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Autor(es)
Luiz Carlos Junqueira Junqueira
é psicanalista, membro titular da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.


Silvia Leonor Alonso
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise e professora do Curso de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, onde coordena o grupo de trabalho e pesquisa “O feminino e o imaginário cultural contemporâneo”.


Notas

1.     L. C. Figueiredo, "As escutas em análise e a escuta poética", Revista Brasileira de Psicanálise.

2.     D. W. Winnicott, "The manic defense", From Paediatrics to Psycho-Analysis.

3.     D. W. Winnicott, "Fear of breakdown", Psychoanalitical Explorations.

4.     M. Klein (1955), "Sobre la identificación", in: Nuevas direcciones en psicoanálisis, Buenos Aires, Paidós, 1965.

5.     P. Fedida, Nome, figura e memória, São Paulo, Escuta, 1992, p. 59.

6.     S. Bleichmar, Paradojas de la sexualidade masculina, Buenos Aires, Paidós, 2006.


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 DEBATE CLÍNICO

Caso Luciano

Luciano
Luiz Carlos Junqueira Junqueira
Silvia Leonor Alonso

Em "Debates Clínicos", a revista Percurso convida três psicanalistas de correntes teóricas e instituições diferentes, um deles como apresentador e dois como comentaristas. Solicitamos que o material e os comentários se atenham o mais possível à clínica, de modo que dela se depreenda a teoria e não o contrário. Cada convidado só conhece os outros dois participantes no final do processo. Com isso, visamos diminuir os fatores paratransferenciais que poderiam inibir a livre e descompromissada manifestação de opinião. Nosso objetivo é superar as divisões em nosso campo, proporcionar movimentos integrativos e estimular a reflexão sobre convergências e divergências na prática clínica.

 

Trarei à consideração uma experiência clínica que se presta, entre outras coisas, para a discussão de uma questão do setting psicanalítico que, na atualidade, tornou-se relevante: a intensidade da frequência de sessões é ou não parte essencial da metapsicologia?

 

Para tanto, falarei de minha experiência com um empresário de cerca de cinquenta anos que me procurou por ter ficado "órfão": seu analista de longa data resolvera se mudar de São Paulo. Ele, então, pede uma indicação à psicanalista da filha e chega a mim.

 

Já no contato telefônico fiquei com a impressão de alguém com dificuldade para formular suas intenções; ora parecia reticente, ora prolixo, ora até intelectualmente limitado. Ao conhecê-lo pessoalmente esse quadro emoldurou-se com uma presença anêmica, recatada ou mesmo abúlica. Além do mais exibia certa estereotipia nos gestos e na entonação da voz que me evocou o perfil de um nerd.

 

Um aspecto, no entanto, ressaltava com clareza: sua firme determinação de "não ficar sem análise", fato que, instantaneamente, mobilizou em mim o surgimento de vários rótulos como dependência, luto, entretenimento, e assim por diante. Diante da perspectiva de tê-lo como analisando, a paisagem que surgia no horizonte era de algo rarefeito, arrastado e, talvez, estéril.

 

Gradualmente, no entanto, sua mobilização em direção à "psicanálise" me intrigou a ponto de me fazer sentir que merecia ser investigada: ofereci-lhe, então, horários que tinha disponível no momento e que, no total, se encaixariam naquilo que, eufemisticamente, alguns chamariam de "alta frequência". Ele aceita a proposta sem pestanejar e ainda acrescenta que esse patamar estava uma sessão abaixo do que ele tinha na análise anterior. Algumas semanas após o início, mostra seu interesse em contar com mais um horário semanal, solicitação que eu atendi tão logo foi possível.

 

Luciano, meu agora analisando, revelou-se de uma assiduidade "profissional", de uma cortesia "impecável" e de uma sinceridade "invejável". Sempre que precisava lhe telefonar demonstrava satisfação ao me atender, nunca deixava de agradecer qualquer gentileza de minha parte, era um bom pagador, contestava educadamente aquilo com o que não concordava, em suma, era coautor de uma transferência positiva. Talvez, até, suspeitosamente positiva.

 

Aos poucos, um claro padrão delineou-se em nossos encontros. Chegava sempre adiantado uns dez minutos, aguardava confortavelmente seu horário, cumprimentava-me afavelmente com uma saudação oral, mas, quando cruzava comigo, me lançava um suspicaz olhar de esguelha. Dirigia-se, então, ao divã, deitava-se e após um curto tempo de reflexão, durante o qual limpava meticulosamente seus óculos, iniciava formalmente nosso trabalho: "Bem, doutor, ontem falávamos sobre coragem..." ou "O senhor sabia que a Violeta, minha funcionária, está grávida..." ou "A Roberta (esposa) continua enchendo meu saco querendo levar toda família dela pro sítio..." etc.

 

No geral, os assuntos de Luciano cobriam três áreas: família, trabalho e sua análise. Esporadicamente, comentava alguma notícia do noticiário, mas, sistematicamente, falava a respeito de como estava conseguindo se sair bem na vida. Suas referências às vivências de nossos encontros eram escassas, a não ser comentários reiterados a respeito de meu vestuário e de minhas preferências pessoais (que ele pinçava com interesse cirúrgico a partir das minhas observações): assim, aos poucos, foi emergindo nele um claro sentimento (identificatório, idealizado, introjetivo?) de querer ser "igual a mim" (sentimento autêntico, pois, com certeza, ele nunca ouvira falar do "Si j'etais vous" de Julian Green).

 

Após cerca de um ano, o assunto de sua análise recebeu um reforço de peso: ele passa a relatar um episódio, ocorrido quando estava na universidade, em que teve um colapso mental que o levou a interromper um curso de alto padrão que fazia. Evoca como, naquela época, precisou "descobrir" a psicanálise sozinho, já que seus pais, imigrantes incultos, não tinham como lhe dar orientação ou apoio, a não ser em termos materiais.

 

Isto posto, passei a encarar a determinação, a admiração e o cuidado que tinha em relação à análise com outros olhos, dei-me conta que ele aproveitava com naturalidade cada gota de suas sessões, apesar de que, se vistas superficialmente, elas poderiam parecer repetitivas e monotemáticas. Minha experiência psicanalítica, no entanto, já tinha me ensinado que precisamos tentar sempre alcançar a sutileza estética de um Monet, que perseguiu a realidade última da Catedral de Rouen, tentando representá-la exaustivamente a partir da multiplicidade de iluminações possíveis. Por baixo da crosta de um personagem aloprado, emergia cada vez mais alguém atento, sensível e quase que ingenuamente sincero. Essa percepção ratificou também minha posição habitual de "dar corda" com um olho a conversas banais, enquanto o outro olho fica atento a qualquer brecha, deslize ou "distração" que remeta ao campo transferencial e, em especial, a todo e qualquer elemento de extração metapsicológica. No caso de Luciano, há outro padrão que perpassa suas sessões, já que ele, invariavelmente, fica pulando de galho em galho quanto aos assuntos, sugerindo, muitas vezes, uma hiperatividade mental aleatória; não é incomum, porém, que subitamente ele faça um corte nesta logorreia para me interpelar com alguma pergunta irritantemente infantilizada do tipo: "Você acha que eu consigo tocar sozinho minha empresa, sem meu sócio?".

 

Creio, no entanto, ter chegado a hora de instilarmos um pouco de vida nesses relatos fenomenológicos, através da apresentação de vinhetas clínicas. Antes, porém, um breve parêntese: sempre achei que qualquer registro clínico não passa de um mero simulacro da experiência real - por isso, nunca cedi à tentação ilusória de buscar fidelidade através de registros mecânicos, ou mesmo de reproduções miméticas das sessões. Neste caso, no entanto, para minha surpresa, quando me dei conta, já estava fazendo algumas anotações no decurso de algumas sessões, transgredindo assim meus pressupostos racionais. Reconheci que isto ocorrera, pois eu "elegera" a experiência com Luciano para o presente relato, precisando, para tanto, reter certos ritmos de fala, certas palavras utilizadas e certos sentimentos vividos. Apropriação indébita de seu Eu? Talvez. Apropriação legítima de um material com interesse científico? Talvez.

 

Apresentarei uma sessão que se deu nas vésperas de minhas férias. Em sessões recentes, dois fatos significativos tinham ocorrido. O primeiro foi que, ao saber que eu tiraria férias, ele deduziu que eu iria viajar e, não conseguindo saber o meu itinerário, passou a falar de uma viagem que ele queria fazer com a família, solicitando de mim ("O senhor é muito mais viajado que eu!") sugestões de roteiros. O segundo ocorreu num dia em que, ao entrar na sala, percebeu que estávamos vestindo malhas exatamente iguais: essa "coincidência" deixou-o angustiado, passando a suspeitar que pudesse ser parte de seu desejo de me imitar.

 

Nessa sessão, ele se deita e, contrariando seu hábito, permanece em silêncio. Sinto que poderia estar com dificuldade de se despedir de mim. Depois de certo tempo fala em tom de tristeza:

 

- Hoje cedo acordei e ouvi uma música de que meu pai gosta: comecei a chorar, sentindo que ele está velho e que vou perdê-lo.

 

Como permaneço em silêncio, ele comenta:

- Você deve achar que tem a ver com as suas férias...

 

Digo-lhe que sim e que também não podíamos esquecer que, recentemente, seu outro analista viajara e não voltara.

- Continuo curioso para saber para onde você vai.

 

Sugiro que ele também estava "curioso" para saber para onde ele mesmo iria viajar com a família...

-Mas eu não sou o tipo de gente que não consegue admitir inveja e acho que isto é um ganho da análise. Em geral, as pessoas têm dificuldade em admitir suas taras e fraquezas, mas eu estou aqui para me expor às críticas.

 

Penso que ele tinha razão em sua autoavaliação: de fato acho que ele não só era sincero consigo como, também, se valia de seu senso de humor para enfrentar as adversidades e frustrações (aliás, como nessas ocasiões ele "ri de suas desgraças", cheguei a apelidá-lo de "risadinha", divertindo-o num primeiro momento, mas, posteriormente, lhe causando incômodo).

- Sabe, chamei ontem o funcionário que está demandando indenização para fazer um acordo...

 

Comento achar que ele está tentando chegar a um acordo comigo. Ele retruca de imediato:

- É verdade, a sua viagem (sic) para mim tem várias vantagens: 1a financeira; 2a vou poder ficar comigo mesmo; 3a vou ter mais tempo, mas em 4o lugar, tem uma desvantagem: não era nada disso que eu queria (risos!).

 

Comento que sua saída, no momento, era valer-se de seu bom humor.

- Nessa hora vale tudo: compreensão, paciência, bom humor... assim é a vida. É claro que a ausência de pessoas com quem a gente tem parceria faz falta...

 

Lembro-lhe, então, que não deixa de ser uma oportunidade para ajeitar a parceria consigo mesmo...

- Será que um dia vou parar de fazer análise?

 

Digo-lhe que este é um desenlace natural na medida em que a parceria consigo mesmo se fortaleça.

- Mas eu já administro bem minha vida: por exemplo, não precisei de você para reclamar do arquiteto.

 

Aproveito para indagar por que ele achava que precisava da análise.

- Acho que é para não me perder...

 

Pondero que, se ele sentia que administrava bem sua vida, não teria como se perder.

- É verdade, mas às vezes crio coisas que são ruins para mim. Eu faço a terapia para revisar os caminhos errados, porque os prejuízos são maiores que o investimento financeiro aqui. E não se trata do esforço financeiro, é estafante quase todo dia fazer uma revisão de suas ideias, é quase como sonhar acordado.

 

Sugiro que, talvez, fosse outro jeito de se proteger da separação.

- Acho que sim, você vai fazer falta, eu sei que nosso relacionamento envolve uma parte financeira, mas é como se fosse uma sombra, não é o mais importante!

 

Assinalo que sua afirmação era uma coisa boa de ser reconhecida, uma maneira indireta de dizer que gostava de mim ou daquilo que eu representava.

- Isto significa eu entrar nas minhas emoções?

 

Digo-lhe que sim.

- Você sabia que quando eu era solteiro meu pai pagou a terapia por três anos para mim?

 

Registro que ele também se sentia grato com o pai.

- Hoje, boa parte de meu investimento é na terapia, acho mais importante do que comprar propriedades. Se eu fosse filho da Roberta estava perdido (sua esposa é crítica ferrenha de seu gasto com a análise). Ou seja, prefiro vir aqui para limpar meus óculos como você falou uma vez...

 

A segunda vinheta começa numa sessão em que menciona a queda de sua libido e que talvez precisasse combinar com a esposa um "sexo sob encomenda", ou seja, tomar Viagra para uma relação previamente agendada. Comenta que deveria tirar umas férias com ela para "fazer um programazinho" e associa com a visão de um pênis feio que viu no vestiário do clube, dando a entender que o seu era mais atraente.

 

Na sessão seguinte, onde eu lhe oferecera um horário melhor, ele agradece, mas conta ter tido um sonho no qual eu pulava de minha poltrona para ter uma relação sexual com ele. Comento que quando trocamos gentilezas estamos sujeitos a desdobramentos imprevistos: lembro-lhe que alguns dias antes ele se oferecera para ir à farmácia me comprar um xarope para uma tosse que me acometera. Associa com o fato de seu sócio (de quem está prestes a se separar) estar com problemas no pâncreas e que, se ele morrer, vai ter que cuidar da empresa inteira. Mas, no momento, diz, o sócio vai lhe transferir dois funcionários para melhorar a sua performance, já que "na minha jurisdição não estou conseguindo penetração".

 

Chamo sua atenção para a conotação desse "troca-troca", e ele então reconhece as implicações sexuais dos entrosamentos humanos.

 

Espero, com essas vinhetas, ter ilustrado minha concepção de que a análise é um trabalho de formiga, que a maior parte do tempo da garimpagem psicanalítica é gasta no trabalho braçal de separar o joio lógico e psico-lógico do trigo meta-psico-lógico. Assim, a sessão representa uma mera continuidade da evolução da realidade última da vida emocional de Luciano. A meu ver, só sua referência final a poder usar a análise para "limpar seus óculos" configura plenamente uma percepção meta-psico-lógica. De fato, logo no início da análise eu interpretei que, para melhor se enxergar no mundo, ele precisava primeiro se enxergar por dentro com o olho da mente, ou seja, através da visão interior (insight).

 

luís cláudio figueiredo
Às voltas com a morte psíquica

Compartilho com o autor do texto que me cabe comentar a desconfiança em relação à possibilidade de um registro clínico comunicar a experiência original tal como vivida na situação analisante. Contudo, não tratarei o material escrito como um "mero simulacro da experiência real", mas como uma transformação dessa experiência, o que tanto oculta quanto a revela, às vezes, dissimuladamente. No texto se fala de uma "sutileza estética" a ser alcançada pelo analista para ter acesso à realidade última da experiência emocional, tema a que retornarei logo mais. Algo dessa mesma sutileza está presente na própria elaboração do "material clínico" e é requerida pela "escuta" do texto. Nessa escuta, deixarei provisoriamente de lado o que é ressaltado nos dois parágrafos com que se inicia e se encerra a apresentação do atendimento de Luciano: a questão do setting analítico - em especial a frequência das sessões semanais - e a dimensão metapsicológica do método em psicanálise. A elas, porém, retornarei ao final deste meu comentário. Este, alimentado pela escuta estética do material[1], tomará de início uma direção diferente.

 

Começarei, justamente, pelo tema da apreensão estética sutil. Há no texto uma apresentação de Luciano em que vibra uma forte presença da escuta estética e gestáltica: "precisamos alcançar a sutileza estética de um Monet para chegar à realidade última da Catedral de Rouen", diz-nos o autor. É exatamente disso que se trata na apreensão de Luciano. Desde o que ouve ao telefone no contato inicial, até o que vai captando ao longo das sessões, o analista exerce sua atenção flutuante segundo uma modalidade que não se restringe ao acompanhamento das trilhas associativas, à la Freud. Trata-se, isso sim, de deixar-se afetar por detalhes do estilo de Luciano, seus modos de apresentar-se e de funcionar na vida e na relação analítica, de forma a ir compondo um quadro impressionista (a referência a Monet não é casual) em que uma figura vai se formando a partir de pinceladas que introduzem cores, matizes e nuances.

 

A figura que se formou, ao menos para meus olhos e ouvidos, foi a de uma pessoa às voltas com a morte. Há uma "presença anêmica, recatada ou mesmo abúlica", "algo rarefeito, arrastado e talvez estéril". "Escassas" referências às vivências nos encontros analíticos. Falta vida a Luciano.

 

Ao lado desse aspecto anêmico e abúlico, uma série de sinais de certa "mecanização": a "assiduidade profissional" às sessões, a "cortesia impecável", "bom pagador", uma clara tendência à "estereotipia nos gestos e na entonação da voz". O que leva o analista a suspeitar daquilo que poderia se confundir com uma mera transferência positiva, uma suspeita que nos parece bem fundada e a que retornaremos mais tarde. Essa estratégia de combater os sinais da morte com algo mecânico ainda aparece na última vinheta relatada quando Luciano imagina que pode resolver a queda da libido com um "sexo sob encomenda" combinado com a mulher.

 

No entanto, ficamos sabendo pouco depois que Luciano exerce durante as sessões uma "hiperatividade mental aleatória". No contexto da anemia e da estereotipia, a hiperatividade mental fez-me lembrar o texto de D. W. Winnicott[2] sobre as defesas maníacas: a excitação motora ou mental parece estar aqui a serviço de negar a realidade interna tomada pela morte; a death inside estaria sendo negada pela hiperatividade mental aleatória, assim como um sujeito que não sabe nadar se agita desorganizadamente e se debate ao ser lançado dentro de uma piscina. No caso, a piscina seria o próprio inconsciente a que Luciano é atirado durante a sua sessão no divã. Não espanta que tenha dificuldade em "formular suas intenções, ora parecendo reticente, ora prolixo". A reticência atesta a falta de vida, a prolixidade vem da parte da defesa maníaca.

 

Contudo, sua ligação à análise - e quanto mais sessões semanais, melhor - é indiscutível. A questão que se coloca é: qual a natureza dessa ligação? A direção desse tratamento vai depender, como sempre, de fazer dessa ligação peculiar um instrumento de pesquisa e de transformação psíquica.

 

Um elemento decisivo para arquitetarmos uma tentativa de resposta é a referência histórica ao "colapso mental" em seu período universitário, ocasião em que "descobre a psicanálise" na ausência de outras fontes de sustentação ("pais, imigrantes incultos" que só poderiam oferecer algo material).

 

Seguindo mais uma vez Winnicott, entendemos o colapso como decorrente da ruína dos aparatos defensivos que deixam o sujeito à beira do abismo, na antecâmara da morte. Por isso, a "descoberta da análise" representa a descoberta de uma possibilidade de ligação à vida, ligação à vida de sua realidade interna estraçalhada pelo colapso. Essa ligação tira Luciano da agonia. Como sabemos, Winnicott[3] fala em "agonia" em seu famoso texto "O medo do colapso" para sugerir uma diferença entre o que ocorre em situações de agonia e o que pode ser experimentado em momentos de angústia, mesmo o de angústias muito intensas e primitivas. Não cabem dúvidas: as angústias são reações da vida ameaçada; já a agonia - frequentemente muito menos ruidosa - é própria da morte anunciada. Justamente o que caracteriza o colapso.

 

Descoberta como "ligação com a vida" em momento extremo de agonia, a psicanálise tende a se perpetuar e repetir nessa função. Impossível ficar sem ela, quanto mais sessões semanais, melhor; é nesse contexto que se forma o que me parece uma transferência narcísica que passa, entre outras coisas, pela identificação adesiva com o analista e com sua imitação. Na mesma direção, vai sua expectativa de fazer uma viagem seguindo um roteiro dado pelo analista, uma forma sutil de viajar acompanhado por sua "ligação com a vida". "Ser igual" ao analista não parece, efetivamente, caracterizar uma introjeção transmutadora, mas um instrumento para manter-se em vida, o não "me perder", de Luciano. Como está bem claro ao analista, é um jeito de "se proteger da separação". Cabe, no entanto, ir adiante: trata-se do pavor de separar-se de uma "ligação com a vida" a ser acionada vezes sem conta para não recair novamente na agonia da perdição.

 

O modelo que me ocorre é o da hemodiálise. Cabe ao analista e à sessão de análise realizar quatro vezes por semana uma sessão de hemodiálise mental em que Luciano se sinta revitalizado. Mais do que "limpar seus óculos", talvez trate-se de desintoxicar-se, "limpar seus rins". Como diz o analista, Luciano "aproveita cada gota de suas sessões", pois lhe parecem gotas do sangue purificado. Quando isso falta, eis que a agonia retorna e o pavor de se perder assoma. O problema, porém, é que isso pode se repetir ad infinitum, sem produzir transformações efetivas.

 

Em dado momento do texto, o analista, ao que parece, afetado pela presença da morte em Luciano, diz-nos "ter chegado a hora de instilarmos um pouco de vida nesses relatos". Acredito que esse "pouco de vida" não dependa tanto das vinhetas clínicas, nem, diretamente, da metapsicologia. Em parte, porque o "pouco de vida" é o que já está sendo instilado em doses diárias nas sessões de hemodiálise mental. Mas isso, como se viu, não basta, porque acaba fazendo parte do circuito das repetições. O "pouco de vida" parece vir de outro lugar. Aqui chama minha atenção o recurso ao humor, o que é muito bem assinalado pelo analista.

 

Creio que uma direção da cura analítica que vá além da hemodiálise passa pelas virtudes da "compreensão, paciência e bom humor", como o próprio Luciano admite. Substituir o recurso à hemodiálise por "compreensão, paciência e bom humor" é o trabalho psíquico lento e a ser feito pela dupla. Ao humor caberia, fundamentalmente, o estabelecimento de alguma separação no campo tomado pela adesividade. Pelo bom humor, entre outras coisas, obtém-se algum descolamento na relação entre Luciano e seu analista, por exemplo.

 

Talvez desse lento trabalho psíquico compartilhado já resultem a possibilidade de fazer contato com a realidade interna, reconhecer seus desejos, e sua capacidade de reconhecimento e gratidão diante do analista e do pai. Talvez seja nesse momento do processo que a ideia de fazer um acordo com o "funcionário que está demandando indenização" possa ser acolhida como uma autêntica evolução da situação transferencial. Com a máquina de hemodiálise não há espaço para negociações, mas com o analista que começa a sair desse lugar, sim. É claro que nenhuma indenização poderá compensar Luciano por seu colapso e por suas agonias. Mas algum acordo, o que sempre pressupõe a possibilidade de alguma renúncia, vai se tornando possível.

 

No entanto, na medida em que Luciano sai do plano da agonia, abrem-se para ele os campos das angústias, tal como aparece no sonho da relação homossexual com o analista e na relação com o sócio. Aliás, nesse caso tanto temos a problemática da morte, mas agora projetada na doença do pâncreas do sócio, como a do troca-troca erotizado e por isso angustiante. Tais angústias serão, como já parecem estar sendo, emergentes bem-vindos que marcam mudanças importantes no psiquismo de Luciano. A elas provavelmente se dedicarão os esforços terapêuticos do analista, embora sua escuta ainda precise estar atenta às ressurgências da death inside e às estratégias consagradas de Luciano lidar com sua agonia negando a realidade interna morta.

 

Podemos agora reencontrar as preocupações originais do autor: a questão da frequência e da metapsicologia.

 

Procurei acompanhar o relato e o analista em seu "trabalho de formiga", deixando-me afetar pelos indícios do que se passava entre ele e Luciano. Certamente, tentei, porque também acho indispensável, transpor o plano fenomenológico para, a partir da metapsicologia, lançar um segundo olhar. É aqui que se tornou para mim importante distinguir a agonia subjacente de Luciano de suas angústias, e sugerir que a transferência positiva é realmente "suspeita", pois coloca a análise em uma situação, simultaneamente, de muito poder e poder nenhum. Realmente, a aparente transferência positiva encobre uma fortemente negativa, a que paralisa e produz imobilidade, repetição. Como parte da máquina de hemodiálise mental, o analista pode "dar vida" - o que é muito -, mas não pode produzir insight ou mudança. É evidente que não caberia ao analista recusar-se a ocupar o lugar que Luciano lhe destina na transferência narcísica. "Compreensão, paciência e bom humor", porém, permitirão que, a partir dessa posição, alguns insights tornem-se possíveis, que a realidade interna tomada pela morte possa ser acessada e não apenas negada pela defesa maníaca e pela identificação adesiva.

 

Considerando esse conjunto de questões, posso sugerir que a frequência semanal precise ser considerada de forma bem matizada. Se a análise correspondia, ao menos inicialmente, a uma sessão de "hemodiálise mental", a alta frequência é ao mesmo tempo compreensível, necessária e insuficiente. Compreensível e necessária, pois sem ela Luciano retorna à situação agônica de seu colapso. Insuficiente, porque, assim como nenhuma hemodiálise cura uma doença renal, a mera repetição quatro, cinco, seis ou sete vezes por semana de um encontro analítico não gera insight ou transformação.

 

Contudo, será a partir dessa situação e nela se apoiando que o trabalho analítico poderá criar para a análise e para o analista um lugar diferente. Quando esse lugar puder ser ocupado, o que parece já começa a ocorrer, as quatro sessões semanais poderão se converter em uma base muito favorável ao processo analítico. No entanto, é provável que Luciano procure experimentar um pouco de sua nova condição em termos de libertar-se da máquina de hemodiálise, reduzindo um pouco a frequência. O que eu não veria com maus olhos...

 

silvia leonor alonso

Entendo que a inclusão da seção "Debates clínicos" na revista Percurso tenha surgido na tentativa de favorecer uma conversa dos analistas sobre a clínica. Perante a existência de teorias diferentes na psicanálise e sua transformação em "escolas", que produziram uma fragmentação no movimento psicanalítico e transformaram os pertencimentos institucionais em guetos fechados, vivencia-se há bastante tempo uma dificuldade de diálogo entre os analistas. Uma torre de Babel na qual aparentemente cada termo precisa ser redefinido ou reinserido numa construção de sentido, já que as mesmas palavras querem dizer coisas muito diferentes para cada analista.

 

Entendo então que a proposta de oferecer um material clínico anônimo e sem referência teórica ou institucional tende a deixar de lado as transferências imaginárias e preconcepções sobre os pertencimentos que possam dificultar a troca. Toda iniciativa de favorecer as trocas de experiências entre analistas me parece valiosa, sobretudo porque a complexidade do ofício e o isolamento que o seu exercício nos demanda só podem ser beneficiados com ela. No entanto, não podemos cair na ilusão de pensar que um material clínico seja uma "pedra bruta" que está lá para ser analisada desde diferentes pontos de vista. Um material clínico é uma construção que um analista faz a partir da fala em transferência de um analisando, dos seus pensamentos e intervenções, assim como daquilo que é produzido no próprio encontro. Mas, além disso, o material clínico é um recorte que um analista faz, incluindo ou excluindo dados cuja importância ou falta desta se determina a partir de seu percurso formativo, suas crenças e seus suportes teóricos. Esse recorte restringe e pode às vezes dificultar o trabalho do comentador.

 

Neste caso, o relato começa apresentando o analisando (homem de cinquenta anos) como um empresário e um órfão. Empresário é um lugar na vida de trabalho e com ressonâncias na vida financeira, enquanto órfão, neste relato, não diz nada da história de vida do analisando, exceto a da análise: uma longa análise que foi finalizada pela mudança do analista.

 

O analisando, na primeira impressão do analista, é alguém muito limitado: presença anêmica, fala restrita, gesticulação estereotipada e com uma dificuldade para formular suas intenções, o que me faz pensar: trata-se de uma restrição oriunda de uma inibição, depressão ou forte recalque? Quanto dessas características são básicas do psiquismo do analisando e quanto estão acentuadas pela sombra da perda não processada, bem como do desequilíbrio narcísico que ela pôs em jogo? Tudo parece pouco, inclusive a descrição que o analista faz é de poucas palavras, no entanto uma intenção do analisando aparece com força: a determinação de não ficar sem análise. Procura curiosa, em que a análise parece estar como alvo grande de investimento, mas cuja presença aparece na frase negativa - aquilo que não pode faltar.

 

Perguntei-me como esta análise começou. A palavra gradualmente me faz pensar numa aproximação aos poucos, mas nada nos é relatado; será que aconteceram entrevistas preliminares ou será que tudo se restringiu a um encontro para estabelecer o número de sessões e os horários? Pessoalmente, penso que as entrevistas de início de uma análise têm um lugar importante, em número que varia com cada analisando. Entrevistas que não são consulta nem anamnese, nas quais a escuta analítica se coloca desde o início para descentrar a fala de seu caráter comunicativo ou confidencial. Elas nos ajudam a nos localizar perante a demanda, levantar as primeiras hipóteses sobre quem está na nossa frente e pinçar o ponto de sofrimento a partir do qual somos procurados. Além disso, esses encontros nos permitem mapear as condições necessárias para estabelecer o setting. Se não trabalhamos com um setting previamente estabelecido pela instituição, e se o número de sessões, o uso ou não do divã e outras variáveis possíveis do setting se estabelecem em cada caso singular, não sei como isso poderia ser feito sem entrevistas preliminares.

 

Nessa procura em particular me parece que as entrevistas preliminares teriam sido de muita importância, seja para marcar uma "descontinuidade" com a análise anterior interrompida, para interrogar a demanda e separar aquilo que poderia ser um ponto de partida dessa análise, e para recortar e circunscrever aquilo que pode ter ficado enganchado no "acontecimento atual" da interrupção da análise que a precedeu.

 

Primeiro movimento: O analista descreve o analisando como cortês, assíduo, educado, bom pagador, o que o leva a afirmar que é coautor de uma transferência positiva e, a seguir, acrescenta suspeitosamente positiva; concordo que aqui há algo que mereça uma interrogação. Sabemos que a transferência não define seu signo positivo ou negativo pelo afeto que aparece: amor ou ódio. Se assim fora, Freud nunca poderia ter afirmado que a transferência erótica (na qual o analisando se apaixona pelo analista) seria uma transferência negativa. Essa negatividade está por Freud colocada em relação ao próprio trabalho de análise, ou seja, a transferência erótica é negativa porque age como resistência, obturando o trabalho de análise e seu prosseguimento. É negativa para Freud porque se fixa num ponto, se agarra à pessoa do analista impedindo que a associação livre continue funcionando. Na transferência erótica, há uma imobilização num objeto de amor e idealização que paralisa o movimento de ligação/desligamento, interrompendo a transferência de representações. Lendo o relato, me interroguei quanto de resistência havia nesse ficar fixado na identidade de bom filho. De resistência a se expor aos desdobramentos possíveis da fala, talvez ameaçadores, assustadores. Sabemos que não são poucas as vezes que numa análise uma identidade fixa se monta como resistência. Protegendo do quê? De um medo de fragmentação egoica, de fortes pulsões recalcadas, ou de conflitos nos quais teme se perder?

 

Nesse momento, a pulsão escópica age na cena transferencial. "Aos poucos, um claro padrão delineou-se em nossos encontros. Chegava sempre adiantado uns dez minutos, aguardava confortavelmente seu horário, cumprimentava-me afavelmente com uma saudação oral, mas, quando cruzava comigo, me lançava um suspicaz olhar de esguelha. Dirigia-se, então, ao divã, deitava-se e após um curto tempo de reflexão, durante o qual limpava meticulosamente seus óculos, iniciava formalmente nosso trabalho: ‘Bem, doutor, ontem falávamos sobre coragem'"... A pulsão escópica, no movimento de ver, fisga o corpo do analista, estendido no seu vestuário e fica lá, agarrado, com dificuldade de se separar no movimento de deitar no divã. Ao mesmo tempo emenda as sessões: ontem falávamos..., eliminando o tempo da ausência. A isto se somam os pedidos de resposta diretos, que chamam à pessoalidade do analista, ou seja, tentando preservar a contiguidade.

 

O único lugar que parece escapar dessa dinâmica é o de empresário: "se sai bem na vida" e na análise "é um bom pagador".

 

Segundo movimento: no agir da pulsão escópica, o analisando fisgava o corpo do analista na tentativa de uma identificação que os juntasse; na curiosidade sobre sua vida pessoal, tentava eliminar o terceiro ausente. Algum movimento vai sendo feito na cena transferencial na medida em que se nomeia: "quer ser igual a mim". Um deslocamento aconteceu, foi aberto um espaço para que algo seja enunciado como desejo, e desejar ser igual ao outro implica que exista um outro.

 

Outro ponto: o analista chama o sentimento de um "sentimento autêntico", "pois com certeza, ele diz, ele nunca ouvira falar do ‘Si j'etais vous' de Julian Green" - texto que, evidentemente, o analista toma como uma metáfora da situação transferencial. Trata-se da história, narrada pelo escritor americano de língua francesa, de Fabien, jovem que fez um pacto com o diabo para poder assumir a identidade das pessoas cujas vidas quer ter. Basta a pronúncia do nome para converter-se em Outro, até o infinito. No final da história ele volta a seu corpo e morre em paz junto à mãe. Melanie Klein, no seu texto sobre identificação de 1955[4], comenta a obra de Green, entendendo o movimento identificatório como tentativa de superar angústias psicóticas, e questiona seu final. Quando Green soube da crítica, disse que na primeira versão da história o jovem retoma o pedido ao diabo, num movimento infinito, sendo este o inferno. É na repetição sem fim que moram os demônios, e onde o psiquismo é devorado pelas chamas da destruição. Sabemos que a não finitude, a imortalidade, é pilar fundamental do sistema narcisista.

 

No entanto, a afirmação do analista "era um sentimento autêntico porque com certeza ele nunca ouvira falar do ‘Si j'etais vous de J. Green'" me interroga. Penso que se o analisando tivesse lido o texto e falasse dele isto não faria com que o sentimento deixasse de ser autêntico. Alguém falar na sessão do que lê, pensa ou lembra não implica necessariamente que esteja fugindo do afeto: pode não ser uma defesa e sim uma forma de deixar o afeto se dizer. Mas aqui valeria uma troca sobre a metapsicologia do afeto.

 

Nesse momento do relato, a demanda de análise se ressignifica, ligando-se ao sofrimento: aparecem as intensas vivências desorganizadoras do "colapso". Importante, pois é o sofrimento que justifica nossa prática. Mas penso que o que está sendo chamado de colapso mereceria uma interrogação. O que aconteceu com esse adulto jovem que não pode sustentar a continuidade do curso de alto padrão? Conflitos com a sexualidade que não conseguia processar por falta de referências paternas? Angústia de ir mais além do pai?

 

O momento que quero destacar no relato é do surgimento da angústia. Ao ver as malhas idênticas dele e do analista, algum sinistro do duplo parece se instalar. A fala se abre para a angústia, surgiu o estranhamento perante essa forma identificatória. Algum efeito de sinistro que talvez abra um espaço de processamento para novos equilíbrios narcísicos.

 

A presença de uma ausência: a sessão começa com um silêncio, contrariando o hábito. No silêncio se instala uma descontinuidade entre as sessões, não começa dizendo: como falávamos ontem, como se não tivesse existido intervalo e, portanto, ausência. Mas penso também que a pausa na fala separa seu corpo do corpo do analista, pois sua fala logorreica, sem pausa, bem podia ser uma tentativa de manter uma continuidade permanente entre sua boca e o ouvido do analista.

 

Nessa pausa surge a fantasia de uma ausência antecipada: "Hoje acordei cedo e ouvi uma música de que meu pai gosta: comecei a chorar, sentindo que ele está velho e que vou perdê-lo". A presença possível da ausência na fantasia da finitude transforma a imagem de um pai, fazendo-o finito e mortal. Depois desse momento, prenhe de afeto e de sentido, volta para o analista, quer saber de sua viagem, de suas férias, tenta mais uma vez enganchar-se a sua pessoa como ideal invejado. Oscila entre perder-se no Outro ou perder o Outro; mas oscila também entre a passividade - estou aqui para me expor às críticas - e a recuperação da atividade e da potência - chamei ontem o funcionário que está demandando indenização para fazer um acordo. Pergunto-me de que negociação se trata; penso que interrogar esse acordo poderia ser um caminho interessante. O analista opta por trazê-lo novamente para si: está tentando chegar a um acordo comigo. Esta me parece uma entrada complicada que pode favorecer o lugar da resistência, em vez de abrir caminhos associativos que aprofundem no conflito paterno. Corre-se o risco de manter um diálogo comunicativo que se restringe a uma dualidade especular e que mantém de fora o terceiro ausente. Cito Fedida: "o destinatário transferencial é um ausente pelo qual o analista não deve se tomar... Se a pessoa do analista se torna demasiadamente presente ela acabará por legitimar uma falsa conexão [...] e, nessas condições, por fazer do seu ‘próprio eu' a representação superestimada de um alvo acomodado como uma resposta"[5].

 

De qualquer forma, a ausência vai sendo reconhecida na sessão: da fórmula em negativo "a análise que não pode faltar", a negação da ausência vai transformando-se em frases afirmativas como a ausência reconhecida, a ausência das parcerias das quais se sente falta. Junto com isto a análise que não podia faltar é interrogada como finita: será que algum dia vou parar de fazer análise?

 

O pai retorna na sessão: "sabia que quando eu era solteiro meu pai pagou a terapia por três anos para mim?". Retorna pela via do dinheiro, é nesse lugar que ele reconhece a presença do pai e se identifica com ele. O analisando ganha o dinheiro e o usa de acordo com sua vontade, paga sua análise, se identifica com o pai pagador e nessa identificação adquire um grau de autonomia, deixando o lugar de filho: "Se eu fosse filho da Roberta estava perdido [ela não o deixaria pagar a análise]".

 

Mas o que fazer com as faltas do pai? "Pessoa inculta que não podia acompanhá-lo na procura de uma análise, só dar-lhe apoio material". Pergunto-me se será esta a negociação que está difícil de fazer. Como negociar as faltas no pai? Parece-me que até agora, para não deparar com elas, vive pedindo indenização. Exige que o analista culto e viajado lhe dê permanentemente respostas diretas, lhe faça o roteiro da viagem, ou seja, lhe satisfaça as necessidades e não lhe falte nunca. Mas aqui ele se perde num lugar filial, sem poder processar a orfandade.

 

Penso que algum deslocamento aconteceu, permitindo outro caminho da pulsão - do ver e ser visto ao ver-se. Termina a sessão falando que vem para limpar os óculos, metáfora usada pelo analista.

 

A segunda vinheta clínica não tem uma sessão reproduzida e sim uma síntese de duas, nas quais a temática é a sexualidade. Nelas "o olhar" está colocado no corpo sexuado, olhar que serve não para perder-se no outro, mas como instrumento da curiosidade sexual, com tudo que esta implica de jogos desejantes, de troca-troca, mas também de rivalidades. Algo no eixo da potência/passividade está em jogo, mas não tenho dados suficientes para especular sobre escolhas objetais; só quero lembrar a importância que a passividade perante o pai e o querer receber algo dele têm na construção da masculinidade (remeto a Bleichmar[6]). De qualquer forma, nessa segunda vinheta estão presentes conflitos neuróticos, assim como tentativas de reequilíbrio narcísico perante as dificuldades da potência. Há uma atividade fantasística importante, inclusive com a produção de um sonho, parecendo-me um momento importante da análise.

 

O colega começa e termina o relato levantando uma questão sobre a relação entre a metapsicologia e o setting. Penso que a relação é muito direta, não há experiência analítica que seja mera produção intersubjetiva da dupla, assim como não há teoria que não passe pela clínica e pela análise. A metapsicologia tem que estar presente como referência de pensamento necessária num processo de análise. Referência que, como afirma Pontalis, nos permite estar no informe sem nos perdermos no caos.

 

Para Freud, a metapsicologia está na base do método. O método psicanalítico encontra sua justificativa, seu fundamento e seu poder de transformação porque o psiquismo funciona de determinada maneira. A metapsicologia é o conhecimento das dimensões tópicas, dinâmicas e econômicas do psiquismo, nas suas relações entre as instâncias psíquicas, que em geral estão em conflito.

 

Sabemos que a relação entre a teoria metapsicológica e a prática analítica não é de aplicação e que a teoria na psicanálise não é um sistema filosófico. A metapsicologia não é uma metafísica, ela está sempre atravessada pela fantasia e inclui no seu bojo o poder metafórico; mas é uma produção conceitual necessária e uma referência fundamental no exercício clínico.

 

Em relação ao setting, entendo que, na medida em que este não está determinado institucionalmente e é estabelecido em cada análise, exige o conhecimento metapsicólogico, ou seja, o mapeamento do terreno psíquico em que estamos pisando para o estabelecimento do enquadre.

 

Entendo que a teoria com liberdade de pensamento, a disciplina do método e a flexibilidade da técnica são os três pilares básicos do ofício analítico, mas que a flexibilidade da técnica só é possível com um rigoroso conhecimento da metapsicologia. Mas será que conseguiríamos concordar na resposta à pergunta: "o que entendemos por metapsicologia?".


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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