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Resumo
Resenha de Christian Ingo Lenz Dunker, Mal-estar, sofrimento e sintoma – uma psicopatologia do Brasil entre muros, São Paulo, Boitempo, 2015, 416 p. Coleção Estado de Sítio.


Autor(es)
Sara Elena Hassan Hassan
é psiquiatra e psicanalista.


Notas

1.     Mais detalhes a respeito no cap. 4, "Diagnóstico da modernidade e perspectivismo ameríndio".

2.     Agradeço a C.I.L. Dunker a possibilidade de conversar sobre alguns dos tópicos mais inéditos ou complexos do seu livro durante as leituras preliminares à elaboração desta resenha.


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 LEITURA

Da lógica do condomínio ao encontro na mata [Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros]

From the logic of condominium to the meeting in the woods
Sara Elena Hassan Hassan

Há, neste livro de Christian Dunker, uma proposta de renovação da clínica psicanalítica, pelo uso da teoria social crítica e da antropologia estruturalista. Termos como diagnóstico e psicopatologia adquirem um novo estatuto e se tornam mais compatíveis com as lógicas da psicanálise.

 

Tomarei apenas alguns aspectos mais centrais e criativos deste trabalho que, em minha opinião, poderia se desdobrar em cinco volumes, cada um deles para um capítulo, dada a abrangência e as ramificações dos temas contemplados: "Lógica do condomínio"; "Psicanálise e modernidade brasileira"; "Mal-estar, sofrimento e sintoma; "Diagnóstico da modernidade e perspectivismo ameríndio"; e "Re-leitura da diagnóstica lacaniana". Um chamado se impõe, desde o título mesmo, para que cada um dos seus termos adquira alcance e dimensão própria, na sua articulação recíproca com os outros.

 

O autor vai construindo um tripé entre mal-estar, sofrimento e sintoma, entrelaçados por um quarto termo, a diagnóstica, que, nesta articulação, não fica reduzida à distinção entre as clássicas estruturas clínicas em psicanálise, neurose, psicose e perversão, mas se depreende de uma função mais geral da linguagem, a saber, a função nominativa. Esta ampliação da noção mais tradicional de diagnóstico não faz por desmerecer seu entendimento lacaniano, mas reforça e radicaliza seus alcances operativos e sua dimensão de ato.

 

A noção freudiana de mal-estar (Unbehagen) é trabalhada a partir do Real lacaniano, não sem, antes, passar por uma leitura extensa e detalhada do mal-estar, tal como apresentado por Freud em Mal-estar na civilização (1929 [1930]). Dunker examina amplamente o significante original em alemão, Unbehagen, bem como seu equivalente em português, extraindo destas análises algumas articulações com a filosofia, principalmente a de Heidegger. Sua tradução transliterativa levanta a hipótese de que o termo alemão Hag, radical presente em Behagen (prazer, beatitude), venha a ser vertido como "clareira". A clareira anuncia assim, preliminarmente, a possibilidade do que ao final do livro vai-se chamar de encontro na mata. Abertura a uma alteridade desconhecida, não submetida à lógica fechada do condomínio. "Pode ser considerada a principal tese clínica deste livro"... "que o tão afamado Real retornará nas mais diferentes modalidades de mal-estar, mas não sem se interligar ao sintoma pela via das narrativas do sofrimento" (p. 398).

 

Procedimento semelhante se encontrará para a noção de sofrimento. Leiden é sem dúvida uma expressão ocorrente em Freud e Lacan, mas não tematizada conceitual e metapsicologicamente. Neste sentido o autor propõe algumas condições mínimas, necessárias para elevar a noção de sofrimento à condição de um conceito em psicanálise. O sofrimento tem estrutura de narrativa, assim como o sintoma tem estrutura de metáfora.

 

A hipótese do autor, segundo meu entendimento, é que o diagnóstico permite, em termos gerais, a recolocação do mal-estar em outro patamar. Ele dá nome ao que não tem nome. Por outro lado, é uma operação que tem sempre algo de pífio, insuficiente ou fracassado em relação àquilo que pretende nomear. A novidade é que ao separar o diagnóstico, como ato, da diagnóstica, como forma de racionalidade clínica introduzida como conceito pelo autor, ele recupera, dialeticamente, o lado produtivo dessa insuficiência. Diagnóstica envolve formas de vida, como modalidades de individualização do sofrimento em torno do mal-estar. A diagnóstica não se refere apenas a classificações e nosologias médicas ou psiquiátricas, mas envolve discursos. Se o diagnóstico é do sujeito ou do sintoma, a diagnóstica recai sobre uma forma de vida e a relação que esta cria entre sintoma, sofrimento e mal-estar.

 

Esse desenvolvimento seria impensável sem o conceito de experiência de indeterminação, de Axel Honneth. Conceito que é assimilado e transformado por Dunker, que lhe acrescenta uma volta a mais com sua contribuição da ideia de determinação no âmago mesmo da indeterminação[1]. Narrativas de sofrimento atravessam a teoria e a clínica da psicanálise, com função de causa, capaz de ligar as vertentes sociais e discursivas do sintoma. Narrativas de sofrimento têm como centro a perda da experiência (Benjamin).

 

Dunker detecta uma figura prevalente do imaginário brasileiro, que chama de forma de vida em condomínio (cap. 2), considerado como sintoma social a ser analisado. Não se trata apenas do condomínio enquanto moradia com uma área comum, partilha de serviços e descanso, como habitualmente conhecido. Trata-se mais de uma metáfora ou uma lógica de ocupação de espaços fechados, extensível a outras formas de organização, normativizantes e de identidades congeladas. Essas identidades excessivas, repostas por experiências de determinação, são fruto da estratégia baseada em isolamentos e barreiras. Elas são figuradas aqui como muros que operariam como defesa frente ao exterior hostil e diferente. Nem sequer os condomínios psicanalíticos, como outras tantas formações institucionais, escapam a essa modalidade local de colocar fronteiras em relação ao outro diferente, desconhecendo assim a rivalidade latente entre iguais na busca de uma hipotética paz artificial.

 

Lógica do condomínio é mesmo um achado do autor. Não é apenas uma modalidade de engenharia urbanística, mas um dos nomes do tratamento brasileiro do mal-estar. Forma de vida em condomínio radica na lógica de segregação, cujo estatuto provém do conceito de defesa militar e seu modelo, o forte de ocupação. Como costuma acontecer com a defesa mal-sucedida, ela não consegue abafar as causas do conflito que pretende resolver. Vemos aparecer, nesta abordagem, uma articulação possível entre conceitos da psicanálise (defesa, Abwehr) e fenômeno social.

 

Fica então aberto o caminho para que, no capítulo seguinte, a lógica das contradições sociais possa ser aplicada às linhas de força operantes na psicanálise como movimento cultural brasileiro. Este cruzamento entre contradições sociais e psicanálise vai se constituir na razão do método ao longo do livro. Muros são articulados à demanda, síndicos aos discursos, sintomas aos modos de sofrimento. Tudo isso operando na lógica social brasileira, na clínica e nas instituições psicanalíticas. "Nas paredes (muros), há uma demanda e uma modalidade de sofrimento que foi esquecida" [...] "um mal-estar cujo nome não lembramos mais é um tipo de sofrimento que exprime uma aspiração de reconhecimento" (p. 65).

 

O precedente mais claro dos condomínios são os grandes hospitais psiquiátricos de meados do século XIX, assim como suas variantes estruturais são a favela, o shopping center e a prisão. A lepra, este grande mal estudado por Foucault como fator de exclusão social, uma vez acontecida como tragédia volta agora como farsa, no cotidiano do condomínio, infestado por crimes de desobediência, uso de drogas e brigas entre vizinhos. Os antigos leprosários e hospícios com suas promessas de paz, tranquilidade e retorno à felicidade perdida (p. 52) são parte da arqueologia defensiva do muro de condomínio.

 

Mas os muros admitem furos, frestas e buracos, assim como ilustrado na imagem de capa do livro, extraída de um fragmento do muro de Berlim. Encontramo-nos, neste ponto, com uma particularidade da instituição do condomínio na qual se constata, justamente, o quanto o Real em questão insiste, para além da sua banalidade. Não sem ironia, Dunker escreve, a propósito do condomínio, que "seria preciso descobrir como foi possível inventar uma forma de vida comum sem uma verdadeira comunidade" (p. 50).

 

A figura estrutural do síndico é examinada em elementos e personagens da cultura brasileira, tais como a música W/Brasil (Chama o síndico), de Jorge Ben Jor, o Capitão Nascimento, do filme Tropa de Elite e, de forma articulada com as narrativas do sofrimento, no cinema brasileiro da Retomada. A última parte deste capítulo retoma abordagens da produção psicanalítica sobre a conexão entre brasilidade e narrativas de sofrimento, sob a rubrica temática dos novos sintomas: "Talvez tenha chegado o momento de avaliar as condições de nossa contribuição particular ao concerto das nações, quiçá pela exportação de nossa forma idiossincrática de sofrer" (p. 401).

 

Para entender a lógica dessa relação entre formas de vida, narrativas de sofrimento e formulação de demandas transformativas, o autor empreende uma tentativa de localizar a psicanálise na modernidade e, mais particularmente, na modernidade brasileira. Isso será enfocado, através das circunstâncias particulares e muito específicas nas quais ela chega e se desenvolve, na sua condição de sintoma-resposta às vicissitudes do sofrimento no Brasil. Três momentos são examinados: os anos 1920, data da chegada do freudismo, a institucionalização da psicanálise no pós-guerra e chegada do lacanismo nos anos 1970, em meio à ditadura. Apesar de reconhecer a existência de trabalhos sérios de cunho histórico, sociológico e antropológico sobre a psicanálise no Brasil, Dunker aponta a escassez de estudos que articulem a lógica das contradições sociais com mudanças nas linhas de força das principais tendências da psicanálise. Ele assume de alguma maneira, para si próprio, esta tarefa, embora apresente seu ensaio a título de notas preliminares, e diga que o trabalho "está por se fazer" (p. 107), pois "nenhum autor tentou" (p. 108). Talvez tenhamos aqui um convite para o que ainda é preciso entender, ou está por ser escrito, segundo conjectura o autor (p. 111). A hipótese da psicanálise como sintoma do Brasil, entrelaçando vanguardas literárias e científicas com feudalismos condominiais, é, segundo a minha opinião, uma contribuição a problematizar, no melhor sentido deste termo, tendo em vista as condições de possibilidade, a existência e efeitos da psicanálise no Brasil.

 

Como uma espécie de contrapartida ou antídoto ao condomínio, Dunker apresenta nos capítulos finais o encontro na mata. Inspirado na antropologia pós-estruturalista, o autor encontra, no perspectivismo, um suplemento à teoria lacaniana das estruturas clínicas. Valorizando um modo de relação sem pressuposição de identidades constituídas, a força constitutiva do encontro, o jogo recíproco de atribuições e nomeações, o xamanismo transversal ocorrente na cena amazônica do alto Xingu, o livro pretende oferecer uma antropologia compatível com a lógica lacaniana do não todo, como fundamento para uma psicopatologia crítica.

 

O livro toma por referência a antropologia pós-estruturalista e a renovação do pensamento dialético. Referências que atravessam suas páginas e vão explicitando a posição de Dunker de fertilizar a psicanálise a partir dessas disciplinas que permearam a renovação lacaniana da psicanálise. Nesse quadro destacam-se as contribuições do perspectivismo animista ameríndio, como desenvolvimento contemporâneo da antropologia de Lévi-Strauss. Como se sabe o antropólogo francês empreendeu suas pesquisas seminais com etnias brasileiras, que eram organizadas fortemente pelo totemismo, como os povos bororo e kadiveu. Dessa forma o totemismo, congruente com o olhar europeu, teria infiltrado um universalismo antropológico na psicanálise e em sua concepção de estrutura clínica, que pode e precisa agora ser revisto. Dunker considera a possibilidade, não vislumbrada por Lacan, de uma coexistência entre totemismo e animismo na fundamentação antropológica da psicanálise. Para isso teríamos que reconhecer que o totemismo, com seu registro de circulação fálica, e com seus universos de discurso fechado, acaba se tornando paradoxalmente incompleto. O animismo perspectivista representaria a narrativa antropológica, até agora faltante ou aludida nos discursos místicos, do "não todo" como crítica do universalismo totemista: ou seja, é possível ler um movimento que vai desde o particular brasileiro, com suas formas de vida e suas narrativas de sofrimento, como reivindicação da atualidade e da localização da psicanálise como uma prática que não é mais nem uma ideia nem uma prática fora de lugar. Daí a importância decisiva do aporte dos estudos antropológicos de Eduardo Viveiros de Castro sobre as culturas indígenas do alto Xingu. Tais culturas, como acontece nos povos tupinambá e arawaté, não estão centradas no totemismo, mas sobre o animismo perspectivista. O autor advoga que a narrativa social, portanto a forma de sofrimento dos povos do alto Xingu, se presta a oferecer um fundamento antropológico para alguns dos desenvolvimentos de Lacan tais como as fórmulas da sexuação, que ainda não teriam encontrado, claramente, suas narrativas sociais de referência. Assim como a sexuação, o mito individual do neurótico e a teoria dos quatro discursos admitem novas leituras, cruzamentos e ampliações quando se considera este novo modelo de estrutura.

 

Em que o perspectivismo ameríndio poderia incidir na psicanálise? É essa a pergunta à qual o capítulo 4 e mais extensamente o capítulo 5 tentam responder. Aqui o autor discorre criticamente sobre a limitação das premissas do totemismo como única regulação possível que atravessa, com algumas exceções, as contribuições de Freud e Lacan. A inclusão de formas de vida, mais além do totemismo, exemplificadas pelo paradigma do encontro na mata, poderia nos ajudar a sair do neurótico-centrismo, que corrói a diagnóstica psicanalítica desde a crítica de Deleuze. Expõem-se então algumas características do perspectivismo ameríndio, e seu xamanismo transversal, que lhe permitem renovar a fórmula de Lévi-Strauss de que o psicanalista é um xamã moderno. 

 

O perspectivismo animista nos convida a uma reformulação de outro pilar da psicanálise lacaniana: sua teoria do reconhecimento. Aqui Dunker argumenta a favor da retomada, por parte da psicanálise, da dialética hegeliana articulada ao materialismo freudiano e mais particularmente sua filosofia da história. Reconhecimento é definido como "processo de identificação inteligível de objetos, que seriam recognoscíveis no conceito por meio de traços" (p. 305). A revisão desta passagem hegeliana, do conhecimento ao reconhecimento, permitiria integrar melhor à psicanálise ao que está em jogo na valorização das experiências de indeterminação. Os dispositivos normativos de identificação nada mais são do que gramáticas de reconhecimento congeladas no tempo, determinações simbólicas que perderam sua efetividade diante do mal-estar. "Experiências de determinação improdutivas são aquelas que se mostram incapazes de produzir reconhecimento social simbólico" (p. 286).

 

Após uma revisão dos critérios de normal e patológico, ele ensaia outra concepção do patológico. Advertida do neurótico-centrismo, sem por isto deslocar o eixo para a psicose nem recorrer à teoria da foraclusão generalizada, o autor retoma a loucura como categoria fundante de uma psicopatologia lacaniana. Daí que, para essa nova diagnóstica, liberdade e verdade se apresentem como critérios do patológico. Acredito que esse olhar trans-amazônico e dialético é instigante e necessário para o debate psicanalítico nesta terra brasilis. A quem souber captá-lo, ele resgata, coloca em questão e trabalha uma inédita, e talvez impossível, conexão de conceitos[2].


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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