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Resumo
Este artigo propõe uma discussão da chamada tópica da clivagem proposta por Dejours e, em seguida, incorporada por Laplanche em seu modelo teórico. Ele busca explicitar como essa noção é concebida por esses dois autores dentro da especificidade de suas reflexões, ressaltando os pontos de convergência e de divergência, para se apontar também a necessidade da incorporação da discussão do papel do Superego e do ideal do Ego no processo de constituição dessa tópica e de sua manutenção, dado a relação destes com o recalque.


Palavras-chave
Tópica da clivagem; recalcamento; Superego; Ideal do Ego; teoria da sedução generalizada.


Autor(es)
Luiz Carlos Tarelho
é psicanalista e doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade Paris VII.


Notas
[i] {A TÓPICA DA CLIVAGEM} C. Dejours, Le corps, d'abord.

[ii] J. Laplanche, "Três acepções da palavra ‘inconsciente' no âmbito da teoria da sedução generalizada", in: Sexual: a sexualidade ampliada no sentido freudiano.

[iii] C. Dejours, op. cit., p. 84-5.

[iv] C. Dejours, op. cit., p. 86.

[v] C. Dejours, op. cit., p. 15-21.

[vi] Explicitando essa derivação através da metáfora do moi

[vii] "Christophe Dejours propõe o termo de ‘inconsciente amencial' que me é difícil aceitar, pois supõe que o recal

[viii] J. Laplanche, op. cit., p. 196-201.

[ix] C. Dejours, op. cit., p. 16.

[x] Como diz Laplanche: "...tendo a considerar a clivagem do eu como uma ‘realidade' que resulta da instalação do recalque. O recalque cria a parte A do esquema e, por isso mesmo, cria a clivagem entre dois setores que se ignoram, A e B" (trad. pessoal, destaques do autor), Psychiatrie française, XXXVII, Paris, 3-2006, p. 43.

[xi] Impossível trilhar esse caminho sem mencionar o trabalho pioneiro de Marta Rezende Cardoso exposto em seu livro intitulado Superego.

[xii] S. Freud, "El yo y el ello", p. 49.

[xiii] J. Laplanche," O gênero, o sexo e o Sexual", in A sexualidade ampliada no sentido freudiano, op. cit., p. 167. Vale lembrar que algo bastante parecido já havia sido apontado por Paulo de Carvalho Ribeiro (2000) no resgate que fez, no seu trabalho sobre as identificações, da noção de imprinting proposta por Stoller.

[xiv] Laplanche, op. cit., p. 173.

[xv] J. Laplanche, "Três acepções...", in A sexualidade..., p. 197.

[xvi] M. Gerez-Ambertín, As vozes do supereu.

[xvii] Conforme trecho já citado a respeito das primeiras identificações, onde ele sublinha o quanto a força do supereu para a realização dessa tarefa é emprestada do adulto, em especial do pai, e que esse empréstimo é pago com um preço bem alto, revelado pelo grau de sua rigidez e implacabilidade. S. Freud, "El yo y el ello", p. 48-49.

[xviii] S. Freud, "Introducción del narcisimo", p. 90-92.



Referências bibliográficas

Dejours C. (2001). Le corps, d'abord. Paris: P. B. Payot.

Calich J. C. (2006). "Pour faire travailler" la topique laplanchienne, Psychiatrie française, Paris, XXXVII, n. 3, p. 34-44. 

Freud S. (1914/1989). Introducción del narcisismo. In Obras Completas de Sigmund Freud. Buenos Aires: Amorrortu Editores, v. 14.

____. (1923/1989). El yo y el ello. In Obras Completas de Sigmund Freud. Buenos Aires: Amorrortu Editores, v. 19.

Gerez-Ambertín M. (2009). As vozes do supereu: na clínica psicanalítica e no mal-estar na civilização. Trad. Stella Schebli. Rio de Janeiro: Cia de Freud.

Laplanche J. (2015). Sexual: a sexualidade ampliada no sentido freudiano. Porto Alegre: Dublinense.

Rezende Cardoso M. (2002). Superego. São Paulo: Escuta.

Ribeiro P.  C. (2000). O problema da identificação em Freud: recalcamento da identificação feminina primária. São Paulo: Escuta.





Abstract
This article proposes a discussion of the so called topographical splitting defended by Dejours and, then, incorporated by Laplanche in his theorycal model. It aims to explicite how this notion is conceived by these two authors inside of their own theorycal developements, showing both convergent and divergent aspects. The article also points out, in this way, the necessity to add a discussion about the role of the Super-ego and Ego ideal in the process of the foundation of this topography and of its maintenance, considering their relationship with the repression.


Keywords
Topographical splitting, repression, Super-ego, Ego ideal, theory of generalized seduction.

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 TEXTO

A tópica da clivagem e o supereu

The topic of splitting and the superego
Luiz Carlos Tarelho

A inspiração para este artigo veio da intenção de podermos contribuir para a discussão da questão da tópica da clivagem, proposta por Dejours[i] e incorporada por Laplanche[ii] em sua reflexão. Para Dejours, essa discussão se inscreve num projeto que visa dar conta, metapsicologicamente, dos processos psíquicos nos quais predominam a ausência de mentalização, tão comuns nos quadros psicóticos e nos estados-limites. Laplanche, por sua vez, viu nesse novo arranjo tópico a possibilidade de encontrar um modelo unificado do aparelho psíquico que dê conta de explicar, de forma coerente e integrada, as três grandes estruturas de personalidade dentro do quadro teórico que ele próprio desenvolveu, a teoria da sedução generalizada, originariamente tributário do modelo neurótico. Partindo dessas duas contribuições, nosso propósito no presente trabalho é o de sublinhar o quanto essa questão da tópica da clivagem nos parece inseparável da questão da divisão do supereu e do papel que ele desempenha no processo de recalcamento, ao qual Laplanche vincula a origem da clivagem.

 

Da clivagem do ego à clivagem estrutural

Dejours[iii] sublinha que a noção de clivagem foi proposta por Freud justamente no contexto da discussão da perversão e também que ela foi utilizada pelos pós-freudianos que tentaram dar conta, clínica e teoricamente, dos pacientes não neuróticos. E acrescenta que, apesar do forte embasamento clínico que a sustenta, não se progrediu muito no sentido de situá-la do ponto de vista tópico justamente pela dificuldade de se resolver a contradição sobre a qual ela se funda, isto é, a existência de dois funcionamentos psíquicos diferentes (um que admite a castração e outro que a nega) no interior da mesma tópica. Daí sua proposta de pensar a clivagem não no interior do Eu, mas em termos tópicos, ou seja, como uma barreira que separa verticalmente, de um lado, o inconsciente recalcado e o pré-consciente e, de outro, um segundo inconsciente protegido apenas pela consciência e pela segunda censura (recalque secundário).

Esta nova tópica, situada também em terceiro lugar na história da teoria, foi chamada de tópica da clivagem, por ter como base a ideia de uma separação radical dentro do psiquismo, que não é marcada pelo conflito, mas pela exclusão mútua. Uma exclusão que, para Dejours, tem a ver com uma proscrição da capacidade da criança de pensar, e que é fruto de uma violência exercida pelos pais em reação à excitação por eles mesmos sentida na relação de sedução com a criança. Assim, se cria no psiquismo uma zona cindida, cuja marca é a ausência total de representação mental. Por isso mesmo, ele propõe o termo de amencial[iv] para caracterizar essa parte do inconsciente.

Mas essa clivagem é pensada por Dejours em termos também de uma cisão entre a pulsão de autoconservação, ancorada no instintual biológico, e a libido, concebida, segundo ele, nos termos da teoria da sedução generalizada, isto é, como fruto da relação da criança com a sexualidade inconsciente do adulto, embora sua maneira de conceber a gênese da sexualidade seja bastante distinta da de Laplanche. Ele parte da ideia de que a sexualidade surge segundo o modelo do apoio, por derivação, do instintual, da pulsão de autoconservação, seguindo um processo de subversão, onde o instintual se transforma em sexual[v]. Seguindo esse modelo do apoio, embora a sexualidade ganhe cada vez mais independência em relação ao instinto conforme avança e se consolida o processo de subversão libidinal, sua origem não deixa de ser instintual[vi]. Essa subversão só ocorre graças à intervenção do adulto, cuja sexualidade inconsciente introduz um processo de colonização que, se bem sucedido, deve instalar um domínio da libido sobre o instinto também na criança. Mas esse domínio nunca é total; na verdade, ele é sempre precário, pois o instintual não apenas continua a existir como também pode pressionar no sentido de reconquistar sua autonomia inicial. E, enquanto a sexualidade, com toda sua conflitualidade e com o recalcado que se lhe é extensivo, atua no sentido da subjetivação, o instintual, por sua vez, caminha no sentido contrário e representa, desse modo, a verdadeira pulsão de morte, isto é, aquilo que precisa ser dominado a qualquer custo.

Assim, para Dejours, a tópica da clivagem é o resultado dessa divisão entre, de um lado, o corpo biológico, marcado exclusivamente pelo instintual, que foi excluído, pela violência do adulto, do processo de libidinização e que deu lugar a um inconsciente proscrito, totalmente sem representação e, de outro lado, o sexual, dividido em libido desligada (inconsciente recalcado) e libido ligada (pré-consciente e eu), e ancorado, portanto, num corpo libidinizado e marcado pelo significante.

Embora divergindo em certos pontos em relação a Dejours, Laplanche viu nessa hipótese a grande oportunidade de encontrar um modelo tópico unificado do aparelho psíquico, que ele buscava há tempos, capaz de fornecer uma visão integrada dos diversos estados da alma e congruente com sua teorização. Assim, ele tentou integrar essa hipótese da terceira tópica, mas dando à noção de clivagem uma interpretação ligeiramente diferente. Ele parte de uma crítica dizendo que a forma de Dejours conceber a clivagem é tributária de uma visão dualista, envolvendo mente e corpo, com a qual ele não concorda[vii]. Tal crítica, que se opõe à ideia de um espaço psíquico sem nenhuma representação, acabou incidindo inclusive na escolha do termo para designar esse inconsciente clivado, que ele prefere chamar de encravado (enclavé em francês) em vez de amencial. Na sua concepção, esse inconsciente clivado não corresponde a um lugar marcado pela ausência total de representação, mas sim a um espaço (um eu-corpo originário) no qual as mensagens parentais são inscritas e ainda se encontram num estado ou de espera, no aguardo por uma tradução, ou de estagnação, justamente pela impossibilidade de tradução.

Nesse sentido, enquanto Dejours concebe a clivagem em termos de uma dicotomia entre libido e representação, de um lado, e instinto e corpo, do outro, Laplanche propõe pensá-la em termos de uma relação de alteridade, na qual o inconsciente encravado representa o que há de mais extímico na medida em que é composto por mensagens parentais das quais o eu ainda não conseguiu se apropriar. Em outras palavras, a linha que marca a clivagem não é da representação/não representação, mas sim a da tradução/não tradução. Além disso, para algumas mensagens, aquelas inscritas pelo processo de implantação e que assumem a forma do enigma, essa clivagem é apenas temporária, já que a tradução-simbolização geralmente não é instantânea, isto é, ocorre segundo a lógica do après-coup. Nesse caso, tais mensagens, que são o verdadeiro motor do processo de simbolização, podem ser resgatadas desse lugar para entrar para o processo de tradução, no qual se situa também o recalcamento. Para essas mensagens, o inconsciente encravado representa apenas um lugar de passagem, de estocagem temporária. Mas ele é também um lugar de estagnação, pois, ao lado dessas mensagens, existem normalmente outras que são completamente refratárias a qualquer abordagem tradutiva. São mensagens inscritas por uma via mais traumática, denominada de intromissão, que derivam do inconsciente encravado dos pais e que estão fadadas a permanecer congeladas no inconsciente encravado dos filhos. Além dessas duas fontes, compostas de mensagens provenientes do mundo adulto, Laplanche considera uma terceira possibilidade, que são os significantes que retornam do inconsciente recalcado, por exemplo dentro de um processo analítico, e que podem voltar a fazer parte do inconsciente encravado, ainda que temporariamente[viii].

O que se depreende dessa descrição é que não apenas o conteúdo, mas também a forma de se conceber a clivagem, é diferente nos dois autores. Em termos de conteúdo, o que se destaca na proposta de Dejours é muito mais a ausência de representação, que seria o instintual puro, a autoconservação, curiosamente aproximada aqui da pulsão de morte. Na proposta de Laplanche, ao contrário, o que se destaca são as mensagens parentais em diferentes formas e dando lugar também a arranjos variados dentro desse mesmo espaço psíquico clivado. Um clivado que, enquanto para Dejours só pode ser acessado pelo processo de perlaboração do sonho, para Laplanche, está sujeito a vários destinos conforme o material em questão e os meios disponíveis: tradução-recalcamento no caso das mensagens enigmáticas, estagnação no caso das mensagens refratárias à tradução e, ainda, resgate interpretativo num trabalho analítico.

No que diz respeito à forma, também é interessante ver como cada um concebe a origem da clivagem. Para Dejours, essa constituição está ligada ao que ele chama de "acidente da sedução", isto é, algo que se inscreve em negativo no processo de libidinização e que tem a ver com uma violência do adulto, caracterizada seja pelo ato de bater ou mesmo de abuso sexual, que acaba produzindo um transbordamento ou até mesmo um desmantelamento do eu da criança, com a consequente impossibilidade de representação e também de tradução[ix]. Para Laplanche, por sua vez, a constituição da clivagem tem a ver com o processo do recalcamento, que instaura tanto a clivagem horizontal (inconsciente recalcado), quanto a clivagem vertical, que separa o bloco do Pré-consciente e do recalcado do bloco do inconsciente encravado[x].

Ou seja, para ele, não se trata propriamente de um acidente da sedução, determinado exclusivamente pelo tipo de mensagem e constituído, portanto, de fora para dentro. Laplanche recusa a ideia de que a mensagem possa determinar sozinha, isto é diretamente, essa constituição. É no segundo tempo, da retomada tradutiva-recalcadora e pela intervenção do recalcamento, que ocorre a separação. Mas ele não esclarece o que significa exatamente situar a clivagem no contexto do recalcamento.

 

O supereu na origem e no centro da clivagem

De nossa parte, acreditamos que, para se aprofundar o entendimento dessa relação entre a clivagem e o recalcamento, é preciso pensá-la a partir da relação entre o recalcamento e o supereu. Mas isso implica abrir um diálogo entre a teoria laplancheana do recalque e a noção de interdição. Ao situar o recalque no contexto da teoria tradutiva, Laplanche acabou deixando em segundo plano algo que era central na concepção freudiana, que é justamente a noção de interdição. Para Freud, o recalcamento do Édipo é fruto de uma censura que, de certa forma, ordena a estrutura social e tem a ver com o horror ao incesto. Claro, para Laplanche, o recalque se instala bem antes do Édipo e tem a ver com a dificuldade, com a qual a criança depara, de encontrar sentido no plano egoico para partes das mensagens parentais, que se encontram contaminadas pela sexualidade inconsciente, de natureza eminentemente pré-genital e perverso-polimorfa. Existe, portanto, um deslocamento de um autor para o outro, que não é apenas temporal, mas também de âmbito: enquanto em Freud o recalque incide sobre o desejo edipiano, em Laplanche, ele incide sobre a parte enigmática da mensagem do adulto e que é obscura para o próprio adulto. Por isso, o peso recai mais sobre a questão da falta de recursos simbólicos para a tradução, e a ameaça que isso representa para o ego, do que sobre a questão da censura. Mas podemos concluir daí que a censura não conta nesses fracassos de tradução que dão lugar ao recalcamento?

Na medida em que a tradução das mensagens enigmáticas depende dos recursos simbólicos colocados à disposição da criança pelo mundo adulto que a circunda, evidentemente não há como ignorar a questão da censura. Nisso que se convencionou chamar de "ajuda à tradução", prestada pelo próprio adulto, não é difícil identificar também a presença da censura e da interdição. Nesse sentido, é bastante significativa a forma como Dejours pensa a constituição do inconsciente amencial. Para ele, como vimos, essa proscrição ocorre justamente em função de uma reação violenta do adulto face à excitação que produz nele próprio o corpo e o comportamento erogeneizado da criança, erogeneização que ele mesmo produziu. Ora, essa reação tem a ver com uma censura que, embora não tenha sido tematizada pelo autor, precisa ser considerada no modelo tradutivo do recalcamento, pois ela influencia como a mensagem do adulto será, ou não, traduzida pela criança.

Assim, isso que Dejours apresenta como sendo um entrave radical à tradução deveria, segundo o que propomos, ser visto como da ordem da censura e sujeito a uma gradação, que pode ir do mais radical ao mais frouxo, da interdição total ao incesto. Mas não é apenas essa erogeneidade da criança que ativa a censura do adulto. O processo de sedução é intrinsecamente ambivalente, pois, ao mesmo tempo que funciona como motor do movimento de simbolização e de separação, no qual se inscreve a formação do ego, ele também alimenta um desejo mútuo de dependência, cuja superação, sempre precária, não ocorre sem a ajuda de um corte. Aqui também incide uma censura, mais básica mas não menos radical, que não pode ser ignorada nesse modelo tradutivo.

Se buscarmos integrar as questões levantadas acima, envolvendo a origem da clivagem e a relação entre o recalcamento e a interdição, somos levados a concluir que o Supereu, tanto em sua dimensão de enclave quanto de Ideal, deve ter um papel central nesse processo de constituição tanto do inconsciente recalcado quanto do encravado.

 

O núcleo encravado do supereu[xi]

Desde Freud, é possível imaginar a existência de um núcleo encravado do supereu, ligado às primeiras identificações surgidas num momento em que o Eu ainda era muito frágil e que se sedimentaram num lugar que pertence ao Id, de onde ele extrai boa parte de sua energia e que, justamente por isso, não apenas mantém uma afinidade duradoura com essa instância, como pode também fazê-lo prevalecer diante do Eu[xii].

O que Freud chama de primeiras identificações ligadas aos investimentos originários do Id ganha um novo sentido no contexto da teoria da sedução generalizada, como sendo fruto das mensagens parentais, inscritas no plano do inconsciente encravado. Um dos grandes méritos de Laplanche foi ter mostrado que a identificação a é precedida pela identificação por, isto é, bem antes de o processo de identificação do ego entrar em marcha, a criança já foi investida pelo adulto e marcada por ele. E Laplanche introduz essa reflexão no contexto de uma discussão sobre a designação do gênero feita pelo adulto, na qual ele resgata essa ideia freudiana da identificação primitiva ao pai da pré-história pessoal, que comporta uma aporia, da qual se pode sair justamente admitindo-se essa hipótese de que é preciso se inverter o vetor da identificação, já que o ponto zero não pode ser localizado na criança, pois é determinado de fora para dentro, pela identificação operada pelo adulto, que funciona quase como uma prescrição[xiii].

Além disso, parece muito significativo também o fato de ser justamente nesse mesmo contexto que Laplanche tenha deixado registrada a indicação da necessidade de se aprofundar a compreensão da relação entre esse processo de designação de gênero, que ele descreve como uma identificação operada pelo adulto, e a constituição do supereu[xiv].

Mas é no texto em que ele introduz a questão da tópica da clivagem que aparece explicitamente a afirmação de que o supereu faz parte dessa tópica: "dentre as mensagens não traduzidas que constituem este inconsciente, destacamos particularmente mensagens superegoicas"[xv].

Podemos, então, supor que esse núcleo mais pulsional do supereu se situa do lado do inconsciente encravado e é composto tanto por prescrições identificatórias, que são em boa medida intocáveis, como as de gênero, quanto por mensagens intraduzíveis, como é o caso de certas injunções e de certos mandatos. Mas isso significa apenas reafirmar o que, de alguma forma, já foi dito antes. Nosso propósito aqui é ir um pouco além, mostrando que há uma relação estreita entre essa constituição do supereu e a instauração da própria clivagem.

A justificativa para estabelecermos essa relação vem não apenas do ganho que ela representa para a compreensão do papel do supereu na dinâmica psíquica em geral e, em particular, nos quadros clínicos, mas também das razões teóricas que a embasam. Se, de um lado, Freud tem alguma razão em dizer que o supereu deve sua gênese à tarefa de realizar o recalcamento do Édipo e, de outro, Laplanche está certo em supor que a clivagem tem a ver com a instalação do recalque, então, parece pertinente supor que o supereu deve desempenhar um papel central na constituição da clivagem.

Além disso, parece pertinente levarmos em conta também a hipótese de Dejours, segundo a qual a clivagem se constitui em função da reação violenta do adulto contra a criança diante da repulsa que se produz nele o corpo e o comportamento erogeneizado da criança. Uma reação ligada, portanto, em primeiro lugar, à sexualidade pré-genital perverso polimorfa e também autoerótica. Para Dejours, o importante é a dimensão de violência, de efração, que anula a possibilidade de uma atividade mental por parte da criança e que inviabiliza o processo de simbolização na sua dupla vertente, tradutiva e recalcadora, dando lugar a uma proscrição. Como já adiantamos, em nosso entendimento, essa reação, seja ela mais ou menos violenta, possui também a marca da censura. Por isso, seria preciso incluir aí essa dimensão de interdição, que vai dar lugar, ao mesmo tempo, a um universo de mensagens excluídas, proscritas, mas também a um conjunto de injunções e de prescrições identificatórias que estão na origem do supereu. Mas esse conjunto de injunções e de prescrições identificatórias também tem a dimensão de enclave e faz parte, portanto, do inconsciente encravado, proscrito. A questão que se coloca, então, é a de saber como ocorre esse arranjo dentro desse inconsciente encravado e se o supereu tem aí algum papel específico.

 

O supereu e a estabilidade da clivagem

Seguindo as pegadas de Marta Gerez-Ambertín[xvi], grande estudiosa dessa questão e que, a partir de Lacan, destaca o papel central que o supereu exerce na tópica psíquica, tanto do ponto de vista de sua divisão quanto de sua estabilidade, podemos supor que esse papel depende justamente do lugar que o supereu, no seu duplo formato, isto é, como supereu encravado e como Ideal, ocupa em relação à clivagem da tópica.

 Nesse sentido, a hipótese que queremos submeter à reflexão é a de que a clivagem da tópica tem a ver, de alguma forma, com a própria clivagem do supereu, num duplo sentido: primeiro, tendo em vista sua posição de enclave na tópica e, segundo, considerando sua relação paradoxal com o Ideal do Eu. Essa hipótese nos parece necessária para dar sentido a tudo que foi exposto até aqui, ou seja, primeiro, que a clivagem da tópica precisa ser entendida à luz do recalcamento (Laplanche), segundo, que essa clivagem tem origem na repulsa e na violência que o corpo e o comportamento erogeneizado da criança produz no adulto (Dejours), terceiro, que o supereu representa um paradoxo devido à sua dupla filiação (Freud) e, por fim, que supereu, clivagem e estabilidade da tópica estão intimamente interligados (Gerez-Ambertín/Lacan).

Seguindo a lógica do recalcamento em dois tempos, podemos supor que o tempo anterior ao recalque primário é marcado por um eu-corpo rudimentar, que é colonizado pelo mundo adulto, dando lugar ao que Freud chamou de primeiras identificações e que, numa linguagem laplancheana, corresponde a um bombardeamento de injunções e de prescrições identificatórias. Nesse início, ainda não seria possível falar de uma diferenciação interna no sentido de uma clivagem, embora alguma diferenciação já comece a se produzir, preparando assim o terreno para um primeiro arranjo tópico, que representa também um primeiro movimento de separação, onde vem se inscrever o recalque primário.

É o recalque primário, portanto, que vai promover essa clivagem, que já é, paradoxalmente, desde o início, dupla, porque cria uma divisão vertical e horizontal ao mesmo tempo, como propõe Laplanche. A horizontal, como vimos, tem a ver com a separação do recalcado e do pré-consciente. A vertical, por sua vez, é responsável pela separação deste lado (A do esquema), que já passou por um processo de substituição significante, incluindo sua falha, o recalcado, e o outro lado (B do esquema), do inconsciente encravado, que resiste a esse processo. Mas de onde o recalque originário retira sua força? Essa questão sempre incomodou Freud, que acabou admitindo que tal força depende do mundo adulto[xvii]. Laplanche, como vimos, tende a situá-la na ameaça que a estrangeiridade da mensagem enigmática do outro representa para o eu, encurralado, assim, numa posição de passividade. Mas, situá-lo nesse contexto não implica necessariamente na exclusão da questão da interdição. Que a limitação dos recursos simbólicos para tradução seja uma realidade da condição da criança e que isso a coloque numa posição de passividade ameaçadora diante das mensagens enigmáticas não quer dizer que isso seja a única força em jogo nesse processo de exclusão que constitui o recalque. Se o que vai se tornar o recalcado tem a ver com a sexualidade inconsciente presente nas mensagens parentais, que é implantada e depois atuada pela criança, é natural que algo do processo parental de recalcamento também apareça, juntamente com a censura subjacente, nessa nova tradução a ser realizada pela criança.

Isso nos remete para a constituição do superego como enclave. Claro que ele ainda não está presente antes do recalque primário, pois sua formação também está em jogo juntamente com a clivagem que este último promove. Mas podemos supor que é de sua base, ou seja, das injunções, proibições e prescrições identificatórias implantadas e/ou intrometidas, que vem a força para o recalcamento ou, pelo menos, uma parte dela. Base esta que, como material refratário ao processo de substituição significante, é forte candidata, ainda que parcialmente, a permanecer como enclave do lado do inconsciente encravado. Por isso, é pertinente dizer que o superego se encontra no centro da clivagem. De um lado, porque é certamente de sua base que vem, pelo menos em parte, a força para o recalcamento que produz essa clivagem e, de outro, porque, se isso é verdade, o superego encravado, que assim se forma, deve exercer também uma função de contenção para o resto do inconsciente encravado do qual ele faz parte. No gráfico abaixo propomos uma representação de como seria a tópica da clivagem a partir do recalque primário.

Mas esse arranjo tópico produzido pelo recalque primário ainda é muito precário, justamente porque a força da qual ele deriva - esse núcleo estrangeiro de prescrições e proibições que vai dar lugar ao superego - é muito ameaçadora. Daí a necessidade de um reforço mais egossintônico para assegurar a tópica. Esse parece ser o papel do recalque secundário, onde o Ideal do Eu ocupa um lugar central do outro lado da clivagem. E aqui é importante lembrar que a própria constituição do ideal de Ego também está ligada a um corte, pois ele se alimenta da libido narcísica, que precisa ser remodelada para que o narcisismo infantil, com toda sua dimensão autoerótica e de onipotência, dê lugar a um ego mais evoluído, atravessado por mediações simbólicas e submetido a regulações sociais. Sabemos que essa superação também pressupõe um duplo trabalho de luto, envolvendo uma elaboração tanto por parte da criança quanto por parte dos pais, cujo desejo emancipador concernindo à criança precisa se sobrepor aos desejos incestuosos inconscientes.

O segundo tempo do recalcamento depende, pois, em larga escala, primeiro, de um autocentramento narcísico, pelo qual o eu ganha corpo, e, depois, de sua superação, que é quando o narcisismo encontra no Ideal do Eu um modo de sobrevivência. Vale a pena resgatar aqui o que Freud formulou a respeito do Ideal do Eu justamente no contexto da discussão sobre o narcisismo: primeiro, que ele é a condição para o recalque e, segundo, que ele deriva de uma dupla fonte, isto é, da libido narcísica, de um lado, e da influência crítica dos pais, do outro. E ele sublinha que é justamente esse investimento narcísico dos ideais o que permite uma tomada de distância em relação à influência crítica vinda de fora, coisa que fica bem clara nos delírios persecutórios, nos quais a retirada dessa libido narcísica, em função de uma rebelião contra a instância censuradora, faz com que essa instância perca sua mediação egoica interna e se revele em toda sua alteridade, como uma intromissão hostil vinda de fora. É nesse mesmo contexto que ele diz que o Ideal do Eu é a condição para o recalque, porque ele implica um "respeito do eu por si mesmo"[xviii].

No gráfico a seguir propomos uma representação de como ficaria a tópica da clivagem a partir do recalque secundário. Seguindo a hipótese de Dejours, acreditamos que é o recalque secundário que vem dar contenção ao inconsciente encravado na sua face voltada para a realidade externa.

De fato, aqui parece intervir uma força mais egossintônica, indispensável, ao mesmo tempo, para promover o recalcamento secundário e para a estabilidade da tópica. Se o primeiro tempo cria a clivagem, esse segundo, que precisa ser pensado no plural, é o que vai poder sustentá-la. E isso por duas razões. Primeiro, porque instaura, do lado do eu, do pré-consciente, uma organização simbólica e um modo de funcionamento marcado por um arranjo energético de ligação, que é capaz de funcionar como fonte de estabilização. E, segundo, porque o Ideal do Eu, como o lado ligado do supereu, investido justamente dessa libido narcísica, exerce uma função defensiva, de negativação, em relação ao outro lado desligado do supereu, que faz parte do inconsciente encravado. Por isso, podemos dizer que o superego, com sua dupla face, se encontra no centro da clivagem. Ele não apenas exerce um papel central no recalcamento, tanto no primário quanto no secundário, que é responsável pela clivagem, mas, além disso, sua própria divisão interna corresponde, de alguma forma e como seria de se esperar, à divisão da clivagem. Uma divisão que é marcada por uma relação de exclusão mútua, de negativação, e que tem como eixo a questão da alteridade.

Seja do lado do adulto, seja do lado da criança, a alteridade é o grande mal do ponto de vista do narcisismo que fundamenta o eu. E a clivagem vem delimitar duas maneiras opostas de lidar com ela: uma que procura por todos os meios excluí-la, ainda que sem o saber, pela via da autoafirmação e do autocentramento, e outra que a mantém, também sem o saber, com a ajuda do supereu, que se torna uma espécie de representante do outro e do inconsciente encravado. Por isso que o lado encravado do supereu, juntamente com o restante das mensagens refratárias ao trabalho de substituição significante que o cercam, representa o que há de mais ameaçador para a estabilidade da clivagem e da tópica como um todo e vai exigir, assim, um constante esforço de tradução-simbolização por parte do eu, dentro do qual, primeiro o narcisismo e, depois, o Ideal do Eu ocupam um lugar central. Um esforço mudo, mas que precisa fazer com que as vozes do supereu se calem e deem lugar a enunciados mediados pelo universo mito-simbólico e pela apreensão que o Eu é capaz de fazer desse universo.

Esse é o caso, por exemplo, da relação que se estabelece entre o que Laplanche denominou de identificação por e de identificação a. As prescrições identificatórias, como as de gênero, que se instalam no supereu como um enclave, por conta da ingerência dos pais, fazem parte desses elementos de alteridade que precisam encontrar um substituto narcísico do lado do eu capaz de, para usar a expressão de Freud, resguardar o respeito do eu por si mesmo. É aí que entra esse processo de substituição significante através do qual a ameaça que essas prescrições identificatórias representam para o Ego, em função da alteridade que as compõem, pode ser contida à medida que tais prescrições são transformadas em projetos identificatórios mediados pelo trabalho de simbolização e de investimento narcísico, tanto do Ego quanto dos Ideais. É assim que se pode entender o lugar defensivo e organizador do sexo em relação ao gênero, como propõe Laplanche no texto já citado. A designação do gênero realizada pelo adulto representa, sem dúvida, a expressão mais radical da identificação por. Essa designação, reiterada e continuada, antecede a assunção de um sexo pelo ego e o coloca numa posição de passividade em função sobretudo de sua dimensão enigmática à medida que veicula ruídos da sexualidade inconsciente e infantil dos pais. A assunção de um sexo, a construção de uma identidade sexuada, mediada pela lógica binária e pelo complexo de castração, é não apenas secundária temporalmente a essa designação, como é também o que permite simbolizá-la e recalcá-la. Simbolizá-la, no plano do recalque secundário, em termos ideais e narcísicos, logo com uma mediação fálica, que tende a excluir o fragmentado e o passivo da sexualidade infantil presente nessa designação de gênero.

 

Para concluir

As reflexões aqui desenvolvidas nos conduziram a concluir que, para se avançar na discussão sobre a tópica da clivagem, parece necessário se levar em conta o papel do superego, na sua dupla face, encravada e egoica, na constituição dessa tópica. E, se ele participa diretamente da constituição da clivagem, esta precisa ser pensada levando-se em conta esse papel, pois isso a determina de alguma forma. Assim seria possível se entender a dimensão estrutural, tópica, da recusa que sustenta essa clivagem internamente. Como insistem Dejours e Laplanche, não se trata de um simples mecanismo de defesa, mas de algo fundante como o recalque. Na hipótese aqui desenvolvida, esses dois mecanismos seriam, na verdade, complementares, um dependendo do outro, à medida que o Superego, com seu duplo, o ideal do Ego, é, ao mesmo tempo, o motor do recalque e a forma estrutural que toma a recusa. Assim como o recalque só se mantém graças ao contrainvestimento do Pré-consciente, também a eficácia da recusa depende da capacidade de neutralização do Ideal do Ego. O que nos leva também a pensar que a descompensação psicótica ou perversa, que envolve a falha da recusa e, portanto, da clivagem, não depende do simples fracasso de um mecanismo de defesa específico, mas muito mais do fracasso da função de contenção e de negativação que exerce o Ideal do Ego para essa tópica.


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