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Resumo
Resenha de Gisela Haddad, Amor e fidelidade, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2009, 187 p.


Autor(es)
Darcy Haddad Daccache
é psicóloga e psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.


Notas

1 M. Viñar, Humano inumano. Texto inédito, p. 2.

2 G. Garcia Marquez, O amor nos tempos do cólera.

3 M. Del Picchia. Menotti, Juca Mulato, Belo Horizonte: Itatiaia, 2001, p. 50.

4 M. Del Picchia, op.cit., p. 47.

5 G. Haddad, Amor e fidelidade, p. 55.

6 G. Haddad, Amor e fidelidade, p. 129.


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 LEITURA

…E foram felizes para sempre

… And they were happy forever and ever
Darcy Haddad Daccache

Desde que o mundo é mundo, o ser humano ama, deseja, sofre.

No livro de gênesis, Jacob serviu Labão, pai de Raquel, por sete anos, mas este lhe deu Lia. Ao ver Raquel, filha de Labão, irmão de sua mãe, e as ovelhas de Labão… Jacó serviu mais sete anos que lhe pareceram dias.

Inspirado por essa passagem bíblica, Camões escreve o soneto imortal:

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão pai de Raquel serrana bela;
Mas não servia ao pai servia a ela,
Que a ela só de prêmio pretendia…

Porém, como o pai lhe dera Lia, Jacó serviu por Raquel mais sete anos.

O que mudou desde então?

É o que Gisela Haddad pesquisa em seu livro sobre o amor e a fidelidade. Este tema articula a história do amor romântico – que produziu a junção do amor e do sexo regulando a formação dos laços culturais modernos – com o pensamento psicanalítico, que algumas vezes foi crítico – e outras coadjuvante – desses fenômenos.

Seu livro analisa as coordenadas históricas e culturais desse assunto, utilizando-se principalmente do texto de Jurandir Freire Costa Sem fraude nem favor, das teorizações freudianas sobre o campo amoroso e sexual e do filme “Closer”, cujo tema principal são os amores contemporâneos.

Segundo a autora, as enormes expectativas e idealizações do que se pode esperar desse vínculo propiciam muitas vezes grande frustração. Tal qual as expectativas baseadas no ego ideal, impossíveis de realizar, o desejo de um par perfeito é terreno fértil para a decepção.

O ego ideal é como a cenoura do burro ou a terra prometida, que se situam em um horizonte em direção ao qual avançamos, mas nunca chegamos a habitar, como já escreveu Marcelo Viñar [1].

No início de seu livro, Haddad diz que “falar sobre a permanência do ideal do amor romântico nas uniões amorosas e sexuais como condição importante de felicidade para indivíduos na atualidade pode parecer anacrônico”, porém, o que a instiga a pesquisar é a permanência desse mito romântico em uma era plena do mais radical individualismo.

Com Freire Costa, a autora demonstra a trajetória histórica e cultural do amor e da sexualidade humana. Põe em relevo uma pesquisa da qual ele parte sobre a opinião de adolescentes, entre 13 e 16 anos, adultos jovens e universitários, das zonas sul e norte do Rio de Janeiro, sobre o avanço e a supersaturação da temática sexual. Nesse contexto, segundo Costa, o grande dilema das relações amorosas é o próprio amor.

O imaginário popular continua alimentando um ideário de amor, reforçado pela cultura das novelas, filmes e canções, mas Costa acredita que a possibilidade de alguém ser o único objeto de amor, sexo e gratidão de outro é impensável. A literatura, porém, mesmo no século xx ainda encanta muitos leitores com histórias como O amor nos tempos do cólera [2], em que Florentino Ariza espera por sua amada Fermina Daza por exatos cinquenta anos, nove meses e quatro dias, para com ela fruir um amor que os tornaria plenos. Ele acredita que nunca traiu sua amada, pois todas as relações que teve antes dela foram desprovidas de amor.

“A junção de amor e sexo dirigida a um único ser só foi possível no contexto histórico do século burguês. A partir do Século 18, a sociedade ocidental tomará como norma o culto ao amor romântico por ser organizada a partir da valorização da individualidade. O amor romântico funcionava tanto como um regulador da vida familiar como uma promessa de felicidade amorosa e conjugal”. Essas construções se estendem pelos séculos seguintes. São muitas as manifestações em que continuamos a ver o amor romântico ser cantado em prosa e verso como apologia da felicidade ou do maior sofrimento. Um exemplo disso é a poesia de Menotti del Picchia em que ele descreve o amor impossível de Juca Mulato pela filha da patroa:

Juca Mulato! Esquece o olhar inatingível!
Não há cura, ai de ti! Para o amor impossível.
Arranco a lepra ao corpo; extirpo da alma o tédio;
Só para o mal de amor nunca encontrei remédio… [3]

As promessas de felicidade estão também contidas neste texto de del Picchia:

Antes de amar eu dizia:
Para cortar na raiz esta agonia,
preciso amar algum dia,
amando serei feliz! [4]

Gisela Haddad promove, com seu texto, um diálogo entre Freud e Costa extremamente enriquecedor, pois evidencia as dificuldades de cada época para conseguir a tão buscada satisfação plena no amor.

Freire Costa acredita que a conquista da liberdade possibilitou a homens e mulheres maior crítica com relação ao amor romântico.

Enquanto Freud aponta a repressão sexual da era burguesa como geradora de um empobrecimento da experiência erótica dos sujeitos de sua época, Costa mostra a incompatibilidade entre aspiração amorosa romântica e as novas condições culturais de constituição dos pares conjugais. Ambos compartilham da busca de opções mais satisfatórias para a vida amorosa de seu tempo e da preocupação com as condições que a cultura oferece para essa satisfação.

Haddad discorda da opinião de Costa quando ele tenta desmistificar os resquícios do amor romântico e apontar as incogruências da manutenção de sua aura transcendente. Ela diz que não há como negar que o amor romântico possua data de “fabricação”, mas que mesmo assim ele ainda hoje produz efeitos de real e portanto não parece uma ilusão datada.

A passagem de um imperativo cultural de repressão para o extremo oposto – gozar – é apreciada no livro de Haddad a fim de pensar o lugar da fidelidade sexual nos pares conjugais. “O dilema do casal igualitário moderno seria a preservação do senso de individualidade” [5]. No entanto, não posso deixar de citar a ironia de Barjavel quando nos lembra que o homem gosta de pensar que é um ser total, independente, que sabe o que faz e o que quer. Sua existência individual é apenas uma ilusão destinada a dar-lhe o prazer da vida para conservar e transmitir a espécie. Nos anos 1960, o aparecimento da pílula anticoncepcional possibilitou outras discussões em torno da sexualidade humana. Esse acontecimento trouxe à tona mais uma vez as questões em torno das injunções do amor, do sexo e da liberdade. Não obstante, o medo de amar tem sido sempre uma questão perturbadora no coração de homens e mulheres.

A autora ressalta que Freud foi ao cerne do dilema amoroso. O sofrimento psíquico, diz ele, diante da impossibilidade de o amor sexual conseguir uma completa satisfação, deixa as pessoas expostas a dores extremas ao serem rejeitadas, traídas ou abandonadas.

Quando amamos, ficamos desprotegidos contra o sofrimento, mais à mercê do outro e vulneráveis aos infortúnios e às dificuldades da vida. A ruptura de um laço amoroso é sempre muito dolorosa. Nada parece mais gratificante do que a ilusão de possuir a fonte do amor incondicional, assim como nada parece mais terrível do que perdê-la” [6].

Haddad lança mão de diversos autores para cotejar psicanálise e romantismo, estendendo-se às áreas políticas, culturais, filosóficas, religiosas e literárias. Assim, seu livro é de amplo espectro, pois analisa os fundamentos de como hoje vivemos os vínculos amorosos. Mostra-nos como concebemos as relações entre amor e laço conjugal revelando suas raízes românticas. Confrontanos com as consequências teóricas e clínicas da herança inconsciente dessa versão do Discurso do Outro. Com pesquisa elaborada, escreve um livro que merece ser levado em consideração por todos aqueles que acreditam serem muitas as formas de amar.

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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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