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Resumo
Resenha de Marion Minerbo, Neurose e não neurose, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2009, 470 p. Coleção Clínica Psicanalítica.


Autor(es)
Nelson Ernesto Coelho Jr.
é psicanalista, doutor em Psicologia Clínica (PUCSP) e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor, entre outros livros, de A Força da Realidade na Clínica Freudiana e Dimensões da intersubjetividade (organizado em conjunto com Perla Klatau e Pedro Salem).


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 LEITURA

Psicopatologia psicanalítica: entre a grande angular e o retrato fechado de um rosto

Psychoanalytical psychopathology
Nelson Ernesto Coelho Jr.

O desafio a que se propõe Marion Minerbo no livro Neurose e Não neurose é de grandes dimensões. Trata-se de um estudo que tem como foco a psicopatologia psicanalítica, mas que, para torná- lo nítido, recorre largamente à metapsicologia e à clínica psicanalíticas. O livro, de fato, tem como maior virtude um equilíbrio dinâmico entre a grande angular das construções teóricas e dos quadros psicopatológicos e o foco preciso do retrato fechado de um rosto, o “retrato psíquico”, como afirma a autora (p. 38). Apresenta, simultaneamente, os enquadres gerais e, por assim dizer, universais que organizam o pensamento psicanalítico e os detalhes singulares de várias situações clínicas que marcam o cotidiano de um analista. Com isso, procura revalorizar a ideia de estruturas psíquicas, mas sem perder de vista a importância dos modos singulares de funcionamento psíquico. Não há o retorno à ideia de estruturas fechadas, comum tanto na rígida nosologia psiquiátrica quanto em algumas abordagens psicanalíticas, mas sim a necessária valorização das organizações psicopatológicas e das regularidades reencontradas em diferentes casos clínicos. Mais do que isso, reconhecendo a importância dos autores em psicanálise que souberam valorizar o caráter processual do psiquismo, Minerbo afirma que as duas diferentes estruturas propostas, neurose e não neurose, podem conviver como núcleos específicos em um mesmo sujeito.

O livro tem um claro compromisso com a clínica, ou, como a autora sugere, “foi inteiramente escrito a partir da clínica” (p. 17). Não se trata de mais um trabalho que procura organizar a psicopatologia por meio de uma compreensão psicanalítica. É um estudo teórico minucioso que nasceu de exigências da clínica e que para a clínica retorna, por meio de sua contribuição para um melhor entendimento do trabalho psicanalítico cotidiano. E esse é um ponto importante, já que o olhar que procura organizar através de estruturas a compreensão psicopatológica e sua relação com as teorias em momento algum perde seu ponto de partida, ou seja, o sofrimento singular que está na origem de cada um dos momentos do trabalho clínico.

O leitor se verá diante de um projeto ousado. Sob um ângulo, Marion Minerbo procura organizar as distinções entre neurose e não neurose, a partir de um conjunto amplo de teorizações psicanalíticas e, mais detidamente, procura desvendar as marcas das não neuroses. Sob outro ângulo, o que vemos aparecer é uma concepção rigorosa e elaborada da transmissão tanto do conhecimento teórico quanto do conhecimento que tem origem na experiência clínica. A autora, em seu trabalho de formação de psicanalistas, reconheceu que, por si só, o estudo dos grandes autores da história da psicanálise, ao lado do desenvolvimento do trabalho clínico, não garantia a desejável integração entre a diversidade de ideias teóricas e a variedade de formas de sofrimento psíquico presentes na prática clínica. Foi o reconhecimento da falta de um elemento, a psicopatologia, que motivou a proposição do curso “Psicopatologia Psicanalítica” na grade de formação da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, curso que está na origem da elaboração da obra publicada. Assim, cabe afirmar que o núcleo do livro é mesmo uma visão psicanalítica da psicopatologia, mas mais do que isso, a psicopatologia é central na medida em que faz “a necessária mediação entre a clínica e a metapsicologia” (p. 14). Esta ideia precisa ser valorizada. Há aqui o reconhecimento de que é necessário um elemento mediador entre o que há de singular nas experiências clínicas e o que há de universal nas elaborações metapsicológicas. Com isso, Minerbo sugere que a compreensão psicopatológica deve trazer em si um pouco do desejo generalizante da grande angular metapsicológica, ao lado do reconhecimento da singularidade do retrato psíquico de um sujeito: “A teoria psicopatológica tem duas faces: uma voltada para a clínica, isto é, para a apreensão do universo subjetivo do analisando; outra, voltada para a metapsicologia, o que nos permite compreender como seu psiquismo cria aquele universo subjetivo singular em que ele se move” (p. 39).

Apoiada em uma sólida apresentação da metapsicologia freudiana, Marion Minerbo articula uma visão bastante atual do cenário teórico da psicanálise e dos avanços da clínica. Na apresentação do trabalho de diversos autores da psicanálise emerge uma outra grande virtude deste livro: a clareza com que a autora expõe os mais complexos aspectos teóricos e da clínica psicanalítica sem, no entanto, desrespeitar as exigências próprias da rede conceitual na qual se apoia. Não há simplificações apressadas, mas também não encontramos o árido campo dos textos fechados e ilegíveis em que predominam jargões em vez de ideias, infelizmente tão comuns no cenário psicanalítico atual. Contrastando os aspectos constitutivos e funcionais do psiquismo nas neuroses e nas não neuroses, Marion Minerbo elabora uma apresentação dos diferentes planos por onde transitam as construções e interrogações propriamente psicanalíticas do mundo psíquico.

De forma harmônica e muito elucidativa são intercalados exemplos clínicos e apresentações teóricas nas três partes que compõem o livro. A primeira parte, com cinco capítulos, é voltada para a elucidação clínica e conceitual das neuroses e das não neuroses. As estruturas neuróticas e não neuróticas são definidas como as duas grandes formas de subjetividade e de sofrimento psíquico estudadas pela psicanálise. A autora acompanha, assim, a classificação sugerida por André Green. O psicanalista francês reúne sob o título de não neuroses várias formas de adoecimento psíquico marcadas por um elemento comum, ou seja, as falhas presentes na constituição do Eu. Para Green, são considerados quadros não neuróticos os estados-limite, as psicoses brancas, as patologias do vazio e os distúrbios narcísicoidentitários, entre outros. É uma tentativa de incluir, em um só grupo, diferentes manifestações clínicas, que vão dos quadros depressivos às compulsões e adições. Para ele, há uma clara insuficiência no pensamento freudiano quanto à metapsicologia e à clínica das estruturas não neuróticas. As teorizações que se seguiram à de Freud não produziram unanimidade no campo. Trata-se, portanto, de construir uma nova teoria a partir da experiência clínica imposta pelos novos quadros psicopatológicos. Green procurou elaborar uma proposta teórica (uma metapsicologia dos limites) que pudesse fornecer a base para o trabalho com pacientes ditos não neuróticos. De início, sugere a complementação da teoria pulsional freudiana pela teoria de relações de objeto, principalmente a partir do legado Winnicottiano. Tratava-se de afirmar a inseparabilidade do par pulsão-objeto para compreender a constituição e o funcionamento psíquicos. No entanto, mais recentemente, Green propôs a “teoria dos gradientes”. Sem abandonar a pulsão e o objeto como par inseparável, Green passa a reconhecer um limite na aproximação entre as teorias que enfatizam o “polo subjetal” e as que enfatizam o “polo objetal”, considerando a utilização dessas teorias de modo alternado sem a obrigatoriedade de uma articulação. Com a teoria dos gradientes Green procura preservar as incongruências entre as teorias, propondo que cada uma pode ser útil para explicar certos fenômenos, ainda que haja entre elas diferenças incontornáveis. Green caminha, assim, de uma busca de complementaridade para a aceitação de que é mais produtivo trabalhar com a suplementação de polos, aspecto que parece também marcar as formulações de Marion Minerbo.

Para desenvolver as proposições da primeira parte do livro, a autora se beneficia da leitura e da discussão de dois manuais de psicopatologia psicanalítica publicados na última década, o de P. Juignet (Manuel de psychopathologie psychanalytique, 2001) e o de R. Roussillon (Manuel de psychologie e de psychopathologie clinique générale, 2007). Uma das marcas centrais do trabalho desses dois autores é a liberdade frente à pluralidade e complexidade das diferentes escolas psicanalíticas, o que faz com que possam ser considerados psicanalistas da era pós-escolas. Minerbo compartilha dessa característica, ou seja, busca transitar entre os mais diversos autores do cenário psicanalítico, sem sectarismos. Isso não implica qualquer forma de ecletismo, ao contrário. A partir do legado freudiano, a autora busca viabilizar um diálogo que respeite as diferentes concepções, sem simplificações ou formas apressadas de síntese teórica. Essa primeira parte do livro termina com o belo ensaio “Neurose e não neurose: da clínica à teoria”, em que o material clínico é fornecido por duas personagens do filme de Eric Zonka, “A vida sonhada dos anjos”. O recurso a “pacientes” ficcionais, várias vezes utilizado no livro, traz muitos benefícios à discussão e transmissão das figuras da psicopatologia psicanalítica. São “pacientes” singulares, mas que ao mesmo tempo trazem em si algo de universal. Além disso, há o modo de compartilhamento mais direto com o leitor (que pode ver e rever filmes, por exemplo, acompanhando as proposições teóricas da autora), trazendo claras vantagens didáticas e éticas.

A segunda parte, “Não neurose: prospecções”, também com cinco capítulos, dirige-se exclusivamente ao estudo das não neuroses em suas diferentes dimensões. O ponto de partida é novamente o cinema, agora com dois personagens não neuróticos, um do filme “O império dos sentidos” e outro do filme “Flores partidas”. Em ambos, a autora procura rastrear os destinos do encontro com o objeto em “pacientes” com grande fragilização na constituição do Eu. Ainda nessa segunda parte surgem novas incursões pelo cinema, na busca por explicitar formas de ódio e raiva predominantes na experiência de pacientes não neuróticos. Reencontramos várias figuras de nosso cotidiano clínico por meio das delicadas exposições de Marion Minerbo. Mais uma vez, nesses capítulos, podemos nos beneficiar da força de transmissão que marca a escrita psicanalítica da autora.

A terceira e última parte, com três capítulos, articula a experiência da não neurose com elementos da cultura contemporânea. É em torno da constatação da fragilidade do símbolo no mundo contemporâneo que esta última parte se desenvolve. Alguns fenômenos sociais, entre eles o sexo virtual e os reality shows, são analisados a partir do referencial teórico e clínico apresentado nas duas primeiras partes. O leitor deparará com uma singular investigação das tênues fronteiras que ligam e separam representação e realidade no mundo contemporâneo.

Marion Minerbo defende uma posição clara no que diz respeito à articulação da psicanálise com a cultura. Critica as posições que concebem a psicanálise em sua dimensão estritamente clínica que, em última instância, acabam por supor um inconsciente que possui apenas o limite da individualidade do sujeito. Critica também uma psicanálise que recorre a uma aliança extrema com a sociologia, para explicar como um comportamento culturalmente determinado pode se transformar em sintoma. A partir dessas críticas, afirma que “precisamos de uma psicanálise que veja a psique como matriz simbólica e, nesse sentido, como parte integrante da ordem simbólica de determinada época e lugar” (p. 294).

Mais uma vez, nessa articulação entre psicanálise e cultura, vemos operar o modo predominante de análise da autora: suspeitar dos dualismos simplistas, que opõem formas teóricas no interior da psicanálise e apostar na complexidade e riqueza das proposições de uma era pós-escolas. Que o leitor aproveite!

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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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