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Resumo
Resenha de David Cohen, The escape of Sigmund Freud, London, JR Books, 2009, 242 p.


Autor(es)
Sérgio Telles Telles
é psicanalista do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e escritor.



Notas

1 Concordo com o autor, pois Edward Bernays, criador da chamada “Relações Públicas”, foi um gênio da propaganda e da publicidade, atividades nas quais aplicou com grande habilidade os conhecimentos de seu tio Sigmund. Aos interessados, sugiro que vejam o excelente documentário produzido pela bbc – “The century of the self”, de Adam Curtis (2002), no qual a vida e os feitos de Bernays são abordados. O documentário pode ser encontrado no YouTube.

2 Tais informações são dadas por Michael Burlingham, filho de Bob, no já citado documentário “The century of the self”.


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 LEITURA

Freud e Sauerwald, a fuga de Viena

Freud and Sauerwald, the escape from Vienna
Sérgio Telles Telles

Atualmente, ao se falar sobre estudos biográficos de Freud se esbarra em duas evidências. Por um lado, o material pareceria esgotado, tantas e tão variadas são as biografias sobre ele já escritas. Por outro, permanece a espinhosa questão dos Arquivos Freud, que mantêm – com a alegação de confidencialidade – uma parcela razoável de dados sob a guarda da Biblioteca do Congresso norteamericano, aos quais só dará acesso em distantes datas futuras, que chegam até o ano de 2057. Esta decisão tem provocado críticas e polêmicas, como a desencadeada por Jeffrey M. Masson. Por isso mesmo, suscita curiosidade quando aparece novo material biográfico, como é o caso do livro de David Cohen, The escape of Sigmund Freud.

Ao pesquisar sobre os parentes de Freud que imigraram para a Inglaterra e se estabeleceram em Manchester, num golpe de sorte, Cohen encontrou na biblioteca daquela cidade as intocadas anotações do psicanalista norte-americano Leslie Adams que, em 1952, planejara escrever uma biografia do criador da psicanálise, projeto a que por algum motivo não deu continuidade. Além do mais, Cohen ali pôde examinar com vagar as 258 cartas de Freud para o sobrinho Sam, filho de seu irmão Emanuel.

Por essa via, Cohen encontrou pistas sobre o episódio envolvendo o oficial nazista Anton Sauerwald, que foi de importância capital para Freud escapar de Viena para Londres.

Os nazistas tomaram a Áustria em doze de março de 1938. Um mês depois, todos os negócios de propriedade de judeus passaram a ser geridos por um “komissar” indicado pelas autoridades. No caso de Freud, o oficial encarregado foi Anton Sauerwald, um químico de 35 anos, que apreendeu livros e documentos encontrados em sua casa. Entre estes papéis estavam provas das contas secretas de Freud em bancos suíços e das dívidas da editora gerida por Martin Freud, “crimes” que impediriam Freud sair da Áustria. Entretanto, Sauerwald não entregou a seus superiores tais documentos, retendo-os consigo.

O episódio – que não era de todo desconhecido, pois, apesar de ignorado por Peter Gay, foi mencionado por Max Schur – é mostrado pelo autor com mais amplitude e profundidade. Tomamos conhecimento dos equívocos de Harry Freud, o sobrinho de Sigmund responsável direto pela perseguição e prisão de Sauerwald, por pensar que ele usurpara o patrimônio familiar. A dívida não só simbólica da família Freud para com Sauerwald foi paga quando Anna testemunhou a seu favor nos tribunais do pós-guerra, o que foi decisivo para sua libertação.

Embora seja esta sua peça de resistência, o livro de Cohen traz detalhes das circunstâncias inusualmente adversas trazidas pelo nazismo, quando Freud, já atacado pelo câncer, teve de se preocupar não só com sua segurança pessoal e de sua família, como foi forçado a entabular complicadas negociações políticas na tentativa de salvaguardar a instituição psicanalítica. Acrescentando a tudo isso os transtornos decorrentes da mudança de cidade e país, é surpreendente que Freud em nenhum momento tenha interrompido suas atividades, mantendo o atendimento a seus pacientes – como a poeta Hilda Doolittle, que deixou um interessante registro de suas sessões – e a produção de textos teóricos. São desta época “Análise terminável e interminável”, “Moisés e o monoteísmo” (que – como o próprio Freud antevia – teve recepção controvertida), “Woodrow Wilson” (em coautoria com o embaixador norte-americano William Bullitt) e “Esboço de Psicanálise”.

Cohen apresenta ainda muitos dados de outras épocas da vida de Freud e de seus familiares. Mostra a luta contra a pobreza, as vergonhas (quando Freud tinha dez anos seu tio paterno, Joseph, foi preso por fazer parte de uma quadrilha que lidava com moeda falsa, atividade na qual estavam envolvidos seus meios-irmãos residentes na Inglaterra, Emanuel e Phillip; o pai de Martha também passou uma temporada na cadeia após uma falência), o suicídio de três sobrinhos e um primo.

Além da bibliografia mais conhecida, Cohen cita alguns livros pouco recorridos por não estarem traduzidos do alemão, como a correspondência entre Freud e Minna, a cunhada com quem teria tido uma intimidade suspeita aos olhos de alguns; o pequeno livro de Anna Bernays- Freud, irmã de Sigmund, que teve de esperar cinquenta anos para ser publicado; ou o depoimento de Paula Fichtl, a fiel empregada, no qual dá importantes informações sobre o cotidiano da família Freud.

Cohen acredita que não foi ainda examinada com a devida atenção a relação de Freud com seu sobrinho Edward Bernays, filho de sua irmã Anna e do irmão de Martha, Eli. Edward fez excepcional carreira nos Estados Unidos, onde foi assessor direto do Presidente Woodrow Wilson. É possível que Edward tenha tido alguma influência no interesse que este político suscitou em Freud, a ponto de motivá-lo a escrever a já mencionada psicobiografia [1].

Cohen pensa que o episódio Sauerwald foi praticamente ignorado pelos outros biógrafos por envolver assuntos tidos como constrangedores, como o manejo do dinheiro por parte de Freud, suas contas secretas em bancos suíços.

Tendo em vista o que tem sido omitido ou reprimido nas biografias anteriores, Cohen mostra uma lista do material retido pelos Arquivos Freud e estabelece algumas hipóteses sobre o que poderia justificar a manutenção do sigilo.

Na Biblioteca do Congresso há 153 caixas com documentos de Freud – correspondência com amigos, colaboradores, pacientes, familiares e anotações clínicas etc. Destas, vinte não podem ser abertas até 2020, 2050 e 2057. E oito caixas estão seladas “perpetuamente”.

Das que só poderão ser abertas entre 2050 e 2057, estão as seguintes pastas e o que Cohen supõe ser o seu conteúdo:

a A ser aberta em 2050 – a correspondência entre Freud e seu sobrinho Harry. Como nenhuma outra correspondência com sobrinhos está restrita, é possível que a restrição tenha ligação com o episódio Sauerwald;
b A ser aberta em 2050 – a correspondência com Felix e Helene Deutsch. Felix foi médico de Freud até 1926;
c A ser aberta em 2057 – papéis relacionados com os Bernays, a família de Martha, mulher de Freud;
d A ser aberta em 2057 – a correspondência com Elsa Foges, prima e confidente de “Dora”, a famosa paciente histérica de Freud; correspondência trocada com Clarence Oberndorf, um norte-americano analisado por Freud em 1923-4; correspondência com os psicanalistas Edoardo Weiss e Ernest Kris, e com Oscar Rie, pediatra dos filhos de Freud.

Todos os documentos relacionados com Minna Bernays, Anna Freud e Edith Jacobson estão destinados a serem “perpetuamente” inacessíveis.

É de se pensar como Cohen obteve tais reveladoras informações. Elas mostram que a habitual explicação de que o sigilo se deve à proteção de dados confidenciais referentes a pacientes não se sustenta, o que está retido é material ligado diretamente a pessoas da família Freud e Cohen estabelece algumas hipóteses plausíveis sobre a censura.

Anna Freud e Dorothy Burlingham mantiveram uma relação de intimidade por mais de cinquenta anos e viveram sob o mesmo teto as últimas décadas de suas vidas. Embora tal fato fosse do conhecimento de muitos, a conotação lésbica desta união foi sempre negada. Dorothy Burlingham era neta e herdeira de Charles Tiffany, o fundador da famosa joalheria. Fora para Viena em busca de tratamento para um filho que sofria de problema psicossomático. Apesar de logo ter ficado íntima de Anna, esta não hesitou em aceitar seus quatro filhos em tratamento analítico. Por sua vez, Dorothy fez análise com Theodor Reik e começou a trabalhar como analista de crianças com Anna. Nesta ocasião, morava no andar de cima do apartamento de Freud, na Berggasse 19. Quando os Freud partiram para Londres, Dorothy os acompanhou, morando novamente vizinho à casa deles. Após a morte de Sigmund , mudou-se para sua casa, ali residindo por quarenta anos, até o final de sua vida. Com Anna fundou a Hampstead Nurseries, para crianças pobres. Separada de Robert, pai de seus filhos, Dorothy dificultava seu acesso às crianças. Freud analisou Dorothy e Robert, que sofria de distúrbio bipolar e terminou por se suicidar em Londres. Embora não mencionado por Cohen, sabe-se do fracasso das análises dos filhos de Dorothy feitas por Anna, pois Bob morreu como alcoólatra crônico e Mabbie, já adulta, voltou a se analisar com Anna, apesar de estar vivendo na mesma casa com ela e a mãe, local onde veio a se suicidar [2]. Lembremos que Anna foi analisada pelo pai, sempre às dez horas da noite. Teria ela repetido com os filhos de Dorothy, especialmente a fase final da análise de Mabbie, adulta e morando na mesma casa, a experiência inusitada, para não dizer traumática, de sua própria análise com o pai?

Edith Jacobson, outra cujos documentos estão vedados para sempre, era uma rica norte- americana íntima de Anna e Dorothy, tendo com elas trabalhado nas clínicas e creches por elas criadas.

E Minna Bernays, a última a ter seus papéis “perpetuamente” censurados, era a cunhada com quem supostamente Freud estava envolvido sexualmente.

Destas informações trazidas por Cohen, chama a atenção a peculiar figura criada pelos Arquivos Freud, ao proporem o arquivamento de algo que jamais poderá ser consultado. Qual o estatuto de algo arquivado que deve permanecer “perpetuamente” inacessível? Não seria mais lógico destruir os documentos cuja consulta está proibida definitivamente? Não seria esta uma formação de compromisso claramente sintomática, que revela a ambivalência frente ao desejo de destruir o arquivo e a vontade de torná-lo público?

Tendo como corretas as informações de Cohen de que grande parte do material retido diz respeito à família Freud, poderíamos entender a imposição de sigilo em termos pessoais, como um direito à privacidade. Mas seria possível reduzir a questão a este nível? Em sendo Freud um gênio, não fica legítimo o interesse público em sua biografia? Além do mais, a questão do sigilo fica mais delicada por ser Freud o pai da psicanálise, ciência que mostra a importância da repressão e da negação no funcionamento psíquico e no desvelamento da realidade interna e externa.

É compreensível que situações como as apontadas, que mostram eventuais falhas e limitações por parte de Anna e de Sigmund, provoquem constrangimento e suscitem a preocupação de que os inimigos da psicanálise delas se utilizem para atacá-la. Mas não poderia haver uma estratégia de defesa pior do que tentar escondê-las, reforçando a negação e a idealização. Ainda mais que, no caso em pauta, o simples fato de ser necessária a imposição do sigilo sobre determinados dados poderia ser visto como uma evidência do que se pretende negar. Fossem os Freud perfeitos, nada disso seria preciso.

Sob outro ângulo, parece que um aspecto da tendência a idealizar Freud se apoia na ideia equivocada de que qualquer eventual falha confirmada na pessoa de Freud equivaleria a uma falha no corpo teórico da psicanálise.

Tomemos o suposto caso de Freud com Minna. Mesmo sabendo quão improvável ele é, encaremos o pior cenário, aquele proposto por Peter Swales: Freud tinha um caso com a cunhada, ela engravidou e foi providenciado o aborto. Tudo teria sido encoberto em nome das conveniências sociais. Por mais decepcionante que seja pensar que Freud possa ter usado da comum e ubíqua dissimulação presente nas convenções sociais, deveríamos por isso desautorizá-lo de uma vez por todas, eu ou você, hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère – como diria Baudelaire? E o mais importante – esta falha humana de Freud colocaria em risco sua extraordinária teorização sobre o inconsciente? Não me parece. A única coisa que se perderia, caso ficasse comprovada a acusação de Swales, é a idealização em torno da figura de Freud. O edifício teórico não desabaria.

Façamos o mesmo com o suposto caso Anna Freud–Dorothy Burlingham. Todo o episódio concentra uma quantidade de procedimentos inadequados, que não podem ser defendidos e só podem ser entendidos como ocorrências dos tempos heroicos, quando os limites e fronteiras na relação analista-paciente ainda estavam sendo delimitadas, sendo que neste processo foi pago um alto preço em termos de sofrimentos. Ademais, não se pode ignorar a força dos preconceitos, se ainda hoje a aceitação de uma relação lésbica está longe de ser tranquila. Mas tudo isso invalida as contribuições teóricas de Anna Freud? Tampouco me parece.

Não se pode exigir a perfeição de Freud e temos de aceitar suas insuficiências. Mas é verdade que esta aceitação não é acrítica ou incondicional. Não poderíamos aceitar uma postura antiética por parte de Freud, uma falha de caráter que o colocasse como um falsário, um impostor, um mitômano cujas descrições e descobertas não passam de requintada fraude. E é assim que muitas vezes ele é apresentado por seus inimigos, como os autores norte-americanos do chamado Freud bashing, os de “O livro negro da psicanálise” e Michel Onfray, o filósofo francês que mais recentemente o tem atacado. Este tipo de acusação não nos abala minimamente, pois todas as descobertas de Freud são reafirmadas diariamente nas análises pessoais dos próprios psicanalistas e em seu trabalho diuturno com os pacientes. Sem mencionar a vasta penetração da psicanálise nos mais variados campos da cultura, que, num rico diálogo, permanentemente confirma a veracidade das descobertas freudianas.

Muitas das acusações que são feitas a Freud por seus inimigos se baseiam em efetivos equívocos nos quais ele incorreu (por exemplo, ao dizer que “curou” o Homem dos Lobos ou outros pacientes, quando sabemos hoje que tal não se deu), que são magnificados em função da ignorância do contexto ou de franca má-fé.

O livro de Cohen, ao trazer alguns dados novos sobre a vida de Freud referentes à sua fuga de Viena tomada pelos nazistas, faz-nos pensar sobre os processos de idealização em torno de sua pessoa e, por extensão, em torno das figuras que suscitam transferências semelhantes com as quais o analista transita ao longo de sua vida institucional.

Costumamos desancar Jones pelo aspecto hagiográfico de sua biografia de Freud, esquecendo que em tudo ele teve plena anuência do biografado. Desde Jones até Cohen, um longo caminho foi trilhado. É bom que seja assim e que constatemos que não por isso os fundamentos da psicanálise foram abalados.

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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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