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Resumo
Resenha de Marilucia Melo Meireles, Os “bobos” em Goiás: enigmas e silêncios, Goiânia: Editora UFG, 2014, 368 p.


Autor(es)
Mara Selaibe
é psicanalista, aluna do curso de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e Mestre em Psicologia Social.


Notas

1.     M. M. Meireles, Anomia: patologia social do milênio, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2001.


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 LEITURA

Os “bobos” fora da corte [Os “bobos” em Goiás: enigmas e silêncios]

"Fools" out of court
Mara Selaibe

Resenha de Marilucia Melo Meireles,
Os "bobos" em Goiás: enigmas e silêncios, Goiânia: Editora UFG, 2014, 368 p.

 

 [...] não foram os "bobos" tema de discurso político propositivo, não transitaram para o espaço institucional, para eles não houve propostas e nem programas oficiais. Jamais a integridade pessoal de um "bobo" foi protegida por qualquer denúncia formal de assédio. Os que restaram permanecem imersos, ainda e sempre, no anômico. Trata-se de uma modalidade de interação estática, que não estabelece qualquer relação com as outras transformações por que o mundo passa.

 

Essa citação (p. 27) de Os "bobos" em Goiás: enigmas e silêncios - de autoria da psicanalista e pesquisadora Marilucia Melo Meireles - dá a medida da urgência e da importância do tema tratado. Numa longa e fina escuta pelas ruas, praças e salas das casas da cidade de Goiás, com delicadeza e firmeza, a autora nos apresenta uma situação singular da história local cujos traçados remetem inequivocamente, e mais uma vez, a depararmos com falsas inclusões sociais travestidas pelo (popularmente conhecido) jeitinho brasileiro. Trata-se das vidas de pessoas nascidas com algum grau de deficiência mental, aptas ao convívio social, e cujo lugar no pacato cotidiano da cidade é o de serviçais de famílias em troca de casa e comida. Como agregadas são, desde crianças, destinatárias de uma qualidade de relação afetiva com acentuado cunho ambivalente. Tradicionalmente recebem o nome de "bobos" pelos habitantes locais.

Quem são esses "bobos" e "bobas" da cidade de Goiás? Há mais de um século, crianças com deficiência mental, nascidas no meio rural e também em zonas próximas, são trazidas para seu hospital. Uma vez ali, acabam por serem agregadas às famílias que se interessam em cuidar delas contanto que desempenhem, vida afora, as tarefas domésticas. Os "bobos", portanto, não deixam de atualizar a escravidão e a humilhação dos negros e dos índios - sempre dos pobres e sem poder - exilados da cidadania numa condição acobertada por uma qualidade do afeto destinado a esse que é e não é da casa, da família; afetividade capaz de submeter e escamotear a violência implicada. Ainda, na exata tradição brasileira, esses meninos-moços e meninas-moças, habitantes dessa espécie de senzala, enredados na trama de seu microcosmo caseiro, acabam vítimas, tantas vezes, de vivências silenciadas da exploração sexual.

Ora, essas afirmativas são, de fato, parte daquilo que a pesquisa de Marilucia Melo Meireles faz saber. Nada disso se encontra explicitado pela comunidade. Justamente as indagações feitas pela pesquisadora, e percorridas num cruzamento transdisciplinar, forjaram as condições para a formulação dos discursos de moradores e de "bobos" e "bobas" capazes de arrancar do silêncio e do conluio a perversidade presente na situação.

Como psicanalista, Marilucia Melo Meireles se inquieta diante da recusa popular explícita em falar do assunto; diante da constatação perturbadora de que os habitantes locais podem se referir a esses deficientes mentais como "bobos", imprimindo, inclusive, por vezes, ao relato ou comentário, um certo tom carinhoso, mas aqueles não nascidos e criados ali não devem sequer mencionar o termo. O que exige ser silenciado? Para quê? A autora propõe uma direção à busca de entendimento possível: "O silêncio, para o psicanalista, é profundamente barulhento, pois é aí que acontece o embate, uma tentativa de reflexão, de reconstrução psíquica, ou uma negação, um isolamento, momento propício da eclosão da angústia, tão necessária para a percepção e captação da externalidade e, consequentemente, do nosso lugar como protagonistas de um mundo em relação" (p. 27).

Vale ressaltar que não seria possível adentrar os códigos - micropoliticamente construídos pela coletividade implicada - sem se dispor a ir além do indispensável saber psicanalítico. A psicanalista, imbuída dessa certeza, preparada por seu estudo pregresso sobre a anomia[1], se faz acompanhar por contribuições da filosofia, da antropologia, da etnografia, da história, da sociologia, da medicina, da literatura. O leitor partilha da elaboração dessa rede de saberes entremeados em função da questão mobilizadora da pesquisa.

Somos apresentados a um Goiás profundo - essa parte do Brasil Central - através de um estudo de cunho histórico e social minucioso: nele o entendimento sobre a formação desse estado da nossa federação é conduzido pelas reminiscências subjacentes (como escreve a autora) ao surgimento da figura do "bobo". Essas páginas do livro, compostas pela introdução e pelos dois capítulos subsequentes, conduzem o leitor a uma pesquisa ímpar da rede de determinações fundantes da questão tratada na obra. Nota-se um cuidado da autora em fornecer a seus leitores a estrutura e o contexto sobre os quais ela mesma se apoia para desenvolver sua escuta e suas reflexões.

Na sequência, encontramos uma espécie de cerco à problemática dos "bobos" na cidade de Goiás. Mas agora é um cerco teórico sobre a deficiência mental propriamente, apontando para uma longa discussão de hipóteses. Mais uma vez Meireles não se restringe e não nos limita a um saber. Além de um estudo nosográfico, cinco perspectivas (neurológica, genética, antropológica, psicanalítica e psicossocial) estão ali trabalhadas. É por esse vértice articulado de discussão das abordagens que a autora nos prepara para a consecução da parte decisiva de sua pesquisa.

Logo adentramos nos capítulos do livro que explicitam o modo proposto para enfrentar a desnaturalização da explicação popular para a presença dos "bobos" e para as motivações do senso comum em recolhê-los como agregados. As pessoas da cidade consideram a existência marcante dos "bobos" apenas como uma consequência de relações consanguíneas ou até incestuosas. Não se preocupam em interrogar essa máxima, apenas a recebem e a reconhecem como um fato dado. Entretanto, Marilucia Meireles nota o constrangimento das pessoas em se pronunciarem sobre a história dessa saga dos "bobos", sobre a vida cotidiana que partilham com eles, sobre os motivos e as supostas razões da presença dos "bobos" pela cidade. E ancora suas perguntas nesse ponto, faz passar por essa resistência a sua atenção flutuante e segue os índices considerando que há o que buscar justamente no ato repetido das tergiversações.

Nos encontros diretos com os "bobos" e "bobas", conduzidos com suavidade e muita disposição interessada, a autora foi arregimentando observações de aspectos singulares das vestimentas, dos adornos, da gestualidade, da expressividade, da maneira como ocorre a circulação dessas pessoas pelas ruas da cidade, das palavras e frases usadas e das falas interrompidas, das minúcias incrustadas nos discursos de meias palavras... Todo um inventário etnográfico (como acentua Massimo Canevacci, no prólogo) foi forjado e intimamente articulado, resultando numa espécie de cartografia da subjetividade daquela região tão diminuta e tão amplamente representante de um modo de vida arcaico, porém ainda atualizado no Brasil.

Nas conversas com os moradores e com membros das famílias junto às quais os "bobos" e as "bobas" residem, em contato com as cuidadoras no asilo onde muitos deficientes mentais, já idosos, vivem os restos de suas vidas, a autora, goiana de nascimento, conhecedora dos códigos de relacionamento social, criou um percurso sem precedente para angariar a confiança e a disposição de cada qual em colaborar buscando memórias, atualizando impressões, relatando detalhes de acontecidos e sabidos. Seus registros, disponibilizados num longo e detalhado capítulo, foram recolhidos em modalidades diversas e isso permitiu também a pluralidade de entradas nas análises desses materiais.

A consanguinidade-causa foi, assim, submetida a uma série de perguntas e hipóteses as quais, segundo Meireles, derivaram do próprio acúmulo de dados (ou repertório, como ela prefere chamar as informações obtidas). A riqueza dessa discussão traz ao leitor dois caminhos de aprendizagem: um, evidentemente, é a reflexão sobre o tema e os lugares para onde esta foi capaz de chegar. O outro é sobre o método e a metodologia do trabalho de pesquisa senso estrito. Impressiona o leitor acompanhar passo a passo esse trajeto implicado e, ao mesmo tempo, discriminado do fazer/conduzir/refletir sustentando o foco numa precisão sem rigidez.

Marilucia Melo Meireles articula quatro perspectivas na consideração sobre a representação da consanguinidade-causa para a existência dos "bobos" (as quais apenas citarei para garantir que a curiosidade do leitor desta resenha vá direto à fonte a fim de aprofundar cada uma delas): o arranjo entre a tradição daquela cultura e a prática da naturalização da existência dos "bobos", o vértice antropológico sobre o tabu do incesto, a teoria do avesso do tabu e, ainda, o ponto de vista que explica a consanguinidade-causa a partir da dissonância cognitiva. Se a consanguinidade-causa deve ser questionada em seu papel explicativo, ela, por outro lado, se revela nessa pesquisa como uma ideologia da oligarquia regional, disfarçando a espoliação que se encontra nas raízes dessa prática.

O livro, portanto, deixa à mão de todos nós uma abertura construída ao longo da pesquisa pela sua autora. E essa abertura é tão necessária quanto todas as outras de todos os arquivos fechados no Brasil: aqueles referentes ao genocídio indígena, aqueles que acumulam dados sobre as senzalas e os pelourinhos, aquele da guerra do Paraguai, aqueles referentes à tortura praticada nos anos da ditadura civil-militar, aqueles sobre os maus-tratos e confinamento dos internos dos hospitais psiquiátricos e, em especial, do Juqueri, aqueles da antiga FEBEM, aqueles da polícia civil e da polícia militar que seguem acumulando histórias malditas nas cadeias e nas prisões. São sempre arquivos de desalento, desrespeito e falsas inclusões que dizem de como temos funcionado sincrônica e diacronicamente como nação, nas filigranas das ações cotidianas e nas micropolíticas das convivências.

E mais: no caso dos "bobos" e "bobas" da cidade de Goiás e região, a autora enfrentou sem restrições o risco, até essa publicação, de essa pratica jamais ser inscrita dada a ausência de registros. Seu pioneirismo - de construir um arquivo aberto - é ainda uma contribuição relevante para estudos posteriores em várias áreas do conhecimento e da pesquisa. Goiás e o Brasil passam a ter disponível um pedaço da nossa história.


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