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TÍTULO DE ARTIGO


 

AUTOR


ÍNDICE TEMÁTICO 
54
Exigências da clínica e da cultura à psicanálise
ano XXVIII - Junho de 2015
183 páginas
capa: Carlos Matuck
  
 

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Resumo
Através da análise do artigo “A dor de não sonhar”, de Janete Frochtengarten, publicado em Entre o sonho e a dor, de Pontalis, e do artigo “O sexo neutro”, de A. Green, do livro Narcisismo de vida, Narcisismo de morte, o ensaio procura mostrar o modo como alguns preconceitos se imiscuem no pensamento psicanalítico. Propõe ainda que é necessária uma abertura para o que vem sendo denominado como “as novas sexualidades” sem perda do que nos constitui como psicanalistas, uma vez que é exatamente a capacidade de desessencializar que nos caracteriza.


Palavras-chave
hermafrodita; castração; feminino; masculino; bissexualidade; andrógeno; neutro; conflito; sexo; contrassexual


Autor(es)
Miriam Chnaiderman
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, doutora em Artes, ensaísta, tendo publicado os livros O hiato convexo: literatura e psicanálise (Brasiliense, 1989), Ensaios de Psicanálise e Semiótica (Escuta, 1989) e vários textos  em coletâneas e revistas. Documentarista, dirigiu os curtas Dizem que sou louco (1994), Artesãos da Morte (2001), Gilete Azul (2003), Isso, aquilo e aquilo outro (2004), Você faz a diferença (2005) e Passeios no Recanto Silvestre (2006).

Ana Lucia Marques de Souza Souza
é psicanalista, aspirante a membro do Departamento de Psicanálise e mestre em gerontologia social.



Notas

1.     J. Frochtengarten, "A dor de não sonhar", p. 11.

2.     J. Frochtengarten, op. cit., p. 11.

3.     J. Frochtengarten, op. cit., p. 17.

4.     J. B. Pontalis, "Entrevista", in: Mara Selaibe, Andréa Carvalho, PsicanáliseEntrevista.

5.     J. B. Pontalis, Entre o sonho e a dor.

6.     J. B. Pontalis, op. cit. , p. 117.

7.     J. Derrida , "La double séance", in: La Dissémination, p. 237.

8.     M. Chnaiderman, O hiato convexo, p. 58.

9.     J. Derrida, Gramatologia, p. 87.

10.   P. Grimal, Dicionário da mitologia grega e romana, p. 223.

11.   Apud J. B. Pontalis, op. cit., p. 113.

12.   J. B. Pontalis, op. cit. , p. 115.

13.   R. Barthes, O andrógino, in: O neutro. Anotações de aulas e seminários ministrados no Collège de France, 1977-1978, p. 385.

14.   R. Barthes, op. cit., p. 389.

15.   R. Barthes, op. cit., p. 397.

16.   J. Derrida, "A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências humanas", in: A escritura e a diferença, p. 233.

17.   R. Barthes, op. cit., p. 382.

18.   B. Preciado, Manifesto contrassexual, p. 22.

19.   J. B. Pontalis, op. cit., p. 120.

20.   Apud J. B. Pontalis: S. Freud, "Análise terminável", S.E., vol. xxiii, p. 250.

21.   J. B. Pontalis, op. cit., p. 122.

22.   J. B. Pontalis, op. cit., p. 123.

23.   J. B. Pontalis, op. cit., p. 124.

24.   Apud J. B. Pontalis, p. 125, E. Jones, "The phallic phase" (1933), trad. Francesa, in: La psychanalyse, vol. 7.

25.   A. Green, "O gênero neutro" (1973), in: Narcisismo de vida, narcisismo de morte, p. 236.

26.   A. Green, op. cit., p. 238.

27.   A.Green, op. cit., p. 242.

28.   Termo que Judith Butler toma emprestado de Kristeva, quando discute a abjeção em The powers of horror ["Os poderes do horror"]. O abjeto institui aquilo que foi segregado do corpo, descartado como excremento. A construção do não eu como abjeto estabelece as fronteiras do corpo, que são também os primeiros contornos do sujeito (Butler, 2013, p. 191).

29.   J. Butler, Problemas de gênero.

30.   M. Schneider, Généalogie du masculin.

31.   R. Barthes , O prazer do texto, p. 24.

32.   A.Preciado, op. cit., p. 22-3.

33.   O artigo de Ana Maria Segal, "Ainda a psicanálise no campo da sexuação!", apresentado na Terceira Jornada Temática - "Corpos, sexualidades, Diversidades" do Departamento de Psicanálise, e ainda no prelo, reflete exatamente sobre essa questão.



Referências bibliográficas

Barthes R. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva.

Barthes R. (2003). O andrógino. In: O neutro. Anotações de aulas e seminários ministrados no Collège de France, 1977-1978. São Paulo: Martins Fontes.

Butler J. (2008). Problemas de gênero. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Chnaiderman M. (1989). O hiato convexo. São Paulo: Brasiliense.

Derrida J. (1967). A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências humanas. In: A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva.

Derrida J. (1972). La double séance. In: La dissémination. Paris: Seuil.

Derrida J. (1973). Gramatologia. São Paulo: Perspectiva/EDUSP.

Freud S., "Análise terminável", Standard Edition, vol. xxiii.

Frochtengarten J. (2005). A dor de não sonhar. In: J. B. Pontalis. Entre o sonho e a dor. Aparecida (SP): Ideias&Letras.

Green A. (1973/1988). O gênero neutro. In: Narcisismo de vida, narcisismo de morte. São Paulo: Escuta.

Grimal P. (s.d.). Dicionário da mitologia grega e romana. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

Jones E. (1933). The phallic phase, trad. francesa. In: La psychanalyse, vol. 7, puf.

Pontalis J. B. (2014). Entrevista. In: M. Selaibe; A. Carvalho. Psicanálise entrevista. São Paulo: Estação Liberdade.

Pontalis J. B. (2005). Entre o sonho e a dor. Aparecida (SP): Ideias&Letras.

Preciado B. (2014). Manifesto contrassexual. São Paulo: N-1.

Schneider M. (2006). Généalogie du masculin. Paris: Ed. Aubier, Champs Flammarion.

Segal A. M. "Ainda a psicanálise no campo da sexuação!", Terceira Jornada Temática - "Corpos, sexualidades, Diversidades", Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae [no prelo].





Abstract
This essay aims to show how some prejudices blend together in psychoanalytic thought. It also proposes that an opening for what is being termed as “new sexuality” is required without losing, however, what constitutes us as psychoanalysts, since we have the characteristic of being non-essentialist. To do so, this paper analyzes “The pain of not dreaming”, from Between the Dream and the Pain by JB Pontalis, and “The neutral gender”, from Life narcissism, death narcissism by A. Green.


Keywords
hermaphrodite; castration; female; male; bisexual; androgen; neutral; conflict; gender; contra-sexual.

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 TEXTO

Até tu, Pontalis?

Even you, Pontalis?
Miriam Chnaiderman
Ana Lucia Marques de Souza Souza

Questão inicial

É imenso o encanto que experimentamos sempre que lemos Pontalis. Por sua precisão e seu rigor conceitual, Pontalis define-se como escritor e confessa imensa admiração pela literatura. Janete Frochtengarten, em "A dor de não sonhar", texto que introduz a edição brasileira de Entre o sonho e a dor, define Pontalis como "o emigrante na linguagem que busca o entre"[1]. Conta-nos como, desde 1980, Pontalis jamais deixou de escrever ficção, tendo "em 1989 assumido a coordenação de uma coleção literária". Cito Janete Frochtengarten: "Para ele a obra literária não se dissocia da obra analítica; considera que ambas mantêm grande proximidade, percorrendo vias muito diferentes [...] a linguagem não é captura, nem tampouco é renúncia; faz parte de sua natureza ir em direção ao que não é ela, em um movimento que a leva da dominação à consciência de sua vacuidade existencial"[2]. Janete Frochtengarten vai falar de uma in-submissão, "uma permanente recusa de proposições totalizantes"[3].

O riquíssimo percurso de Pontalis - que trabalhou com Sartre na revista Les Temps Modernes, fez análise com Lacan, elaborou com Laplanche o Dicionário de Psicanálise - também está claramente colocado em sua entrevista à revista Percurso, presente no primeiro volume de Psicanálise Entrevista, organizado por Mara Selaibe e Andréa Carvalho[4].

Por tudo isso, surpreendeu-nos seu ensaio "O inapreensível entre-dois", parte do volume Entre o sonho e a dor[5]. Ao longo do ensaio, em cujas iluminadoras descobertas é possível encontrar o rigor e o brilho do autor, constitui-se um horror à imagem de um corpo homem/mulher, um horror ao corpo abjeto de que tanto nos fala Judith Butler.

O parágrafo final desse ensaio parece deixar isso claro: "Não nos queixemos que a figura do Hermafrodita se perpetue apenas nos contos e que seu nome esteja ausente do calendário. Ele definha no imaginário, mas é apenas lá, tal como a Fênix única, que ele pode renascer. A vida o mataria: sob a rocha, o abismo"[6]. Surpreende que um pensamento que suporta o "entre" - e, pensamos nós, um "entre" não só "entre dois", mas "entre infinitos possíveis" - acabe em um quase expurgo da figura daquele que é homem e mulher.

Derrida, no ensaio "La double-séance"[7], vai pensar sobre o termo "entre". Miriam Chnaiderman discute esse termo, em O hiato convexo[8]: "A palavra ‘entre' não teria qualquer sentido pleno em si mesma, está entre as palavras que admitem em seu jogo a contradição e a não contradição. No ‘entre' fica instaurado um vazio semântico que significa o espaçamento e tem como sentido a possibilidade da sintaxe". Para Derrida, a escritura instaura a possibilidade de qualquer linguagem e o diferir permanente, aquilo que vai denominar "diferência" (a partir do neologismo differance, com "a", em francês), se dá no "entre", puro movimento. É na Gramatologia que Derrida vai conceituar o "rastro": "o rastro é abertura da primeira exterioridade em geral, a enigmática relação do vivo com seu outro e de um dentro com o fora, o espaçamento"[9]. O rastro é sempre presente-ausente.

O "entre" é sempre inapreensível. Do que fala Pontalis quando dá ao ensaio o título de "O inapreensível entre-dois"? Seria o bissexual, o hermafrodita, o inapreensível entre os dois sexos, o feminino e o masculino, com seu desejo flutuante não definido numa única escolha de objeto? Ou o enigma denunciado pela esfinge no mito de Édipo? A própria esfinge, homem e mulher, encarnando o enigma da sexualidade.

Estaria Pontalis preso à matriz heterossexual, pensada como natural na nossa cultura e como estrutura da situação edipiana? Porque, mesmo diante dos "mil sexos" que se escancaram em nossa contemporaneidade, para alguns psicanalistas o complexo de Édipo responde apenas pela formação do desejo heterossexual? Como podemos pensar as implicações psíquicas da diversidade do desejo frente à insistência da subordinação do Édipo à problemática de gênero no contemporâneo?

Acompanhando Pontalis

Na primeira parte do ensaio, de subtítulo "Tudo ou nada?", Pontalis analisa os mitos gregos do hermafrodita e do andrógino e parece transportá-los para sua leitura psicanalítica da bissexualidade.

Pierre Grimal, no Dicionário da mitologia grega e romana, assim define Hermafrodito:

 

Dá-se geralmente o nome de Hermafrodito a todos os seres cuja natureza é dupla, simultaneamente masculina e feminina. Mais particularmente, os mitógrafos referem, com este nome, um filho de Afrodite e Hermes de quem eles contam a seguinte lenda: Hermafrodito, cujo nome evocava simultaneamente os nomes de sua mãe e de seu pai, fora educado pelas Ninfas da floresta do Ida, na Frígia. Era dotado de grande beleza e, quando fez quinze anos, começou a correr o mundo. Viajava pela Ásia Menor. Um dia, encontrando-se na Cária, chegou às margens de um lago maravilhosamente belo. A ninfa do lago, chamada Salmácis, apaixonou-se logo por ele. Fez-lhe propostas, mas o jovem recusou. Fingiu-se então resignada, mas escondeu-se enquanto o jovem, seduzido pela limpidez das águas, se despia e se lançava ao lago. Assim que o viu nos seus domínios e à sua mercê, Salmácis alcançou-o e abraçou-lhe. Hermafrodito tentou, em vão, afastá-la de si. Ela entretanto elevou uma prece aos deuses, pedindo-lhes que fizessem com que os dois corpos jamais se separassem. Os deuses escutaram-na e uniram-nos num novo ser, de natureza dupla. Mas, por seu lado, Hermafrodito obteve do céu que todo aquele que se banhasse nas águas do lago Salmácis perderia a sua virilidade.

Muito frequentemente, pelo menos nos monumentos figurados, Hermafrodito é representado entre os companheiros de Dionísio[10].

 

Para refletir sobre o mito, Pontalis recorre a Ovídio, que confessa seu embaraço ao ver nesse jovem homem, nessa criança e jovem mulher, enlaçados até se confundirem num só, um ser sexualmente indeterminado e não um ser duplo: "nem um nem outro ou um e outro?"[11].

Pontalis aponta a face negativa do mito: a apropriação de um duplo poder (pai-mãe, menino-menina) vira impotência; a união fusional do casal conduz à morte e à esterilidade. Conclui então: o bissexual é um assexuado.

Na análise de sua face positiva, Pontalis retoma o mito do andrógino presente em O banquete, de Platão. Segundo o psicanalista, o mito afirma a força dos tempos primordiais e a nostalgia de um tempo anterior à secção ou sexão, considerando a anulação da diferença diante do outro complementar. O fim da completude gera a busca da outra metade, e na ausência desta busca estaria a anulação da diferença. Platão evoca três gêneros, a partir de Aristófanes, sendo o andrógino um deles.

Para Aristófanes, no início existiriam três gêneros: o masculino, o feminino, e um terceiro, o andrógino. O masculino era descendente do sol, o feminino da terra. O andrógino era descendente da lua. Todos eram circulares, como seus genitores. Depois de se rebelarem contra os deuses, Zeus cortou os seres em metades que passaram a se buscar. Assim se infundiu o amor nos homens, buscando restaurar a antiga natureza, em sua tentativa de fazer um só de dois.

Pontalis nos mostra como todo deus transcende a diferença dos sexos. A imperfeição do ser pode ser superada numa bela totalidade. Mas, no próprio nome (Hermes e Afrodite), a diferença imprime sua marca. Para ser superada, deve ser primeiramente afirmada.

O bissexual é reunião, num só corpo, de dois corpos. Não é unidade totalizante. Indaga-se Pontalis: será realmente a diferença dos sexos que a representação da bissexualidade originária tentaria atenuar até chegar a abolir? "Mais que superar a diferença, não visaria, antes, sob o disfarce de um ser total, proteger-se dos seus efeitos?"[12].

O mito da bissexualidade conteria duas fantasias bem distintas, até mesmo opostas, cuja impossível conciliação procura alcançar: uma fantasia, totalmente positiva, que visa garantir a plena posse de um falo - paterno e materno - cuja excelência só poderia ser imperfeitamente encarnada, significada em cada um dos sexos; outra fantasia, negativa, que visa se garantir contra qualquer separação-castração-morte e que leva a um apagamento cada vez mais intenso do sujeito desejante. Gloriosa metamorfose ou mortal "amorfose"? Para Pontalis, as duas intenções se juntam como recusa ou desmentido da castração. No fetichismo, o objeto é parcial, e, no bissexual, o objeto é total ou é um fetichismo do nada.

Haveria então uma forma positiva, na qual o andrógino visa transcender a oposição binária dos sexos, e uma forma negativa, que só dá lugar ao que se opõe ao par masculino/feminino: o neutro.

O neutro

Barthes, em seus seminários, afirma que, semanticamente, o neutro remete ao inanimado, àquilo que é associado à coisa. Desta forma, "o neutro seria o não sujeito, aquele a quem a subjetividade é vetada, que é excluído da subjetividade"[13]. Barthes vai constatar, em seus estudos das diferentes línguas, que "o neutro é assim constantemente expulso de nossas linguagens e de nossas verdades"[14]. Aponta - e Pontalis resgata aqui Barthes - como nas línguas indo-europeias a oposição entre o masculino e o feminino é menos importante que aquela entre o animado e o inanimado; aliás, ela é subsequente a esta: animado (masculino/feminino)/inanimado (neutro).

Segundo Pontalis, Freud constrói um mito inverso em "Para além do princípio do prazer": o negativo está dentro, o primordial no homem não é o ruidoso Eros, mas o trabalho silencioso de uma morte, não mais definida como acidente ou fatalidade orgânica, mas como pulsão. Segundo Pontalis, o mito bissexual inverte essa lei "linguística" ao afirmar o primado da oposição masculino-feminino e, ao exaltar sua superação vendo nela uma forma sublime, rejeita para fora o inanimado.

Não nos parece que para Roland Barthes seja assim, já que ele vê o andrógino como neutro em uma condição complexa. "Uma mistura, uma dosagem, uma dialética, não do homem e da mulher (genitalidade) mas do masculino e feminino. Ou melhor ainda: o homem em que há feminino, a mulher em que há masculino"[15]. Considerando esta complexidade, que Barthes classifica como "inextricável e insimplificável", os novos contornos da sexualidade não seriam quaisquer traços anatômicos femininos ou masculinos, sendo que a ideia de uma diversidade que se alterna é ratificada numa sobreposição amorosa das nuances, dos contrários e das oscilações possíveis e próprias do sexual.

O que vai ficando claro é que a quebra do binarismo de gênero deve, necessariamente, enfrentar um paradoxo no cerne de uma linguagem que se organiza em torno de oposições que embasam a noção de signo. Afirma Derrida: "não podemos enunciar nenhuma proposição destruidora que não se tenha já visto obrigada a escorregar para a forma, para a lógica e para as postulações daquilo mesmo que gostaria de contestar"[16].

Barthes também nos mostra como a língua sempre está apoiada em uma força estruturalista discursiva presente na cultura, e é neste sentido que o autor chama nossa atenção para o caráter fascista da língua, que "faz de suas carências nossa lei"[17], nos submetendo demasiadamente às suas falhas. Sobre essas estruturas discursivas, podemos nos indagar: como os efeitos ontológicos da linguagem fundamentam formas de sofrimento no sujeito?

Aqui vai ficando claro por que a filósofa Beatriz Preciado condensou seu pensamento em um Manifesto contrassexual. Fiel a Foucault, para quem "a forma mais eficaz de resistência à produção disciplinar da sexualidade em nossas sociedades não é a luta contra a proibição [...] e sim a contraprodutividade, isto é, a produção de formas de prazer-saber alternativas à sexualidade moderna"[18], Preciado propõe a desconstrução absoluta antepondo o dildo ao anatômico. A ruptura com a própria linguagem é assumida na proposta de um "Manifesto contrassexual".

Eros e Tânatos

É muito importante a discussão presente na segunda parte do ensaio de Pontalis, "O outro sexo, o outro lado". Tomando Empédocles como o "mito de referência de Freud", o autor mostra como em seu pensamento "há uma exigência de um dualismo fundamental". Pontalis quer pensar o dualismo pulsional e a bissexualidade. Depois de uma confusão conceitual, em que iguala bissexualidade e hermafroditismo, ele quer pensar dualismo e bissexualidade.

Pontalis faz importantes considerações: a discórdia não seria localizável em nenhuma instância psíquica, estando em cada uma delas. Afirma: "Portanto, o que assim se define é menos um polo do conflito que o conflito como tal, no que ele tem de irredutível"[19]. Deixa de haver síntese possível. Coerentemente com o "entre" e o espaçamento, delineia-se aqui a fragmentação inerente aos movimentos pulsionais.

Quando Pontalis retoma "Análise terminável e interminável", de Freud (1937), ressalta os dois obstáculos encontrados pelo autor em sua investigação: um é o teórico, que aponta para a ideia de uma tendência ao conflito, que seria a pulsão de morte. O outro obstáculo, o medo do homem de ser mulher, sua repulsa à feminilidade, o fato de a mulher renunciar com tanta dificuldade, ou não renunciar, ao desejo de ter um pênis. Para Freud, "algo, comum a ambos os sexos, modelou-se em formas diferentes de expressão devido à diferença entre os sexos"[20].

Pontalis reflete, então, a respeito do quanto Freud se indaga sobre as razões de as tendências homo e heterossexuais, que existem em qualquer indivíduo, não conseguirem distribuir-se numa solução equilibrada. Por que um bom uso da bissexualidade é tão difícil? A originalidade de Freud não estaria em abordar o tema da bissexualidade, então em moda, mas em limitar o seu alcance. Freud só reconhece plenamente o papel da bissexualidade depois de tê-la inserido numa estrutura cujos efeitos determinantes só serão descobertos progressivamente através do Édipo e da castração. Freud seria reticente em aceitar o "hermafroditismo psíquico".

É quando Pontalis indaga-se, a nosso ver, preconceituosamente: "A respeito disso, podemos nos perguntar se a teoria da bissexualidade não é acima de tudo a teoria sexual adulta do homossexual, cuja teoria sexual infantil seria evidentemente diferente"[21]. Por que a teoria sexual infantil de alguém que faz a escolha homossexual seria diferente?

Haveria ainda nesta distinção entre as identidades masculina e feminina, regidas por lógicas desiguais, uma presunção de que as respectivas formas de prazer seriam diferentes, de que haveria uma substância distinta nas formas de desejo do homem e da mulher.

A partir daí Pontalis cita os marginais e dissidentes que resgataram a bissexualidade. Entre os dissidentes, coloca Ferenczi e Groddeck. Afirma: "Para além da recusa de castração que toda teoria da bissexualidade proclamada ou implícita comporta, o que está em questão é propriamente a concepção freudiana do inconsciente"[22]. Considerar o inconsciente um outro lado e considerar o outro sexo a parte oculta de si "é recuperar a possibilidade de uma conjunção sem risco: a separação fica então incluída no todo"[23].

Na última parte, "O jogo duplo, o duplo sentido", Pontalis lembra-se do famoso artigo de E. Jones sobre a fase fálica, no qual invoca o Livro da sabedoria: "No princípio... Deus os criou homem e mulher"[24]. Recurso último a uma bipartição original para dar conta da diferença na evolução da sexualidade no menino e na menina, ali onde Freud faz essa diferença (que, por isso, tardou em reconhecer em toda a sua amplitude) depender das modalidades da eficácia do complexo de castração. Indaga-se: falocentrismo de Freud? Conclui: Melhor seria dizer falo-excentrismo, pois os dois sexos estão igualmente, mas não simetricamente, excluídos do referente.

O sexo está em todo e...
em nenhum lugar

Essa frase de Pontalis surge também na terceira parte do ensaio, depois da afirmação de que o sonho de todo bissexual seria ser polissexual. A diferença se transformaria em uma complementariedade e haveria apenas espelhos. O bissexual tenta evitar os efeitos da castração: funciona como se fosse possível alcançar o centro e ocupar seu lugar desempenhando simultânea ou sucessivamente, na fantasia consciente ou inconsciente, os papéis do homem e da mulher que qualquer figuração edipiana põe à sua disposição.

Para Pontalis, "longe" de negar o falo, o bissexual o afirmaria de forma inelutável, uma vez que qualquer possibilidade de encontro com a "rocha" ficaria negada. Daí a frase final de Pontalis, que citamos no início desse ensaio, desejando que a figura do Hermafrodita exista apenas nos contos.

O que pensaria Pontalis da fala de Letícia Lanz, entrevistada no filme De gravata e unha vermelha:

 

Não tenho vontade de mudar o nome nem de mudar o genital. Eu me dou bem com os dois, com o nome e com os meus genitais. Eles são fonte de prazer e eu gosto deles. Agora, como os meus seios são muitos importantes, e então eu sou o que você poderia chamar de uma mulher de pênis.

 

De que forma a psicanálise pode dar conta das novas sexualidades, que embaralham nossa contemporaneidade? Como pensar o que Judith Butler denominou "gêneros ininteligíveis"?

Até tu, Green?

André Green é até mais taxativo:

 

A realidade sexual é a do sexo determinado e fixado antes do terceiro ano de vida, a realidade psíquica é a das fantasias convergentes ou divergentes da realidade sexual. Esse conflito depende muito da posição adotada pelo Eu, que pode, conforme o caso, recusar completamente a realidade (psicose transexualista) ou admitir a realidade sexual clivando-a da realidade psíquica, dedicando-se a satisfazer as fantasias desta, aderindo a elas e atuando-as (perversão), ou, por fim, recusando a parte da realidade psíquica que contradiz a realidade sexual (neurose)[25].

 

Vemos aqui condensada a posição mais frequente entre os psicanalistas. Para A. Green, na psicanálise a diferença é sexual, e sendo assim, a bissexualidade seria a abolição dessa diferença e receberia a denominação de o gênero neutro. A. Green parte da sexualidade localizada entre a biologia e a psicanálise, destacando que tanto as hipóteses de Freud quanto as contribuições dos pós-freudianos não estão livres do confronto das relações entre o enraizamento biológico da pulsão e a vida psicossexual.

Em seguida, Green sistematiza pontos de referência para a bissexualidade psíquica. Após essa longa lista, Green aponta que a intervenção psicanalítica, apesar de criar um modelo analógico na relação transferencial, dependendo da profundidade das marcas deixadas pelos variados conflitos individuais integrados ao nível parental, depara com limitações que impedem mudanças por meio da psicanálise.

Este último ponto é ilustrado com um caso clínico atendido por Green, em 1959, no Centro de Consulta e de Tratamentos Psicanalíticos de Paris. A descrição do caso aponta para uma estrutura que não quer renunciar a nenhuma das vantagens dos dois sexos. Um menino ouviu da mãe que fora odiado por ela antes do nascimento e, quando criança, foi educado e vestido como menina. Quando chega ao consultório de Green é "uma cliente de aspecto corpulento, massivo, até mesmo atlético"[26]. Segundo Green, esse(a) paciente procurava por satisfações contraditórias, apresentava recusa de qualquer autoridade, o anseio por uma posição passiva onde se sentisse maltratada e dominada, buscando incessantemente a personagem materna poderosa e potente, tudo isso contrastando com uma pobreza de satisfações sexuais.

Na análise desse caso clínico, Green retoma o fim do quarto capítulo de Mal-estar na civilização, no qual Freud afirma que, na vida sexual, o indivíduo quer satisfazer desejos masculinos e femininos, que nem todos esses desejos podem ser satisfeitos pelo mesmo objeto, e que esses desejos podem ainda se contrapor mutuamente quando não conseguimos separá-los ou dirigi-los para uma via que lhe é própria. Para Green, essa constatação de Freud confirma que a sexualidade humana é, na verdade, sexão. A etimologia da palavra sexo viria de secare (cortar, separar), a fantasia sustentada pela metáfora biológica, em que ambos os sexos se separam para se unir à metade faltante. Para Green, a bissexualidade psíquica se vinga desse sexão: "onde há bissexualidade, há diferença e onde há diferença, há corte, censura, castração das potencialidades de gozo do sexo complementar". Já a reivindicação da bissexualidade real seria "recusa da diferença sexual à medida que esta implica a falta do outro sexo"[27].

Sendo assim, em sua conclusão, a bissexualidade, na fantasia do gênero neutro, nem masculino e nem feminino, seria controlada por uma pulsão liquidante, com inclinações idealizantes que não permitiriam a realização do desejo sexual, proporcionando um aniquilamento psíquico, onde o não ser aparece como uma condição ideal de autossuficiência.

Será que essa é a única interpretação possível das novas configurações da sexualidade humana? Será que a fantasia de uma a-sexualidade está posta na bissexualidade como um gênero neutro com marca de um ideal de Eu tirânico e megalomaníaco onde o que está posto é: já que não posso ser tudo, não serei nada? Ou seria essa uma interpretação que colocaria todo indivíduo que não acomodasse seus desejos sexuais dentro da lógica heterossexual na condição de seres abjetos[28], não sujeitos?

Para não concluir

Os ensaios de Pontalis e Green nos convocam a pensar em que instrumentos teríamos, como psicanalistas, para lidar com as novas configurações da sexualidade e a diversidade do desejo. De que forma podemos operar os instrumentos psicanalíticos num modelo de desconstrução? Poderíamos falar de uma psicanálise derridadiana, na qual se trata de questionar os discursos hegemônicos que excluem e de abrir espaços nos quais o efeito do estranhamento no sujeito possa operar como um mecanismo que abala as certezas totalizantes.

É bem importante a teorização de Judith Butler[29] e de Beatriz Preciado, entre tantos outros teóricos, na denúncia do binarismo de gênero. Quando, porém, elas se referem, com críticas demolidoras, à psicanálise, fazem-no tendo como base leituras tacanhas e empobrecedoras. Monique Schneider, em Génealogie du Masculin[30], vai cuidadosamente nos mostrando, em minuciosa leitura do texto freudiano, o recalcamento do feminino na construção de nossa cultura. E tanto o masculino quanto o feminino vão se embrenhando em nós, complexos da sexualidade onde mil sexos ganham infinitos modos de expressão.

O que vai sendo afirmado é a diferença como instauradora do desejo. Mas, será que a diferença é sempre fálica e associada à falta? Afirma Letícia Lanz: "Eu digo, daqui duzentos anos eles vão nos achar uns primitivos, quer dizer, classificar as pessoas em função disso? Do que tem no meio das pernas? Não podia ser outra coisa, o tamanho do nariz, da orelha, ou capacidade, aptidões físicas?"

Evidentemente, não podemos mais desconsiderar quando J. Butler denuncia as práticas de poder que adequam as identidades sexuais a partir de um binarismo de gênero como ponto de partida inquestionável. Mas, também temos que lembrar que a psicanálise também tem como meta desessencializar o ser humano. Ser psicanalista é poder dar conta de não ser. Não ser para viver os mil fogos da linguagem, como afirmava R. Barthes em O prazer do texto[31]. O que implica se abrir para as infinitas possibilidades de construir gêneros.

O ponto chave da desconstrução de que J. Butler se apropria é a interrogação sem piedade das oposições binárias de gênero com seu apelo fundacionista de um único discurso soberano, até porque o desejo não está ligado ao binarismo, mas à ambiguidade. Nada mais psicanalítico.

A proposta de Beatriz Preciado é criar práticas de resistência, com configurações inovadoras. Uma contradisciplina sexual. A contrassexualidade é também uma teoria que se manifesta fora das oposições binárias: homem/mulher, masculino/feminino, heterossexualidade/homossexualidade. Nesta teoria, a sexualidade seria definida como uma tecnologia com seus diferentes elementos do sistema sexo/gênero denominados:

 

homem, mulher, homossexual, heterossexual, transexual, bem como suas práticas e identidades sexuais que não passam de máquinas, produtos, instrumentos, aparelhos, truques, próteses, redes, aplicações, programas, conexões, fluxos de energia e de informação, interrupções e interruptores, equipamentos, formatos, acidentes, detritos, mecanismos, usos, desvios...[32]

 

Aqui temos um grande desafio como psicanalistas: a abertura para configurações que questionam uma certa leitura do Complexo de Édipo, a necessidade de nos abrirmos para o contemporâneo naquilo que ele pode nos obrigar a repensarmos em nossos modelos[33]. Sem abandonar o grande eixo de toda psicanálise, que é o assumir do conflito como aquilo que nos constitui e a desessencialização como base de nossa prática.



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