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Resumo
Resenha de Edson Sousa e Paulo Endo, Sigmund Freud: ciência, arte e política, Porto Alegre: L&PM, 2009, 128 p.


Autor(es)
Adriana Victorio Morettin
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, e mestranda do Instituto de Psicologia da USP.

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 LEITURA

Uma leitura de Freud – a psicanálise e suas interfaces

Sigmund Freud: ciência, arte e política


A reading of Freud – Psychoanalisys and its interfaces
Adriana Victorio Morettin

O livro Sigmund Freud: ciência, arte e política é uma edição de bolso destinada àqueles que desejam se aproximar da psicanálise, o que impõe uma difícil tarefa a seus autores, Edson Souza e Paulo Endo: a de tratar um tema tão complexo e amplo como o da psicanálise freudiana sem correr o risco de simplificação. Não só conseguem tal feito, como também produzem um texto que mantém em sua estrutura uma abertura, própria do pensamento psicanalítico. Em narrativa fluente, o ensaio trata de pontos centrais da psicanálise, norteando-se pela ideia de que a descoberta do inconsciente foi um saber inédito, saber estrangeiro por excelência: “este ensaio biográfico se insere, então, numa vocação pelo incompleto e pelo interminável, uma vez que, como nos ensina a psicanálise, é só na incompletude que se exerce o desejo, que, como tal, persiste fascinando-se e decepcionando-se com seus objetos” (p. 109).

Somos conduzidos, em muitos momentos, a conhecer a intimidade e as reflexões de Freud por meio de sua correspondência, que ocupa lugar privilegiado em toda a extensão do ensaio. Tal escolha deve-se à intenção de transmitir no bojo do próprio texto uma alteridade: movidos pelo tempo ágil da correspondência eletrônica, tempo sem espera, somos introduzidos neste outro tipo de narrativa que não tem mais lugar na atualidade, deslocando-nos para outro tempo. A troca de cartas, como tematizam os autores, é “um exercício de paciência, uma experiência temporal” (p. 18). É por esta via que fazem alusão a outro tipo de experiência temporal – a experiência de análise.

A correspondência de Freud, ainda de acordo com os autores, apresenta também a importante função de produzir conhecimento por meio do diálogo. O mesmo processo, de certo modo, se dá na construção deste livro, que não deixa de ser fruto da “troca de cartas” realizadas entre dois psicanalistas, Edson, gaúcho, e Paulo, paulistano. Interlocução que tem em comum o engajamento de ambos em pensar a psicanálise num permanente diálogo com outras áreas do saber – principalmente com o campo da política e da arte.

O primeiro capítulo é destinado a problematizar, a partir de recortes da vida de Freud, como a descoberta do inconsciente se relaciona com uma determinada posição de estrangeiro ocupada por ele. “Homem múltiplo”, Freud foi ao mesmo tempo enraizado em seu tempo (“homem-terra”) e capaz de se lançar na experiência com seu próprio inconsciente (“homemcéu”). Alguns pontos do relato da vida privada, extraídos do livro do filho de Freud (Martin) e de declarações de sua governanta Paula Fichtl, comparecem juntamente com recortes da correspondência de Freud para descrever sua vida cotidiana, sua vida amorosa, sua rede de relações e reflexões, cumprindo a função de ao mesmo tempo construir um retrato não mitificado de Freud e fazer um apanhado abrangente de sua trajetória.

Em tempos em que se assiste ao avanço de um discurso dessubjetivizante e biologizante, a psicanálise torna-se um lugar de resistência no qual o sujeito pode ser escutado. Tendo em vista o contexto atual, Endo e Sousa são muito pertinentes ao tematizarem, no segundo capítulo, o lugar da psicanálise no campo da ciência. Apontam, por um lado, sua distância do discurso médico e, por outro, sua vizinhança com a literatura que, assim como a psicanálise, é uma produção singular e única. Tal singularidade apresentase no método psicanalítico, que para se efetivar requer a implicação do analista em seu próprio processo de análise: “o método proposto pela ciência psicanalítica tem sua origem na escuta pelo cientista (psicanalista) ao sujeito que sofre, mas também, e ao mesmo tempo, é imprescindível que essa escuta feita pelo analista se desdobre numa escuta de si” (p. 45). Ao percorrerem o trajeto do nascimento da psicanálise – do método catártico à psicanálise – enfatizam a questão da autoanálise de Freud, isto é, a questão de como foi possível para ele criar a psicanálise contando apenas com sua autoanálise. Respondem com a conhecida leitura de que Freud teve Fliess como seu outro: “a crença imodesta na autoinvestigação solipsista não esteve na gênese da psicanálise. Freud precisou também de um ‘analista’ quando a psicanálise ainda não existia e, como todo pioneiro, improvisou o seu.” (p.51). Parece-me importante a ênfase dada a esta questão porque não é tão evidente assim a ideia de que a psicanálise não é um puro conhecimento que se aprende por meio dos livros. Além disso, Endo e Sousa evidenciam outro aspecto importante do ofício do analista ao examinarem como Freud, para fazer suas reflexões teóricas e pensar sua clínica, se nutriu tanto de uma rede de interlocução de amplo espectro (com intelectuais, amigos, discípulos e dissidentes, como Jung e Adler – discutidos pelos autores) como de seu diálogo com outros saberes, como a literatura.

O capítulo seguinte, o terceiro, destina-se a discutir a relação entre psicanálise e arte, trazendo uma importante reflexão sobre a lógica da rasura. Por meio dos principais textos freudianos sobre o assunto, os autores ressaltam como Freud foi um admirador da arte e mais ainda foi instigado por seus enigmas. Prova disso, como analisam Endo e Sousa, são as várias produções teóricas dedicadas a pensar a respeito da importância do humor, da proximidade entre o brincar e o ato criativo, do lugar dos artistas e das obras de arte. A discussão central é a de que ambas, arte e psicanálise, estão comprometidas com a revelação da verdade (desejo inconsciente), opondo-se à ignorância. A lógica da rasura, como nos esclarece os autores, se faz presente nesta tensão produzida entre o que se vela e o que se desvela nessas produções – a artística e a do inconsciente. Tensão entre o “querer e não querer ver” que é ilustrada por Endo e Sousa a partir da análise do conhecido sonho relatado por Freud sobre o pai que acorda para ver o filho morto em chamas: “por um lado, sonhamos para nos proteger; Freud insiste que o pai prolonga seu sono porque assim mantém seu filho vivo por um pouco mais de tempo e também adia o reencontro com a morte. Por outro lado, é esse mesmo sonho que o desperta e o convoca à responsabilidade de pai de zelar pelo filho” (p. 63). A leitura de Freud sobre o ato criativo nos leva a pensá-lo como um ato utópico, como apresentam os autores, na medida em que em todo ato criativo há uma crítica aos lugares instituídos e a busca por um novo olhar sobre o mundo, que questiona as convenções da consciência. Mas este diálogo por vezes se fecha, indicam os autores, quando os psicanalistas reduzem a expressão artística a enquadres psicopatológicos. Vê-se assim que é pela via da arte que Endo e Sousa retomam neste capítulo a questão da insuficiência e do não domínio da consciência.

A relação entre psicanálise e política é tensa e polêmica, como afirmam os autores, devido ao posicionamento de uma grande parte de psicanalistas pós-freudianos que acreditam que estes são campos incompatíveis. Não era assim para Freud, que ao contrário estabeleceu um fértil diálogo com a política, como nos é mostrado no último capítulo. Freud foi estimulado a iniciar essa interlocução a partir do contexto da Primeira Guerra Mundial – interlocução que se intensifica com a Segunda Guerra –, cujos efeitos foram sentidos em sua vida pessoal e no movimento psicanalítico, como narram os autores. Desde então o tema do traumático tornou-se relevante em sua produção teórica: “no conjunto, os textos de Freud sobre a guerra são exemplos importantes da reflexão psicanalítica em torno da política e revelam o alcance da psicanálise na elucidação de fenômenos catastróficos, limitantes e traumáticos que vêm marcando a dinâmica política e social em todo mundo” (p. 94). Endo e Sousa trabalham a partir de vários textos freudianos concepções fundamentais, tais como: a constituição psíquica em sua interdependência com a dinâmica social; a gênese do processo civilizatório e os processos destrutivos aí situados; o mal-estar na cultura. Enfim, Freud não só se ateve a pensar e formular a constituição do funcionamento psíquico, mas também pensou sua articulação com o funcionamento social.

Terminado o percurso desta introdução à psicanálise e movido pela prazerosa leitura do livro, o leitor certamente aceitará o convite para se aventurar e se aprofundar na obra freudiana.

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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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