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Resumo
Resenha de Giovanna Bartucci, Onde tudo acontece – Cultura e psicanálise no século XXI, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2013, 238 p.


Autor(es)
Marilsa Taffarel
é membro associado da SBPSP, membro fundador do Centro de Estudos da Teoria dos Campos, doutora em Psicologia Clinica pela PUC-SP, co-autora do livro Isaías Melsohn – A psicanálise e a vida.


Notas

1.     G. Bartucci, Fragilidade absoluta: ensaios sobre psicanálise e contemporaneidade, São Paulo, Planeta, 2006.

2.     A. Giddens, A transformação da intimidade - sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas, São Paulo, Editora da Universidade Estadual Paulista, 1993.

3.     G. Bartucci, Fragilidade absoluta: ensaios sobre psicanálise e contemporaneidade. São Paulo, Planeta, 2006, p. 87.

4.     G. Bartucci, op. cit., p. 88.

5.     G. Bartucci, op.cit., p. 91.

6.     G. Bartucci, op.cit., p. 92.

7.     G. Bartucci, op.cit., p. 92.


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 LEITURA

A psicanálise e a cultura: arquitetos do sujeito [Onde tudo acontece – Cultura e psicanálise no século xxi]

Psychoanalysis and culture: architects of the subject
Marilsa Taffarel

Onde tudo acontece, livro de Giovanna Bartucci, prêmio Jabuti 2014, nos oferece uma ampla série de textos crítico/ensaísticos e entrevistas com importantes pensadores sobre a produção de vanguarda na psicanálise, na literatura, no cinema, nas artes plásticas, nos reality shows, tendo sempre como foco a função da arte e da psicanálise na recuperação das condições de reflexividade. Textos esses primeiramente publicados em periódicos e revistas de cultura num período de doze anos (2000 a 2012).

 

A autora dedica-se a mostrar que a psicanálise e a arte podem cumprir um papel fundamental. Diria mesmo que a autora insiste na tese - melhor exposta em seu livro anterior Fragilidade absoluta[1] - de que a psicanálise precisa estar atenta para o fato de que nosso tempo, tempo da modernidade radical, gera seres humanos por assim dizer tendentes a apresentar uma estrutura psíquica deficitária. Excessivamente exteriorizados, demasiadamente abertos para o fora.

 

A medida dessa estrutura descompleta é o indivíduo neurótico, ser conflituado e conflitivo, cuja intimidade suporta interrogação, questionamentos e, por isso mesmo, seus processos identificatórios compõem um arco mais amplo. Daí decorrendo tanto a tolerância e a interrogação sobre a alteridade - quem é o tu - quanto a condição de sustentar a interrogação crucial: quem mesmo sou eu? Portanto, seres abertos para a surpresa quanto a si mesmos advinda do real que os constitui.

 

Giovanna eleva qualitativamente e quantitativamente o rol - elencado por A. Giddens - de elementos produtores e mantenedores do "caráter ‘aberto' da autoidentidade e da natureza reflexiva do corpo"[2], na linguagem do autor.

 

Vale arrolar os fundamentos presentes no pensamento contemporâneo, que se somam compondo um espectro de influências cruzadas com a psicanálise, os quais a autora tem como pano de fundo em sua compreensão do sujeito e de seu sofrimento na atualidade: impacto da sociedade do espetáculo (Débord) da sociedade esvaziada de trocas inter-humanas (Baudrillard), da incerteza extensa (Sennet).

 

O que interessa a nossa autora é sustentar que esses e outros fatores incidem sobre a formação das instâncias psíquicas constituintes do indivíduo e de sua representação têmporo-espacial. Para que a estrutura formada por ideais imaginários e simbólicos conectados com o corpo pulsional possa se montar em cada um e para que seu interjogo, sua instabilidade e oscilação inevitáveis possam ocorrer, a boa temporalidade agostiniana precisaria ter lugar. Somente com um presente que se imbrica com o passado e com o futuro pode-se supor que um investimento em ideais simbólicos pertinentes faça sentido. Do contrário o sujeito precisa ocupar-se na contínua restauração de uma imagem narcísica importada em relação de pouca ou nenhuma interioridade real consigo. Ou então resta-lhe empreender a busca de si mesmo, ir em busca do que tem mais densidade ontológica para um si. É essencialmente dessa busca que trata esse livro.

 

Nas palavras da autora em seu livro anterior citado acima, "[...] os tempos que correm têm promovido a diminuição acelerada da experiência de interiorização pelo sujeito, desvelando o autocentramento conjugado ao valor de exterioridade, sem que haja perda da função de sujeito, mesmo que momentânea"[3]. Ou seja, não se trataria da desubjetivação psicótica, mas do "dilaceramento do registro narcísico do eu"[4]. Tratar-se-ia de um distúrbio cuja gênese, para a autora, não se "encontra primariamente na sexualidade edípica"[5], exigindo da psicanálise novas narrativas.

 

Bartucci sustenta que é preciso recompor a estrutura que caracteriza a neurose. "[...] faz-se necessário supor a existência de um ‘lugar psíquico de constituição de subjetividade', por meio do qual processos fundadores de sujeitos possam se dar"[6].

 

Caberia à psicanálise uma tarefa menos decifratória e mais arquitetônica que promovesse o "restabelecimento das variáveis instauradoras do conflito, por meio de operadores simbólicos que ordenem uma função estruturante"[7]. Em outras palavras, à psicanálise cabe construir a morada onde uma experiência (de padecimento), uma narrativa de si possa habitar e se entrelaçar em discursos compartilháveis. Essa é também a função da produção cultural.

 

A formação profissional da autora lhe permite analisar a produção no cinema - Sokurov, Kiarostami, Almodóvar, Michael Haneke, Lynch, Spike Jonze, Marina Person, Roberto Berliner - na literatura já consagrada internacionalmente - Yasunari Kawabata, Haruki Murakami, Catherine Millet, Silviano Santiago -, na literatura brasileira contemporânea, na arte contemporânea, mantendo seu foco: a função de proteção dos processos de pensamento, os efeitos transformadores da subjetividade em direção à mudança, à transformação e ampliação do espectro de identificações que os processos culturais oferecem.

 

A produção cultural de menos densidade ontológica pensada criticamente e a densa produção cultural mostram quais interrogações são fundamentais para o sujeito. E, mais do que isso, quais formas e quais percursos podem levar a uma reconstrução de si. Evidentemente isso exige uma postura ativa/reflexiva diante do que o cinema, as artes plásticas, a literatura nos propicia. É essa também a importante contribuição de Giovana nesse livro no qual se põe como uma incessante interlocutora crítica de um amplo espectro de produções.

 

O psicanalista inquieto e atento precisa estar imerso no mundo que o rodeia. Se quiser ser psicanalista, leia literatura policial, aconselhou Melanie Klein a um jovem, apontando para uma forma de apreensão do caráter investigativo do método psicanalítico. Para a compreensão do humano além de Freud, classicamente, o psicanalista deveria conhecer mitos e tragédia gregas, deveria ler Shakespeare, entre outros. Isso levou um psicanalista/pensador crítico, no sentido forte da palavra, Fábio Herrmann, a ironizar, décadas atrás, descrevendo o kit básico de leituras do psicanalista. Sinalizava ele a importância de participar do vasto mundo da cultura, de clinicar no mundo, no sentido de nos inclinar para com nosso instrumento princeps: o método psicanalítico. Diga-se de passagem que o psicanalista desde que abandona a ideia de fazer psicanálise aplicada à cultura muito se beneficia do fascínio que a produção cultural sempre lhe produziu.

 

Em especial, nesse livro de G. Bartucci, temos um modelo de apropriação reflexiva e criativa do pensamento, posto em palavras, sons e formas, que circula pelo mundo.

 

Vejamos alguns poucos exemplos dentre tantos autores de tantas áreas que são analisados no presente livro. Comentando o filme de 2004, A pessoa é para o que ela nasce, dirigido por Roberto Berliner e codirigido por Leonardo Domingues, que narra o percurso de vida de três irmãs cegas, descreve Bartucci como a realização e as repercussões do filme sobre as três irmãs, reconhecidas em esfera nacional, testemunham a potência da arte que opera uma transformação radical e uma ampliação do mundo subjetivo dos participantes. "o que A pessoa é para o que ela nasce faz - por meio da sétima arte - é possibilitar às três irmãs de Campina Grande um exercício de resgate que finda por desdobrar-se em um inesperado e surpreendente vir a ser" (p. 147).

 

No texto que escreve sobre o ousado livro de Catherine Millet, crítica de arte francesa no qual essa descreve suas inumeráveis e não convencionais experiências sexuais, Bartucci levanta interrogações e ensaia respostas sobre o lugar e o uso do corpo e da escrita para ter acesso a partes de si mesmo. Assim como na escrita de Haruki Muramaki, Bartucci assinala como a busca do "eu verdadeiro" se realiza através "de um outro - sejam eles amores, amigos ou textos - que será sempre o ‘outro de si próprio‘ que os narradores visam encontrar" (p. 139).

 

Finalmente, através das mais de duzentas páginas do livro Onde tudo acontece podemos junto com sua autora chegar a esses lugares-outros que, além da psicanálise, permitem a instauração, a constituição de subjetividades.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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