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Resumo
Rodolfo Moguillansky Comentado por Bernardo Tanis e Isabel Mainetti Vilutis


Autor(es)
Rodolfo Moguillansky

Bernardo Tanis
é doutor em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e dos departamentos de Psicanálise e Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae. Autor de Circuitos da solidão entre a clínica e a cultura (Casa do Psicólogo) e Memória e temporalidade, sobre o infantil em psicanálise (Casa do Psicólogo).

Isabel D. M. de Villutis
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.


Notas

[1][1]         Arrigucci Jr., D. "Teoria da Narrativa: Posições do Narrador". Jornal de Psicanálise, São Paulo, v. 31, n. 57, p. 9-43, 1998.

 

[2][2]         Tanis, B. "A escrita, o relato clínico e suas implicações éticas na cultura informatizada". Revista Brasileira de Psicanálise, v. 49, n.1, p.179-192.

 

[3][3]         MacDougall, J. Alegato por uma certa anormalidade. Paidos: Buenos Aires, p. 56.

 

[4][4]         Refiro-me a defesas que impedem o processamento psíquico da vivência, modalidades de cisão, clivagem ou recusa que, em última análise, comprometem o processo de simbolização primária (Roussillon) dando lugar a diferentes possibilidades de formações sintomáticas não neuróticas.

 

[5][5]         Roussillon, R. Primitive Agony and Symbolization. Karnak Books: London, 2011.


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 DEBATE CLÍNICO

O homem que ia ao bairro escuro

The man who was going to the dark neighborhood
Rodolfo Moguillansky
Bernardo Tanis
Isabel D. M. de Villutis

Em "Debates Clínicos", a revista Percurso convida três psicanalistas de correntes teóricas e instituições diferentes, um deles como apresentador e dois como comentaristas. Solicitamos que o material e os comentários se atenham o mais possível à clínica, de modo que dela se depreenda a teoria e não o contrário. Cada convidado só conhece os outros dois participantes no final do processo. Com isso, visamos diminuir os fatores paratransferenciais que poderiam inibir a livre e descompromissada manifestação de opinião. Nosso objetivo é superar as divisões em nosso campo, proporcionar movimentos integrativos e estimular a reflexão sobre convergências e divergências na prática clínica.

 

No começo da década de 1990, Pierre, um arquiteto europeu, foi transferido para nossa cidade pelo escritório onde trabalhava. Pouco antes de vir para a América do Sul, fez uma consulta com um psicanalista em sua cidade de origem, pois temia se desestruturar com a mudança; por indicação dele me procurou ao chegar em nosso país.

 

Comenta nas primeiras entrevistas, sem grande angústia, que há muitos anos se embriaga e procura prostitutas. Nessas ocasiões também consome largamente cocaína e maconha. Até então essa atividade ficava restrita a seus espaços de ócio, mas ultimamente tinha vontade de fazer o mesmo no horário de trabalho, vendo isso como uma ameaça de descontrole. Do ponto de vista manifesto, esse era o motivo de sua consulta. Ficara muito impressionado com o que o analista com quem se consultara antes lhe havia dito - sua vida poderia ficar caótica se tivesse que parar de trabalhar. Na realidade, tem muito sucesso em sua profissão e isso é o que durante todos esses anos o tem mantido organizado.

 

Nas primeiras sessões, Pierre se mostrava como um homem sem recordações. Não se interessava por sua história, considerava que sua vida prévia havia deixado de lhe pertencer, só lhe interessava o presente. Dizia ter-se feito a si mesmo, só confiava em suas próprias forças e se sentia orgulhoso por não depender de ninguém.

 

Mais tarde contou como havia se casado aos vinte anos com Claire, uma mulher quinze anos mais velha que ele, pouco tempo depois de ter ela enviuvado de Jacques, um homem que tinha desenvolvido uma atividade importante em seu país e por quem Pierre tinha uma grande admiração, sendo um protegido dele.

 

Sua relação com Claire foi sempre precária. Para ele era importante não se sentir preso a qualquer vínculo. Numa evidência de seu desapego, um ano antes de deixar o seu país, de um dia para o outro abandonou Claire e foi viver com Marie, sua assistente. Marie era filha de um homem influente e também admirado por Pierre. À luz da análise posterior, vimos que esse dado era importante: as escolhas amorosas de Pierre são por mulheres que estão ligadas a homens admirados por ele.

 

Mais tardiamente falou sobre sua família de origem. Viviam numa cidadezinha do interior e quase não os via. Pierre era o mais velho de seis filhos. Descrevia seu pai como um homem extremamente egoísta, voltado para seu mundo, a pintura, sem grande contato com o resto da família, passando bêbado a maior parte do dia. Os pais sempre dormiram em quartos separados. Embora isso não fosse um traço da cultura local, o fato não chamava a atenção de ninguém. Os filhos homens, à medida que cresciam, iam para o quarto do pai, enquanto os bebês que iam nascendo e as filhas mulheres dormiam com a mãe. Sua mãe, uma mulher muito religiosa, o escolhera, já na puberdade, como confidente de seu casamento infeliz e queria compartilhar com ele os cuidados com os filhos menores e a economia doméstica. A obsessão de Pierre era sair o quanto antes dessa casa cheia de irmãos. Dois de seus irmãos são homossexuais, e os outros três ingressaram em ordens religiosas. Em sua adolescência foi um exímio desportista, ganhando em pouco tempo bastante dinheiro e libertando-se precocemente da economia doméstica. Pierre se afastou mais da família quando foi estudar numa universidade em outra cidade, ingressando inicialmente na política e, em seguida, no mundo dos negócios.

 

A procura de uma psicanálise por parte de Pierre estava marcada pelo temor ao fracasso de seus mecanismos dissociativos. Estava assinalada pela esperança de recuperar o controle obsessivo que estabilizava sua cisão e o ajudara a manter a ficção onipotente de que controlava sua vida, negando quão escravizado estava por sua compulsão a ir ao bairro das prostitutas. Com essa expectativa e movido pelo desespero, aceita a contragosto analisar-se, pondo-se pela primeira vez sob os cuidados de alguém, o que fazia dentro de um clima de intensa paranoia que se desenvolvia na transferência. A pouca história recordada tentava explicar a razão desse modo de sentir. Surgia de seu relato uma família de origem com uma organização peculiar: seus pais não configuraram um espaço privado nem lhe proporcionaram o amparo necessário. A isso se somava a relação cúmplice, com certa conotação incestuosa, que sua mãe lhe propunha, e o peso de uma "montanha de irmãos". Isso, a seu ver, havia precipitado seu precoce salto para diante, reforçando seu anseio onipotente de bastar-se a si mesmo. Descrevia como irrelevantes suas relações com Claire e com Marie, ainda que mascarassem um intenso vínculo com homens admirados.

 

Durante o primeiro ano, fomos "armando a cena" do que ele chamava de "o bairro escuro". Na realidade, o primeiro nome que lhe deu na análise foi "bairro vermelho" ou Zeedijk, por referência ao bairro dos marinheiros de Amsterdam que havia frequentado algumas vezes. "Bairro escuro" era a zona de prostíbulos da cidade em que vivia antes de vir para a América do Sul. A mudança de nome demorou vários meses e foi um marco. Foi o início de uma menor reticência, mas ele não recordava o que vivia enquanto estava no "bairro escuro". Essa falta de memória não só envolvia sua permanência nos prostíbulos, como incluía as horas posteriores, quando chegava em casa e maltratava verbalmente Marie, sua mulher. Não recordava no dia seguinte o que havia acontecido, não entendia as queixas e acusações que Marie lhe fazia ao despertar.

 

A sequência "bairro escuro" se iniciava logo depois do trabalho, sobretudo se acreditava que havia sido um dia ou semana exitosa. Dizia-se a si mesmo: "você merece, trabalhou para isso", o que funcionava como uma autorização para começar a tomar álcool, se embebedar e, em seguida, andar por diversos bordéis até contratar prostitutas, geralmente duas, às quais pedia que se vestissem com roupas masculinas. Fazia com que elas praticassem jogos sexuais entre si, não permitindo que o tocassem, enquanto cheirava cocaína. Com frequência não ejaculava, não era esse o fim que buscava. Apenas ao voltar para casa, já sozinho, se masturbava.

 

Orgulhava-se de ser muito cuidadoso, mas dentro do "bairro" deixava de lado todo resquício de prudência e, ainda que habitualmente muito regrado em seus gastos, quando no bordel gastava muito dinheiro. Era notável como os costumes, hábitos, valores e ideais que aparentemente regiam sua vida fora do "bairro escuro" ficavam suspensos quando ali estava.

 

Com o correr das sessões, foi falando mais desse outro espaço que habitava e do qual, não obstante, parecia não ter muita consciência, ao menos em seu pensamento verbal.

 

"Armar a cena", com essa frase descrevíamos como foi tomando forma na sessão esse outro mundo.

 

 "Armar" me parece que representa bem o que foi sucedendo, já que o que ele sentia no princípio era só uma série de sensações voluptuosas, momentos desarticulados, que não guardavam relação entre si.

 

"Cena" digo, porque quando, com dificuldade, se foi armando um relato, vimos se tratar de uma mesma configuração que se montava sempre com iguais características. Uma espécie de ato teatral, uma atuação que mecanicamente se repetia: ele olhando duas mulheres vestidas de homem, com as quais não tinha contato físico, que mantinham um jogo sexual entre si ordenado por ele. Na cena se instalava um mundo marcado por uma pluriexcitação sensual, que proporcionava uma sensação de saturação sensorial. Pierre tratava de evitar a ejaculação, procurava manter um nível constante de excitação que não arrefecesse. Esse nível de erotização, vimos mais adiante, formava parte de uma estratégia defensiva ante a perseguição e o desamparo.

 

Sua atuação dentro do "bairro escuro" lhe proporcionava diversos prazeres. Sentia-se dono das pessoas que o rodeavam. Eram como marionetes cujos fios manipulava. Elas deviam montar uma cenografia ambígua, na qual ficavam borradas as diferenças sexuais. O que certamente faltava ali era a alegria de viver e, além disso, suas ideias ficavam dispersas e tudo transcorria num tempo paralisado. Demorou muito para encontrar palavras que descrevessem sua experiência emocional e com elas construir uma narração.

 

Com o avanço da análise foi tomando mais consistência seu relato sobre o "bairro escuro", e Pierre começou a experimentar pudor. Ante seu sentimento de vergonha, violentava-se e assumia uma atitude de desafio. Ao narrar sua vida no "bairro escuro", se instalava nele a sensação de conflito, percebendo a incongruência entre dois modos de pensar.

 

Tomou conhecimento - meses mais tarde - do caráter compulsivo de sua atividade no "bairro escuro". Se deu conta de que, uma vez que a começava, tinha que completá-la, descobriu que nenhum impedimento a interromperia. A consciência da marca compulsiva de sua ida aos prostíbulos foi um segundo índice, junto com os traços de pudor, de uma cisão que começava a ter fissuras. A atuação deixava de ser algo alheio a sua consciência e à sua memória. Correlativamente perdeu consistência seu discurso autossuficiente e a ilusão de que sua vontade decidia o que ocorria em sua vida.

 

Percebeu então que sentia e agia de forma completamente distinta no "bairro escuro" e fora dele. Ficou muito comovido quando o analista lhe fez notar o caráter alienado de suas excursões ali. Podemos descrever como deixavam de existir as considerações morais e éticas, que tinham um papel tão importante em sua vida. Costumava se gabar de uma honestidade e uma correção em sua vida cotidiana que beirava à timidez carola.

 

A comoção que teve ao notar esse duplo modo de ser o levou a uma tentativa de solução: argumentou que as prostitutas que contratava tinham sorte, ele as tratava bem e não regateava por seus serviços.

 

Essa tentativa desajeitada de fechar a brecha que se abria não subsistiu por muito tempo. Fez-se evidente a má-fé colocada em jogo, como se, a partir de seu lado escuro, recorresse a um discurso mentiroso e enganador. Com ele tentava distorcer o mundo para adequá-lo a seu modo de ver. A interpretação mantida nessa tentativa o levou a explorar sua relação com as prostitutas. Isso começou nos últimos anos. Antes, durante os primeiros tempos de seu casamento com Claire, tinha prazer em seduzir as mulheres, não pelas eventuais relações que mais tarde daí poderiam brotar, mas pela sensação de euforia que lhe proporcionava comprovar que as podia conquistar. Claire tinha conhecimento das múltiplas relações que Pierre mantinha e, mesmo não sendo de seu agrado, não fazia maiores objeções. Mais tarde convenceu Claire a participar de jogos sexuais com outras mulheres. No último período de seu casamento, Claire permitia que Pierre convidasse mulheres para compartilhar a cama com eles. No curso da análise, Pierre chegou à conclusão de que Claire sofria com suas aventuras extramatrimoniais, que as camas redondas não eram desejadas por ela e que ela assentia como uma forma de retê-lo a seu lado. Essa percepção gerou uma enorme angústia. Não tolerava supor que fizera sofrer alguém ou que o forçara a fazer algo contra sua vontade e, no entanto, era evidente o caráter tirânico e cruel de sua atitude.

 

Tratou de demonstrar que desfrutavam e participavam com igual entusiasmo de um jogo sexual minuciosamente preparado. Iam com frequência a Paris e lá frequentavam uma loja que vendia lingerie erótica, com a qual se vestiam.

 

Quando, com o tempo, pudemos reconstruir com mais precisão a cena, vimos que era ele quem comprava as peças, pedia a Claire que pusesse roupas masculinas enquanto ele, por sua vez, usava roupas femininas. Ele a maquiava e se maquiava também. Mais tarde esclareceu que tanto a roupa como a maquiagem tinham algo de ambíguo, mas mesmo assim quem portava os adereços femininos era ele.

 

Surgiu na análise sua crença de que quem manda nas relações humanas são as mulheres e então, a partir de sua vestimenta feminina, exercia o poder sobre essas mulheres com traços de virilidade. Chegou a admitir que provavelmente Claire não estivesse tão fascinada como ele com essa sexualidade, submetia-se porque agradava a ele. Foi-se fazendo cada vez mais evidente seu ataque à feminilidade.

 

Um momento de inflexão na análise foi o sonho do carrossel ("tiovivo" em espanhol), logo depois do nascimento de seu filho. Quase não havia mencionado a gravidez da mulher, era um assunto dela, totalmente alheio para ele. Não quis acompanhá-la às visitas ao médico durante a gravidez nem ficar na maternidade durante o parto e pós-parto. Mesmo assim, com a chegada de Max em sua casa, começou a falar mais dele e a mostrar uma preocupação inusitada. Em poucos dias, contou este sonho: "eu estava com Max e D. em ......não sei como o chamam aqui, em meu país o chamamos ‘tiovivo' ou cavalinhos (carrossel). Max era já um bebê maior, estava montado num cavalinho e ao lado estava D. Eu estava um pouco adiante e via com preocupação que D. falava com Max".

 

"Nem sei se posso falar disso com você. Estou com um problema muito sério no escritório. D. é uma pessoa muito boa, é o sócio sul-americano do grupo. Ele quer convencer meus chefes de que temos de usar propinas (em espanhol, "maletín" - valise, mala de mão). Quando cheguei a esse país tive muitos problemas porque havia tido propinas ("maletín") e eu lhes tinha dito que não iria transigir com subornos. Estou convencido de que, além das considerações éticas, se a curto prazo a propina pode facilitar, a longo prazo é prejudicial. Tenho a impressão de que D. pode convencer meus chefes". O sócio sul-americano, pelas associações que se seguiram, era uma condensação do analista e Pierre quando ia ao "bairro escuro". O analista era o responsável por quebrar parcialmente a cisão e com isso abrir a porta para D. e seus argumentos. Pierre sentia então o analista como um aliado de seu lado que ia ao "bairro escuro". O desejo se realizava no sonho e a ameaça de que D., o sócio sul-americano, convencesse Max das maravilhas de ser um "tio vivo", o vantajoso e divertido que era esse movimento masturbatório (o subir e baixar dos cavalinhos no carrossel), e como os problemas poderiam ter uma solução mais fácil via suborno.

 

Dias mais tarde essa interpretação adquiriu mais densidade quando Pierre se sentiu num dilema. Sua permanência no trabalho dependia de que não questionasse mais a propina. Mostrou-se muito aborrecido ao supor que o analista propunha que ele fizesse vista grossa frente ao "maletín", que não visse o que havia visto no sonho - o diálogo entre D. e Max - visando com isso garantir a permanência dele no trabalho e a continuidade da análise. Em seguida, ameaçou interromper as sessões. A psicanálise era perigosa: ao dar voz na sessão aos argumentos que surgiam no "bairro escuro", ele corria o risco de ficar capturado por eles, que tomariam o comando de sua vida mental. Ao analista, por motivos seguramente espúrios, só interessava a continuação da análise e se aliava com D. fazendo vista grossa. Assim, era o responsável por fazê-lo claudicar em suas convicções. Desenrolava-se na transferência, resultado de suas mentiras, uma enorme distorção. Travestindo a situação analítica, tentava recuperar o controle de sua pessoa e enfrentar a ansiedade.

 

Sua análise nessa época transcorreu numa confusão entre o que ocorria no escritório e em sua mente. Seu discurso estava monopolizado pela preocupação em convencer os sócios de que era mais vantajoso não fazerem o suborno ("maletín"). Ao voltar de uma de suas viagens de negócio, relata: "Sábado estive em M. com T. (um político de pouca importância daquele lugar), ele é um homem honesto que tem favorecido meu escritório e nunca nos pediu nada em troca, coisa rara. Ele me contava que, como havia perdido as eleições internas de seu partido e não renovaria seu cargo, pensava em investir numa publicação. Eu o via muito entusiasmado com o projeto e me chamava a atenção como ele se propunha a realizá-lo sem um estudo de viabilidade, pois penso que ele não tem capital para tanto. Me fez pensar novamente em meu futuro. Me dou conta de que tenho posições conservadoras, com elas tenho garantido uma posição estável, é como um seguro de vida. Estive pensando nesses dias em voltar para a matriz e deixar todos esses debates dentro de mim".

 

Sua admiração por M. nos deu a pista de um aspecto dele relativamente indene aos influxos do "sócio latino-americano / bairro escuro". Foi também a via que lhe permitiria reconectar-se com sua vida infantil, ainda que esta tomasse a forma de recuperar a proteção da mãe que o resguardasse de qualquer ideia conflitiva. Oscilava entre manter posições conservadoras e assim preservar a proteção mafiosa do "sócio sul-americano" que lhe prometia o atalho masturbatório do carrossel ("tiovivo / tio vivo") ou enfrentá-lo, ainda que temesse que a tentativa de crescer sem "maletín" fosse uma ingenuidade quixotesca, inviável com os recursos disponíveis. Ao mesmo tempo, surgiam importantes ansiedades depressivas como se vê no material que trouxe na sessão seguinte. Comenta que esteve pensando em estabelecer um projeto individual. Havia falado disso com Francisco, "é quem me sucedeu no escritório em meu país. Profissionalmente é como um filho para mim. Ele esteve mal de saúde e agora está se recuperando. Disse-lhe que quando for de férias quero falar com ele, pois queria lhe propor um empreendimento conjunto. Ele se emocionou muito com minha proposta e eu senti uma relação de muita proximidade com ele. Logo me senti culpado por não lhe ter ligado quando estava mal".

 

Com o correr do tempo, Pierre foi se sentindo melhor consigo mesmo, recuperando lembranças de sua vida. Surpreendia-se de que elas tivessem permanecido incólumes dentro de si. Isso foi interpretado pelo analista como ele se surpreendia que houvesse "mais ar" do que ele supunha, e que podia ter recursos para proteger seus aspectos infantis e a seu próprio filho do "sócio sul-americano". Voltou a praticar esportes, o que tinha abandonado no final da adolescência, convertendo essa atividade em um de seus interesses centrais e fonte de grande prazer. Essa era uma sensação estranha em sua vida fora do "bairro escuro", onde só havia o "correto". Junto com esse maior contato emocional, apareceu-lhe uma crescente e torturante sensação de conflito. Em uma das sessões dessa época, contou: "essa noite no hotel (numa de suas viagens de trabalho) tive um longo debate comigo mesmo, me perguntei se tinha feito bem em apagar de minha agenda os telefones das prostitutas e finalmente decidi, não sem esforço, ficar só; me masturbei e adormeci... Estou um pouco sonolento agora porque essa noite, quando voltei, o menino decidiu mostrar toda sua vitalidade, e a babá não estava. Max estava dormindo ao lado de Marie e toquei uma punheta ‘higiênica'. Pensei se não seria ruim para o Max. Max está introduzindo novas ideias dentro de mim. Pensei que talvez a masturbação não fosse uma simples atividade fisiológica - como até então sustentava, que considerá-la assim era uma resposta conservadora, uma frase feita" -, mas pensar de outro modo o deixava desconcertado. Fica um momento em silêncio e diz de supetão que tinha começado a pensar que talvez escravizasse as prostitutas enquanto acreditava ter um papel altruísta com elas. Que provavelmente não era certo que Claire aceitasse livremente o tipo de relação proposta por ele. Recorda que quando se separou de Claire se sentia aprisionado e oprimido. Que uma das razões que o levaram a deixar Claire era a docilidade com que ela cedia a seus caprichos. Ele sabia que não podia propor a Marie o que havia proposto a Claire. À luz do que vínhamos analisando, entendemos isso como uma tentativa de limitar a prédica hegemônica desse aspecto dele, que logo se tornou o que ele chamava de "sócio sul-americano".

 

Poucas sessões depois, relata: "Ultimamente tenho dois tipos de sonhos: sonhos nos quais tenho uma maneira de escapar e sonhos nos quais não tenho escapatória. Essa noite sonhei que podia andar sobre a água numa scooter que tinha uma espécie de pá (em espanhol "pala", e ele se refere à masturbação como "palla") embaixo e ia ziguezagueando" - era um exemplo de sonho nos quais tinha como escapar. Seu temor de não conseguir escapar correspondia a não encontrar um atalho masturbatório que permitisse evitar o confronto com o self narcisista que não queria de forma alguma enfrentar sua situação emocional. Continua dizendo que "tinha tido um sonho muito estranho. Estava num carro e tinha de chegar a Paris. Tinha uma sensação de que saía de meu povoado, tinha a impressão de que íamos demorar muitas horas e não chegaríamos, mas, por outro lado, sabia que o encontraríamos de novo". No início não associa com nada, mas logo me diz que havia visto nos jornais a inauguração do Museu Cartier. Que havia pensado como ficaria essa edificação no meio da cidade. Supunha que era uma boa combinação, que seguramente teria sido obtida uma harmonia entre as duas arquiteturas. Tinha muita vontade de ir lá, ainda mais que já tinha se proposto a ir a Paris em sua próxima viagem à Europa para ver a obra de Kandinski e de Klee, seus pintores favoritos.

 

Contou esse sonho dois meses depois da morte do pai. A pintura de seu pai seguia os cânones do impressionismo e ele tinha um grande desprezo pela pintura abstrata. Pierre com frequência tinha se queixado de que não conseguia chamar a atenção dele. Quando menino, realizava desenhos geométricos, de linhas claras, sem limites esfumaçados como nos quadros do pai. Sempre seus desenhos eram cenas de guerra que seu pai olhava com desaprovação. Seu irmão, por sua vez, era claramente o preferido pelo pai. Com os anos, seu irmão se mostrou um rapaz passivo, homossexual. Em sua adolescência, em uma viagem a Berlim, viu pela primeira vez a obra de Kandinski, que não o impressionou de forma especial. Mesmo assim decidiu que esse ia ser seu pintor favorito, com a sensação de que estava escolhendo algo que era o que mais desagradava a seu pai.

 

Podemos então ligar a predileção de Pierre por mulheres que encobriam uma secreta relação com homens admirados por ele - temia que sua admiração e seu desejo de sentir-se protegido por um homem o precipitassem num destino semelhante ao do irmão. O desafio a seu pai estava associado a um intenso rancor por não ter conseguido chamar sua atenção, o ter-se sentido traído com o aparecimento de tantos irmãozinhos e, por outro lado, era um reasseguramento de que não cairia num submetimento passivo. Legitimava sua agressão a partir dessa crença. De qualquer forma, no sonho havia uma tentativa de conseguir uma harmonia entre a arquitetura nova do Museu Cartier e a arquitetura clássica da velha cidade. Estava presente um desejo de reconciliação com seu pai; ainda que fizesse parte do sonho o temor de não chegar, de não conseguir, persistia a esperança de que o encontraria de volta.

 

"Essa noite tive um sonho técnico, talvez não valha a pena lhe contar". Depois de alguma reticência, diz que o escritório em que trabalha teve de criar pequenas companhias de serviços para não ficar à mercê de setores cartelizados, sendo ele o responsável por elas. Essas companhias se converteram em motivo de especial orgulho para ele. No sonho lhe informavam que uma dessas pequenas empresas estava em perigo e que, além do mais, ele estava em negociações para comprar uma companhia desse tipo em outro país sul-americano. Para poder vir à sessão de hoje tinha que assinar os contratos de compra no aeroporto de Z (capital daquele país) e assim poder chegar. Sonhava que estava com os vendedores e estes tinham mudado os papéis e as condições do negócio. Por esse motivo, em sua viagem a Z, havia levado os contratos de sua casa, além de ter observado cuidadosamente as folhas, a grossura do papel, pois estava obcecado com o temor de que, com a pressa, pudessem trocá-los. O analista interpretou que esse sonho tinha um sentido diferente ao do sonho com a scooter. Aqui o problema não era ter escapatória e fugir, tinha que ver com os temores por um excesso de confiança. Nos últimos tempos, ele estava fazendo esforços muito grandes para preservar a sessão, e isso ia em direção muito diferente a todas as suas relações. Ele nunca se punha numa situação de esperar algo de outra pessoa. O analista disse que ele, Pierre, o via como alguém fazendo parte de um cartel, pois não podia procurar uma outra companhia concorrente, que o tipo de relação que estava desenvolvendo o convertia em um monopólio e que, nesse sentido, tinha temor de alguma "sul-americanada" por parte dele. Pierre respondeu que mais do que uma "sul-americanada" temia uma "putaria". Uma "sacanagem filha da puta" seria comprovar que o que sentia como melhoras se desvanecesse. Temia as longas férias que ia tirar, não sabia como ia se sentir. O aparecimento desse temor foi um indício a mais da mudança que estava acontecendo na transferência, era óbvio que o analista começava a ter existência na vida dele. Começava a ter confiança e isso era vivido como muito perigoso.

 

Ao voltar de suas férias de verão, comenta a obsessão que tem por seu modo de olhar as mulheres, ele "as despe com o olhar". Lembra-se de que subiu no elevador com uma mulher e ficou com medo que ela se apercebesse de como a olhava, o que poderia desencadear uma cena violenta. A violência que ele exerce consiste em não considerar as mulheres como pessoas, não levar em conta o que elas pensam ou sentem, são apenas uma superfície. A resposta violenta, além de ser um temor da retaliação, era outro índice de uma alteridade que começava a tomar forma e, junto com ela, o tomar consciência de sua própria violência intrusiva.

 

Em uma sessão posterior, conta uma esperada conversa com um sócio do escritório muito respeitado por ele. Esse homem dizia que, com o novo regime implantado em seu país de origem, o problema não era a ideologia conservadora, a questão central era que os governantes eram más pessoas. Essas pessoas simulavam crer na democracia, mas era só uma fachada. Para elas, não existia outra verdade que a deles mesmos, queriam enfiar dentro dos outros seu modo de pensar. Nesse sentido, era muito difícil estabelecer um diálogo. A partir das associacões, o analista interpretou a difícil situação na qual estava o diálogo entre seu lado escuro e seu lado não escuro, era um diálogo quase impossível. Um dos lados não se dispunha a entrar em diálogo, só lhe interessava que prevalecessem suas opiniões e penetrar intrusivamente no outro, como fazia com sua forma de olhar as mulheres. Ficou muito comovido e disse que então "é como se em mim convivessem uma boa pessoa e uma má pessoa". Reaparecia um outro vértice a partir do qual fazia um insight de sua violência e tirania.

 

Na sessão seguinte, disse que havia ficado pensando. Tinha chegado à conclusão de que se aborrecia, só seguia rotinas, que assim sentia seu casamento e também seu trabalho. Punha-se em evidência um dilema doloroso, uma complicada relação entre uma boa pessoa que levava uma vida burocrática e uma má pessoa que tinha uma vida intensa e interessante. Essa admiração pelo que ele vivia como má pessoa provavelmente indicava um retorno à idealização da sensualidade que havia marcado suas atuações perversas, mas é importante salientar que isso era formulado como um conflito penoso expresso em palavras.

 

bernardo tanis

A reflexão em torno do relato de uma análise é sempre uma experiência estimulante para um analista. Cumprimento o corpo editorial da Percurso por esta iniciativa iniciada há alguns anos e agradeço a oportunidade que me foi concedida de participar deste debate clínico.

 

O texto que gentilmente nos é oferecido pelo analista é muito rico. Trata-se de um relato extenso sobre uma análise na qual se apresenta o trabalho com Pierre. Fornece-nos uma rica narrativa com uma variada seleção de elementos, alguns dados históricos do analisando, várias hipóteses metapsicológicas a respeito do seu funcionamento psíquico, estrutura e defesas frente a certas angústias, um rico material onírico, além de importantes referências a singulares momentos transferenciais que, a partir das intervenções do analista, suscitaram momentos de inflexão e transformação.

 

Sabemos que toda narrativa contempla uma fissura e uma tensão entre o narrador e o narrado, entre o aqui e agora e o então, entre verdade, verossimilhança e persuasão[1]. Temos na ficção literária algo que vincula sujeito, memória, retórica e temporalidade. A narrativa clínica nos conecta com a problemática da linguagem, das modalidades da memória e da temporalidade na transferência. A narrativa clínica nunca deixa de nos desafiar. Estamos longe de aderir a uma forma canônica de apresentá-la. Muitas vezes a escrita fica inibida ao pensar que temos que reproduzir a dimensão inefável da experiência. A escrita do psicanalista, em minha perspectiva, não visa a reproduzir a experiência, mas a produzir um efeito no leitor a partir das evocações, reminiscências e associações que o autor possa provocar em seu interlocutor[2]. Escrita é potência viva, e será a partir desse vértice que procurarei construir meu comentário ao texto apresentado pelo colega. O comentário não pretende de modo algum esgotar o material clínico apresentado, apenas propiciar o diálogo com o autor e com os leitores sobre alguns elementos que, a partir da perspectiva acima citada, destacaram-se para mim.

 

De "armar a cena" a "outra cena"

Os primeiros parágrafos procuram nos apresentar Pierre: sua mudança de país e continente, algo sobre seu uso de drogas, sua procura por prostitutas em seu país de origem e no momento em que inicia análise, sua primeira e segunda esposas, Claire e Marie, respectivamente, e certas particularidades de sua família de origem.

 

Embora apareçam elementos factuais manifestos, há outrocomponente de outra ordem (latente) que veio animar o relato já no primeiro parágrafo. Pierre procura um analista em seu país de origem, antes mesmo da viagem, pois "temia se desestruturar com a mudança". No parágrafo seguinte, aparecem novos significantes associados ao mesmo campo semântico: antes reservados ao espaço do ócio, agora as drogas e as prostitutas ameaçavam invadir o espaço de trabalho. Vivia isso como "uma ameaça de descontrole", ecoam as palavras do seu analista anterior. Sua vida poderia ficar caótica se tivesse que parar de trabalhar. Seu sucesso profissional "tem-no mantido organizado".

 

Desestruturar-descontrole-caótico-organizado. Quem é Pierre? Essa pergunta pode soar estranha aos ouvidos de um analista, mas, atentos ao relato, à hipótese da cisão como caracterizada pelo analista em vários momentos da sua narrativa, evoca em mim a fábula narrada por Ítalo Calvino, O visconde partido ao meio. O protagonista da história, o Visconde Medardo de Terralba, vai para uma guerra entre turcos e cristãos e leva um tiro de canhão no peito que o divide em metades exatamente iguais. Uma é salva pelos médicos do exército e a outra é encontrada viva no meio de um monte de cadáveres e curada por um grupo de eremitas. A particularidade é que uma dessas metades é totalmente má e a outra incrivelmente boa. Legitima-se, com isso, a pergunta: quem é Pierre? Tolerará entrar em contato com a angústia, "efeito do tiro de canhão" que o separara em duas metades? E ainda - e aqui me permito avançar em mais uma indagação, tanto clínica como metapsicológica, que procurarei desenvolver ao longo deste comentário - haveria outra perspectiva para pensar as atuações e montagens no campo da sexualidade de Pierre que não a da cisão entre dois aspectos da sua personalidade? Poderiam ser pensadas, como hipótese a ser investigada, como uma tentativa de sexualizar e inscrever no registro prazer-desprazer algum tipo de vivência de natureza traumática que não pode ser representada/ simbolizada?

 

O analista nos convida a acompanhá-lo no percurso dessa análise. Há um primeiro momento, o qual o analista chama de "armar a cena", em que o analisando descreve o ritual que ocorre no bairro escuro (nome outorgado ao bairro dos prostíbulos). Costuma contratar duas prostitutas, duas mulheres às quais solicita que se vistam com roupas masculinas e pratiquem jogos sexuais aos quais assiste mantendo um estado de excitação. Esta encenação ritualizada, na qual os atores desempenham sempre o mesmo papel, obedece a uma exigência compulsiva, que será compreendida pelo analista como "uma estratégia defensiva face à perseguição e ao desamparo". Mas qual será a cadeia significante que organiza a cena e que, irrefreavelmente, o conduz a essas existentes montagens nos prostíbulos? Voltaremos a isso posteriormente, já que procuraremos avançar e conjecturar em torno do enlace entre a cena atuada e a ideia do analista de que se trata de uma montagem defensiva face à persecução e ao desamparo.

 

Joyce MacDougall reconhece certas regularidades no funcionamento psíquico em analisandos cuja vida sexual se centra numa prática ritualizada e limitada: "A expressão erótica ritualizada constitui um traço essencial de sua estabilidade psíquica, e uma grande parte de sua existência se desenvolve em torno dela"[3]. O analista atento a esse movimento reconhece tal dinâmica e constrói uma hipótese sobre a demanda de análise, a saber: a esperança de recuperar o controle obsessivo que estabilizaria sua cisão e que o ajudaria a manter a ficção onipotente que controlava sua vida, negando, assim, sua compulsão escravizante de frequentar o bairro das prostitutas. Esta hipótese é coerente com o fato de que uma das características dessa sexualidade compulsiva é que o objeto passa a desempenhar um papel circunscrito e controlado pelo sujeito.

 

Pierre receia se vincular e, no entanto, casa-se duas vezes. Seu primeiro casamento foi com Claire, cujo ex-marido fora um homem bem-sucedido. O segundo foi com Marie, cujo pai fora uma personalidade conhecida. Rivalidade edípica atuada, intensas fantasias homossexuais? Quem sabe, nutrir-se identificatoriamente absorvendo algo do masculino através dessas mulheres que vivenciaram o contato com esses homens potentes? Que relação isso guardaria com a cena montada nos prostíbulos? Seria ela um modo de controlar, a distância, suas fantasias homossexuais?

 

Alguns elementos da história de vida de Pierre vão sendo apresentados na narrativa. Seu pai é descrito como distante e egoísta. Voltado para seu mundo da pintura, passava a maior parte do dia bêbado. Os pais não compartilhavam o mesmo leito e os irmãos, à medida que cresciam, assim se dividiam para dormir: os filhos homens dormiam com o pai, as filhas com a mãe. No entanto, algo quebra essa regra ao ser escolhido pela sua mãe, na puberdade, para ser seu confidente de seu casamento infeliz e para "compartilhar com ele o cuidado com os filhos menores". A obsessão de Pierre, diz o analista, era sair o quanto antes daquela casa cheia de irmãos. Do que poderia estar querendo fugir? De ser o eleito da sua mãe? O especial? De testemunhar a falência do seu pai? Preço excessivamente alto a pagar para ocupar esse lugar ambíguo que lhe é oferecido pela mãe. Não seria estranho que, frente a uma constelação edípica assim configurada, defesas drásticas (cisão, clivagem, veremos adiante nossa hipótese) pudessem se instaurar como forma de evitar o desenvolvimento de intensa angústia.

 

Curiosamente, o analista diz, no início de seu relato, que Pierre se apresentava como um homem sem recordações, sem interesse pela sua história, e considerava-se um self-made man, confiando apenas nas suas próprias forças. Parece que, mais do que do recalque, estamos diante de uma tentativa mais radical[4] de não entrar em contato com uma dimensão mais intrusiva do objeto. Anuncia-se, assim, a desconfiança e sua ambivalência no início de uma análise, sua suspeita de quais poderiam ser as intenções do analista e se seria capaz de controlar a cena assim como talvez procurasse se proteger das investidas maternas. Assim, de "armar a cena" concede-se lugar "a outra cena", a cena transferencial, na qual se coloca em jogo o desenrolar da análise.

 

Encurtando a distância

Progressivamente, Pierre nota uma diferença no seu modo de ser no trabalho e no bairro escuro. Há uma moral diferente que norteia seu modo de agir nos dois espaços e, se antes da análise isso não era muito percebido, agora aparece como um "conflito", dirá o analista. Nota-se, inclusive, a emergência de certa culpa, vergonha e constrangimento vinculados à forma como se relacionava com as mulheres para sua satisfação, seja com as prostitutas, seja com Claire. Uma metade estaria tomando conhecimento da outra? Pareceria ser essa a perspectiva do analista; dois mundos, duas éticas em conflito, o bem e o mal, um mundo em que as emoções e os afetos têm lugar e outro no qual as pessoas são tratadas como objetos-coisa.

 

Um rico movimento transferencial é aprendido no sonho do carrossel (tiovivo) e seu desdobramento ligado à temática do suborno, maletín (lembramos o leitor de que o novo sócio procurava convencer Pierre de que às vezes deveria se valer da propina para realizar certos negócios, prática que ele condenava). Emerge uma fantasia transferencial na qual o analista o induziria a praticar a propina ou fazer vista grossa ao fato. O analista, movido por interesses espúrios (ética suspeita), aliar-se-ia, assim, ao sócio D. Trata-se do sócio sul-americano quem advoga o pagamento de propina. Em seu sonho, aparece também o filho Max.

 

A análise chega a um ponto bastante crítico; o analisando ameaça interromper o processo. Diz o analista que Pierre "tentava recuperar o controle de sua pessoa e enfrentar a ansiedade". A questão que surge é: por que Pierre sentir-se-ia ameaçado? O que estaria sendo vivido na transferência que provocaria esse sonho? A que se deveria a primeira aparição no relato do seu filho Max?

 

Penso que agora podemos tentar vincular alguns elementos que talvez nos ajudem a compreender algo a respeito da natureza da cisão, da necessidade do controle e da qualidade da ansiedade que emergia no sonho, que nesse momento do relato não está muito explicitada, embora os movimentos nele presentes sejam detectados pelo analista. O analista reconhece, na via associativa do sonho, algo que o vincula transferencialmente a D. Um pouco adiante, quando o analista nos fala de recuperação de memórias por parte de Pierre e de sua surpresa com esse fato, faz menção à ideia de proteger Max das influências de D.

 

Tenho a impressão de que o nascimento do filho é para Pierre gerador de intensa ansiedade vinculada à sua identidade sexual, à sua masculinidade, à paternidade, elementos que permaneciam dissociados de modo a serem evitados, hipótese que pode se apoiar no relato do analista de que Pierre não falara muito da gravidez de sua mulher, não frequentara as consultas ao obstetra, nem assistira ao parto. Algo precisava ser evitado. Ouso conjecturar que D. representa certos aspectos do feminino sedutor materno do qual Pierre sentia necessidade de se preservar e de preservar seu filho Max. A cena transferencial parece estar impregnada por uma intensidade que o ameaça. Assim, também vejo que neste momento se instaura uma vivência persecutória na análise, mas algo diferente da apontada pelo analista ou talvez complementar. O Analista/D. ao qual Pierre faz tanta questão de se opor também o seduz, e essa sedução traz consigo algo de uma vivência não simbolizada, com que Pierre evitava entrar em contato, para a qual talvez o ritual do bairro escuro parecia oferecer uma proteção.

 

Alguns elementos começam a se precipitar na análise: seus objetos de gozo parecem começar a ser também objetos vivos, como Claire, Max dormindo ao lado de Marie. Assim, deixam de ser apenas objetos a serviço de um prazer masturbatório e passam a ter existência própria, sentimentos. Isso é algo inteiramente novo para ele e, senão novo, algo que fizera questão de deixar de fora, clivado do aparelho psíquico.

 

Surgem mais sonhos que, por limitação de espaço deste comentário, não teremos condições de apreciar mais aprofundadamente. No entanto, destaco o interesse que Pierre começa a manifestar pela polarização conflitiva: "Sonhos nos quais tenho uma maneira de escapar e sonhos nos quais não tenho escapatória". O trabalho do sonho parece se intensificar, assim como sua capacidade associativa.

 

Em um dos sonhos desse período, "tinha que chegar a Paris". De modo bastante condensado, mas intenso no relato, aparece a temática paterna e a dinâmica de rivalidade que se estabelecera com aquele que ganhara forma representacional na admiração de um estilo pictórico que desagradava o pai. Aparece também o que pode ser o complexo relacionamento com seu irmão, preferido de seu pai; fantasia idealizada do vínculo homossexual do seu irmão com seu pai? Na sequência, aparece novamente, e com bastante intensidade, a procura, através de artifícios, de evitar a submissão a um mercado cartelizado, e que o analista interpreta como receio do excesso de confiança depositado no analista, que seria vivido ameaçadoramente por Pierre como a edição de um vínculo semelhante ao do monopólio cartelizado.

 

Comentários finais

Os últimos parágrafos do relato clínico parecem retomar certas angústias inicias de Pierre. "Temia uma putaria. Algo que poderia abalar o que sentia como melhora". Receava que seu olhar "que despe com os olhos" as mulheres fosse identificado. Evoca, então, a conversa com um sócio que descreve essas pessoas que simulam acreditar na democracia e procuram enfiar nos outros suas verdades. Nesse momento, o analista mantém seu modo de compreender o mundo interno de Pierre e interpreta "a difícil situação na qual estava o diálogo entre seu lado escuro e seu lado no escuro" como um "diálogo quase impossível". O analisando parece convencido: "é como se em mim convivessem uma boa e uma má pessoa". Mas, de modo interessante, volta na sessão seguinte dizendo-se aborrecido com a rotina, com o casamento e com o trabalho. O analista vê nisso um retorno idealizado da sensualidade que alimentava suas atuações perversas, mas entende que esse conflito agora podia aparecer expresso em palavras.

 

Próximo a finalizar meu comentário, gostaria de retomar algumas das colocações iniciais que visam a propor uma hipótese complementar àquela da cisão proposta pelo analista, embora queira destacar o fino trabalho com o universo onírico de Pierre, o sutil empenho de ajudá-lo a viver num universo no qual seus afetos e vínculos começam a ganhar existência em contraposição a um universo estéril e coisificado.

 

A minha hipótese parte da ideia da existência de uma configuração de cena primária ambígua geradora de uma confusão identificatória. Das possíveis alternativas que lhe são oferecidas, Pierre as confronta e recusa de modo a se sentir sem opção identificatória a não ser fugir/abandonar sua casa, o universo dos afetos e desejos edípicos para construir sua própria cena primária no bairro escuro. Renuncia desse modo ao conluio com a mãe intrusiva e dominadora e a uma posição homossexual perante seu pai. Assim, não será um Visconde partido ao meio como Medardo de Terralba, tomado pela dicotomia bom-mau, mas um lobo solitário. Arcando com o preço de uma defesa extrema, indo à caça atrás de uma cena ritualizada que o excita sexualmente e apazigua a emergência da angústia e vazio.

 

O aspecto paradoxal dessa defesa extrema é que o eu se cliva de uma experiência experimentada e ao mesmo tempo não constituída como uma experiência do eu, o que suporia que ela tivesse podido ser representada. Por um lado, a experiência foi "vivida" e deixou "traços mnêmicos" do que foi experimentado, e, por outro lado, ela não foi vivida e apropriada como tal, na medida em que, como diz Winnicott, ela não foi colocada na presença do eu, o que suporia que tivesse sido representada[5].

 

Nesse sentido, parece não ter havido em sua infância e adolescência possibilidade de elaboração simbólica e de lutos em relação à constelação edípica. As cenas armadas por Pierre parecem estar no lugar de obturar um vazio subjetivo criado pela clivagem de uma parte significativa do eu - outro modo de falar do desamparo e persecutoreidade aos quais o analista faz referência. Assim, a cena construída por Pierre seria como um delírio, uma tentativa de cura enxertada. Como um fetiche sofisticado, estaria no lugar de reconstruir alguma cena primária na qual corpos femininos travestidos de homens simulam um encontro primordial. Masturbando-se na solidão higiênica parecia encontrar algum conforto. Agora, graças ao trabalho em análise, experimentando uma nova possibilidade de encontro com alteridade que não a da submissão (aquela que lhe fora apresentada pelos objetos edípicos), parece usufruir da capacidade de se vincular e despertar para os afetos, os corpos ganham outro tipo de existência e a sexualidade se anuncia por novas vias ainda inexploradas por Pierre.

 

isabel mainetti vilutis

Quando fui convidada a fazer parte da seção Debates Clínicos da Revista Percurso, não imaginava o tamanho do desafio: comentar um caso clínico anônimo, a partir do relato de um analista - também anônimo - que o entrega generosamente para ser debatido. Uma espécie de clínica descarnada. Palavras escritas sem deixar transparecer a emoção que as investe, tanto de quem as escuta, quanto de quem as diz.

 

Evidentemente, é um novo espaço para a palavra psicanalítica, muito mais próximo da psicanálise aplicada do que da supervisão ou da própria clínica psicanalítica. Como se o recorte do processo analítico feito pelo analista nos permitisse a liberdade de utilizá-lo como pretexto para uma nova leitura, uma nova criação, outra obra.

 

Nesse sentido, devido ao interessante e farto material fornecido pelo analista e à limitação de espaço para o debate, farei um recorte centrado fundamentalmente em duas hipóteses clínicas.

 

Em primeiro lugar, na cena do bairro escuro podemos pensar em algo da ordem do traumático, e portanto da compulsão à repetição própria da pulsão de morte. A fixação e rigidez da mesma representando uma tentativa falha de simbolização do inassimilávepelo sujeito e não uma repetição perversa.

 

A segunda hipótese que surge da minha leitura, especialmente do rico material dos sonhos, refere-se aos conteúdos incestuosos presentes em relação à figura do pai, que comprometem a instalação do Ideal de Eu e tornam seu Supereu sádico e violento.

 

Buscarei desenvolver essas ideias, acompanhando o relato de caso desde o começo, quando Pierre nos é apresentado como um paciente estrangeiro. Muito se tem escrito sobre a estrangeirice do inconsciente e, também, sobre a impossibilidade de falar sua língua senão através de um difícil processo de escuta. As palavras vão adquirindo uma potência modificadora e intransferível, à medida que a análise caminha desvendando sentidos novos e imprevistos. Às vezes, a barreira da língua se faz presente com maior intensidade quando o paciente e o analista possuem um repertório significante que advém de línguas maternas diferentes. O paciente procura uma indicação de analista em seu país de origem, o que nos leva a supor que a análise devia ter algo da ordem do familiar (talvez a possibilidade de falar em sua língua? Sendo esta a língua materna do analista, também?) Seja como for, a análise se desenvolve até tropeçar com situações intraduzíveis nas quais o paciente recorre a um idioma estrangeiro. É o caso do "tio vivo" ao qual me referirei mais adiante, ou do bairro vermelho/escuro.

 

É interessante notar que esse idioma estrangeiro não parece estar relacionado, necessariamente, à língua materna (holandês em um caso, espanhol no outro). O recurso a uma palavra estrangeira, presente em muitas análises, pode operar de modo defensivo, de certa forma "higienizando" a palavra de significações familiares e incestuosas.

 

Nesse sentido, a mudança de nomeação de "bairro vermelho" a "bairro escuro" revela-se significativa. O bairro vermelho, autorizado, que funciona à luz do dia, cede lugar à escuridão, e esta remete à ausência de luz, à clandestinidade do gozo compulsivo do paciente que, paradoxalmente, consiste em olhar uma cena repetida, sem reconhecer fronteiras e que parece se situar para além da linguagem e do princípio de prazer. Impossível narrá-la em palavras, opera como pura excitação que deve ser acalmada mediante a ingestão de bebidas alcoólicas e o uso de cocaína. Um verdadeiro carrossel que alterna a perda de consciência do álcool com a lucidez fictícia da cocaína.

 

Em sua primeira entrevista de análise, Pierre faz referência ao temor de perder o controle ao mudar de país e começar a embriagar-se e drogar-se à luz do dia. A palavra que utiliza é "desestruturar-se". Como se o estrangeiro nele, aquele de quem ele não consegue se lembrar no dia seguinte, pudesse tomar conta de sua vida aparentemente estruturada.

 

Freud estabelecia como parâmetros de uma certa normalidade a capacidade de amar e de trabalhar. Isto é, poder se livrar da prisão narcísica de uma subjetividade precariamente constituída, para reconhecer o outro na sua diferença e, eventualmente, amá-lo. Ao mesmo tempo, ter a capacidade sublimatória suficiente para poder produzir algo que seja reconhecido e recompensado pela cultura, de maneira a garantir satisfação e autonomia ao sujeito.

 

Pierre parece ter conseguido um certo sucesso, desde muito cedo, no que se refere à sua possibilidade de produzir dinheiro, o que lhe permitiu sair de sua casa familiar e começar uma vida longe dos pais e dos irmãos. Aparentemente, ele se satisfaz com suas conquistas profissionais e parece contar com o reconhecimento dos outros naquilo que faz. O temor de desestruturar-se advém da possibilidade de pôr seu trabalho a perder. Temor reforçado pela fala do primeiro analista que acena com um colapso caso isso aconteça. De fato, o trabalho parece ser o lugar onde ele poderia tornar-se um homem admirado, como aqueles que nortearam suas escolhas de amor.

 

Essa estrutura precária, que pode ser corrompida pela "propina" ou por alguma falha que traga à luz seu lado escuro, nos revela um Eu eficiente, mas sem desejo, e que pode sentir a iminência do desabamento com muita intensidade. Isso nos coloca perante uma questão muito difícil para a clínica. Uma coisa é pensar que o trabalho esteja inserido na procura desejante orientada pelo Ideal do Eu, por valores éticos e estéticos sublimatórios; e outra coisa muito diferente é pensarmos no trabalho como mandato sádico superegoico. A ameaça da desestruturação e o ideário paranoide que acompanham a questão da propina nos sugerem essa segunda hipótese no caso de Pierre.

 

A procura de um ideal está detida e congelada no outro, nas figuras que Pierre admira, nos homens que orientam suas escolhas de amor. As mulheres aparecem, assim, como meros apêndices de homens poderosos pelos quais deseja ser amado e aos quais gostaria de imitar.

 

Quando afirmo que essa é uma questão delicada para a clínica, me refiro especialmente à facilidade com que esse tipo de vínculo pode ser reestabelecido na transferência e ao perigo de o analista intervir, ora como ideal, ora como supereu sádico.

 

O verdadeiro naipe identificatório de Pierre parece mais próximo do pai bêbado e egoísta que aparece nas suas visitas ao bairro escuro. Recorte ou cisão do relato do analista, o aspecto compulsivo do vínculo do paciente com o álcool e a cocaína se dilui na narrativa do caso, apesar de estar intimamente associado a esse traço identificatório mencionado anteriormente. Existe um paralelismo entre o que Pierre não pode lembrar de suas idas ao bairro escuro e o que não pode simbolizar das noites no quarto dos homens na sua infância.

 

Faz parte da cena do bordel o "não ser tocado", já que o contato físico é vivido como desorganizador e perigoso, o que pode nos levar a pensar no excesso de excitação do trauma e na impossibilidade de simbolização do aparelho psíquico precariamente constituído na infância. Na volta do bairro escuro (quarto escuro?), toda sua angústia se transforma em raiva contra sua mulher, que não o protege da sua compulsão repetitiva. Uma mulher deve ser agredida, desvalorizada e culpabilizada, sinalizando o vínculo ambivalente com sua mãe, que não soube afastá-lo da cena incestuosa com o pai. Considero, portanto, que voltar para casa e agredir a mulher-mãe faz parte da cena, pelo seu caráter repetitivo e, também, pela amnésia que acompanha esse fato.

 

Se bem concordo com a leitura do analista quanto à possibilidade de poder construir uma narrativa que desfaça de certa forma a cisão, através do processo analítico, creio não ser "mentirosa" a tentativa de Pierre de justificar suas ações dizendo que ele não maltratava essas mulheres e que pagava pelos seus serviços. Sabemos que mesmo a maior mentira traz à tona algo da verdade inconsciente e, nesse caso, não maltratar e pagar pode ser entendido como a tentativa de estabelecer uma mínima diferença na identificação maciça com o pai agressivo e bêbado. O dinheiro é um significante importante na vida de Pierre. Um atributo fálico que o diferencia e que ele insiste em receber pelos seus méritos profissionais. Ganhar dinheiro foi sua forma de estabelecer alguma distância com o quarto escuro, transformando-o no bairro escuro. Uma ponte precária entre sua sexualidade escópica e passiva e a possibilidade de ter algum prazer.

 

A aparição de um filho de Pierre surpreende ao analista e a nós, mostrando também uma cisão entre o polimorfismo pulsional masturbatório da sua sexualidade e a existência de sua genitalidade. Simultaneamente ao nascimento do filho, o trabalho do sonho se faz presente, marcando um novo rumo à análise.

 

No primeiro sonho, a figura do corruptor, associada ao "tio vivo", fala com o filho de Pierre. A palavra estrangeira (tio) acena com um vínculo familiar e próximo que desloca o caráter incestuoso para um aparente problema de falta de vocabulário. A simples tradução de tio vivo por "carrossel" ou "cavalinhos" pode deixar de fora esse efeito significante que me parece corroborado, no próprio sonho, pela preocupação de Pierre com essa aproximação; como se pressentisse algum dano possível ao filho, por parte do homem corruptor.

 

Nas associações que se seguem ao sonho, Pierre realiza uma passagem direta do filho ao dinheiro, falando dos perigos de ceder às pressões do homem corruptor para efetuar suborno e oferecer propina. Afirma que, se a curto prazo pode ser facilitador, a longo prazo torna-se uma marca difícil de resolver. Incesto e suborno numa amálgama significante que opera de forma traumática na sua subjetividade.

 

É interessante que, nesse momento da análise, o homem corruptor presentifica-se na transferência na figura do analista interessado no seu dinheiro e não no seu crescimento e bem-estar. O paciente imagina que o analista lhe demanda que faça "vista grossa" à propina como os pais de Pierre solicitaram que ele fizesse "vista grossa" ao quarto escuro dos homens na infância.

 

Nsses momentos difíceis da clínica a transferência se instala como uma verdade que é de outra ordem, a qual é preciso escutar para não respondermos defensivamente a partir do princípio de realidade.

 

Considero que a mudança transferencial não é decorrente do fracasso de suas "mentiras", mas de sua impossibilidade de controlar a angústia de se tornar pai e da atualização do dilema "proteger um filho, ou abusar dele".

 

A partir desse sonho, abundam em seu discurso as referências a vínculos pai-filho: com o político do seu país, com seu sucessor na empresa e com o analista. A interrogação de Pierre parece dirigir-se à possibilidade de fazer algo próprio e criativo, o que acena para uma relação mais sublimatória com o trabalho. Abre-se, também, a dimensão de futuro, instalando uma temporalidade mais neurótica e menos dominada pelo infinito presente contínuo da compulsão de repetição.

 

Em relação ao próprio filho, pode perceber o seu temor/desejo de fazer algum dano com a fantasia incestuosa que anima sua sexualidade masturbatória. Ao mesmo tempo, a morte real do pai desencadeia e aprofunda suas elaborações sobre as relações entre os homens. Parece perguntar se existe alguma forma de escapar da erotização dos vínculos incestuosos.

 

Realmente, construir algo novo que possa conviver com as emoções mais arcaicas e primitivas é uma tarefa difícil para Pierre. A ideia de um museu que abriga em si objetos de outras eras, devidamente catalogados como pertencentes ao passado, aparece na associação do paciente relativa ao sonho de procura do pai. Uma arquitetura contemporânea que complemente a arquitetura já existente e ao mesmo tempo guarde dentro de si os objetos valiosos de outras eras.

 

Nem boa nem má, essa nova arquitetura estará marcada por uma nova temporalidade e, talvez, pelo desejo.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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