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Resumo
Resenha de Maria Stella Sampaio Leite, Orientação profissional, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2015, 248 p. (Coleção Clínica Psicanalítica, dir. Flávio Carvalho Ferraz)


Autor(es)
Beatriz Helena Peres Stucchi

é psicóloga e psicanalista, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – sbpsp, membro docente do Departamento de Psicopedagogia do Instituto Sedes Sapientiae.




Notas

1.     C. Dejours, "Sofrimento, prazer e trabalho", in Conferências brasileiras: identidade, reconhecimento e transgressão no trabalho. São Paulo: Fundap, eaesp/fgv, 1999. Apud Sampaio Leite.

2. Green, A. Psicoanalisis AP de BA, vol. xv, n. 1, 1993.


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 LEITURA

Orientação profissional [Orientação profissional]

Professional guidance
Beatriz Helena Peres Stucchi

Bastante interessante podermos encontrar esse tema - Orientação Profissional - fazendo parte da Coleção Clínica Psicanalítica. Esse fato já nos introduz na postura metodológica e teórica com a qual a autora nos apresenta reflexões e experiências derivadas de seu longo percurso de trabalho também nessa área.

 

O texto nos introduz abruptamente na complexidade, importância e, por que não, nas controvérsias que todo bom tema contém.

 

O que buscam aqueles que em diversos momentos da vida procuram uma Orientação Profissional?

 

Uma citação logo na apresentação do livro, frase de uma das participantes de trabalhos desenvolvidos em grupo, pode nos indicar a densidade da questão:

 

"Intriga-me qual o sentido da vida. A escolha da profissão tem a ver com isso. Escolher é dar um sentido a ela" (p. 23).

 

Assim posto, será vocacional ou profissional o que essa busca de orientação vai abarcar?

 

Deixando para a autora essa resposta, estamos de toda forma nos referindo ao ato de trabalhar! Ou ao Trabalho, conceito amplamente elaborado por varias áreas do conhecimento;  também encontramos no livro um bom apanhado desse conceito, que vem sendo transformado ao longo de toda a História da Civilização. O conceito é portanto "dinâmico", pois vai se transformando no correr do tempo e das necessidades culturais.

 

Mas o Trabalho nos foi apresentado também como Mito já na condição primeira de nos reconhecermos como Homens. "Expulsos do Paraíso", nos foi dado o trabalho como condição para o viver.

 

Com citações de vários autores, Arendt, Lasch, Agamben, entre outros muito respeitados, somos captados pela riqueza do tema Trabalho e talvez na contramão das nostalgias do Paraíso Perdido temos dificuldades de ter claro que "É preciso saber que todo trabalho é atravessado por contradições" (Dejours, p. 39) e esse mesmo autor faz a indagação para a qual o livro ricamente tenta buscar respostas: "por que certos trabalhadores sofrem com o trabalho e outros sentem prazer ao executá-lo" (p. 38)[1].

 

Na sequência dos capítulos somos conduzidos ao sentido do trabalho para a Psicanálise, a partir do texto O mal-estar na civilização, de Freud (1930). Questões sobre a satisfação com o trabalho, em que condições, qual o papel do trabalho na dinâmica psíquica do homem serão então a busca sobre a qual a autora nos convida a continuar refletindo, valendo-se de conceitos como teoria das pulsões, sublimação, ideal do ego, libido objetal, para ficarmos apenas com referências claramente freudianas.

 

Focando o prisma da Orientação Profissional/Vocacional, somos informados a respeito da História da Orientação, em que essas questões serão consideradas sob diferentes enfoques e técnicas. Muito já se trabalhou sobre o tema, a propósito. Entre vários autores, em diferentes épocas a partir do séc. XX, é sobre Bohoslawsky que a autora mais se detém, dedicando-lhe um excelente capítulo (cap. 4). Nele ficamos sabendo da preocupação com a escolha profissional mais especificamente nos adolescentes. Sim, estamos de acordo, porém podemos pensar que em geral nos referimos ao adolescente como faixa etária, mas a adolescência é também um estado psíquico, sob a compreensão psicanalítica. Como diz o artigo de Green - El adolescente en el adulto[2] -,  há adultos adolescentes tanto quanto adolescentes adultos. Assim considerando, a Orientação Profissional/ Vocacional é algo valioso em vários momentos de nossas vidas.

 

Se puder resumir o que considero ir além do estado mental do adolescente, seria poder enfrentar a questão da escolha, em que há sempre um ônus que pode querer ser adiado. Então, quem pode dizer que "acabou minha adolescência ou começou minha velhice?".

 

Adolescere quer dizer "jovem adulto" (p. 76). Acrescentaria, por minha conta e risco: adolescer pode também ser compreendido como: a dor de ser.

 

A dor de ser seria uma Consciência de si, com  "impacto na economia psíquica... em termos somatopsíquicos e simbólicos-culturais" (p. 76). Fatores conscientes e inconscientes se entrelaçam e conflitos operam, agem e podem estagnar muitos processos desejantes.

 

Sob o olhar psicanalítico, com esclarecimento dos vários conceitos utilizados em sua maneira de compreender e trabalhar, a autora dedica para tanto o capítulo 7, de extrema importância para os que se envolvem com o tema, orientadores profissionais em diferentes situações, quer nas escolas de Ensino Médio, quer em psicoterapias ou outras ocasiões ligadas ao tema.

 

Generosamente, na segunda parte do livro, a autora mostra todo o trabalho envolvido numa Orientação Profissional/Vocacional.  Desta feita torna o livro uma recomendação importante para os cursos de formação de orientadores, dentro e fora dos espaços acadêmicos. A prática desenvolvida por vários anos, acompanhada de reflexões, ilustra o processo com muita vivacidade e importância. Para tanto dedica vários capítulos, desde especificações da aplicação de sua técnica até ilustrações clínicas muito ilustrativas.

 

Mesmo que a escolha profissional possa caminhar por toda uma vida, como também é citado no texto, a leitura do livro me fez pensar que a oportunidade de um tempo e espaço para as reflexões envolvidas na Orientação Profissional/Vocacional é uma contribuição que abre caminhos para o amadurecimento das buscas de identidade, não só profissional. Abre portas para as muitas buscas de realizações, as quais precisam levar em conta que as ilusões podem nos fazer companhia mas podem também nos afastar do prazer de uma vida.

 

Quanto mais Trabalho Psíquico envolvido para escolhas de um bem viver, mais teremos chances de aumentarmos as possibilidades de gostar do que fazemos e não apenas fazermos aquilo de que gostamos!

 

Vale a leitura e as reflexões que ela pode propiciar!


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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