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Resumo
Resenha de Sérgio de Gouvêa Franco, Manoel Tosta Berlinck e Karin Hellen Kepler Wondracek, Mandrágoras, clínica psicanalítica: Freud e Winnicott, São Paulo, Primavera Editorial, 2014, 176 p.


Autor(es)
Bárbara de Souza Conte Conte

é psicanalista; membro pleno da Sigmund Freud Associação Psicanalítica; coordenadora do Projeto sig/Clínicas do Testemunho da Comissão de Anistia/Ministério da Justiça membro da Comissão de Direitos Humanos e do Coletivo ampliado do Conselho Federal de Psicologia.




Notas

1.     A. Karin Wondracek e Ditmar Junge traduziram o livro organizado por Ernst Freud e Heinrich Meng, Cartas entre Freud e Ffister (1909-1939): um diálogo entre a psicanálise e a fé cristã, Viçosa, Ultimato, 1998.


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 LEITURA

A realidade e a criação nos pacientes ditos difíceis [Mandrágoras, clínica psicanalítica: Freud e Winnicott]

Reality and creation in difficult patients
Bárbara de Souza Conte Conte

Resenha de Sérgio de Gouvêa Franco, Manoel Tosta Berlinck e Karin Hellen Kepler Wondracek, Mandrágoras, clínica psicanalítica: Freud e Winnicott, São Paulo, Primavera Editorial, 2014, 176 p.

 

Apreciei muitas coisas - a companhia
de minha mulher, de meus filhos, o pôr do sol.
Observei as plantas crescerem na primavera.
De vez em quando tive uma mão amiga para apertar.
Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?

[S. Freud]

 

Mandrágoras, clínica psicanalítica: Freud e Winnicott, desde seu título, já nos remete às origens. O nome mandrágoras tem a dupla inscrição de propriedades de uma planta e da Gênesis, do afrodisíaco e da fertilidade. O afrodisíaco é o que inspira o apetite sexual. A fertilidade é a reprodução colocada na perspectiva da criação do ser. Sexualidade e criação, campo oportuno para se pensar a psicanálise e a clínica psicanalítica. Os autores Freud e Winnicott. O primeiro, fundador da psicanálise e da concepção de sexualidade como eixo fundante do sujeito; o segundo, em outro tempo, agrega a criatividade ao campo da clínica e da teoria psicanalítica. Temos no título a referência à origem da psicanálise com Freud e de seu desdobramento criativo a partir de Winnicott. Já os autores do livro, Sérgio de Gouvêa Franco, Manoel Tosta Berlinck e Karin Hellen Kepler Wondracek, vão como que passando a limpo o percurso de suas trajetórias como psicanalistas: seus amores teóricos, os temas da clínica contemporânea, as parcerias de interlocução com a filosofia, tudo aquilo que é fundamental para que um psicanalista continue se interrogando com base na escuta de seus pacientes, na troca com seus pares, que dá origem a novas articulações entre teoria e prática.

 

O livro, que desde seu título faz referência à sexualidade e à criação, tem como fio condutor a realidade. Realidade que em Freud se centra na perda do objeto quando ele considera duas alternativas: a aceitação da realidade quando da perda do objeto e a da falta do objeto para que novo objeto seja investido. Freud marca isto muito claramente nos textos Introdução ao narcisismo (1914) e Luto e melancolia (1915): há escolhas de objetos que se fazem por um modelo do idêntico/idealizado e outras que se realizam mediante a aceitação do limite que a perda impõe: a falta. O critério de realidade impõe uma transformação no sistema de ideais (o sujeito não é perfeito; o objeto não é idealizado) e possibilita a substituição do objeto desejado como uma saída psíquica, uma via simbólica que marca o reinvestimento em algum outro objeto possível. A falta sempre vai instaurar o limite do não ter e a possibilidade de substituição do objeto, de objetos substitutos. Esta também organiza a dialética do desejo, uma vez que o objeto de desejo (da completude ideal) nunca é alcançado, o objeto será um substituto e o reencontro um novo encontro. Os caminhos da aceitação da realidade, das possibilidades criativas de substituição do objeto ou de cisão do psiquismo constituem o eixo de Mandrágoras, clínica psicanalítica: Freud e Winnicott.

 

O livro começa com "Freud e o caso AB: entre a esperança e a ruína". Wondracek e Gouvêa Franco, ao bom estilo freudiano, trocaram cartas e dessa correspondência surge a discussão do caso AB, paciente americano que Freud tratou e discutiu com Pfister[1]. Questionava Freud a fronteira entre a neurose e a demência paranoide (a psicose, diríamos hoje) introduzindo o fetiche como o elemento clínico/teórico que o fazia pensar na resistência à renúncia pulsional. A obturação da falta e do reconhecimento da diferença sexual que introduzem a cisão. Tema fundante para os diagnósticos que estão na fronteira da neurose e da psicose, bem como do método.

 

Freud relutava em tomar AB como seu paciente, talvez porque o tema o tocasse em cheio: a morte. Já estava com câncer e havia perdido seu neto, mas também porque temia a dificuldade que estava por vir frente ao atendimento que iniciava. Desde 1924, conceitos como a pulsão de morte, a cisão e o fetiche já rondavam a cena psicanalítica e propiciavam uma abertura para pensar a respeito dos pacientes difíceis (mesmo sabendo que todos o são), inclusive quanto ao método. O livro traz um caminho de investigação atual de nossa clínica: o desamparo, a dilaceração, a cisão de um psiquismo que não apresenta recursos simbólicos, e as repercussões na clínica da atualidade.

 

A partir da discussão do caso AB, Gouvêa Franco desenvolve cinco artigos que entretecem a sexualidade, o corpo, a realidade e a transferência. Em "Erotismo, sexualidade e religião: um enfoque psicanalítico", o autor mostra, com base na tese de Feuerbach, que a religião é uma construção humana que pode conduzir à neurose tal como descrito no texto freudiano, de 1907, "Atos obsessivos e práticas religiosas". O autor discorre, de forma cuidadosa na leitura do texto, a respeito de o humano tanto ser capaz de religião como de neurose, e que os fatores de mobilidade e fixação da sexualidade e das fantasias e, consequentemente, a culpa e a punição se instalam e que os atos obsessivos passam a ser um correlato patológico da formação de uma religião e de sua prática. Em contrapartida, a construção de uma erótica passa a ser o encontro da condição sublimatória e da vivência do prazer. A partir desse ponto o autor discute a cisão como interdição e como transgressão ao mesmo tempo. Com esse capítulo, também faz a ponte com os trabalhos de Winnicott, quando diz que Freud associou a religião à neurose obsessiva e que o futuro poderia ser pensado em termos de atos criativos.

 

Ainda nos quatro capítulos seguintes da primeira parte, destaco o belo "Caso Nancy: a dor saindo pela pele", em que Gouvêa Franco coloca novamente o embate do método - cadeira ou divã - como expressão da angústia da paciente, angústia calada de estar perdida. O grito silencioso que aparece no corpo - com a psoríase - e no setting, por meio do silêncio e de uma demanda de ilusão/desilusão amorosa em relação ao analista, evoca as falhas de estruturação do eu. O autor vale-se do conceito de eu-pele de Anzieu e de Fedida quando aborda a especificidade da transferência, em que o esvaziamento do paciente o faz grudar no analista.

 

Nos próximos capítulos: "A realidade na neurose, na perversão e na psicose: uma leitura de Freud", "A transferência na histeria: um estudo no caso Dora em Freud" e "Uma leitura de recordar, repetir e elaborar", o tema da realidade é discutido. Gouvêa Franco parte de eixos referentes ao processo primário, ao princípio de realidade, à escolha de objeto e ao problema econômico de intensidade para explorar o tema da cisão do ego, como forma de resolver o conflito e como alternativa do psiquismo frente ao fracasso do recalque. O autor evoca Ricouer quando diz que a realidade reside na relação com o outro, não somente com um outro corpo como fonte exterior de prazer, mas como um outro desejo e destino da espécie. Assim também introduz a criação, como uma realidade que faça o sujeito sofrer menos: "o melhor é ao mesmo tempo aceitar e rejeitar a realidade, acolhê-la e transformá-la (p.91)... trata-se de engajamento real, em que os dois polos se transformam - sujeito e realidade [...] a realidade conforma-se parcialmente ao desejo. O sujeito conforma-se parcialmente à realidade" (p.92). Nos dois últimos textos da primeira parte, aborda a questão da transferência como repetição e elaboração, e, com base no caso Dora, utiliza-se dos conceitos teóricos desenvolvidos para revisitar a clínica e o método.

 

Na parte dois, dedicada aos textos de Winnicott, o de abertura é de Gouvêa Franco em conjunto com Berlinck e trata da "Psicopatologia e o viver criativo". Os autores inicialmente estabelecem o conceito de falha como planos de clivagem que coloca o humano na condição de desamparo, de fragilidade e dependência constitutiva, uma psicopatologia fundamental. Destacam dessa premissa a vida criativa, conceito de Winnicott, como uma forma de superação da condição de desamparo e dependência, associando a criatividade à noção de existência e a uma forma de desfrutar a experiência de estar vivo e estar só. A essas noções se contrapõe a submissão, entendida como um eu falso, o falso self. Os autores delimitam os planos de clivagem entre o verdadeiro e o falso self, marcando a psicopatologia que decorre desse splitting e o distanciamento da capacidade criativa, que fica substituída por ilusões onipotentes, alucinações e a construção de uma realidade não compartilhada socialmente.

 

Assim se introduz o segundo capítulo dessa segunda parte que trata justamente de "O brincar e a experiência analítica". O espaço criativo, tanto do lado da mãe que brinca, como do analista que permite a experiência da criação, pode produzir um encontro analista-paciente, que proporciona ao paciente a fundação de si, o encontro de si mesmo - o self verdadeiro.

 

Nessa perspectiva do espaço criativo winnicottiano, Gouvêa Franco desenvolve o capítulo "A criatividade na clínica psicanalítica", abordando ponto e contraponto da criação e da clivagem que buscam no fazer criativo da clínica "um esforço paciente, frequentemente silencioso do analista para recuperar ao menos em parte essa capacidade de o paciente impregnar sua vida com um toque próprio"(p.159). Abordagem importante de Gouvêa Franco ao reafirmar o lugar do analista como aquele que se coloca em abstinência, que é capaz de se pôr em um lugar de escuta para que a imaginação e a capacidade simbólica se estabeleçam na fenda da clivagem.

 

E assim chegamos ao final do livro, com o capítulo "O atendimento de pacientes difíceis", em que a experiência de Winnicott e de Gouvêa Franco com pacientes graves enfatiza a relação entre o falso self e pacientes difíceis como uma forma de proteção do paciente diante de seu aniquilamento, decorrência do desamparo.

 

Assim, ao longo do livro vamos percorrendo um texto também freudiano que representa uma abertura para pensar nossa clínica contemporânea: a inter-relação da cisão, da falha, e do fetiche com a produção da psicopatologia de nossa cultura marcada pela (re)negação do desamparo, da diferença, e da fundamental prioridade do outro. A contribuição de Winnicott se evidencia quando o outro é colocado como aquele que, por sua presença e sexualidade, instaura a possibilidade de um espaço criativo, verdadeiro: o campo do transicional.

 

Este é um ponto a destacar do pensamento de Winnicott, que se recusa a fechar a questão do interno e do externo como polos excludentes entre si e marca o limite não como uma linha que separa dois campos (o interno e o externo), mas entende o limite como o próprio território - espaço onde se produzem fenômenos transicionais, ou seja, fenômenos de criação. O espaço em questão é um espaço de compromisso que combina característica do interno e do externo, como produção de símbolo: espaço possível de criação e de invenção que leva em conta o objeto faltante.

 

Assim é o trabalho desse criativo livro que traz como marca dos autores os seus amores teóricos da psicanálise e da filosofia; nele articulam com consistência os argumentos de cada capítulo e percorrem os textos na busca de aberturas para a clínica, assim como uma análise busca nas bordas do corpo, no silêncio da fala e na ruptura com a realidade o acesso ao simbólico. Retribuo, já na posição do outro que recebe, as palavras de Gouvêa Franco que diz entregar esse livro com o encantamento que a paixão instiga e com o rigor que a inteligência demanda, afirmando o prazer das descobertas que ele provoca.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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