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Resumo
Resenha de Fernanda Sofio, Psicanálise na UTI: morte, vida e possíveis da interpretação. São Paulo, Escuta/Fapesp, 2014, 99 p.


Autor(es)
Marion Minerbo
é psicanalista, analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, doutora pela UNIFESP.

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 LEITURA

Clínica extensa: um caso exemplar [Psicanálise na UTI: morte, vida e possíveis da interpretação]

Extensive clinic: an exemplary case
Marion Minerbo

Tive o prazer de estar tanto na qualificação (em 9 jun. 2006) quanto na defesa (em 2 fev. 2007) da dissertação de mestrado de Fernanda Sofio, que acaba de ser publicada pela Editora Escuta. É um trabalho singular, relevante tanto para psicanalistas quanto para pessoas que trabalham em hospitais: médicos, atendentes, enfermeiros. Trata-se de uma forma inovadora de entender, e de exercer, a função terapêutica fora do enquadre padrão, que é o consultório psicanalítico. É fruto do estudo aprofundado da obra do saudoso Fabio Herrmann, a Teoria dos Campos, bem como de sua orientação, decisiva para o bom encaminhamento do trabalho. O trabalho é duplamente útil: em si mesmo, pelos resultados colhidos na pesquisa de campo e análise dos resultados, e por ser um caso exemplar da prática psicanalítica denominada Clínica Extensa, embasada nessa maneira de conceber a Psicanálise.

 

A Psicanálise nasceu, no fim do século xix, da necessidade de dar algum sentido, e propor um tratamento, para certas manifestações da psicopatologia que desafiavam neurologistas e psiquiatras. Diante do enigma da histeria, e, logo, de outras formas de neurose, avançando para o que na época eram as neuroses narcísicas, Freud inventou a ficção de um aparelho psíquico. Em seguida, como a medicina faz com os outros aparelhos do corpo humano - digestivo, cardiovascular, etc. - ele propôs uma fisiologia, uma fisiopatologia e uma forma de tratar as doenças da alma. Trata-se da metapsicologia, na qual Freud explicita o objetivo e a técnica para o tratamento. O método, porém, ficou implícito.

 

No século xx, no Brasil, em São Paulo, Fabio Herrmann ousa fazer o caminho inverso. Em vez de partir da psicopatologia, ele parte de uma sessão psicanalítica típica. E, nesse percurso, explicita o método usado por Freud, não apenas na clínica, mas em suas análises da cultura.

 

Com isso, boa parte dos conceitos sofre uma reinterpretação. Nesse percurso, as impurezas epistemológicas ligadas à criação da ficção - num primeiro momento, necessária - de um aparelho da alma foram sendo identificadas e submetidas à crítica. Note-se que não se trata de uma crítica feita com instrumentos externos à psicanálise, mas por alguém de dentro, por um psicanalista praticante. O conceito central da Psicanálise, o inconsciente, é redefinido em termos operacionais, e não mais metapsicológicos. Com isso, a psicanálise recupera seu horizonte de vocação, que é a de ser uma ciência geral da psique. O divã passa a ser um caso particular - embora paradigmático - em que o desvelamento dessas regras tem uma função terapêutica.

 

Essas ideias, que são trabalhadas por Fernanda na Introdução da dissertação, me permitem situar o trabalho da autora no campo psicanalítico: ela mostra como - qual o método - por meio do qual se dá a função terapêutica da psicanálise num hospital. Os outros capítulos tratam da pesquisa de campo realizada ao longo de um ano. É difícil apresentar os muitos detalhes desse atendimento. Basta dizer que, para ela, os pacientes não são necessariamente as pessoas que estão na uti: nem os médicos, nem os pacientes ou as enfermeiras. São recortes feitos pelo método que isola, ou recorta, campos psíquicos, ou sujeitos psíquicos, graças ao conceito operacional de inconsciente da Teoria dos Campos. Por exemplo, a uti é considerada uma paciente que adoece, que fala de seu sofrimento psíquico através da boca ou de gestos de médicos, enfermeiras e pacientes, todos igualmente envolvidos na luta diária travada contra a morte. Tudo isso é escutado analiticamente e interpretado. Naturalmente, não como em uma sessão de análise. Deixo para o leitor o prazer de descobrir o que podem ser a interpretação e a função terapêutica na Clínica Extensa.

 

O texto de Fernanda flui de maneira agradável. Ela descreve as situações no hospital de forma viva e sensível. Os resultados são surpreendentes. O leitor também passa por uma transformação em sua maneira de conceber o sofrimento específico das pessoas que trabalham num hospital. Um setor da realidade, até então opaco, mostra suas entranhas psíquicas, isto é, a lógica de sua concepção. A função terapêutica afeta simultaneamente o objeto de estudo, o psicanalista e o leitor.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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