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Resumo
Resenha de Fernanda Sofio, Literacura – Psicanálise como forma literária, São Paulo, FAP-UNIFESP, 2015, 311 p.


Autor(es)
Camila Salles Gonçalves

é doutora em filosofia pela fflcusp, psicóloga pela pucsp, psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, autora de publicações sobre psicanálise e filosofia.




Notas

1. F. Herrmann, Andaimes do Real - A construção de um pensamento, São Paulo, Casa do Psicólogo 2007(2004); M. Taffarel, O método psicanalítico: sua identificação desde a história da psicanálise e sua relação com o método das ciências. Tese de doutorado, São Paulo, pucsp, 2005.

2.     A autora nos remete para F. Herrmann, andaimes do Real: O Método da Psicanálise I, São Paulo, Brasiliense, 1991, p. 196-202, cap. "Do Interpretante".


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 LEITURA

A psicanálise e seu análogo [Literacura – Psicanálise como forma literária]

Psychoanalysis and its analogue
Camila Salles Gonçalves

Proximidade, cruzamento, afinidades, "imbricamento" (p. 27) são termos vez ou outra utilizados para indicar relações entre psicanálise e literatura, e nenhum deles parece estar errado em seu uso. Mas a autora deste livro parte de um enunciado determinado: a literatura é o análogo da psicanálise. Foi o que afirmou Fabio Herrmann, psicanalista e pensador da psicanálise, que nos legou a Teoria dos Campos, desenvolvida em uma série de obras, em grande parte publicada. É, sobretudo, por meio dessa teoria que Fernanda Sofio fundamenta seus ensaios e conjecturas clínicas.

 

Se o leitor não conhece a teoria mencionada ou se julga um seu conhecedor insuficiente, não precisa fechar o livro, pois, dentre seus méritos, a publicação tem o de apresentar o pensamento de Herrmann e a maneira pela qual seu ponto de  partida se situa no conhecimento consistente da obra de Freud.

 

A Teoria dos Campos foi nomeada por colegas e demais interlocutores de seu criador, que já havia adotado a noção de campo, para rever conceitos psicanalíticos, formular conjecturas e abordar situações da clínica e da sociedade. 

 

O campo, segundo compreendo, é a região relacional e psíquica que se estabelece por ocasião da escuta psicanalítica. Ao mesmo tempo, delimita-a e a toma como interpretante, numa condição em que não há limites rígidos. Para não ficarmos em pura abstração, sugiro que pensemos no foco gerado por uma fonte de luz, cuja separação da penumbra existe sem demarcação exata. Para Herrmann, citado por Sofio, o campo é "o conjunto de determinações aparentes que dotam de sentido qualquer relação humana, da qual a comunicação verbal é tão só o paradigma" (p. 65).

 

O campo é um interpretante e, nessa medida, faz parte da narrativa e da exposição daquilo que a psicanálise toma por objeto, ou melhor, como tema. O que se apreende é referido de um modo que toma forma no reino análogo, da literatura de ficção.

 

A autora nos adverte de que permaneceu, em muitas de suas afirmações, "no nível da obra de Herrmann, para quem método psicanalítico é interpretação-ruptura de campo" (p. 298). Além de percorrer aquela obra, ela nos apresenta comentadoras indispensáveis, como Leda Herrmann e Marilsa Taffarel[1].

 

A ruptura de campo é inerente ao método da psicanálise, segundo Herrmann, e por isso a expressão, muitas vezes, é utilizada por ele e por apreciadores de seus escritos como sinônimo de método da psicanálise. Entendo que a efetividade da psicanálise no emprego de seu método mostra-se na transformação de um campo de sentidos que aprisionava o analisando em sua repetição. Esta se rompe por meio da interpretação, que, ao confrontá-la com novos possíveis, abala aquilo que a sustentava. Sofio nos diz, a respeito da ruptura, que se trata de uma ação que define a interpretação. Assim, provoca "uma ‘ruptura' na rede de sentidos que vigora na comunicação humana e acontece pelo desencontro de escutas, ou seja, pela escuta num campo diferente daquele proposto de início" (p. 65).

 

A interpretação psicanalítica serve-se de formas de expressão e comunicação desde sempre presentes na cultura. Na citação de Herrmann pela autora, "A ideia é que, ao organizar seus conhecimentos ou descobertas, todo homem de ciência retira-se para um outro reino do pensar, análogo a seu campo científico" (p. 23-24).  A premissa justifica que procedimentos interpretativos sejam aproximados de "procedimentos narrativos" (p. 24), que encontramos em escritos de História e de literatura de ficção.

 

Todo leitor de Freud sabe que ele sempre se inspirou na literatura e, além disso, utilizou passagens literárias para ilustrar e mesmo para precisar situações clínicas e formulações metapsicológicas. Fazendo sua leitura da leitura que Herrmann faz de relações entre literatura e psicanálise, Sofio estabelece seu ponto de partida: "não pensamos mais a literatura de ficção apenas como simulacro, ilustração, auxiliar ou outro da Psicanálise, conforme vêm articulando diversos autores" (p. 27).

 

O que ela pretende é, primeiro, seguindo Herrmann, ir além dessa maneira de pensar, que ela não descarta, mas, primeiro, escolhe o objetivo de evidenciar o "papel da literatura de ficção no engendramento das construções teórico-clínicas psicanalíticas" (p. 27). Em segundo lugar, de modo mais ousado, declara que sua proposta é "dar um passo que o autor não deu: seria possível considerar a forma literária das psicanálises, que possivelmente engendra unidade estética" (p. 27).

 

O preço da ousadia de Sofio é pesquisar o que constitui aquilo que ela pode chamar de forma literária, e ela não evita a tarefa.

 

Passeio pelo Análogo

O projeto da autora faz com que ela construa perspectivas de abordagem da interpretação psicanalítica a partir de grandes professores e autores no campo da teoria literária, como Anatol Rosenfeld, Leyla Perrone-Moisés, Antonio Candido, Davi Arrigucci, Adélia Bezerra de Meneses, Jaime Ginzburg e outros. A unidade estética que ela procura leva-a a estudos de literatura de cujos resultados o leitor também pode desfrutar.

 

Por uma espécie de desvio, que se torna então necessário, somos conduzidos por caminhos de avaliação da obra literária, de comentários a respeito de efeitos da inclusão da psicanálise na literatura, de discussão de critérios de reconhecimento estético, nos quais encontramos lições e exemplos estimulantes. Destaco este, de uma citação de Anatol Rosenfeld: "Somente a análise da sua estrutura fundamental pode determinar - sem imposição de normas - os momentos que imprimem a determinadas obras literárias o traço definitivo de obras de arte literárias" (p. 30). Sofio acompanha o pensamento deste crítico, que prossegue, anos mais tarde, com a questão do critério para incluir certas obras dentro do campo literário e optar pela exclusão de outras. Recorta esta constatação: "A dificuldade de abordar o fenômeno da ficção sem recorrer a valorizações estéticas indica que este problema e o do nível estético não mantêm relações de indiferença" (p. 31).

 

De Antonio Candido, ela ressalta uma distinção que se torna decisiva em sua abordagem da relação entre psicanálise e literatura de ficção:

 

"há no estudo da obra literária um momento analítico, se quiserem de cunho científico, que precisa deixar em suspenso problemas relativos ao autor, ao valor, à situação psíquica e social, a fim de reforçar uma concentração necessária na obra como objeto de conhecimento; e há um momento crítico, que indaga sobre a validade da obra e sua função como síntese e projeção da experiência humana" (p. 32).

 

Não é possível determo-nos aqui em todos os passos feitos pelo texto no território da crítica literária e nem expor com exatidão o que a autora dele extrai para elaborar sua perspectiva. Mas ressalto que, para ela, o momento analítico implica identificar as psicanálises por escrito no terreno da literatura, e o crítico, em tomar em consideração a "discussão singular" (p. 33) de psicanálises em seu modo de se abrirem para a experiência humana.

 

Como não é possível expor todo o estudo do qual a autora deste extrai elementos para elaborar suas perspectivas, assinalo, pelo menos, a citação de Candido que é integrada pelo uso da valorização estética:

 

"É a partir dessa perspectiva que podemos chegar à ideia de uma estética literária das psicanálises: elas partilham do literário, vinculando-se ao plano estético ou afastando-se dele" (p. 32).

 

O que se firma com clareza é a convicção de Sofio de que existe "uma forma literária das psicanálises" (p. 31) e que é possível "distingui-la das literaturas não psicanalíticas" (p. 31).

 

Notemos que não fomos apenas levados apenas a um passeio pelo Análogo, que surgiria como uma espécie de anexo embutido no livro, mera complementação. É nesse reino que, por aproximações sucessivas, Sofio vai construindo sua concepção de psicanálise como forma literária.

 

O título esclarecido

Espero que agora fique mais significativo o que está em jogo no título do livro:

 

"O neologismo literacura condensa, muito precisamente, o núcleo da discussão que empreendo. Por um lado, implica forma literária, cujo potencial é estético" (p. 49). Na sequência, temos uma menção à especificidade da forma psicanalítica:

"Por outro lado (o neologismo) implica cura, a finalidade do método da Psicanálise, identificando as psicanálises como tal. Não fosse assim - conforme é frequentemente objetado - para que seriam feitas as análises?" (p. 49).

 

É famoso, em nosso meio, o dito de Herrmann segundo o qual a cura da psicanálise é semelhante à cura do queijo. A autora não deixa de nos informar a respeito da concepção de cura presente na Teoria dos Campos: em determinada etapa do processo psicanalítico, o analisando pode se haver com seu desejo e possíveis, ao se libertar da mesmice repetitiva. Assim, "Cura implica cuidar do desejo até, digamos, ele tomar ponto, como a cura do queijo, isto é, maturar, atingindo seu potencial. Sem esse cuidado, o paciente repete, persiste no comportamento e no sintoma, não se desenvolve em sua potencialidade" (p. 71)[2].

 

Ressalto a oposição sintética presente no jogo de palavras: a medicação sara, isto é, atua sobre sintomas, e a psicanálise cura. A autora argumenta que "esse fazer (a cura) embute sua raiz no literário, pelo uso da interpretação" (p. 72).

 

Sobre as ficções freudianas
de Fabio Herrmann

Sofio aborda A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas, tarefa nada fácil, já que o autor, também impulsionado pelo seu peculiar senso de humor, escreveu uma resenha do próprio livro. Ela nos conta que se perguntou "se as ficções freudianas seriam exemplos de Literatura ou de Psicanálise" (p. 35) e reconhece serem "os referentes da Infância de Adão infindáveis" (p. 159).

 

As questões levam-na a outra extensa série de leituras, ao longo da qual traça paralelos com grandes nomes da literatura, destacando Joyce, que é trazido para suas leituras de Herrmann. Escancara as paródias de instituições psicanalíticas feitas por este e sugere a relação de suas brincadeiras e figuras de linguagem com achados de escritores que transformaram a literatura. Deixa ainda mais manifesto que a obra é permeada pelo humor do autor. Sem dúvida, desde o título do livro, topamos com a ironia da referência a uma infância do bíblico primeiro dos homens.

 

Para Sofio, Herrmann produz "uma ficção literária em psicanálise" (p. 160), e essa produção "é caracterizável como unidade estética" (p. 160). A prazerosa releitura que ela faz guia-nos em meio a jogos de palavras e sentidos. Rimos e encontrarmos solo para nossas próprias descobertas. Mas é inevitável, mesmo se o texto pode nos render o efeito colateral de nos curar em relação à falta de graça do quotidiano, perguntarmos qual a sua relação com a clínica psicanalítica, mesmo quando esta não se reduz ao consultório.

 

Há uma distinção entre Psicanálise e psicanálise - com maiúscula e minúscula, adotada pela autora, na qual a palavra com maiúscula designa uma disciplina que abrange "psicanálises por escrito" (p. 297) e este é o seu "objeto de investigação" (p. 297).

 

Sem dúvida, as histórias de Herrmann merecem ocotejamento com a grande literatura de ficção, e este ponto de vista é muito bem defendido pelas considerações tecidas por Sofio a respeito de obras autorais. Entretanto, enquanto psicanalista, ela espera que relatos de suas próprias sessões possam constituir unidades estéticas. É claro que não se refere a valor estético como uma propriedade cuja presença se possa exigir, naquilo que se escreve sobre experiências clínicas ou na redação de teorias. Unidade estética não significa obra de arte, e o que ela propõe é que consideremos a ideia de que exemplos da clínica constituem unidades estéticas, na medida em que sua escrita compreende uma forma de apresentação.

 

Talvez a proposição se torne menos polêmica se colocarmos a ênfase em ficção. Desde o título de seu livro, em que Psicanálise vem com P maiúsculo, a autora pretende estar indicando que se refere a uma disciplina que abrange "psicanálises por escrito" (p. 297) e que é este o seu "objeto de investigação" (p. 297). Trata da "questão da forma narrativa da clínica psicanalítica, colocando-a em discussão" (p. 267). Pretende, ao mesmo tempo que apresenta situações de sua clínica, chegar "em última instância, ao campo propriamente da literatura de ficção" (p. 267).

 

Em seu texto belo e esclarecedor, "Psicanálise e Literatura: Implicação Recíproca" (p. 11), que entra na composição do livro à guisa de Prefácio, João Frayse-Pereira cita Pontalis, "que concebe o processo psicanalítico como uma construção que beira a ficção literária" (p. 12). Este e vários psicanalistas, assim como filósofos, cujas "obras se relacionam à estética, à literatura e à arte" (p. 13) são mencionados. Herrmann é incluído nesta vertente, da qual se aproxima o projeto de Sofio de, ao acompanhar sua perspectiva, chegar a "uma compreensão possível da própria psicanálise como forma literária" (p. 13).   

 

O estilo de Literacura lembra-me o abrir e fechar de um leque: percursos são reunidos para formular questões - o leque fecha-se, mantendo nas dobras seu amplo conteúdo; iniciam-se respostas - o leque abre-se cada vez mais e nos seduz com o encanto da literatura. O difícil deste livro, por nos fazer mergulhar nas ficções de Fabio Herrmann, é seu efeito de contraste, quando nos vemos de volta para a ficção da psicanálise nossa de cada dia.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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