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Resumo
Resenha de Rinaldo Voltolini (org.), Retratos do mal-estar contemporâneo na educação, São Paulo, Escuta/Fapesp, 2014, 240 p.


Autor(es)
Julia Anacleto Anacleto
é educadora, doutoranda da Faculdade de Educação da USP e pesquisadora no campo da Psicanálise e Educação



Notas

1.Daniel Barenboim cita, em uma de suas entrevistas, a frase de Nadia Boulanger, sua professora de Teoria e Composição Musicais.

2.W. Novaes, Novos formatos para ver o mundo e a vida. O Estado de São Paulo, caderno A, p. 2, 31 jan. 2014.

3.Apud R. Brancatelli, Por que se mata menos em São Paulo. Veja São Paulo, 6 jul. 2005.

 


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 LEITURA

Exercícios da psicanálise e educação: desafios contemporâneos e a aposta no sujeito [Retratos do mal-estar contemporâneo na educação]

Exercises on psychoanalysis and education: contemporary challenges and betting on the subject
Julia Anacleto Anacleto

A coletânea de textos organizada por Rinaldo Voltolini traz ao leitor uma gama de análises e reflexões em torno de um mote comum, surpreen­dentemente coesas e ao mesmo tempo singulares. Os diferentes autores compartilham, de um lado, a psicanálise enquanto instrumento de trabalho, especialmente a referência lacaniana, e, por outro lado, o interesse e a dedicação aos fenômenos educacionais em seus diferentes matizes.

 

Consideramos o título do livro não apenas claro e direto, mas capaz de, pela sua decomposição, nos auxiliar a penetrar precisamente no conteúdo que ele encerra. Partamos, para tanto, do mal-estar, que concentra no título, assim como na obra, os outros elementos que giram ao seu redor.

 

Em 1930[1], Freud apresentou o mal-estar como sentimento inerente à humanidade, na medida em que seria próprio da cultura e da vida em sociedade o conflito irreconciliável entre a busca por obter prazer e as exigências de renúncia e de adiamento que a vida coletiva exige. Tal formulação dava continuidade ao que, uma década antes, em Além do princípio de prazer, havia exposto acerca do conflito psíquico entre pulsões de vida e pulsão de morte[2]. Assim, o mal-estar não é passível de ser contornado, sendo tal afirmação o eixo central em torno do qual gira a psicanálise, suas possibilidades de atuação e, como não poderia deixar de ser, também o mal-estar do próprio psicanalista, visto que esse eixo abre enormes dúvidas e desafios quanto aos destinos do sujeito.

 

Essa tensão comparece de modo marcante ao longo dessa coletânea. M. Cristina M. Kupfer e Ana Beatriz C. Lerner, por exemplo, nos alertam acerca do caráter de fundamento que o mal-estar representa para o devir dos sujeitos, "uma vez que dele dependemos para nos constituir no campo da palavra e da linguagem" (p. 221). Assim sendo, conforme destaca Roselene Gurski: não se trata de "propor qualquer modo de esgotar o mal-estar na Educação" (p. 172). Por sinal, esse é um ponto de tensão importante quando se trata, na psicanálise, de abordar a educação, haja vista as incursões do próprio pai da psicanálise nesse domínio. Freud chegou a imaginar que a educação pudesse, orientada pela psicanálise, ter caráter profilático em relação às neuroses[3]. Porém, de outro lado, assinalou que educar se caracterizava por ser uma tarefa da ordem do impossível, assim como psicanalisar e também governar[4].

 

Portanto, quando se trata da educação, como pretendem os textos reunidos por Voltolini, evidenciam-se expressões do mal-estar próprias desse campo e com as quais os autores não se furtam a trabalhar. O campo da educação tem sido propenso a incorporar discursos cientificistas, alimentando uma ilusão que lhe é própria quanto à possibilidade de uma educação capaz de formar sujeitos plenos. O posicionamento freudiano quanto ao caráter impossível da educação vem certamente fazer frente a essa ilusão, sustentando que a plenitude implicaria justamente a supressão do sujeito do desejo. No entanto, há sempre o risco de que tal posicionamento crítico quanto às mazelas de uma educação supostamente adequada possa vir simplesmente ocupar um lugar muito semelhante ao que as psicologias têm tido ao serem convocadas no campo da educação: o lugar do especialista capaz de dizer o que os educadores devem ou não devem fazer.

 

Os autores que comparecem na coletânea estão avisados dos riscos inerentes às análises do mal-estar no campo da educação. Portanto, o que constatamos nos diferentes textos é que, se de um lado, eles não se furtam às críticas do modelo tecnocrático, por outro, apontam desafios no sentido da responsabilização do sujeito em oposição à autoridade anônima do discurso cientificista. Este é certamente um ponto de convergência entre os autores.

 

O caráter estrutural do mal-estar é certamente consenso, porém o desafio é justamente o de analisar isso que é estrutural articulado à ordem do contingente, ou seja, o significante contemporâneo figura como abertura da temporalidade. E aí se intensificam as tensões, visto que se trata de um desafio de grande vulto. Não apenas pela dificuldade de caracterizar o hoje, levando em conta que estamos mergulhados nele e que isso implica distorções próprias da visão. Mas principalmente porque há uma forte tendência de que as análises do contemporâneo recaiam numa "lamúria nostálgica" (Lo Bianco).

 

A fim de embasar um diagnóstico da época atual, muitos recorrem a autores do campo da teoria social, entre os quais Ehrenberg, Bauman, Lipovetsky, Castel e Berman. Dessas referências emergem caracterizações do contemporâneo que possuem traços comuns e que apontam diferentes aspectos de certas tendências próprias ao tempo atual: solvência das tradições (Lo Bianco), escalada de incertezas no campo profissional (Plaisance), perda de ideais (Mrech), declínio da política em favor da tecnocracia (Batista), crescimento do poder das imagens (Pereira), instantaneidade ou imediaticidade (Vorcaro e Ferreira), descartabilidade (Gurski), mal-estar identitário e mandatos sociais orientados ao esforço individual (Zelmanovich). No entanto, alguns aspectos apontam deslocamentos interessantes entre os diferentes textos. Assim, essas caracterizações próprias do nosso tempo marcadas pela dimensão de perda são recuperadas como abertura para novas potencialidades.

 

Isso aparece de forma muito distinta na análise de Christian Dunker, ao confrontar a liquidez da modernidade constatada por Bauman - e que o autor endossa - com a solidez que, por outro lado, desponta no campo dos diagnósticos. Solidez "que produz um tipo de convicção, de práticas de consumo, de autorização de modulação química de experiências subjetivas jamais visto antes" (p. 89). Dunker afirma a importância da distinção entre mal-estar, sofrimento e sintoma, fundamental para fazer frente à redução dos dois primeiros ao sintoma e este, por sua vez, ao patológico, entendido como doença e passível de ser tratado por vias cada vez mais medicamentosas. Em sua análise, a liquidez se desloca de constatação de cunho negativo a estado de potencial transformador do sofrimento em fator político. Sofrimento aqui entendido como ligado a uma experiência de perda de identidade, ou seja, sofrimento de indeterminação. O que ele sustenta, portanto, é que "certas experiências de indeterminação são necessárias para que a liberdade se exprima em ato real e não apenas no reconhecimento indireto, através da submissão e mediação dos sistemas simbólicos, reunidos por uma - utópica ou administrada - unidade teológico-política" (p. 93). Todos os textos, cada um a sua maneira, reafirmam a importância de fazer do diagnóstico de época motor de trabalho a fim de encontrar brechas onde o sujeito possa advir.

 

Por fim, ainda tomando como referência o título da obra, pode-se dizer que o que vemos são, de fato, retratos, na medida em que esse termo nos remete a uma imagem que, seja pela técnica fotográfica, pelo desenho ou pintura, contorna um objeto na busca por uma representação necessariamente perpassada pela subjetividade do autor/artista. Nesse sentido, é inegável a presença dos sujeitos por trás dos autores que, convocados a tecer considerações sobre um tema em comum, fizeram comparecer com muita astúcia suas singularidades, seja nas referências que mobilizam, deixando claros os lugares de onde escrevem e seus interesses de pesquisa, seja na coragem de posicionamentos individuais, ora convergentes e ora divergentes.

 

Assim sendo, chama a atenção ver um tema como a filiação ser abordado tanto no âmbito das relações parentais propriamente ditas (Bernardino, Vorcaro e Ferreira, Lajonquière) quanto em sua dimensão histórica, política e social, como vemos surgir no exame que Daniel Revah faz acerca da busca das Avós da Praça de Maio pelos seus netos - filhos de pais desaparecidos no contexto da ditadura que foram clandestinamente adotados por famílias favoráveis ao regime - enquanto luta política contra uma filiação fraudada. Ainda quanto ao tema da filiação, Leandro de Lajonquière nos alerta acerca dos equívocos da ilusão de que os pais de antigamente eram mais "naturais" e os de hoje seriam mais patogênicos, lançando mão de estudos antropológicos de modo a produzir importantes e singulares ruídos no debate em torno do que está em jogo na filiação atual.

 

No que tange à autoridade, tema caro ao campo educacional, as análises primam pelo cuidado e rigor, fazendo jus à complexidade do assunto. Não se pode negar que haja uma erosão da autoridade assentada na palavra em favor do poder das imagens (Pereira), bem como um declínio da transmissão (Batista). A predominância atual do discurso da ciência, formalizado por Lacan nos termos do Discurso do Universitário (Lo Bianco, Kupfer e Lerner), faz com que o autor - etimologicamente associado ao termo autoridade, conforme nos lembra Anna Carolina Lo Bianco e Mercedes Minnicelli - esteja subordinado ao saber, seja autorizado por este. Um saber, portanto, acéfalo.

 

No entanto, Mercedes Minnicelli questiona a ideia de um suposto "vazio" de autoridade. Analisa esta em seu aspecto estrutural, como posição em uma determinada relação, e busca, por essa via, localizá-la nos dias de hoje, chamando a atenção para os fenômenos de coesão via identificação ao modo de massa e de busca por um pai onipotente seja no cientificismo seja nas religiões renovadas.

 

Como não poderia deixar de ser, o tema da inclusão comparece em diversos textos, seja enquanto reflexões sobre o sintoma na criança (Levy) e as possibilidades de tratamento no autismo (Mrech), seja através de problematizações conceituais (Voltolini, Plaisance). Nesse último aspecto, convém destacar a corajosa retomada que Rinaldo Voltolini faz de questões éticas ligadas à inclusão, colocando o dedo na ferida ao tratar da impossibilidade de uma inclusão toda feita no caso dos psicóticos. Éric Plaisance toma os pares de opostos exclusão/inclusão para pensá-los como trajetórias de filiação e desafiliação. Assim, propõe que a inclusão possa ser pensada como processos de afiliação em oposição a uma "visão de tudo ou nada". Nesse sentido, inclusive, valoriza a instabilidade criada pela política de inclusão gerando inquietude e, consequentemente, renovação de representações e invenção de novas práticas.

 

Diante dessa complexa e multifacetada realidade do mal-estar contemporâneo na educação, os desafios propostos pelos diferentes autores apontam principalmente para: a importância da responsabilização dos sujeitos - sustentação de um dizer em nome próprio e não em nome da ciência -, a valorização de "cerimônias mínimas" a partir do poder-fazer de cada um (Minnicelli), as respostas singulares (Pereira). Nesse sentido, a psicanálise aparece como podendo contribuir também diretamente no meio escolar, junto às equipes educacionais, de forma a autorizar giros discursivos contra a fixidez do Discurso do Universitário (Kupfer e Lerner), promover lugares de escuta onde a mestria do professor possa ser elevada à condição de sintoma (Pereira), oferecer operadores conceituais que contribuam na leitura dos nomes que o mal-estar possa assumir no ambiente escolar atual (Zelmanovich).

 

No entanto, talvez o sentido mais importante do desafio empreendido ao longo dessa coletânea seja quanto ao papel sutil da psicanálise frente aos paradoxos do mundo moderno - ou hipermoderno, ou pós-moderno, ou ainda tardiamente moderno. Trata-se de denunciar os efeitos subjetivos das mazelas sociais próprias de nossa época e, ao mesmo tempo, apontar caminhos produtivos que, a partir de experiências de indeterminação, possam surpreendentemente fazer advir um sujeito ali onde ele parecia não ser capaz de operar. Reitera-se, portanto, como fio em comum aos autores, bem como ao campo psicanalítico ao qual se filiam, a aposta incessante no sujeito do desejo.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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