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Resumo
Em conferência realizada em 2005, Silvia Bleichmar interroga as teorias sexuais presentes na psicanálise diante das transformações que ocorreram na sexualidade nos últimos 100 anos. Propõe, como ponto de partida, a diferença entre produção da subjetividade e constituição do psiquismo para proceder à revisão dessas teorias. Os conceitos de sexualidade infantil, polimorfismo perverso, perversão, identidade e gênero, sexualidade masculina e homossexualidade são revistos e trabalhados, como também os complexos de Édipo e castração.


Palavras-chave
teoria da sexualidade; sexualidade infantil; perversão; complexo de Édipo; castração


Autor(es)
Silvia Bleichmar


Referências bibliográficas

1.     Nesta conferência a autora aborda temas que são desenvolvidos em maior profundidade principalmente em dois de seus livros: Paradojas de la sexualidade masculina, Buenos Aires, Paidós, 2007, e no recentemente publicado Las teorias sexuales en psicoanálisis: que permanece de ellas en la practica actual, Buenos Aires, Paidós, 2014. O debate que sucedeu a conferência pode ser acessado no site da revista: <http://revistapercurso.uol.com.br>.





Abstract
At a conference held in 2005, Silvia Bleichmar questions the present sexual theories in psychoanalysis on the transformations occurred in sexuality along the last 100 years. Proposes, as a starting point, the difference between production of subjectivity and constitution of the psyche in order to revise these theories. The concepts of infantile sexuality, perverse polymorphism, perversion, identity and gender, male sexuality and homosexuality are reviewed and processed, as well as the Oedipus complex and castration.


Keywords
theory of sexuality; child sexuality; perversion; Oedipus complex; castration

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 TEXTO

O que resta de nossas teorias sexuais infantis?

What remains of our infantile sexual theories?
Silvia Bleichmar

Boa noite. Sei que, para nos reunirmos num espaço de trabalho essa noite, é um sacrifício deixarmos tudo: a família, os jantares, os filhos... Quero agradecer-lhes, em primeiro lugar, por estarem aqui e lhes prometer que iremos funcionar da melhor forma possível para que não sintam que, além de deixarem tudo, ainda tenham vindo para ouvir coisas repetidas, monótonas e aborrecidas. Comprometo-me a fazer o melhor possível.

 

Por que escolhi o título "O que resta de nossas teorias sexuais infantis"? Brincando um pouco com a ideia de Laplanche de que as teorias sexuais são de Freud e de Hans, quero dizer que as teorias sexuais a partir das quais os analistas pensaram a sexualidade infantil são também as das crianças que passaram por seus consultórios ou que realizaram as consultas.

 

Produção da subjetividade e constituição do psiquismo

Um dos problemas que temos é que os modos de exercício de sexualidade mudaram depois de um século. Se pensarmos que este ano se completam cem anos dos Três ensaios, dar-nos-emos conta das mudanças que se produziram na sexualidade a partir de então. Percebi isso já há vários anos, quando, um dia, atendendo uma menina que não queria ir à escola, eu interpretei que era porque os pais ficavam juntos quando ela saía, e ela me retrucou: "Não, mamãe e papai fazem amor à noite". Em outra ocasião, aconteceu-me de interpretar as fantasias sexuais do intercâmbio entre os pais para um menino, que me disse: "Não, Silvia, ela toma pílula". Freud não conhecia, nem em sua época havia, a quantidade de crianças adotivas que temos, diante de quem nos perguntamos como interpretar a cena primária como engendramento de irmãos, já que elas sabem perfeitamente que seus pais não podem ter filhos biológicos. De forma que muitas dessas questões foram se colocando desde a nossa prática. Junto com isso, há vários anos, fiz uma descoberta brutal. Numa sessão com um menino que brincava com soldadinhos que se espetavam uns aos outros pelo traseiro, interpretei uma fantasia homossexual e ele gritou, muito indignado, que eu não entendia nada. Dei-me conta, depois de um tempo, de que, na realidade, essa brincadeira era uma tentativa de masculinização através de um fantasma homossexual.

 

De maneira que todas essas coisas foram dando voltas em minha cabeça e foram, cada vez mais, colocando a questão de como sair do impasse em que a psicanálise nos colocava, como se fôssemos os guardiões da moral e dos bons costumes do século XX.

 

Haveria duas possibilidades: ou revisaríamos nossas teorias sexuais ou nos converteríamos em oportunistas politicamente corretos para dar uma explicação à homossexualidade, ao transexualismo e a todas as novas práticas que aparecem.

 

De modo que tudo foi se encaminhando para uma revisão. Vocês sabem que já faz bastante tempo que decidi diferenciar a produção de subjetividade da constituição do psiquismo. Essa é uma conceitualização importante para mim.

 

A produção de subjetividade é histórica, política e social. Relaciona-se com o que se tem chamado de "socialização das crianças". A produção de subjetividade, por exemplo, em Atenas, em Esparta, na época de Freud, alude aos modos pelos quais os sistemas de representações estão instituídos para que os sujeitos possam se incluir na sociedade em que têm que viver. Isso é produção de subjetividade, que, obviamente, está atravessada por uma teoria do sujeito que não é a do sujeito do inconsciente, mas a do sujeito histórico. E as práticas sexuais estão atravessadas pelos modos de socialização da produção de subjetividade de cada época. Por exemplo, para a cultura grega, a iniciação dos jovens, que teriam que se converter em homens, passava por uma iniciação homossexual. Aos quatorze, quinze, dezesseis anos, o menino era raptado por um grupo de homens que o ensinava a caçar e que o iniciava na sexualidade na prática, não somente na teoria. Depois desse período de rapto e de iniciação, presenteavam-no com armas e com um dote para que pudesse se casar. A ninguém ocorria que o menino poderia se tornar homossexual depois de passar por essa experiência. Era uma forma de masculinização. Essa era a característica da produção de subjetividade na Grécia, nessa época.

 

Do mesmo modo, a produção de subjetividade na época de Freud estava muito relacionada com o ocultamento da sexualidade do adulto, enquanto, em nossa época, toda a produção de subjetividade se caracteriza pelo excesso de sexualidade em que a criança está imersa desde o nascimento. Ou seja, as crianças recebem permanentemente não somente informações, mas imagens que produzem uma sexualização precoce em termos genitais. Hoje, a ninguém ocorreria que uma criança tenha que ir à zona rural para ver os touros e as vacas para saber que existem as relações sexuais. Ao contrário, quando as crianças vão à fazenda dizem: "Ah, as vacas e os touros fazem como os homens e as mulheres!". A ninguém ocorreria que as crianças têm que fazer uma passagem do mundo animal ao mundo humano, é o contrário.

 

Isso tem, por um lado, a ver com a produção de subjetividade e, por outro, com a constituição psíquica, dando a possibilidade de pensar se a psicanálise é ou não ciência, na medida em que a ciência se caracteriza não pelas variações históricas, mas pelas transformações de suas próprias teorias na base de seus próprios descobrimentos.

 

Por isso a pergunta que nos fazemos é: Que núcleo de cientificidade têm as teorias freudianas da sexualidade um século depois de haverem sido formuladas? Até onde são aplicáveis para o conjunto da humanidade?

 

Poderíamos dizer que, quando um momento histórico ou uma cultura põem em risco um enunciado, isso indica que aí há algo que estava falseado desde o começo, ou seja, algo não funcionava desde o início. Não é que os seres humanos tenham mudado, mas os enunciados têm um limite. Isso é um pouco do que, hoje, vou submeter à revisão com vocês.

 

Sexualidade ampliada

Há três eixos fundamentais nas teorias freudianas da sexualidade, que recebemos ao longo do tempo. Em primeiro lugar, o conceito de sexualidade infantil, que acredito ter sido nivelado, banalizado e empobrecido ao se considerar que a descoberta freudiana tem a ver com a descoberta da genitalidade das crianças. Este não é o ponto central da preocupação de Freud, mas sim a descoberta daquilo que, sendo da ordem da sexualidade ampliada, não é redutível à genitalidade.

 

A descoberta freudiana é de que há sexualidade na sucção, na relação com as fezes, já há sexualidade muito antes da genitalidade. Talvez um dos pensadores que mais importância deu a isso foi Melanie Klein, que pôs no centro da sua problemática aquilo que na época se chamou de pré-genital, e que, a partir de algumas questões que proporei, poderíamos chamar da ordem do paragenital, seguindo Laplanche.

 

Vamos definir o que quer dizer o conceito de sexualidade ampliada em Freud. Ele implica a presença de um plus de prazer que não pode ser reduzido à autoconservação, atravessando, justamente, tudo o que foi chamado de funções. Aí entra a oralidade, que se introduz na nutrição ou na alimentação, por exemplo. Aí entra a analidade, que se introduz nas funções excretórias. Conservar certos conceitos não implica simplesmente aferrar-se a eles dogmaticamente, mas considerar que têm uma ordem de realidade que outras palavras não recobrem. Por que me recuso a falar de transtornos da alimentação, tão em moda agora? Porque, hoje, isso seria como falar, na época de Freud, em transtornos da marcha a respeito das histéricas. Ou seja, o que se põe no centro é a função alimentar e não a psíquica, que tem uma causalidade psíquica que a determina.

 

Voltando ao conceito de sexualidade ampliada, é inegável que ele alude à possibilidade de um atravessamento daquilo que é da ordem vital por meio das formas com as quais a sexualidade introduz linhas que rompem com a adaptação biológica. Isso é muito interessante, porque diz respeito também a uma diferença entre informação e conhecimento. A insuficiência da informação faz com que os seres humanos tenham que produzir conhecimentos. Uma criança, ao nascer, morreria, se tivesse que aprender a viver. Não há tentativa e erro para aprender a viver. Morreria na primeira fase. Ou seja, há uma antecedência do outro que possibilita que se sobreviva.

 

Primeiramente, vamos ver o conceito de sexualidade ampliada. Qual é o problema que este conceito apresenta? Ele ficou reduzido aos períodos anteriores à genitalidade, falando-se, por isso, em pré-genital. Em realidade, não é parte da genitalidade, como pensava Freud, já que lhe escapa permanentemente.

 

Há, em Freud, a ilusão de um encontro com os instintos onde, em algum momento, a sexualidade se colocaria a serviço da reprodução. Essa ideia da sexualidade a serviço da reprodução, reunindo-se na genitalidade, faz com que todos os estágios prévios fiquem colocados como pré-genitais. Sem dúvida, sabemos perfeitamente da importância da sexualidade ampliada paragenital no gozo dos seres humanos, e não somente nas relações sexuais com os outros, com o semelhante.

 

A oralidade e a analidade não são redutíveis e integráveis, mas continuam sendo, de algum modo, sexualidades válidas, apesar de não serem dominantes. Eis o problema: quando são dominantes, estamos diante de algo que deve ser repensado. Freud havia falado da ordem da perversão e eu quero colocar em debate esse conceito.

 

Inicialmente, pois, o conceito de sexualidade infantil é definido como pré-genital. Além disso, poderíamos dizer que nos Três ensaios temos um problema sério. Vocês sabem que os Três ensaios são contemporâneos ao Caso Dora, em 1905. Correspondem ao momento em que se começa a produzir o endogenismo na obra freudiana, com o abandono por Freud da Teoria Traumática. Ou seja, aparece hesitantemente, mas de todo modo como linha dominante, algo como um apoio da sexualidade na função, enquanto, na metapsicologia, o conceito de apoio será dual: haverá o apoio no objeto e o apoio no somático. Mas não será somente um apoio no somático, cujo problema é gerar a ilusão de que, quando algo da ordem do sexual não se constituiu, é porque houve uma falha endógena.

 

Esse é o problema da teoria endogenista, que se converte em determinação absoluta e intransformável, na qual se substitui a determinação da biologia psiquiátrica pela pulsional, tautologicamente operando na psicanálise. Algo parecido ocorre com o conceito de estrutura. Vocês sabem que no estruturalismo também acontece o mesmo, no sentido de que, se algo não se produziu, é porque não estava na estrutura, tornando a estrutura destino, tal como o foram os estágios na época freudiana.

 

Polimorfismo perverso,
identidade e gênero

Vejamos, agora, o segundo conceito: polimorfismo perverso. Conceito extraordinário, que alude ao polimorfismo do gozo, do prazer de órgão. O conceito de polimorfismo perverso tem a virtude de democratizar a perversão, assim como o Édipo teve a de democratizar o fantasma do incesto. O que todos sonham, reis ou plebeus, é que todos temos Édipo. A partir do Édipo, não é necessário ser filho de rei para se ter Édipo. O polimorfismo perverso alude à potencialidade perversa do sujeito. E é muito interessante quando Freud diz que essa potencialidade pode ser plasmada como perversão, tendo como base certos acidentes na vida, ou seja, não se dá por endogenismo.

 

Mas aonde quero chegar? A ideia de polimorfismo perverso trouxe um problema relacionado a uma oscilação na teoria freudiana. Freud, por um lado, vai dizer que a metamorfose da puberdade, quando se produz a escolha genital de objeto, de alguma maneira termina por constituir a identidade sexual. Mas, ao mesmo tempo, diz que a homossexualidade não seria uma alma de mulher em corpo de homem, o que seria insustentável pela ideia de que a escolha de objeto decide a identidade sexual. Contradição que ele mesmo percebe, quando marca a distinção entre diferença e diversidade para indicar como há diversidades anteriores à diferença anatômica, a diversidade marcando os traços de gênero.

 

O resultado desse problema que apontamos é que, na psicanálise de crianças, muitos psicanalistas confundiram severos transtornos de identidade sexual com um atraso na definição, sem entender que o gênero é sempre anterior ao reconhecimento da diferença anatômica. Uma criança sabe que é menino ou menina sem que isso implique ter pênis ou vagina. Ser menino ou menina está dado pelos traços da diversidade, e em seguida a diferença anatômica se articula. Por isso, se um menino apresenta travestismo infantil não é porque está atrasado em assumir a identidade masculina, mas porque há um translocamento da identidade de gênero que não necessariamente implica que tenha chegado à escolha de objeto. Precisamente, a grande descoberta da psicanálise é a ruptura da relação entre identidade e escolha de objeto, sendo que a identidade é da ordem do ego e a escolha de objeto está relacionada com as marcas dos objetos primários na recomposição identitária da diferença anatômica.

 

Assim, identidade e gênero se constituem simultaneamente com o polimorfismo perverso e antecedem o reconhecimento da diferença anatômica. Por isso, não se inscreve no superego, mas sim no ego, compondo os seus elementos constitutivos. Ser homem ou mulher diz respeito ao ego, salvo nos casos de transexualismo, sobre o que falarei em algum momento. É muito interessante pensar até que ponto os casos de transexualismo podem ser considerados efeito dos modelos clássicos da defesa ou aludem ao modo de se constituir a identificação primária na primeira infância. Entre essa sexualidade ampliada, que tem a ver com o polimorfismo, e o gênero, tal como tem sido definido, aparece a questão da sexuação que está relacionada com o modo com que o sujeito se coloca diante da diferença anatômica, definindo-se como homem ou mulher não pelos traços identitários do gênero, mas pela constituição com a qual estabelece as marcas sexuadas.

 

Consideremos que isso se articula com uma complexidade que, em cada caso, não é tão simples detectar. Tenho trabalho sobre o material de um travesti que começa com um transtorno de gênero, assim que sofre um processo de abuso, depois descobre toda a diferença anatômica e termina num caso de transexualismo. O que quero dizer é o seguinte: é exatamente no momento da rearticulação entre a diferença anatômica e a identidade de gênero que o sujeito define seu posicionamento conflitivo, mais ou menos harmonioso, entre seu desejo e sua identidade. Peço-lhes paciência para que entendam para que serve tudo isso.

 

O que está em jogo na perversão

O terceiro ponto trata das relações entre o polimorfismo perverso e a perversão. Essa é outra questão que se coloca em psicanálise, na qual, durante bastante tempo, atividades que pretensamente podem conduzir à perversão são entendidas como parte do polimorfismo perverso. O que isso significa? Vocês sabem que tenho trabalhado com a diferença entre o recalcamento originário e o secundário para marcar como todo recalcamento originário se refere à renúncia e à fixação dos representantes pulsionais do autoerotismo. De maneira que a persistência de um modo de resolução autoerótico não sepultado dá conta de uma corrente da vida psíquica não reabsorvida, não sendo somente um retardo, mas, sim, toda a vida psíquica girando ao redor disso. Isso não indica necessariamente que vá gerar uma perversão.

 

Poderíamos dizer que, uma vez que se constituem as instâncias secundárias, o sujeito terá que construir todo um andaime, uma estrutura, para poder se instalar num lugar que lhe permita a conservação desse modo de gozo. Nesse sentido, um dos problemas com o conceito de perversão que temos apontado é o caráter moral que tem. E a forma da moral tem mudado de maneira muito significativa. Por exemplo, grande parte dos sujeitos da época de Freud sentia angústia por seus pensamentos incorretos, antes que fossem atos incorretos, e não somente por suas ações incorretas. As pessoas, hoje, não têm o menor problema em pensar coisas horríveis. E, ao fazerem coisas terríveis, temem mais o castigo do que a culpa. Portanto, essas formas mudaram. Sendo assim, é muito fácil os pacientes terem modos de exercício de sua sexualidade que, em outra época, seriam considerados perversos. Além disso, se o analista pretender, de alguma maneira, normatizá-los, os pacientes o considerarão como altamente reprimido e moralista. O analista pode, então, ser acusado pelo paciente de ter esses modos de moral arcaica. Isso nos obriga a repensar a metapsicologia da perversão, se vale a pena conservar o conceito ou se é apenas um conceito moral. O que quero dizer? Ninguém hoje poderia pensar que um casal, que tem uma forma de relação que não seja estritamente genital, tem uma relação perversa. Mas vocês viram que Freud considerava a felação uma perversão. Hoje as pessoas não endossariam isso.

 

Freud aponta dois aspectos importantes na perversão. Um se refere ao exercício da pulsão parcial, com a qual a perversão, de alguma forma, se relaciona, sendo o negativo das neuroses. Essa é uma ideia importante. O outro se refere ao reconhecimento da castração. Veremos, depois, a teoria da castração.

 

Interessa-me, aqui, centrar mais na questão do exercício da pulsão parcial. Melanie Klein tem uma ideia muito sagaz, ao considerar certos modos da genitalidade como pseudogenitais. O que define, para ela, se uma relação é genital ou não? Não é pelo emprego da zona erógena, mas pelo reconhecimento da totalidade do objeto de amor. À possibilidade de ligar o pulsional com o amoroso, ela chamava de posição depressiva.

 

O que está colocado no conceito de genitalidade de Freud é a possibilidade de ligação com o pulsional, que implica reconhecimento da subjetividade do outro. A conclusão a que chego é que temos que conceder ao conceito da perversão o exercício dessubjetivante no que diz respeito ao outro. Diferentemente de qualquer relação amorosa na qual o problema é de quem a exerce, qualquer que seja a forma de gozo que se escolha, o que estaria em jogo no conceito de perversão são dois aspectos. O primeiro é a dessubjetivação do partenaire. Por exemplo, um homem que se inclina para a felação como prazer máximo, se ele eleger esta como a única forma de estar com uma mulher, surge a questão sobre qual prazer ele suporia ser o dela. Ou seja, que nível de reconhecimento do prazer do outro estaria em jogo? Essa é uma questão. O segundo é o modo com que a cena da perversão fica fixada. O modo não só de subjetivar o objeto, mas de dessubjetivação do próprio perverso. Por exemplo, um paciente meu de 21 anos, com muitos problemas sexuais, uma estrutura muito problemática, tem vicissitudes muito complexas no que tange às relações sexuais. Entre outras coisas, usava o corpo da mulher de maneira masturbatória. Isso resultava em que, se eu lhe dizia algo relacionado com o gozo da mulher, ele retorquia: "Mas ela gosta". Portanto, eu era colocada no lugar de alguém que viria como uma mãe ou uma freira e lhe diria: "Querido, amor se faz de outra maneira", o que seria rejeitado pelo paciente. Eu pensava que essa história não me soava bem. Ele tinha a sua possibilidade amorosa totalmente limitada ao modo de exercício da sexualidade que não lhe permitia eleger uma mulher pelo que ela fosse como ser humano, mas sim pela possibilidade de que ela ficasse acoplada ao seu modo de gozo. O que isso produzia nele era a impossibilidade de escolher alguém com quem pudesse estabelecer uma relação, ou a necessidade de dissociar a relação amorosa da sexual. Ou seja, quem pudesse ser amado não poderia estabelecer com ele o tipo de relação sexual que ele queria e quem pudesse estabelecer a relação que queria não necessariamente era alguém que ele pudesse amar, isto é, ele estava capturado por esse modo de exercício da sexualidade, que deixava o outro dessubjetivado.

 

A dessubjetivação do outro se coloca no centro da problemática da perversão. E, nesse sentido, podemos pensar nos modos perversos com que temos que qualificar certas ações que são dessubjetivantes do ponto de vista histórico, e que se relacionam com a coisificação do outro. Isso está muito vinculado ao que estou colocando, mas encontra um estatuto metapsicológico e não simplesmente moral ou ideológico. É isso o que me preocupa.

 

Para redefinir o conceito de Édipo

Articulado a isso, vem a problemática do Édipo. Escutei uma criança dizer outro dia: "Coitado, só tem quatro avós", falando de um amiguinho. Hoje as crianças têm seis, oito avós. Na minha época, ter dois avós já era extraordinário, porque eles morriam jovens, mas agora têm seis, oito avós, recebem presentes de todos. É maravilhoso! Todos os avós tomam café juntos para verem os netos. A comunidade que os pais não podem fazer, fazem os avós. Isso é fantástico! Surge aqui um ponto que é muito interessante: quem é o progenitor? Quem engendrou a criança não é quem faz amor com a mãe. A circulação da sexualidade se produz por um caminho diferente daquele do engendramento de origem. Portanto, perguntamo-nos, de quem a criança sente ciúmes? Do homem que dorme com a mãe ou de quem a engendrou? Isso simplesmente para mostrar como a psicanálise associou a cena primária ao engendramento durante um espaço de tempo. Até os analistas de crianças tinham dificuldade de interpretar as relações sexuais como circulação de prazer e exclusão entre os pais, e não como nascimento e engendramento dos irmãos.

 

Então, o que se sustenta desse conceito tão importante? Em primeiro lugar, o que está implicado nessa circulação edípica é a exclusão, e teremos que ver como se constitui o fantasma em cada sujeito. Em segundo, que aquilo que a proposta psicanalítica traz de interessante, que se produz em Freud e depois dele, é a ideia de que a proibição do incesto é proibição do gozo intergeracional. Isso sim é universal. Se pensarmos endogeneticamente, poderíamos dizer que a proibição seria, no que diz respeito à criança, de querer fazer amor com os pais. E isso é ridículo porque nem sequer estaria preparada para poder fazê-lo.

 

Mas o interessante na volta que Lacan dá é que, de alguma maneira, o Édipo implica algo da circulação do gozo em relação à apropriação do corpo da criança pelo adulto. Então, hoje eu redefino a questão do Édipo em termos do modo com que cada cultura pauta os limites da apropriação do corpo da criança como lugar de gozo do adulto. Repito, ao ter que redefinir o Édipo, enquanto proibição do incesto, como o modo com que cada cultura pauta os limites da apropriação do corpo da criança como lugar de gozo do adulto. Isso escapa da discussão banal sobre se é ou não incesto quando há ou não relação biológica. Além disso, abre-se uma frente muito forte para trabalhar contra a pedofilia, que é um problema historicamente central. Vocês sabem que grande parte do turismo sexual, dos países do primeiro mundo aos do terceiro, é de turismo pedófilo. Um grande contingente de espanhóis e franceses que circula pelo mundo, que se desloca para a Bahia, para o norte, para a Malásia e a fronteira com a Argentina não vem buscar mulheres. Trata-se de um turismo que vai em busca de crianças. Estamos, então, diante de uma circulação brutal que, por um lado, dá conta da vigência dos paradigmas freudianos e, por outro, nos coloca a necessidade de desarticulá-los da forma de subjetividade da primeira metade do século XX, quando ficaram totalmente colados. Caso contrário, o discurso psicanalítico se torna moralista. Por exemplo, o que fazer com a teoria do Nome do Pai, da metáfora paterna e tudo isso com os casais monoparentais ou homoparentais? São casais perversos ou não? De que maneira repensar esse fenômeno? Se eu tomo no centro dessa definição que a perversão implica dessubjetivação e o desconhecimento do outro, indubitavelmente a circulação num casal homoparental é amorosa.

 

Tenho, então, que definir o conceito de família em termos de filiação e não de aliança. O que define uma família é que haja duas gerações, tenha o número que tiver. Porque a família só tem uma função: a preservação da cria, desde o ponto de vista histórico. Portanto, pouco importa que seja um homem com uma criança ou uma mulher com uma criança. O que importa é que tenha duas gerações, que circulem em relação às legalidades que impedem que o corpo da criança cumpra uma função que não seja a projeção futura em termos de transcendência.

 

Evidentemente, quando se tem a criança só para se gozar com seu corpo, está tudo fora do lugar, mesmo que haja alguma forma de função parental. Isso pode ocorrer, perfeitamente, num casal heterossexual, entre pai e filho; enfim, sempre que um pai se apropriar da cria de uma forma perversa. Há que se passar, de alguma maneira, um fio de navalha por todos os enunciados para fazer destilar o mais valioso e universal que tenham.

 

Carecemos de uma teoria da masculinidade

Outro ponto que gostaria de retomar é o conceito de homossexualidade inconsciente que, certamente, implica um avanço enorme por colocar a universalização de uma tendência, levantando, ao mesmo tempo, um problema teórico muito sério ao localizar no inconsciente uma forma de desejo intencional. Até certo ponto, inclusive, tem sido concebido, pelos próprios psicanalistas, como uma sorte de identidade inconsciente. Isto é, o fantasma de uma mulher adulta que pode aparecer no centro do desejo por outra mulher está relacionado com experiências primárias inscritas, podendo o ego dessa mulher considerá-lo homossexual. Portanto, isso não significa que, no fundo dela, haja uma homossexual.

 

A mesma coisa ocorre com os desejos que poderíamos chamar de homossexuais nos homens. Por que me interessa isso? Porque eu creio que carecemos enormemente, em psicanálise, de uma teoria da masculinidade, e que nossas teorias são contraditórias. Em primeiro lugar, a presença do pênis real fez Freud pensar que houvesse uma continuidade entre o objeto pênis, como anatômico, e sua capacidade viril em relação à mulher, com relação ao outro humano.

 

Freud considerou como protótipo da feminilidade grande parte dos fantasmas que encontrou nas mulheres e considerou grande parte dos fantasmas que encontrou nos homens protótipo de certas patologias, e não universais. Por exemplo, a penetração de outro homem no momento do coito é um deles, claríssimo e repetido. O desejo que aparece muito, hoje em dia, de uma relação com duas mulheres ou com dois homens é muito complexo porque alude a produções fantasmáticas e narcísicas nada simples. Uma paciente me conta que seu namorado queria manter uma relação com ela e com outra mulher. Desde o ponto de vista da representação consciente e manifesta, parecia que ela era insuficiente para ele. Mas, em realidade, ele estava na cama com outra mulher porque ele se sentia insuficiente para ela. Então, na sua fantasia, a presença de alguém que oferecesse outro tipo de gozo vinha reforçar as possibilidades de circulação libidinal na cama. Era muito complexo o que estava se passando. Por isso, quero dizer que não é tão simples o que vemos. Voltemos, então, à teoria da masculinidade.

 

Em primeiro lugar, ao menos até agora, continuamos vendo crianças que nascem do interior das mães, coisa que pode perfeitamente mudar no próximo século, e deixar todas nós como mulheres pré-históricas que carregavam durante noves meses a cria na barriga e depois a paria. É absolutamente viável que, no futuro, se juntem o óvulo e o espermatozoide dentro de uma proveta e que, todos os dias, o pai e a mãe venham vê-lo ou dois homens, ou duas mulheres, um gay, mas o que se manteria seria o desejo de filho. Isso é o que me interessa marcar: que não há nada no desejo de filho que seja absurdo.

 

Uma vez fiz uma brincadeira dizendo que temos filhos para não morrer de amor próprio. Não há razão alguma para se ter filhos, nem, sequer, a essa altura, servem como motivação econômica, como já foi no passado. Simplesmente, os seres humanos têm três formas de transcender: a história, a religião e o engendramento. São as três únicas formas que nos permitem sentir que, mesmo mortais, sobrevivemos. Então, continuamos tendo filhos como uma forma de prolongar e corrigir os males a cada geração. Mas, voltando a essa ideia de que um bebê poderia nascer de um óvulo e um espermatozoide, mesmo que hoje não seja assim, a mãe tem certo privilégio sobre o filho.

 

O primeiro tempo da criança é passivo sobre o outro que é ativo, seja menino ou menina e, portanto, o sexo de partida não é masculino, mas feminino, se tomarmos a ideia de ativo e passivo. Justamente, nosso problema é reverter o fantasma de passividade que fica aí inscrito. Alguns antropólogos têm escrito coisas extraordinárias sobre o fantasma de passividade que se inscreve, como no livro Hacerse hombre, de David D. Gilmore, que recomendo muito especialmente e que deve estar traduzido para o português. Ele diz que a mulher é sempre mulher, pode ser pior, melhor, pode ser qualificada de muitas maneiras, mas é sempre mulher, mas o homem pode ser destituído de sua condição de homem. E mais, para se ser homem, há que passar por certas provas que o confirmem como tal. Isso é muito interessante, porque se a violação de uma mulher produz fragilidades narcísicas, no homem produz um ataque à identidade. O estupro num homem é uma destituição de sua masculinidade, enquanto em uma mulher é um ataque ao corpo, a sua integridade, mas não é uma destituição da feminilidade. Pode ser uma destituição de sua instituição social, mas não de sua feminilidade. Portanto, o Édipo analisa as formas de passagem e os rituais de masculinização de certas culturas que poderíamos chamar de primitivas. Entre outras, os rituais dos gregos ou dos zâmbias, nos quais os adolescentes têm que ser despojados dos restos de leite feminino mediante vômitos e sangrias e fazer felação em outros homens para que incorporem leite masculino que os virilize, que lhes dê potência, que os faça homem. Não quero me colocar de modo escatológico, mas, se não fôssemos tão ignorantes, não teríamos esse impacto, porque realmente tem a ver com nosso desconhecimento das formas culturais. De qualquer maneira, vocês sabem que Freud dizia que os primitivos realizam aquilo que os povos evoluídos fantasmatizam. E isso é muito interessante, porque se relaciona com toda a problemática da inclusão no campo da masculinidade que aparece no varão, muitas vezes, sob a forma de fantasmas homossexuais. Qual é meu objetivo? O fato de que nós, psicanalistas, temos uma grande dívida com os pacientes a quem temos interpretado, muitas vezes, como algo da ordem da homossexualidade, aquilo que estavam trazendo dos fantasmas do desejo de masculinização. Por exemplo, muitas vezes, o modo com que alguns adolescentes estruturaram fantasmas que os levaram a aceitar atos de sedução grupal, em algumas regiões, ou em certas formas de culturas, era entendido pelos analistas como um desejo homossexual, quando o que estavam produzindo era um desejo falho de masculinização.

 

O que me interessa marcar não é a homossexualidade masculina, mas como carecemos de uma teoria da constituição da masculinidade. Não ocorreria a nenhum psicanalista que o desejo de ter pênis em uma mulher signifique que ela queira ser homem, pois é assim que caminha sua feminilidade. O desejo de masculinidade, no homem, às vezes aparece sob a forma fantasmática de penetração de outro homem, já que o ego o considera homossexual, mas são buscas, em alguns casos, frente às falhas de masculinização na relação primária com o pai ou com outro homem. O que me interessa observar é como a psicanálise tem colocado a teoria do ego, entendendo como homossexual algo que não necessariamente o é, e como a teoria homossexual desses fantasmas estaria vinculada ao endogenismo, ou seja, à ideia de que ser homem é, no fundo, ser homossexual. Isso traz outro problema que é a substancialização do inconsciente, como um lugar com identidade. Problema muito sério porque, durante muito tempo, os analistas têm interpretado certas moções inconscientes como substancializadas e como se fossem opostas ao que o sujeito quer, como se, na realidade, fosse uma dupla consciência e não tendências intoleráveis do sujeito psíquico. Por exemplo, a questão da hostilidade ou do ódio. Eu sempre afirmo que, na verdade, não existe o medo de se dizer ou de se sentir o ódio. O medo de expressar o ódio aparece porque se ama alguém, é o efeito da ambivalência. Alguém só tem medo de reconhecer a hostilidade àqueles que ama, portanto, é verdade que ama, e não que não ama e em realidade o odeia, porque, se ama, não pode reconhecer que odeia. Enquanto quem odeia não tem nenhum problema em odiar. Eu nunca tive problema em odiar Videla ou a nenhum ditador argentino, quero que se arrebentem, não tenho nenhum temor de ser castigada por Deus por essas coisas. Então, parece-me que não tenho medo do meu ódio, assim como ninguém tem, mas, sim, temos medo do ódio em relação aos objetos amados. E isso porque queremos preservá-los do nosso ódio, ou seja, é verdade que os amamos. Nosso ódio não desqualifica nosso amor, mas mostra uma impossibilidade de um amor que não se sustenta tão bem nas correntes hostis da vida psíquica. Essa ideia de que aquilo que seria inconsciente é o oposto na consciência é a ideia de um duplo sujeito. É a ideia do sujeito do inconsciente volitivo, cognitivo, enfim, com todos os atributos da consciência. Para mim, essa ideia liquida o conceito de inconsciente. Não é assim quando se trata de algumas moções pré-conscientes ou secundariamente recalcadas, mas sim para o inconsciente fundante.

 

Teoria da castração

A última questão que quero abordar é a da teoria da castração. É inegável que, em nosso tempo, isso também mudou. Nenhum homem pensa que uma menina não tem pênis porque lhe cortaram. Não conheço nenhuma criança que diga essas coisas. Tive uma paciente que disse que gastou o pinto se masturbando. Gastou de tanto friccioná-lo. Não é o mesmo que pensar que o cortaram. Em geral, os meninos não pensam que as meninas estão castradas, sabem que têm outra coisa. E aí há uma teoria simples da percepção. Porque o umbral do dizível não está dado pela presunção, mas pela construção de perceptos, como diria Lacan, pela forma com que a realidade é significada. A prova empírica não serve para nada. Em setembro, minha filha discutia com seu filho que, nessa época, tinha cinco anos. Ele perguntava sobre Deus. Ela disse que há pessoas que creem e outras que não. Então, completou: "O seu papai acredita, e eu não". E, nesse debate, ela apelou para um argumento que não deve ser usado, porque é muito positivista. Disse-lhe: "Por acaso alguém o viu?". E Lorenzo lhe respondeu: "Não, porque vive no Chile com papai!". Portanto, demonstra que o problema não está na percepção. Todos nós cremos no átomo e não o vemos. A construção do real é uma construção de cultura. O que acontece é que as mães de hoje não dizem aos filhos: "Eu também tenho uma coisinha para fazer xixi". Isso dizia a mãe de Hans. Agora as mães dizem: "Eu tenho uma vulva e blablablá e você tem uma coisa e eu tenho outra...". As coisas que dizem são feministas. Então, as crianças jamais vão crer que as mulheres são pobres seres castrados. Entretanto, ainda se escutam meninos que, se estão sofrendo por serem meninos, dizem: "Claro, me tratam pior porque não sou menina". Nas escolas em que as meninas são boas alunas e os meninos não, as professoras agarram os pobres meninos e os deixam loucos. Acabou essa história de que as meninas não podem estudar. Hoje, ficam loucos os pobres meninos que estão desesperados tentando construir seu lugar no mundo para mostrar que são inteligentes. Não é isso o que acontece nas escolas? Então, deixemos de lado uma teoria que está muito ligada à subjetividade de seu tempo. Sem dúvida, há um aspecto muito importante. Em primeiro lugar, procura-se uma determinação da questão da alteridade, do diverso, do diferente e daquilo que se opõe a si mesmo. Em segundo, marca aquilo que vem de uma importante contribuição de Lacan, com a ideia da castração como algo da ordem da falta ontológica. Ou seja, algo da ordem de uma falha em que se reconhece a incompletude. Essa é uma ideia de Lacan que eu creio ser extraordinária, sem dúvida, capturada pela teoria da castração, remetendo, em última instância, à equivalência falo-pênis. Sustenta-se em Freud, mas não pode romper com os modos de representação da época em que Lacan se desenvolve, muito menos com a cultura patriarcal francesa. Então, um dos problemas é como se recupera uma teoria que tem a ver com o reconhecimento da falta ontológica muito útil para a clínica, porque todos sabemos que o tema do incastrável traz uma posição narcisista do sujeito. Vou dar um exemplo clínico, que acaba de me ocorrer e que acho muito interessante. É um exemplo muito bonito de uma intervenção analítica que fiz. Há um mês, recebi uma chamada telefônica de uma colega, pedindo-me para eu ver seu sobrinho-neto, filho de seu sobrinho. Ela me contou algo muito preocupante. Ela achava que esse menino estava passando por algo muito sério, que seus pais iriam me contar. Há algum tempo encontraram dejetos, sujeiras, lixo, fezes que ele havia guardado em seu quarto. Sem dúvida, supus ser algo muito sério e marquei uma entrevista com os pais. Contaram que é um menino de oito anos que, há um ano e meio, perdeu subitamente sua avó. Sua mãe sofreu um impacto brutal, porque foi uma perda massiva e inesperada de uma mulher relativamente jovem. Durante um tempo, nada manifestou, mas na metade do ano passado descobriram que ele guardava lixo em seu quarto e que, além disso, não queria apertar o botão da privada, defecava no jardim e enterrava as fezes. Iniciou-se uma manifestação brutal na qual não suportava perder nada. Até o momento em que o pai, uma pessoa muito inteligente, vendo-o tão desesperado quando tinha que jogar o lixo da casa, propôs-lhe tirar uma foto, que guardou. Quando ia a hotéis, ele ficava muito angustiado porque limpavam os lençóis. Tal era sua angústia com os fios de seu cabelo que caíam, que chegou ao ponto de não suportar mais tomar banho. O pai colocou um pedaço de algodão para que, quando tomasse banho, recuperasse os cabelos do ralo. Ele transformou a casa em um verdadeiro hospital-dia, com ela girando toda ao seu redor. Diante disso, a irmã de 13 anos deixou de existir. Encontrei-me com ele. Tinha uma carinha inteligente, conectado, não me pareceu um psicótico, um encanto. Manifestou uma intensa alergia no meu consultório, limpou-se, limpou-se, guardando os lenços, não podendo perder nenhuma excreção. Explorei e constatei que não era um menino psicótico. Os orientadores da escola tinham chamado os pais porque ele se recusava a ir ao banheiro e a comer, por não suportar ver os companheiros jogarem restos de comida fora. Quando voltava pela rua, vinha com os olhos fechados por não aguentar ver as lixeiras. Comecei a achar que ali havia algo da ordem do insuportável para ele, mas não era um psicótico. Um dia, enquanto trabalhávamos, durante o diagnóstico, ele estava desenhando e lhe perguntei:

 

- Por que você tem tanto medo de ver isso? Por que isso o faz se sentir tão mal?

- Porque me deixa triste - respondeu ele.

- Deixa você triste? - perguntei. Então você quer evitar a tristeza?

- Sim, porque a tristeza é muito ruim - respondeu ele, e eu lhe disse:

- Você sabe que a escola chamou seus pais para lhes dizer que, se você não mudar isso, não poderá continuar estudando?

Aí ele me olhou com uma expressão muito desafiadora e me disse:

- Duvido! - eu lhe disse:

- Não, não. Pode ser que você tenha que mudar de escola. - Ao que ele reage:

- Não acredito!

 

Temos aqui, inegavelmente, uma fixação a um gozo, como dizem os lacanianos, um prazer no sintoma, que ele não quer largar. Diante dele, ao telefone com a mãe, pedi-lhe para marcarmos um encontro com todos para falarmos sobre aquilo. Era uma quinta-feira, e como eu não tinha horário, pedi que viessem no domingo. E ele me disse:

 

- Ah, não! Domingo se descansa.

Vocês se dão conta de que era uma pessoa com sintomas tão graves e que não tinha a menor intenção de modificá-los? Quando terminei a entrevista, pedi para o pai entrar e lhe disse que estava propondo uma entrevista para o domingo e que Fulaninho havia dito que não, porque ele não acreditava que a escola poderia dispensá-lo. O pai disse:

 

- Sim, isso pode acontecer.

 

Combinei para no domingo virem a mãe, o pai e esse personagem.

 

Antes disso, tinha dito ao telefone aos pais:

- Vocês estão muito assustados, vamos esclarecer: não é um psicótico. Deixem de tratá-lo como um psicótico, não tenham medo de que lhe aconteça algo grave e, então, veremos algo que teremos que modificar urgentemente.

Chegaram e começamos a conversar. Ele não parava de se assoar, os pais riram da quantidade de muco que expelia, por causa da alergia que começara nessa hora. O casal começou a dizer que ele teria claramente um problema, que não duvidavam disso. Foi quando eu disse:

- Esse é um rapaz incastrável, não pode perder nada de si mesmo. Não é um psicótico, mas não tolera perder nada, nem seus mucos, nem seus cabelos.

 

Disse-lhe:

- Amanhã você terá que ir ao banheiro na escola.

Ele me disse que iria pensar. Às nove da noite toca o telefone:

- Silvia, sabe quem está falando? Sou fulano.

- Ah, que bom que me ligou.

- Sim, meus pais me deram uma caneta amarela e uma folha para que desenhasse xixi e jogasse na privada.

- Bom, força, está tudo certo, digo.

 

Sem dúvida, foi à escola, comeu, foi ao banheiro, viajou e agora vamos analisá-lo. O problema de certas crianças é que não estão dispostas a perder o sintoma. Então, vão à analise, mas nunca se comprometem. Isso é o incastrável. Ele não estava disposto a perder, de nenhuma maneira, nada de seu corpo. E arma um sistema de racionalizações, efeito da análise. Quando lhe pergunto: "Você sabe por que não pode perder o xixi?", ele responde: "Sim, claro, porque sinto saudades de minha avó". Então, ele havia armado um sistema de racionalizações no qual todas as interpretações ficavam a serviço do sintoma e, por isso, não havia maneira de modificá-lo. Ele vinha se analisar para dar uma explicação de por que continuar aferrado ao sintoma. Ele tinha razão, não podia perder nada porque tinha perdido sua avó. O que quero dizer com isso? Onde está a chave dessa história? Quando ele disse: "Não quero sentir tristeza", estava dizendo que não suportava a perda. Aí se passa algo muito interessante. Vocês sabem que eu tomo a história da criança, contada pela mãe, na presença da criança e da mãe. Arrolo todos os dados que me parecem importantes sobre a constituição libidinal e vejo como a criança reage diante do que a mãe diz. Enquanto recolho todos os dados, pergunto: "Tem outros avós?". Contam-me, então, que o avô paterno morreu quando o menino tinha dois anos e meio, em plena fase de controle de esfíncteres. E aqui há algo muito interessante: o que não estava significado retornava no sintoma e agora será analisado. Agora está em condições de se analisar, uma vez que se converteu em um sintoma, na medida em que sofre e não goza por tê-lo. Mas não se torna um conceito fecundo quando se liga à ausência real de pênis na mulher. A maioria dos meninos que vemos hoje tem mais medo de serem violados do que de perder o pênis. Poder-se-ia pensar que o medo do estupro é um medo da castração, mas não é verdade. São dois temores diferentes, que têm a ver com as dominâncias que a cultura coloca sobre a forma de se constituir a completude ontológica no menino. Então, castração de pênis, por um lado, ou estupro, por outro, o certo é que tem a ver com a castração ontológica, mas não com a perda do pênis.

 

Encerramento

Então, para terminar, coloquei quatro eixos: sexualidade ampliada, Édipo, não como complexo, mas como determinante do gozo. Ao mesmo tempo, é preciso pensar a forma pela qual se produzem as respostas à convocatória sexual do adulto nas representações da criança. Então, Édipo e Complexo de Édipo, castração e perversão são elementos que devemos levar em conta para redefinirmos quando temos, hoje, que fazer algumas intervenções em nossa prática clínica, em certas propostas que nos fazem e inclusive em intervenções sociais e jurídicas. Qual papel iremos cumprir, nós, psicanalistas? Como em dois casos em que estou trabalhando agora. Um deles é sobre uma criança transexual de 14 anos. O pedido é de que se adiante com o tratamento hormonal para que não se masculinize. O outro é um pedido de um casal gay legalizado que quer se encarregar da guarda de cinco irmãozinhos que estão sem pais. Vocês sabem que, na Argentina, há comunhão civil para casais de homossexuais. A dúvida do defensor de menores é porque esse casal é gay. Então, de que maneira podemos pensar em intervir nesses casos? Temos muitos casos assim, hoje, em nossas consultas. Bom, com isso deixo aberto para trocar com vocês. Usem esse microfone para dizerem o que quiserem, inclusive: "Que horrível o que você disse, Silvia!". Podem dizer tudo.[1]


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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