetivação, Caffé força reiteradamente os limites de uma determinada zona de conforto em que percebe assentar-se uma psicanálise que se considera acabada e universalmente coerente. Poderia também dizer acabada ou universalmente coerente.

A cada linha de seu texto, com firme e meticulosa argumentação, Caffé nos incita a perceber e conceber uma psicanálise que não é (bem) acabada, coerente, universalmente válida, neutra, tampouco caduca. Defende a potência da psicanálise pela possibilidade de interrogação que ela porta em si e da qual não deve se furtar. Assim, convoca cada nova geração de analistas a refundá-la em diálogo com o seu próprio tempo e sustentá-la pulsante.

Mas vamos aos outros títulos possíveis. Permito-me a intromissão e apresento o livro também através dos meus títulos.

 

Panorâmicas de Mara Caffé. Tomando a teoria freudiana como eixo, Mara compõe retratos amplos, densos, com muitos elementos em jogo. Cada texto exige do leitor um tempo de elaboração daquele quadro que apresenta, em um mesmo plano, mais estímulos do que cabem em uma mirada. Sentar-se confortavelmente, lápis para grifar e não se acanhar em voltar algumas páginas são condições para a trabalhosa leitura.

A título de exemplo, descreverei uma dessas panorâmicas: "As produções coletivas sobre a histeria". Aqui a autora parte das diferentes perspectivas através das quais Freud aborda o tema da histeria (clínica, produções artísticas, experiências coletivas) apontando para a estreita relação que o fundador da psicanálise fez e necessitou fazer entre o contexto histórico e a constituição subjetiva. O propósito é claro, convocar o leitor psicanalista a atentar para o entrelaçamento entre a teoria e o contexto em que ela se inscreve, desde a sua origem, criando uma trama conceitual que não pode ser tomada como estática e atemporal, mas como uma cartografia sempre provisória.

A partir desse ponto apresenta algumas leituras atuais sobre o tema da histeria. Coloca-se em diálogo crítico com o trabalho de Eliane Showalter, no qual, através da perspectiva histórica, mapeia as máquinas discursivas em ação na sociedade ocidental contemporânea, promotoras e propagadoras da histeria na forma de movimentos de massa, epidemias, sustentadas pela reprodução midiática.

Utiliza-se de autoras como Juliet Mitchell e Regina Neri para indagar o conceito de Édipo que ocupa posição central na abordagem da histeria. Da primeira toma seu questionamento quanto ao enfoque vertical do conceito de Édipo, que deixa à sombra os relacionamentos laterais entre irmãos, colegas, cônjuges, amigos. Na verticalidade apontada está a diferença geracional (pais e filhos), mas também a relação entre mulheres e homens regulada pela supremacia masculina.

Com Regina Néri, Mara acentua uma posição política que pensa os efeitos criadores e não obrigatoriamente patológicos da histeria. Essa leitura propõe a histeria como o despertar de outros destinos para o erotismo da mulher, em que o feminino emerge como uma nova referência no espaço social e abre caminho para uma cultura da diferença.

E para engrossar o coro do Édipo na berlinda se utiliza ainda de Judith Butler que o denuncia como matriz da heterossexualidade compulsória no Ocidente. Por meio dos avanços da autora sobre o tema, o gênero é tomado como uma performance social e não como a expressão de uma identidade com contornos precisos e fixos, assim não se estabiliza de forma definitiva.

Com todas essas referências bem desenvolvidas no texto, o impasse se transforma em uma maneira de situar-se. A argumentação nos conduz a compreender que o Édipo não se sustenta como universal, entretanto ganha flexibilidade e versatilidade se contextualizado em sua origem e reinterpretado em outros termos, favorecendo o reconhecimento de novas formas de subjetivação.

Em meio a tanta teoria, Mara traz ainda um caso clínico, não para abordar alguma questão mais específica, mas como exemplo para pensar outras maneiras de abordar a sexualidade no âmbito das análises.

O fato de Caffé eleger e sublinhar a produção intelectual de tantas mulheres para abordar o tema da histeria certamente não se deve ao acaso.

Como se vê, a apreciação desta, assim como das outras panorâmicas, demanda fôlego!

Um segundo título possível: Por uma psicanálise mais transgressiva

Certamente já reconheceram traços dessa posição aqueles que olham o livro na prateleira da livraria. Mara é explicitamente crítica à normalização da psicanálise. Defende a necessidade de a psicanálise transgredir seus limites, romper uma impermeabilidade mortífera que a confina em um reduto de conservadorismo. O principal autor de referência aqui é Foucault, e o transgressivo não está referido a um campo regulado pela lei da castração, como costuma ser tomado na perspectiva psicanalítica. Para Foucault o transgressivo é aquilo que surge na suspensão da lei e que, no jogo de forças entre dominação e resistência, permite o estabelecimento de outros limites. É dentro dessa perspectiva de transgressivo que o título caberia.

Os recursos de que Caffé se utiliza aqui são muitos. Convida a olhar as contradições e dualidades que marcam o campo e a prática psicanalítica contemporânea, não como problemas a serem eliminados, mas, ao contrário, como aquilo que é mais próprio ao campo. Se há uma essência psicanalítica, Caffé defende ser a própria tensão, com contradições e impasses que são convites ao pensamento, conflito de forças e criação da experiência reflexiva. É pela tensão que o texto freudiano permanece vivo e pode ganhar novas significações.

A autora conta com sua bagagem como perita judicial e como orientadora educacional para refletir sobre a especificidade de diferentes contextos (escola, fórum judicial, hospital, consultório). Trabalha a complexa diferenciação entre o método e a técnica psicanalítica para encontrar rigor e movimento e assim incluir no campo de ação do psicanalista outros settings além da clássica clínica.

Como condição para o trabalho clínico, chama a atenção para a necessária compreensão das relações institucionais em jogo e dos efeitos produzidos pelos entrecruzamentos de diferentes dispositivos.

Agrupar essas práticas dentro da clínica psicanalítica é um ato político. Mais do que possível, Mara reitera que isso é necessário à psicanálise, como aquilo que permite que ela cresça e se desenvolva (intra e extramuros), que ela se questione e se enriqueça conceitualmente, que possa refundar suas práticas levando em conta as estruturas de poder e as condições políticas atuais.

Nomeado o ato político, Caffé nos apresenta, de forma bastante clara, a perspectiva genealógica, como uma instigante maneira de fazer trabalhar a psicanálise, convocando-a a comprometer-se com o campo de forças presente em sua história, da qual emerge e que também propaga. Genealogia que se opõe também à ideia de origem como reduto da verdade e que vem aqui a serviço da autora para incitar-nos a nos livrarmos mais e mais da miragem da psicanálise como teoria universal, isenta de ideologia, imparcial e assim eterna.

 

O último título que me ocorreu, Nas trilhas da sublimação, advém do texto de forma mais sutil. Pergunto-me se ele não seria o título de um próximo trabalho da autora, aqui despontando.

O tema da sublimação ocupa, de forma direta, poucas linhas do livro, como uma lacuna do pensamento psicanalítico, um ponto em que a teoria carece de consistência. Porém, a inquieta procura da autora por esse conceito atravessa as entrelinhas de todos os textos que compõem a coletânea. Conceito que favoreceria o alargamento do campo psicanalítico; a possibilidade de acolher, e mesmo facilitar, a emergência de diferentes modos de subjetivação; a diminuição do sofrimento; a construção de um mundo mais inclusivo e de uma psicanálise permanentemente inovadora.

Caffé se refere e se diferencia, por exemplo, de certo coro psicanalítico que recolhe as formas de subjetivação emergentes na atualidade como um avanço desenfreado da perversão, um declínio das instâncias interditoras, uma patologização indubitavelmente crescente dos modos de viver, uma ameaça ao simbólico. É nessa postura que a autora localiza o perigo de a clínica psicanalítica se tornar um asilo de conservadorismo das reconhecidas formas de subjetivação, evitando o risco de não saber, que implica pensar o novo como possível diferente. Lembra-nos de que a psicanálise não teria sido inventada se Freud não tivesse escutado aquilo que não cabia nas teorias vigentes.

Mas a procura do conceito de sublimação aponta mais adiante, para além da necessidade de atualizarmos a escuta do mal-estar do sujeito presente e dar crédito à interrogação que os sintomas portam. Para a autora, ainda temos mais recursos para pensar aquilo que consideramos sintomático e classificável, mas ainda permanecemos pouco respaldados conceitualmente para acolher e fomentar soluções singulares que demandam lugar na cultura.

É pelas trilhas da sublimação que Caffé espera, ativamente, avançar a psicanálise.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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