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Resumo
Este artigo acompanha a forma pela qual Jean Laplanche retrabalha o conceito de gênero no marco de sua teoria da sedução generalizada. O autor, ao articular o conceito de gênero e o de mensagem reintroduz o inconsciente do adulto na dinâmica da atribuição de gênero, demonstrando que não se trata só de uma determinação social, pois esta é infiltrada pela sexualidade do adulto que faz a atribuição. Este texto procura mostrar como Laplanche trabalha na fronteira com outras disciplinas e na inclusão de novos conceitos na psicanálise, preservando os fundamentos psicanalíticos ao mesmo tempo que questiona alguns postulados, ou seja, ampliando o campo da teoria psicanalítica sem perder o essencial.


Palavras-chave
gênero; sedução; enigma; fundamentos; inconsciente.


Autor(es)
Silvia Leonor Alonso
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise e professora do Curso de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, onde coordena o grupo de trabalho e pesquisa “O feminino e o imaginário cultural contemporâneo”.


Notas

[i]    {O CONCEITO DE GÊNERO} Essas informações estão incluídas no texto que escrevi a pedido do Boletim Eletrônico e publicado no número 21, de junho de 2012, em homenagem à morte de Jean Laplanche. Nele constam também outros dados sobre sua vida e obra.

[ii]   Disponível na versão virtual da Revista ALTER, n. 2, e recentemente incluída no livro Sexual: a sexualidade ampliada no sentido freudiano, de J. Laplanche.

[iii]  J. Laplanche, Sexual: a sexualidade ampliada no sentido freudiano 2000-2008, p. 162.

[iv]  C. Dejours, "Por una teoría psicoanalítica de la diferencia de sexos. Introducción al artículo de Jean Laplanche". Tradução livre.

[v]   J. Laplanche, Novos fundamentos para a psicanálise, p. 9.

[vi]  J. Laplanche, Sexual: a sexualidade ampliada...

[vii]  J. Laplanche, Sexual: a sexualidade ampliada..., p. 156.

[viii] J. Laplanche, op. cit., p. 157.

[ix]  J. Laplanche, op. cit., p. 157.

[x]   J. Laplanche, op. cit., p. 158.

[xi]  Stoller retoma os estudos do sexólogo John Money, a partir

[xii]  J. Laplanche, Problemáticas II: castração - simbolizações, p. 26.

[xiii] J. Laplanche, Sexual: a sexualidade ampliada..., p. 155.

[xiv] J. Laplanche, Novos fundamentos para a psicanálise.

[xv]  J. Laplanche, op. cit., p. 111.

[xvi] J. Laplanche, op. cit., p. 109.

[xvii]       S. Freud (1950), "Fragmentos de la correspondencia com Fliess".

[xviii]      S. Freud (1917), El tabú de la virginidad, Obras Completas, v. 11.

[xix] S. Freud (1910), Un recuerdo infantil de Leonardo da Vinci, Obras Completas, v. 11.

[xx]  J. Laplanche, Novos fundamentos...

[xxi] J. Laplanche, Entre seducción e inspiración: el hombre.

[xxii]       J. Laplanche, Novos fundamentos...

[xxiii]S. L. Alonso, O enigma: reduto da sedução originária. Resenha de Jean Laplanche, Novos fundamentos para a Psicanálise.

[xxiv]      J. Laplanche, Novos fundamentos..., p. 134.

[xxv]       J. Laplanche, Entre seducción e inspiración...

[xxvi]      J. Laplanche, op. cit.

[xxvii]     J. Laplanche, Sexual, a sexualidade ampliada...

[xxviii]     C. Dejours, Por una teoría psicoanalítica de la diferencia de sexos. Introducción al artículo de Jean Laplanche.

[xxix]      J. Laplanche, Sexual, a sexualidade ampliada..., p. 163.

[xxx]       J. Laplanche, op. cit., p. 166-7.

[xxxi]      J. Laplanche, op. cit.

[xxxii]     J. Laplanche, Entre seducción y inspiración.

[xxxiii]     J. Laplanche, Castração - Simbolizações.

[xxxiv]     J. Laplanche, Sexual, a sexualidade ampliada ...

[xxxv]     J. Laplanche, Castração - Simbolizações.

[xxxvi]     J. Laplanche, Entre seducción e inspiración..., p. 206.

[xxxvii]    J. Laplanche, op. cit., p. 221-2.

[xxxviii]   J. Laplanche, Sexual: a sexualidade ampliada... p. 172.

[xxxix]     J. Laplanche, op. cit., p. 155.



Referências bibliográficas

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Stoller R. (1968). Sex and Gender. Nova York: Jason Aronson. 





Abstract
This article follows the way Jean Laplanche reworks the concept of gender in the mark of his theory of generalized seduction. The author links the concepts of gender and message reintroducting the adult unconscious in the gender attribution dynamics, showing that it is not only about social determination, because this one is infiltered by the adult sexuality – who makes the attribution. This text looks for showing how Laplanche works on the border of other knowlodges and includes new concepts in psychoanalysis, preserving the psychoanalytical foundations at the same time questioning some postulates, in other words, increasing the field of psychoanalytical theory without losing the essential.


Keywords
gender; seduction; enigma; foundings; unconscious.

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 TEXTO

O conceito de gênero retrabalhado no marco da teoria da sedução generalizada

The concept of gender revisited in the framework of theory of generalized seduction
Silvia Leonor Alonso

A proposta da Revista Percurso de realizar um número temático sobre o pensamento de Jean Laplanche ganha sentido para mim, seja pensando em relação ao autor, quanto em relação ao nosso Departamento de Psicanálise. O autor, um dos mais importantes analistas pós-freudianos, sustentou durante sua vida (1924-2012) posições em relação à formação, à análise dos analistas e às instituições, que, somadas à sua extensa produção teórico-metapsicológica, o fizeram ocupar um lugar de enorme influência para analistas do mundo todo. Sua proposta de fazer trabalhar a psicanálise, de voltar a Freud para levar seu pensamento adiante a partir dos seus elementos mais avançados, guiaram o intenso trabalho que Laplanche realizou sobre a obra de Freud, não a partir de uma exterioridade e sim permitindo um trabalho de parto, na analogia criada por ele próprio. Fazer trabalhar Freud para Laplanche significa empurrar suas contradições para que deem à luz; herança rica de seu trabalho, mas também consigna adotada por muitos analistas para manter vivo - e ao mesmo tempo em movimento - os fundamentos freudianos.

Sua obra tem entre seus méritos o de tirar do esquecimento ou da banalização muitos dos conceitos freudianos e aproveitá-los em sua riqueza, esclarecendo mal-entendidos, acompanhando suas construções, mostrando como as ideias avançam e por vezes retrocedem, como algumas ideias aparecem e depois se perdem, enfim, oferecendo-nos um método de trabalho de imenso valor.

Muitos de nós, na década de 1970, no caminho marcado pela consigna de retorno a Freud tivemos como bússola de leitura os textos de Laplanche, desde o Vocabulário de Psicanálise, publicado em 1967 e traduzido para mais de vinte línguas, produto do intenso trabalho de pesquisa sobre os conceitos freudianos no qual se debruçou junto com Jean-Bertrand Pontalis a partir de 1960. Além do Vocabulário, fomos guiados também por Vida e morte em psicanálise, A sexualidade, os seminários ministrados desde 1962 na Escola Normal e desde 1969 na Sorbonne (Universidade Paris VII), que foram reunidos mais tarde na publicação das Problemáticas, bem como outros trabalhos que se seguiram. Para muitos de nós, tanto de sua obra quanto de suas posições no campo psicanalítico ficaram marcas significativas.

Não foi por acaso que, das três vezes que Laplanche veio à América Latina, uma delas foi através do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Em 1990, Laplanche participou na Argentina da Jornada El inconsciente y la clínica psicoanalítica: trabajar sus fundamentos; em 1993, no evento Jean Laplanche em São Paulo, organizado justamente pelo nosso Departamento; e em agosto de 1998 retornou ao Brasil para participar do lV Colóquio Internacional Jean Laplanche em Gramado: O recalcamento como condição da indicação e da condução da cura[i]. Sua atuação em São Paulo deixou marcas importantes no trabalho de transmissão do Curso de Psicanálise.

Escolhi centrar este artigo no acompanhamento da forma pela qual Laplanche trabalha o conceito de gênero e como se dá sua inclusão no marco de sua proposta teórica da teoria da sedução generalizada. Esse caminho pode nos oferecer uma boa possibilidade de visualização do trabalho metodológico do autor e seu cuidado com os fundamentos da psicanálise.

 

Introduzir o conceito de gênero

Em 2003, foi publicado o artigo "O gênero, o sexo e o Sexual"[ii]. Laplanche o apresenta como sendo uma síntese de seu seminário de ensino e pesquisa na Associação Psicanalítica da França sobre a questão da "identidade sexual", como denominada na psicanálise. Laplanche se pergunta sobre a tendência atual em se falar de "identidade de gênero", levantando uma primeira questão: essa mudança de nomeação é positiva ou está a serviço do recalque do pensamento? Dessa maneira, o autor alerta sobre o perigo que representaria pensar em gênero sem sexualidade, o que anularia a descoberta freudiana fundamental.

Sabemos que o conceito de gênero, muito presente nas reflexões contemporâneas e introduzido no campo da psicanálise por Robert Stoller em 1968, vem levantando muitas reflexões entre os psicanalistas. Visto por muitos de nós como um conceito muito importante na ampliação do pensamento e enriquecedor no entendimento da construção da subjetividade, o conceito de gênero tem também gerado perguntas sobre como pensar seu entrecruzamento com conceitos fundamentais da psicanálise, ou seja, como trabalhar na direção de ampliar o campo conceitual psicanalítico preservando aquilo que ela tem de fundamental, não usando a inclusão de novos conceitos para descartá-la ou encobri-la naquilo que lhe é peculiar. Caminhando nessa direção, Laplanche se preocupa em não entrar simplesmente na tendência da moda e se pergunta a serviço do que se fazem certas mudanças de nomeação e quais podem ser suas consequências, alertando para que a mudança de nomeação não acabe sendo um deslocamento do Sexual - descoberta freudiana fundamental, na visão do autor - para o sexuado. Mais à frente no texto Laplanche vai se perguntar: "introduzir o gênero em psicanálise seria estabelecer um pacto com aqueles que querem arrefecer a descoberta freudiana? Ou seria, paradoxalmente, um meio de reafirmar, ao contrário, o inimigo íntimo do gênero, o Sexual?"[iii]. Será a Freud que Laplanche irá apelar frente à interrogação de por que introduzir o gênero, afirmando que o gênero estava presente em Freud ainda que nas entrelinhas, não nomeado, o que se explica pelo fato de a língua alemã não permitir o termo. Teríamos que acrescentar que os estudos de gênero surgiram mais tardiamente.

Ou seja, o autor está preocupado em pensar de que forma se introduz o conceito de gênero para que venha ampliar a psicanálise preservando seus fundamentos e não para descartá-la ou deixar de lado o seu eixo fundamental: o da sexualidade. Como afirma Christophe Dejours, na introdução feita por ele à publicação do texto de Laplanche:

 

[...] se esse risco pode ser descartado é porque Laplanche aborda o gênero de uma forma extremamente original: sem perder de vista sua especificidade sociológica, trata o conceito de gênero a partir da criança e não da sociedade. [...] O gênero segue sendo uma categoria social, mas sua integração na teoria sexual passa por uma análise da forma em que essa categoria é recebida e metabolizada pela criança [...] trabalho psíquico específico e ativo que a criança põe em marcha em resposta a uma mensagem ou uma série de mensagens [...] trabalho psíquico que, procedente da categoria da tradução, nos distancia da noção de interiorização, tão apreciada pelos sociólogos[iv].

 

Que essas questões sejam colocadas por Laplanche desde o início diz muito do que sempre foi a postura do autor em relação aos conceitos e de sua perspectiva de como a psicanálise se amplia ou faz crescer suas fronteiras na conversa com os domínios científicos vizinhos. Na introdução do seu texto "Novos fundamentos para a psicanálise", Laplanche afirma que "problematizar" é partir do aparentemente lógico e colocá-lo em questão, sendo que a partir dessas problematizações se alcançam "novos ordenamentos, novos conceitos ou um novo ordenamento dos conceitos"[v]. Nesse mesmo texto, Laplanche propõe quatro domínios científicos vizinhos com os quais a psicanálise dialoga: o biológico, o filogenético, o mecanicismo e o linguístico, e nesse diálogo de fronteiras ele insere a relação sexo-gênero. Em 2003, Laplanche reafirma sua posição sobre a importância dessa conversa e defende: é para incluir sim o conceito de gênero na psicanálise, porém com duas condições: recuperando a sexualidade e problematizando o conceito[vi].

Sua preocupação com a atualização permanente dos fundamentos da psicanálise coloca em foco a sexualidade, já que para Laplanche a psicanálise é principalmente "uma teoria da sexualidade", ela é um dos seus fundamentos e só pode sê-lo porque é fundamental no ser humano. Não foram poucas as vezes ao longo de sua obra em que Laplanche se contrapôs a desenvolvimentos de autores que poderiam tentar esvaziar o pensamento psicanalítico desse fundamento. Voltando ao texto "O gênero, o sexo, o Sexual", Laplanche esclarece de que sexualidade está falando, separando o Sexual do sexuado. Enquanto o sexuado implica a diferença dos sexos, o Sexual é uma sexualidade não procriadora ou mesmo não sexuada; é essencialmente o sexual perverso infantil"[vii]. Esta sexualidade é infantil, "autoerótica, regida pela fantasia, regida pelo inconsciente"[viii]. Anterior à diferença dos sexos, ela é "oral, anal, paragenital"[ix], que busca a tensão como caminho do prazer, enquanto o sexuado busca a descarga. A principal diferença entre os registros é que o Sexual é o proibido, aquilo que o adulto condena, portanto "o Sexual é o recalcado, ele é recalcado por ser Sexual"[x].

 

Relação sexo-gênero

O que para Laplanche interessa é fundamentalmente pensar a relação existente entre gênero e sexo. Referindo-se à forma em que alguns autores pensaram essa dupla, Laplanche vai introduzir algumas críticas a eles. Stoller[xi] e muitos autores que o seguiram, por exemplo, teriam retomado a oposição biológico (inato) e psicossocial (adquirido), esquecendo-se de que o biológico pode ter expressão psíquica e que o psíquico tem contrapartida neurofisiológica. Nessa compreensão seria mantida, portanto, um binarismo no qual o sexo é entendido como biológico e o gênero como sociocultural, binarismo ao qual Lapanche tenta se opor na sua formulação sobre a relação entre os dois termos. A crítica central feita pelo autor está no fato de o sexo ser entendido como biológico e o gênero como psicossocial, o que implica uma volta ao reducionismo e um retorno à oposição biologia-sociologia. Laplanche distingue sexo e gênero, dizendo que é insustentável colocar de um lado a anatomia e de outro a psicologia. Em 1973-74 o sexo já é definido nas Problemáticas II como "o conjunto de determinações físicas ou psíquicas, comportamentos, fantasias, [...] diretamente ligados à função e ao prazer sexuais" enquanto gênero é entendido como "o conjunto de determinações físicas ou psíquicas, comportamentos, fantasias, etc. ligados à distinção masculino-feminino"[xii]. Já em 2003, ao retomar o tema, Laplanche procura entender a relação sexo-gênero na sua complexidade, construindo uma tríade: gênero/sexo/Sexual, e pensando mais especificamente a gênese infantil nesta tríade.

 

Retomando as definições de Laplanche:

O gênero é plural. É geralmente duplo, com o masculino-feminino, mas não o é por natureza. É muitas vezes plural como na história das línguas e na evolução social.

O sexo é dual. Ele o é pela reprodução sexuada e também por sua simbolização humana, que fixa e engessa a dualidade em presença/ausência, fálico/castrado.

O Sexual é múltiplo e polimorfo. Descoberta fundamental de Freud, ele fundamenta-se no recalque, no inconsciente, na fantasia. É o objeto da psicanálise.

Proposição: o Sexual é o resíduo inconsciente do recalque simbolização do gênero pelo sexo[xiii].

 

Teoria da sedução generalizada

Para entendermos essas proposições, é necessário nos remetermos à teoria da sedução generalizada, concebida pelo autor. Teoria pela qual Laplanche tenta dar conta do que está presente nas origens do ser humano, aquilo que seria da ordem do originário - não concebido como um tempo mítico nem como uma categoria filosófica abstrata e sim concretamente como o real humano. Situação originária, situação antropológica fundamental, da qual participam a criança e o adulto[xiv]. Nessa situação originária, a assimetria é estruturante e está dada por uma diferença fundamental: o adulto tem um inconsciente sexual e a criança, não. Para caracterizar melhor essa situação inicial, o autor se refere a uma criança em estado de desajuda, ou seja, incapaz de ter uma resposta própria para as necessidades, frente a uma excessiva excitação interior e com uma imensa realidade perceptiva. Do ponto de vista do adulto, Laplanche refere-se a um duplo registro: por um lado há uma relação aberta, interativa, e por outro uma dimensão desigual, já que está implicada a sexualidade. Ou seja, "há um sedutor e um seduzido, um desviador e um desviado"[xv]. Essa situação originária está além das contingências, ela é da índole do universal.

 

Afirma Laplanche:

[...] o originário é uma criança cujos comportamentos, existentes mas imperfeitos, débeis, estão preparados para deixar-se desviar e um adulto desviante, que se desvia relativamente a toda norma quanto à sexualidade [...] e direi mesmo desviante relativamente a si próprio, na sua própria clivagem[xvi].

 

Duas características centrais definem essa situação originária: a passividade da criança e a assimetria dos lugares.

Laplanche constrói a teoria da sedução generalizada apoiado nas duas teorias da sedução freudiana, mas entende que consegue dar um passo à frente. Reconhece que os três parâmetros fundamentais da teoria da sedução por ele concebida: temporalidade a posteriori, tópica do sujeito e funcionamento tradutivo já estão presentes na teoria da sedução restrita concebida por Freud antes de 1897; no entanto, Laplanche dirá que essas referências não se sustentam ao longo de toda a obra freudiana. Assim, analisa o autor: o conceito de posterioridade, que tem durante muito tempo um lugar central na teoria freudiana, irá se esvair no momento em que Freud tem que responder ao pensamento de Jung, para o qual o passado se constrói a partir do presente. Freud não quer responder a partir do caráter meramente imaginário da primeira cena (na sua teoria dos dois tempos) e acaba postulando a existência de uma realidade anterior filogenética, fazendo referência aos fantasmas originários que teriam sido realmente vividos na filogênese. Em relação à segunda referência, a tópica psíquica, no entender do autor o estranho-interno vai sendo ocupado na obra freudiana pela fantasia e, para que tudo não se dissolva numa névoa imaginária, introduz a realidade da pulsão e seu apoio biológico. Já com relação à terceira referência, o modelo verbal-tradutivo presente na primeira teoria freudiana e trabalhado na Carta 52[xvii], ele vai desaparecendo ao longo do pensamento freudiano.

Na segunda teoria freudiana da sedução, da sedução precoce, na qual o pai sedutor é substituído pela mãe que seduz, introduzindo excitação nos próprios cuidados com o bebê, na satisfação de suas necessidades, Laplanche reconhece que Freud ultrapassa nessa formulação o reducionismo das cenas e da psicopatologia para aproximar-se do universal. Sai do anedótico (os fatos dos adultos perversos que seduzem a criança) para aproximar-se do essencial, avançando no solo da realidade efetiva, já que a mãe não pode senão despertar sensações de prazer. Se por um lado esta segunda teoria ganha em universalidade, ela perde em temporalidade, pois nela se afunilam as cenas a um momento primeiro e fundamental. Além disso, Laplanche entende que ela não incorpora o inconsciente do adulto apesar de reconhecer que em outros textos, fora da formulação dessa teoria como em "O tabu da virgindade"[xviii] e "Uma lembrança infantil do Leonardo"[xix], o inconsciente do outro e seus efeitos está incluído[xx].

Dessa maneira, na tentativa de preservar a universalidade e a temporalidade a posteriori, mas ao mesmo tempo de incluir o inconsciente do adulto, Laplanche formula a teoria da sedução generalizada. Nela, são pontos centrais o primado do Outro e a simultaneidade assimétrica adulto-criança.

Em seu texto "Seducción persecución revelación"[xxi], Laplanche deixa claro que quando se refere à sedução está se referindo a uma ordem de realidade e não ao fantasma de sedução. Caso se tratasse do fantasma de sedução, não teria por que dar-lhe um lugar de preferência em relação aos outros roteiros originários: a cena originária, castração, retorno ao ventre materno e a sedução. A sedução da qual o autor está falando seria um terceiro domínio da realidade que se coloca entre a realidade material, gestos sexuais verificáveis e a realidade psicológica: formas de apreender a sedução. Esse terceiro domínio da realidade é a realidade da linguagem, e o que caracteriza o lado do adulto nessa situação é o de enviar mensagens linguísticas, pré-linguísticas e paralinguísticas que interrogam a criança e para as quais a criança irá procurar respostas, sentidos; esses significantes, impregnados de significações sexuais inconscientes, serão por ele nomeados de significantes enigmáticos[xxii]. Trata-se portanto de mensagens conscientes e pré-conscientes, mas atravessadas pelo inconsciente do adulto que as envia; o inconsciente do adulto faz ruído nas mensagens, tornando-as opacas para quem as recebe, assim como para quem as enuncia - já que nelas tramita o fantasma sexual do adulto.

Na concepção do autor, no processo da criança para habitar a linguagem que a preexiste há algo de traumatizante, o enigmático[xxiii]. A linguagem leva em si um sentido que o próprio adulto desconhece, o inconsciente parental que a atravessa, ainda quando ele próprio o ignore. Esse enigma se impõe à criança. Laplanche segue o pensamento de Freud na construção da primeira teoria da angústia, na qual para Freud a criança, diante da excitação sexual que surge perante a visão do coito dos pais, vive uma "inquietante estranheza", e como não tem nenhuma compreensão possível sobre o percebido, isso se transforma em angústia. Na sedução originária, o enigmático não permite compreensão nenhuma, algo fica em "estado selvagem"; perante os grandes enigmas como o coito dos pais, o nascimento do irmão ou a diferença entre os sexos se desencadeia uma atividade teorizante da criança que produz teorias sexuais infantis. "O enigma, aquele cuja origem é inconsciente, é a sedução por si mesma"[xxiv]. A sedução produz um difícil trabalho de simbolização, que põe em jogo a reelaboração tradutiva. Essa tradução será sempre parcial, deixando um resto que não será traduzido, mas deformado, que dará lugar à fantasia inconsciente[xxv]. As mensagens ficam num primeiro tempo implantadas no corpo da criança[xxvi] sem que o eu se aproprie delas, e num segundo momento através do trabalho de tradução se instaura o recalque, e o resto não traduzido forma o inconsciente.

 

Reincluindo o inconsciente
no conceito de gênero

Será justamente a partir desse modelo tradutivo do inconsciente que Laplanche irá reformular o conceito de gênero, tendo nessa reformulação algumas consignas: não deixar de fora a sexualidade, incluir o inconsciente, não esquecer a temporalidade do a posteriori, e não voltar às divisões corpo-mente, biologia-sociologia[xxvii].

Ligando o conceito de gênero com o de mensagem, Laplanche postula que, das mensagens que os pais transmitem para as crianças, muitas são veiculadas pelos cuidados corporais, seguindo o código do apego, e a partir delas pode-se compreender o surgimento da pulsão. No entanto, o autor afirma que a comunicação não circula só pela linguagem do corpo mas também pelo código ou a língua social: são as mensagens do socius, dentre as quais se destacam as de designação de gênero. Perante elas, a criança também terá que exercer a função tradutiva, já que chegam da mesma forma carregando o enigma, aquilo recalcado do adulto que as enuncia.

A afirmação de Dejours é esclarecedora a esse respeito:

[...] quando os adultos atribuem um gênero a uma criança, eles mesmos não sabem exatamente o que entendem por macho ou fêmea, masculino ou feminino, homem ou mulher. É fácil significar a uma criança que ele é um homem. Mas, o que quer dizer ser um homem para o adulto que pronuncia esta assignação? Quando um adulto diz a seu filho que ele é um menino, diz a ele ao mesmo tempo tudo aquilo que pensa dos meninos e das meninas, mas também todas as dúvidas que tem sobre o que esconde exatamente a noção de sexo e de gênero. Seguramente podemos afirmar que, por meio desta assignação de gênero, o adulto, sabendo-o ou não, confronta a criança com tudo o que pode haver de ambíguo na diferença anatômica dos sexos e no sexual, e isso por causa de suas próprias ambivalências, incertezas e conflitos internos[xxviii].

 

Vemos então que Laplanche reinclui no conceito de gênero o inconsciente mas também o conflito, se opondo à concepção de Stoller do gênero como uma marca aconflitiva e às concepções que colocam um sexo já existente que seria traduzido, simbolizado pelo gênero. Em suma, se opõe à ideia de "sexo antes do gênero, natureza antes de cultura"[xxix].

Voltando então à relação sexo-gênero, Laplanche propõe que o gênero precede o sexo e é simbolizado por ele, ou seja, o gênero estaria em primeiro lugar, se opondo assim ao primado da base sexuada que postula primeiro sexo, depois gênero. Para o autor, o central é a designação, coincidindo nisso com Stoller mas diferenciando-se dele na medida em que não pensa que a designação se trata do nome e sim de "um conjunto complexo de atos que se prolongam na linguagem e nos comportamentos significativos do entorno. Poder-se-ia falar de uma designação contínua ou de uma verdadeira prescrição [...] até mesmo do bombardeio de mensagens"[xxx]. Aqui se abre a possibilidade de pensar o gênero no plural e conflitivo.

Frequentemente se diz que o gênero é social; para Laplanche quem designa é o círculo restrito do socius - através de agentes próximos como pais, mães, professores, médicos - e não a sociedade como um todo. Se o gênero é construído socialmente, há de se acrescentar que o sexual se infiltra através das mensagens; esse socius da história singular é quem realiza a identificação primitiva, num movimento em que o bebê não se identifica mas é identificado pelo outro que o designa[xxxi].

O plano da cultura entra na construção do gênero oferecendo códigos de tradução que permitirão à criança traduzir as mensagens enigmáticas. Entre os códigos de tradução, Laplanche irá incluir os roteiros mito-simbólicos que servem para ligar e ao mesmo tempo recalcar o sexual. Para o autor, o capital mito-simbólico tem um lugar importante, ainda que ele próprio advirta sobre a cegueira que pode nos envolver se não nos interrogarmos sobre quais são as formações que, no ocidente dos dias atuais, exercem a função mito-simbólica. Cegueira à qual, segundo o autor, a psicanálise nos teria condenado ao tentar impor como único mito contemporâneo versões nascidas da concepção falocêntrica freudiana e lacaniana[xxxii].

O gênero é organizado, simbolizado pelo sexo. Para Laplanche, o código de tradução deve ser buscado do lado do sexo, mas o autor esclarece que o sexo anatômico não deve ser confundido com a biologia. A anatomia a partir da qual se traduz o gênero é perceptiva e ilusória, não podemos atribuir um imediatismo natural à percepção. Esta sempre acontece, na realidade, no seio de uma rede fantasística e de uma certa simbolização. Laplanche dirá também que a percepção da diferença entre os sexos é contingente: foi, por exemplo, pela condição bípede adquirida em algum momento histórico da humanidade que se introduziu a invisibilidade dos órgãos sexuais femininos, ou seja, a percepção de um só órgão genital. Dessa maneira, a diferença perceptível não é a diferença fisiológica, mas a primeira foi erigida na nossa civilização no lugar de significante maior.

A anatomia perceptível, por sua vez, funciona como esqueleto de um código que é o da lógica fálica. Segundo o entendimento de Laplanche, a criança tem acesso à diferença dos gêneros desde muito cedo, distinguindo os homens das mulheres, mas essa diferenciação não é feita pelas diferenças dos genitais e sim pela oposição de comportamentos, funções, gestos e lugares sociais. É somente no interior do Complexo de Castração que a diferença de gêneros passa a ser diferença de sexos, e isso acontece sob o império da lógica fálica como código de tradução.

Na lógica fálica, passa-se da diversidade (verschiedenheit) à diferença (unterschied), sendo esta da ordem da dualidade e polaridade. Na fase fálica, da diversidade dos atributos se passa à diferença dos sexos com base em dois atributos: fálico e castrado. Mais do que isso, a diferença é marcada pela presença de um atributo: fálico / não fálico. O mundo da criança na fase fálica está marcado por uma polaridade ou contradição absoluta, se atribui uma insígnia a um sujeito e o outro fica no lugar do negativo; há um sexo marcado e outro não. A fantasia infantil tem um valor estruturante para a criança, e o seu desejo se fixa naquilo que seria o significante do sexo, o falo, que passa a ter um valor simbólico[xxxiii].

Laplanche levanta algumas interrogações: quanto dessa lógica sobra no masculino-feminino? Quanto dela se mantém ao longo da vida? Estamos acostumados a pensar a sexualidade em uma lógica binária masculino-feminino, mas não necessariamente teria que ser assim, colocando-se uma nova interrogação: "a universalidade do Complexo de Castração na sua oposição lógica fálico-castrado é incontornável? [...] não existem modelos de simbolização mais flexíveis, mais múltiplos, mais ambivalentes?"[xxxiv] No livro "Castração - Simbolizações", Laplanche estabelece uma oposição entre o simbólico pensado como mito único e as simbolizações plurais[xxxv]. Essa temática é retomada em 1997, no trabalho sobre os mitos, em que o autor irá afirmar:

 

Apesar da irresistível conquista do mundo pelo binarismo, é bom lembrar que este auge é contingente se comparado a tantas civilizações nas quais os mitos fundadores não são binários e sim plurais, aceitando a ambivalência no lugar de apostar tudo na diferença[xxxvi].

 

E,

Enquanto Freud, e Lacan depois dele, erigem o complexo de castração em um Universal da psicanálise - talvez mais universal ainda que o Édipo - o trabalho dos etnólogos não cessou de mostrar que os mitos e rituais de corte, de cerceamento ou de circuncisão possuem um significado muito menos unívoco que essa lógica fálico-binária na qual a versão moderna quis se acantonar, seja psicanalítica ou pós-psicanalítica. Com Roheim, Bettelheim, e também com Groddeck, o que se perfila é a via de simbolizações menos fixas, eventualmente ambivalentes e até contraditórias[xxxvii].

Para Laplanche, o que a lógica do terceiro excluído e sua premência na civilização ocidental, que vem junto com o reinado do Complexo de castração, querem recalcar é o Sexual. "[...] recalcá-lo quer dizer precisamente criá-lo recalcando-o"[xxxviii]. As mensagens de gênero são plurais e serão traduzidas em termos do sexo binário. Essa tradução produz o recalcamento da pluralidade e da diversidade de gênero, e o resto da tradução constitui o Sexual; ou seja, a multiplicidade de gênero que chega pelo socius restrito, carregando seus conflitos e ambivalências, é recalcada pela lógica fálica e o império de sua binariedade. Na proposição de Laplanche: "o Sexual é o resíduo inconsciente do recalque-simbolização do gênero pelo sexo"[xxxix].

Acompanhamos aqui a forma na qual Laplanche retrabalha o conceito de gênero, cuidando para manter os fundamentos da psicanálise mas ao mesmo tempo apontando os lugares em que algo da teoria precisa ser questionado, deixando assim abertos caminhos do pensamento.

Entendo ser muito importante a inclusão do inconsciente no trabalho do conceito de gênero, o que permite retrabalhar o inconsciente parental, o conflito e a história individual. Mas penso também que é necessário tomar cuidado para não esvaziar o conceito de gênero daquilo que lhe é fundamental: o seu marco político, social e cultural e de suas transformações ao longo do tempo. Os estudos de gênero permitiram fazer um questionamento das teorias essencialistas sobre os sexos e a naturalização dos corpos, mostrando que as concepções do masculino e do feminino mudam com os tempos e as culturas, bem como recuperam a importância que os discursos instituídos - religiosos, médicos, científicos e jurídicos - têm na construção das significações de gênero. Ao pensar as diferenças na perspectiva de um longo processo histórico, esses estudos permitiram constatar que as diferenças foram construídas numa lógica que inclui hierarquias e desigualdades, permitindo assim pensar as relações de sexo, identidade e poder. Ou seja, como a sociedade no seu sentido amplo se inclui na produção das subjetividades.

J. Laplanche alerta para a necessária distinção das teorias sexuais infantis das teorias adultas e das próprias teorias psicanalíticas. É importante cuidar para não converter as teorias sexuais infantis - que são datadas, têm um lugar no desenvolvimento libidinal e uma função elaborativa na vida psíquica da criança -, não sejam estendidas à vida toda como se fossem essências, ou não se convertam em teorias psicanalíticas universalizáveis. Também é fundamental pensar como os pressupostos de uma determinada época entraram na construção das teorias psicanalíticas, ficando nelas como pontos cegos necessários de serem trabalhados; vale cuidar para que as teorias psicanalíticas estejam sempre abertas para serem repensadas e para distinguir o que do momento histórico de sua produção está inserido nelas. Finalmente é importante pensar o lugar das teorias-fantasias adultas, quanto delas entram como códigos de tradução na formação das teorias infantis, ocupando um lugar na constituição do recalque, e quanto permitem ressignificar as marcas inconscientes num processo permanente de transformação. 


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