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Resumo
Resenha de Sonia Curvo de Azambuja, Presenças e ausências, parceiras na simbolização. São Paulo: HePsyckhe, 2006, 216 p.


Autor(es)
Camila Salles Gonçalves
é professora de filosofia e doutora pela FFLCHUSP; psicóloga, pela PUCSP, psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e autora de Desilusão e história na psicanálise de Jean-Paul Sartre.

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 LEITURA

Movimentos do acontecer psicanalítico

Presenças e ausências, parceiras na simbolização


Movements in the psychoanalytical process
Camila Salles Gonçalves

Há décadas, Sonia Azambuja pensa a respeito da teoria e da prática psicanalíticas, escreve sobre a mesma coisa, mas não a mesma coisa. Experiências da psicanalista, desde as primeiras supervisões de casos comunicados no início de sua formação, transformações, o desenvolvimento do pensamento informado que as acompanha são revelados por esta obra. Composta por escritos multifacetados, estende-se como uma história, nada linear, de seu prazer de pensar e como narrativa impressionista de seu processo de tornar-se analista. Acompanhamos inquietações, descobertas e escolhas de rumo. Em 2006, em texto do ano da publicação, ela afirma: “muitos dos escritos que produzi foram feitos dialogando com outros escritos de colegas ou mesmo com interlocutores ausentes, mas que se fizeram presentes em minhas reflexões” (p. 189). Sua produção nos é dada a conhecer a partir do artigo de 1978, cujo título foi tomado para nomear todo o livro.

No seu primeiro registro publicado sobre o simbolizar em psicanálise, palavras simples, claras, bem fundamentadas, uma aula. Utiliza a concepção de Gestalt, conhecida por aqueles que tiveram a bem construída formação em psicologia e filosofia, já nos cursos de graduação. Estudantes de agora e estudiosos de sempre podem tirar proveito da maneira pela qual, a partir de um exemplo simples, introduz questões complexas a respeito da simbolização, de perspectivas que devem ser consideradas pela psicanálise. Um moto facilita reconhecermos que “em todas as dimensões da vida mental – objeto da psicanálise – encontramos a simbolização à espreita” (p. 16). O primeiro exemplo é o mais empírico e claro possível, o da representação, por meio do desenho, de um cão ou de um cavalo. Para realizá-la, é necessário haver o que possibilita o surgimento da figura, a apreensão da forma, isto é, da Gestalt, e sua expressão. Assim, a autora pode ensinar: “Essa apreensão total e expressiva do cachorro ou do cavalo é função do simbolizar e, como tal, anterior a todo pensamento conceitual, ao mesmo tempo em que o abraça” (p. 16).

A partir deste esclarecimento, vemos por que “os vários temas da psicanálise”, que abrangem afetos, representações, mitos, sonhos, imaginário, relações objetais, jogos das crianças, impulsos “configuram-se de forma expressiva na simbolização” (p. 16). Como convém a nós, leitores, explicações, que esclarecem o sentido dos termos utilizados, são seguidas por indagações da psicanalista e seu confronto com questões da clínica, sobretudo de interpretação. A pergunta sobre como é gerada a interpretação na mente humana, e sobre como ela se exprime, começa a ser respondida quando a autora aponta o que chama de primeira matriz, o senso de necessidade. Este deverá transformar-se “num esboço inicial de desejos e de uma consciência expectante” (p. 16).

O primeiro esboço mental formar-se-ia em torno de desejos que buscam satisfação. O senso de necessidade transformar-se-ia então num esboço de desejos. Ela prossegue: “Em torno desse primeiro esboço surge a necessidade da presença de objetos para a mente. Ser deixado é o próprio terror, é a angústia básica” (p.16). Já nestas linhas, a autora transmite pressupostos kleinianos e bionianos, de um modo que enseja uma teorização inteligível e uma abordagem proveitosa no âmbito da clínica. Após colocar uma concepção da angústia básica, pergunta: “Como lida a mente com ela?” (p. 16).

Passamos para o tema “Catástrofe e solidão”, e encontramos uma jovem paciente que se sentia muito culpada em relação a uma reprovação escolar. O relato da sua condição e os recursos teóricos levam-nos a um momento conclusivo sobre a menina: “sentindo que houve uma catástrofe em sua vida, promove catástrofes, para não refletir sobre a mesma. A catástrofe é o não suportar estar só, a separação, a ausência do objeto” (p. 18). Da formulação da situação clínica, para as investigações de Freud, o movimento associativo do texto revisita “Inibição, sintoma e angústia”. Destaca a ideia de que o desencadeamento da angústia já não equivale a uma pura descarga de impulsos: ao ver no ego a sede da angústia, Freud já estaria relacionando as situações de perigo associadas à ausência do objeto com o pressuposto de condições de elaboração e de encaminhamento para o simbólico, “como sinalização de perigo” (p. 18).

Se o leitor não achou suficiente esta sucinta paráfrase de ideias da autora, peço que me siga no exemplo que ela dá a seguir, o de Hulk. A personagem que, em uma das histórias em quadrinhos, está só no deserto, por um lado, “é a própria matriz de cargas e descargas” (p. 19), por outro, é levada à alucinação por sua necessidade de presença, ou seja, este é o único recurso que tem para lidar com a solidão. Sonia Azambuja nos lembra: “é uma história em quadrinhos, é uma linguagem de sonhos. A metáfora e o sonho estão na origem da simbolização, mas faz-se necessário um trabalho de vigília para que as ideias, sendo ‘publicadas’, sofram um confronto e o sonho ganhe significado” (p. 19). Hulk e a jovem paciente, às voltas com frustrações e tomados pela solidão, têm suas explosões e descargas musculares. Após a catástrofe e exilados no deserto, ambos provocariam novas catástrofes. Mas, aponta a autora, cada nova catástrofe não resulta da separação, da solidão ou da rejeição, e sim “da não articulação simbólica instrumentada em outros níveis. Hulk chega só até o mito ao lidar com a solidão; ele somente alucina” (p. 19).

Tudo se passa como se a escrita expressiva de Sonia Azambuja nos permitisse acompanhar suas reflexões associativas, entrar em sua clínica, imaginarmo-nos nas cenas sugeridas, sem ter que deixar de lado suas reflexões, em diálogo com autores como Suzanne Langer, Umberto Eco, Merleau- Ponty e Pierre Fédida, dentre outros. Em artigo de 1988, sobre interpretação, ela nos diz: “No meu trabalho, o que me chama a atenção, quando interpreto, é o tom com que falo, o uso de metáforas que faço. Quando isso ocorre de uma maneira colorida e viva, o campo analítico no qual estou trabalhando me parece próximo à estrutura de uma pintura impressionista” (p. 85). Ela cita frase de Umberto Eco, para quem este tipo de pintura “retrata o próprio movimento do acontecer” (p. 85). Sem dúvida, há algo que se abre em momentos do texto como este. A história de Z e de seu sonho traz uma boa oportunidade de nos aproximarmos das vibrações deste estilo psicanalítico.

A autora nos fala do sonho de Z, que flutua até ela. Sua paciente, depois de beber numa taça, começa a comê-la. Ao fazê-lo, “os pedaços de vidro entravam entre os dentes e ela os catava todos, tornava a pô-los na língua e os engolia. Alguém disse: Não faça isso; é perigoso, é de indiovidro” (p. 87). Primeiro a analista repete esse nome, em tom de interrogação: – Indiovidro?. A paciente confirma, diz que esse era o nome do material. A analista diz, então, que, no sonho, Z a comia.

Reflexões que se seguem a esta interpretação são compartilhadas conosco. Algumas, a respeito de sua própria formação, em meio às quais Sonia Azambuja reconhece o referencial kleiniano, no qual se formou, agindo “quase como se fosse uma língua materna”, indissociável da concepção segundo a qual o originário seria o sadismo, assim como, para Freud, a sexualidade. A autora nos diz que, se o sadismo é fundamental nos primeiros meses de vida, é ele “que nos traça a estrada régia do conhecimento, que um dia será trilhada também pela libido” (p. 87). Pensava, junto à paciente, que o devorá-la correspondia à experiência com ela vivida há anos e, ao mesmo tempo, considerava as circunstâncias daquela sessão e da ocasião em que a analisanda a procurara pela primeira vez, em meio a um processo de separação do marido. Z vivera esta situação como ameaça de morte.

Apesar de a análise ter-lhe propiciado condições de viver, criar a filha, da qual estava grávida no início, e de conseguir trabalhar, permanecia nela “um núcleo invariável, cristalizado no tempo e que retornava sempre” (p. 88). De vez em quando, o estado mental que parecia “invariável no tempo” (p. 88) e que se caracterizava pela impossibilidade de sentir prazer dava à analista a impressão de que a paciente caía num mangue, forçando-a a entrar nele. O desejo de que a analista fizesse parte de sua vida surgira várias vezes, ao longo de oito anos. O núcleo invariável seria o que determinava a vivência permeada por identificações projetivas, a ausência de autonomia para ambas. O sofrimento de Z, suas queixas quando imergia, levaram a analista a realmente se perguntar sobre o efeito de tal sofrimento e suas consequências e a admitir que não ocorriam sequer indícios de condições de surgir algum outro ponto de vista. Assim, optara por propor a interrupção.

A sessão em que o sonho narrado ocorre é uma das primeiras depois de uma interrupção de dois anos. A analista tem suas indagações e dúvidas a respeito das possibilidades desta volta à análise, pergunta-se se só restaria à paciente, diante da dor mental, permanecer imersa em fascinações imaginárias. O texto expressa o clima vivido pela autora e as interpretações que lhe ocorrem:

Eu, taça de bebida comida por ela, na minha essência e na minha matéria. Penso também no nome ‘indiovidro’, e lhe proponho: o índio é a taça analista que te acolhe; o vidro é o corte ao qual sente que a submeti, ao interromper sua análise” (p. 88-89).

A analisanda concorda e nada acrescenta. Este momento, um dos mais generosos da escrita sobre a clínica que este livro nos oferece, não para aí. Prossegue com indicações sobre os referenciais kleiniano, bioniano, winnicottiano, freudiano e de franceses contemporâneos, que podemos vislumbrar no texto. Não é possível determo-nos aqui em todas essas elaborações, mas vale, pelo menos, determo- nos naquilo que a autora nos diz de quando propôs a interrupção da análise, que “não observava o evolver que, no interpretar analítico com condições de promover insight, surpreende o paciente, dando-lhe um novo ponto de vista” (p. 88). Comentando o prosseguimento da análise retomada, ela pode apreender uma Gestalt do vínculo entre ela e a paciente, e visualizar o sonho como expressão da luta de Z por alcançar a individuação.

Em seu prefácio, Fabio Herrmann comentou, depois de observar o modo pelo qual a analista e sua paciente Z vão de indiovidro a indivíduo, que esta interpretação psicanalítica de modo algum equivale a uma tradução: “ao contrário, na psicanálise, interpretação é o florescimento da palavra, dimensão estética, sendo portanto de indiovidro o próprio material (clínico) apresentado nesse capítulo” (p. 12).

A arte da interpretação, que presenciamos neste livro, não se apresenta como um dispositivo acabado de desvendamento. Com sua sensibilidade impressionista, afinada por reflexões no campo da estética, a autora vai caminhando. Percebe, aqui e ali, que a luz mudou, descobre cores e nuances, ao mobilizar suas referências conceituais. Os ensaios sobre o feminino e outros, em que encontramos diálogos com a filosofia, com a arte, com a antropologia, além do prazer de texto que proporcionam, sugerem os múltiplos recursos da autora, para passar ao largo da submissão ao pensamento escolástico em psicanálise. Ela nos lembra uma passagem de Nietzsche, que se refere à distância que nos separa das galáxias, que nos levaria “a imobilizá-las em formas nas quais seu movimento se perde” (p. 19), e associa esta tendência com outra: “também ao tentarmos traduzir a vida pela linguagem, há o perigo de se introduzir o ídolo, que é o conhecimento mumificado dos conceitos” (p. 19).

As associações de Sonia Azambuja e seu modo, personalíssimo, de explorar seu alcance em leituras de Freud, surpreendem. Sigamos esta: “Para falar do lado móvel da escrita freudiana, há um ano, pensei no deus Hermes-Mercúrio, deus da comunicação. Mas podemos lembrar também que Mercúrio é um material com o qual as crianças adoram brincar. Ele desliza como a metonímia e se adensa como a metáfora. Figuras de linguagem, sintaxe nos sonhos” (p. 148). Impossível não sorrir diante desta passagem. Difícil deixar de lado esta provocação criativa para a exploração de sentidos e de possibilidades da prática psicanalítica.

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