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Resumo
O artigo é um depoimento de Jacques André, ex-doutorando de Laplanche, no qual relata momentos particulares do percurso de Jean Laplanche: da ruptura com Lacan à elaboração de sua própria obra teórica, passando por sua atividade como professor na Sorbonne e sua relação com Pontalis, com quem Jacques André também estabeleceu uma proximidade.


Palavras-chave
seminário; teoria; encontro; inconsciente; ruptura.


Autor(es)
Jacques Andre
é psicanalista, membro da Association Psychanalytique de France (apf), professor de psicopatologia na Universidade Paris Diderot, diretor da Petite Bibliothèque de Psychanalyse (puf). É autor do Vocabulário básico da psicanálise (wmf Martins Fontes, São Paulo, 2015), de L’imprévu en séance (Folio, Gallimard) e Psychanalyse, vie quotidienne (Stock, 2015).


Notas
[i] {LAPLANCHE E PONTALIS} Nome de uma estação de metrô no centro de Paris (N. T.).

[ii] F. Gantheret, "Trois mémoires".

[iii] Cf. L. Kahn, "Le texte freudien et sa traduction".

[iv] Alguns dos inúmeros neologismos de Laplanche. Ao pé da letra: desajuda, desejância, anímica.

[v] Palavra do pequeno Hans: literalmente, o "faz-pipi".

[vi] Aluno da École Normale Supérieure, a escola que forma a nata da intelectualidade francesa na área de Humanidades (N.T.).

[vii] No original, fica mais evidente o lapso: merde / mère (N.T.).

[viii] Em francês, avô se diz grand-père (literalmente, grande pai). O autor se refere ao conceito lacaniano de Nome-do-Pai, e faz um trocadilho impossível de reproduzir em português (N.T.).

[ix] Para a compreensão dos complexos desafios dessa questão, só podemos remeter o leitor ao artigo de Laplanche: "La didactique: une psychanalyse ‘sur comande' ".

[x] Neologismo lacaniano, literalmente falasser.

[xi] A questão levantada aqui é mais espinhosa do que seria o caso no Brasil: na França, uma tese não é orientada, mas dirigée, e o orientador é designado como directeur de thèse (N.T.).

[xii] Trocadilho com frère (irmão) e férocité (ferocidade).

[xiii] In J.-B. Pontalis et al., Passé present.



Referências bibliográficas

Gantheret F. (1977). Trois memoires, Nouvelle Revue de Psychanalyse, n.15, Gallimard.

Kahn L. (2007). Le texte freudien et sa traduction. In Le royaume intermédiaire (Psychanalyse, littérature, autour de J-B Pontalis). Folio: Gallimard.

Laplanche J. (1999). La didactique: une psychanalyse "sur comande". In ____. L'homme. PUF, Quadrige.

Pontalis J.-B. et al. (2007). Passé present. Paris: PUF. Petite Bibliothèque de Psychanalyse.





Abstract
The article is an attest by Jacques André, Laplanche’s former student, which reports particular moments of Jean Laplanche’s journey: from his rupture with Lacan to the elaboration of his own theoretical piece, passing by his position as Sorbonne’s teacher and his relationship with Pontalis, who Jacques André had also established a relative proximity.


Keywords
seminary; theorie; meeting; unconscious; rupture.

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 TEXTO

Laplanche-e-Pontalis

Laplanche-and-Pontalis
Jacques Andre

Primeiras palavras, primeiros passos de uma "troca" com Jean Laplanche. A cena se passa no início dos anos 1980, nos corredores da Universidade de Paris VII - Censier, que na época abrigava a Faculdade de Ciências Humanas e Clínicas. O tempo, ou melhor, o instante, para compreender que entrar em contato com este homem não era das coisas mais simples a serem feitas. Meu maior susto, quase um estranhamento estava, no entanto, em outro lugar: então "Jean Laplanche" tinha uma existência separada... separada de "Laplanche-e-Pontalis"! Fora o Vocabulário, eu não conhecia até então nada nem de um e nem de outro. Esse par era para mim tão indissociável quando Bouvard e Pécuchet, Lagarde e Michard, ou mesmo Réaumur-Sébastopol[i].

Reencontrei Jean Laplanche um ano depois, em condições prudentemente menos anônimas. Na época, vivendo em Guadalupe e trabalhando com a análise de conflitos familiares e criminosos, eu pretendia fazer uma tese sobre esta pesquisa. A leitura do belíssimo artigo de François Gantheret[ii] nos permitiu estabelecer o contato. François, amigo bourguignon e colega de Jean, fez o go-between: tornei-me orientando de Laplanche, e ao mesmo tempo integrante de seu seminário.

O acaso da "setorização" levou o estudante que eu fora alguns anos antes a estudar filosofia em Nanterre em vez da Sorbonne. Sem ter pedido nada, inocentemente, eu me encontrava na presença dos meus primeiros mestres: Paul Ricoeur, Emmanuel Lévinas, Jean François Lyotard. A fina flor da filosofia entre a lama do campus pré-fabricado e as favelas. Extraordinários tempos de iniciação, três pensamentos livres e audaciosos, construindo suas obras a partir de seu ensino. O oposto dos mentores, provocadores do pensamento. Participando do seminário de Laplanche, eu soube imediatamente que estava frente a algo dessa mesma natureza, uma parcela dessa grande tradição universitária, erudita, competitiva, aberta ao mundo da cultura para além das fronteiras da disciplina. Apresentando-se sempre como "Professor da Sorbonne" e recusando a denominação administrativa exata: professor na Paris VII, Laplanche reivindicava explicitamente essa filiação. As obras que publicava a partir de seu ensino na época, as "Problemáticas", faziam jus a seu título, trabalhando, em tensão e em questão, inicialmente a obra freudiana, em seguida diversas incidências antropológicas acarretadas por uma reflexão acerca do inconsciente.

Partilhar com Laplanche e Pontalis uma primeira formação, em Filosofia, tem certamente algo a ver com a comunidade que descobri existir entre mim e eles. Num dia de debate com Daniel Widlöcher, organizado pelo Laboratório de Psicopatologia e Psicanálise, na época dirigido por Jean Laplanche, Widlöcher sugeriu que existiriam três desejos, três origens no movimento de se tornar psicanalista: o desejo de cuidar, origem médica, o desejo de compreender o funcionamento psíquico, origem psicológica, e o desejo de conhecer o ser humano, origem filosófica. Widlöcher apontou que o segundo desses desejos, o do psicólogo, orientava seu percurso desde o início. Jean Laplanche acrescentou, sem hesitar por um segundo, que era o terceiro, o desejo filosófico, que estava na origem do psicanalista que ele havia se tornado. Um século antes, Freud escrevia a Fliess algo semelhante: "quando moço, eu não tinha outra aspiração" (Sehnsucht) "que não fosse o conhecimento filosófico, e no momento estou prestes a realizá-la na passagem da medicina para a psicologia" (Carta de 02/04/1896).

Filósofos, Laplanche e Pontalis se mantiveram à sua própria maneira, bem distinta. Enquanto o segundo, que se tornou "autógrafo" a partir do Amor dos Começos, nunca dissociou seu exercício literário de uma dimensão reflexiva, algo como uma filosofia da vida cotidiana, o primeiro forjou o conceito, construiu uma teoria cuja "ambição antropológica universal" busca o sentido da "vida humana", muito além da experiência psicanalítica, ainda que esta se mantenha na origem da investigação.

Meu primeiro encontro com J.-B. Pontalis restabeleceu de certa forma o duo dos inseparáveis. Novamente François Gantheret, dessa vez por ser assistente de redação da Nouvelle Revue de Psychanalyse, fez as apresentações. Até então eu só tinha publicado em L'Homme, revista de antropologia social criada por Lévi-Strauss e dirigida na época por Jean Pouillon; Pontalis me propunha uma primeira publicação psicanalítica (NRP nº 28, Liens, outono de 1983). Assim que soube, Laplanche me mostrou claramente seu aborrecimento: por que com ele e não comigo? Somou-se a isso a surpresa: ele queria, a qualquer preço, que o outro texto que eu lhe enviara fosse publicado em Psychanalyse à l'Université... Os amigos eram rivais, cada qual com sua revista; a separação dos siameses estava efetivada; eu era um possível objeto de rivalidade entre eles... sabemos a gratificação narcísica que pode proporcionar uma tal querela.

A rivalidade conjuga a vida em três. Não faltaram terceiros disputados por Laplanche e Pontalis. Inicialmente o próprio Freud, através da questão de sua tradução. A divergência entre eles atingiu nesse ponto seu ápice[iii]: Pontalis determinado a moldar Freud no cadinho da língua francesa, Laplanche decidido a forçar o francês a acolher o estrangeiro a ponto de desequilibrar a forma correta da língua materna. Um zombava do outro com prazer, e reciprocamente. Pontalis acusando o "désaide, désirance, animique..."[iv] e outras brutalidades neológicas, Laplanche ironizando que aquele que não era "germanista" se permitia traduzir Realangst por "angústia realista", verdadeira distorção que "para fazer bonito", perdia simultaneamente a originalidade da noção "angústia do real" e a incongruência da expressão, inclusive em alemão.

Dois outros terceiros merecem especial atenção, não apenas no que se refere à rivalidade; Lacan evidentemente, mas também Daniel Lagache. Laplanche e Pontalis foram ao mesmo tempo analisandos e alunos de Lacan. A recusa de fidelidade a ele, a ruptura desencadeada por tal recusa, marcaram a vida de um e de outro e são essenciais para compreender os psicanalistas que se tornaram. Mais do que o semelhante, aqui, é o diferente que melhor retrata esses dois homens.

Pontalis costumava contar como podia levar uma reprimenda de Lacan por ter faltado um dia no Seminário, enquanto a falta numa sessão não arrancava nenhuma palavra de seu psicanalista. Ele gostava de se definir como o cancro da sala, sempre sentado no fundo, ao lado do aquecedor, rindo dos jogos de palavra que permitiam o hilário Wiwimacher[v], "sim-sim minha cara"...

A realidade histórica é mais complexa: transcritor do Seminário para o Bulletin de psychologie, Pontalis foi também um ouvinte atento. Assim como Laplanche, ele não foi poupado, no momento da ruptura, da maldade irônica do Mestre. No entanto, nada tão violento, sem dúvida porque Pontalis nunca foi, como Laplanche, um "discípulo". A experiência prévia junto a Sartre o vacinara, especialmente porque Sartre misturava contraditoriamente à sua dominação intelectual uma alergia a quem pretendesse "seguir fielmente o seu caminho". No Amor dos Começos, Pontalis evoca o seminário de Sainte-Anne, em 1954: Lacan "nos envolvia com frases que raramente terminavam, e que os mais zelosos dentre nós lutavam para transcrever em grandes cadernos de estudante".

Por ter visto tais cadernos com meus próprios olhos, não tenho dúvida de que J.-B. se refere aqui ironicamente a seu amigo Jean. De fato, cadernos admiráveis, de tanto que parece nada ter escapado à cuidadosa escrita do aluno perfeito, do normalien[vi], e que permitem casualmente perceber os inúmeros erros da transcrição oficial. Laplanche se divertia com isso, constatando que quando Lacan havia dito "merda" o texto milleriano dizia "mãe"[vii] - Laplanche tinha gentilmente oferecido seus cadernos a J-A Miller, que os recusou: nada e nem ninguém entre o Mestre e ele.

"Você poderia ter sido meu Ferenczi... mas seu avô era analfabeto": esta fala de amor desiludido e de crueldade de Lacan a Laplanche no momento da "traição", um "não-do-pai" quanto ao Nom-du-Grand-Père[viii], mostra a força do laço que unia os dois homens. Lacan fez pior, brincando com o nome próprio de seu "aluno" como um significante ("a prancha") e fazendo com ele as mais vulgares piadas.

Surpreendentemente, a maldade nunca foi recíproca, como se os dois "pacientes" tivessem tido a oportunidade de sofrer e perceber a que ponto seu analista não suportava a ambivalência. Laplanche e Pontalis não deixaram de criticar Lacan, na teoria e na prática, mas eu nunca escutei na boca nem de um e nem de outro o prazer de uma palavra assassina. Foi com um sentimento de apaziguamento que Jean Laplanche evocava um inesperado encontro com o antigo "Mestre", um pouco antes de sua morte, por acaso, numa festa mundana. Os dois homens conversaram tranquilamente, Lacan expressando sua nostalgia de um tempo no qual estivera rodeado por outro tipo de pessoas, tão diferentes do círculo de fiéis que tinha se tornado sua cruz e por quem não escondia seu desprezo.

O que J.-B. Pontalis tinha a dizer sobre Lacan, ele escreveu. O testemunho de Laplanche permaneceu principalmente oral, e referia-se primeiramente ao analista. Lacan anunciou a seu analisando-aluno que as sessões, que até então duravam meia hora, passariam a durar vinte minutos. Ele especificou: "E para provar a você que não se trata de uma questão de tempo, vou fazer um aumento". Nessa paradoxal dominação intelectual Harold Searles verá uma característica do "esforço para enlouquecer o outro". Um risco, no entanto, que Laplanche não corria de forma alguma. Ele usou as manipulações acima de tudo para elaborar uma crítica da prática lacaniana e libertar-se dela. Para ele, a mais grave dessas transgressões referia-se menos à variação do tempo, chegando às sessões ultracurtas e à degradação da psicanálise em psicoterapia que a caracterizava, e mais à confusão da análise com o ensino. Confusão que coloca a força da transferência a serviço da fidelidade ao pensamento e à própria pessoa do analista-Mestre, gerando como consequência inevitável uma população de fiéis, os "lacanianos".

Laplanche e Pontalis não se contentaram em fundar, com outras pessoas, uma associação analítica (APF) com o objetivo de escapar da trincheira cavada por Lacan. Essa libertação foi também para ambos a oportunidade de um ato fundador no que diz respeito à crítica da análise didática e à afirmação de uma extraterritorialidade da análise pessoal em relação à instituição analítica[ix]. Esse gesto talvez os tenha reunido mais fortemente do que o Vocabulário. O que Laplanche designa como uma astúcia da história consistiu em ultrapassar a crítica da prática de Lacan em direção a uma crítica bem mais ampla, não poupando nem o próprio Freud, mirando o conluio entre as pretensões políticas de uma instituição e a submissão dos futuros analistas a uma "análise de formação".

A filiação teórica não é menos interessante que o destino da prática. A ruptura parece evidente, Laplanche e Pontalis nunca falaram ou escreveram no "jargão lacaniano". Mas o que vale para o estilo não vale para a ideia. "O desejo é o desejo do inconsciente do outro" - esta fórmula, ligeiramente modificada, do enunciado de Lacan ("O desejo é o desejo do Outro") poderia servir como epígrafe ao conjunto da obra de Jean Laplanche. O que não impediu o surgimento de esforços para se distinguir do mestre já bem cedo, antes mesmo da ruptura, no que diz respeito especialmente às relações do inconsciente e da linguagem. O inconsciente de Lacan é sensivelmente diferente do de Freud: muito menos incognoscível, não ignorando a negação e nem a diferença, estruturado como uma linguagem, e não polimorfo e caótico como a sexualidade infantil. Seguindo a consigna do "retorno a Freud" de modo mais rigoroso que o próprio Lacan, Jean Laplanche, ao contrário, maximizará a alteridade de um inconsciente que trata as palavras como coisas e não como signos: o inconsciente de Laplanche é um "império do desligamento", o mais distante possível da "estrutura".

"Por que me tornei psicanalista, se não para comparar incessantemente a linguagem ao que não o é?" Essas palavras de Pontalis em "Lamour des commencements" exprimem simultaneamente a filiação com Lacan (a linguagem objeto de todas as atenções) e a distância tomada em relação a ele. O personagem criado por Lacan é um parlêtre[x], o de Pontalis é um infans. Ao idealismo linguageiro do primeiro corresponde a melancolia do segundo: "Nós nunca nos separaremos da linguagem, ela é a separação e só fala da separação" (p. 195). A paixão de Pontalis pela linguagem, que o fará transitar do "teorizar" para "escrever", não busca o "tesouro da língua" (Lacan) e sim sua falha: escrever (mas também analisar) para "aliviar a falha da linguagem, seu vazio interno, sua violência ou doce melancolia".

A falta é para a obra de Pontalis o que o excesso é para a de Laplanche. Para o primeiro, a linguagem "é o eco longínquo, insistente de todas as nossas perdas", para o segundo é o traço das invasões (o inconsciente) do outro. Essas fórmulas não são contraditórias. Sua oposição não é uma questão de lógica: é bem mais de pontos de vista. Os transbordamentos da histeria são a tela de fundo das elaborações de Laplanche, enquanto uma variante neurótica (nostálgica) da melancolia acompanha toda a obra de Pontalis, desde a obra teórica (Perder de Vista) até a obra literária (Loin, Antes). Mas a distância mais clara entre os dois percursos certamente diz respeito aos destinos de sua escrita. Jean Laplanche manteve-se até o fim absolutamente fiel ao ato inaugural do Vocabulário. J.-B. Pontalis tentou o tempo todo afastar-se dele.

A página de rosto do Vocabulário é uma curiosidade: o nome dos dois autores vem antes do título, mas num subtítulo se lê: "sob a direção de Daniel Lagache". Essa "confusão" editorial tem uma história. Sem atuar tão violentamente "o assassinato do pai" - Lagache não é Lacan, nem analista e nem mestre - a solidariedade dos dois "irmãos" face a este outro terceiro é como uma injeção de lembrança. É Lagache quem assina o contrato com a PUF, e convida Laplanche e Pontalis para serem seus colaboradores. Os "colaboradores" farão todo o trabalho, três anos assíduos na mesa do conceito, enquanto o diretor não dirige nada. A página de rosto é uma formação de compromisso na justa medida do conflito entre o direito contratual e a realidade do trabalho efetuado.

Essa história tem uma sequência, do lado de Laplanche, do tipo que se transmite de "pai" para "filho" sob a forma de conflitos que transitam de geração em geração, sem nunca se solucionar. O "avô" Lacan dizia: "O que está forcluído do Simbólico retorna no Real". Jean Laplanche tinha criado uma coleção na PUF, Voies nouvelles em psychanalyse, e uma de suas vocações era publicar certas teses de psicanálise. Como a minha, L'inceste focal. Notando que em mais de uma obra publicada havia a seguinte menção: "sous la direction de Jean Laplanche", levei ao conhecimento do pai-Laplanche que isso não me convinha: uma tese é orientada[xi], um livro não. Ele me escutou, não tive dúvida que tinha compreendido, até a publicação... quando encontrei a menção, não na capa, mas na página de rosto.

Não faltaram momentos de amizade com Jean Laplanche, degustando alguns néctares na adega de Pommard ou compartilhando uma boa mesa. O homem sabia rir, comer, beber, dançar e cantar; conhecia de cor todo o repertório de músicas dos vinhedos, e também alguns blues que cantava no original. Ele pediu que me juntasse a ele na PUF para ajudá-lo, me confiando os prefácios a Freud das novas traduções de Quadrige; logo em seguida, inaugurei minha própria coleção, a Petite Bibliothèque de Psychanalyse, objetivando associá-lo. Um dos volumes dessa coleção, L'énigme du masochisme, retoma um de nossos encontros, à imagem e semelhança do que foram nossas discussões ao longo desses anos.

O momento mais forte de nosso entendimento encontra-se nos anos 1990, inseparável da elaboração teórica. Eu estava apaixonado pela questão da feminilidade e propunha uma construção da "feminilidade primitiva" derivada diretamente da teoria da sedução, nos termos em que Laplanche a renovara. Ele que nunca se interessou por essa questão "recuperava" em proveito de sua "generalização" toda uma parte da vida psíquica. A sequência foi mais complicada... nunca nos desentendemos, digamos que beiramos uma desavença. Ele mesmo resumia o assunto com humor: "No fundo o senhor me censura por eu ser laplancheano". Ele tinha razão. Laplanche tornou-se "laplancheano", ele não o foi desde sempre. A virada se deu em 1987, quando saíram os Novos fundamentos para a psicanálise, e a teoria da sedução passa de "restrita" (ao modelo da histeria) à "generalizada" (para todas as formas possíveis da vida psíquica).

Aqui se consumou a fantasia de uma teoria unitária, capaz de dar conta, baseando-se em algumas constantes invariáveis, de todas as "escolhas": neurose, psicose, estado limite... O unitário da teoria é uma fantasia como qualquer outra, nesse caso narcísica. UM é o número de Narciso e da "bela totalidade", a que não suporta nada que transborde. Pessoalmente estou convencido de que esse lugar teórico no qual se poderia abarcar o conjunto dos possíveis da vida psíquica não existe. Do alto do Palatino percebemos todas as Romas, exceto pelo fato de que o Palatino está ele mesmo dentro de Roma. O ponto de vista unitário em psicanálise perdeu-se definitivamente desde o momento em que Freud se viu obrigado a adicionar uma segunda tópica à primeira, tentando fazer frente à complexidade da coisa psíquica. Foi quando as figuras da destrutividade não se sustentaram mais apenas sob o registro do sexual. Isolando-se no interior da teoria, evitando raciocinar a partir do pântano da prática clínica, Laplanche se livrou de enfrentar muitas asperezas.

Ele não se tornou "laplancheano" apenas teoricamente: ocupadíssimo em defender e ilustrar sua obra, isso aconteceu também em suas relações. Num dado momento, era difícil ficar próximo dele, salvo na condição de discípulo. Nada comparável à caricatura do lacanismo, mas ainda assim um eco. Tive oportunidade de ver com que rapidez o investimento de Laplanche podia ser retirado, a ponto de não sobrar nenhum vestígio da antiga afeição, quando alguém já não correspondia mais ao que se espera de um fiel.

A amizade com J.-B. Pontalis foi mais tardia e, é preciso dizer, mais fácil. Ela aconteceu depois de uma experiência de supervisão, portanto bem distante da universidade. As obras que lhe propus em seguida para sua coleção "Tracés", pesquisa fragmentária do que é a originalidade da situação analítica, fizeram da referência clínica uma constante de nossa relação.

A amizade é o assunto de um dos livros de J.-B. Pontalis, Le songe de Monomotapa. Ela foi sobretudo um de seus maiores talentos. J.-B. gostava da amizade e a cultivava. Muitos amigos, verdadeiros, pertencendo a gerações e horizontes diferentes. Nenhum discípulo em contrapartida, com razão. Se certamente existe uma obra, ela nunca se organizou em torno de um núcleo a defender e promover: buscava, ao contrário, o diverso, da reflexão teórica a mais exigente à divagação literária. Não se vê muito bem como alguém poderia ser "pontalisiano".

Certamente não sou o único que esperava, ao abrir Frère du précédent, ler sob a pena de J.-B. uma sequência da aventura do Vocabulário. Uma sequência pessoal, íntima, anedótica, o diabo escondido nos detalhes. Nada disso, apenas uma alusão rápida ao "Laplanche-e-Pontalis", como se ainda fosse muito cedo para contar a história desta dupla, para poder desfazer a cumplicidade. Mais fácil falar dos irmãos Goncourt do que dos irmãos de hoje em dia. Frère du Précédant é mais um livro sobre a "frerocité[xii]" do que sobre a fraternidade. J.-F., irmão mais velho de J.-B., é o personagem principal. Um livro difícil de parir, a enésima réplica de Caim e Abel, escrito mais por necessidade do que por prazer: "Era absolutamente necessário que eu escrevesse este livro". O que não encontra um lugar no livro dos "irmãos" teria encontrado uma saída sub-reptícia num canto da obra? Jeffrey Mehlman pensou isso lendo as aventuras de Julien Beaune (Beaune, Pommard...), o herói de Un homme disparaît. Pontalis lhe deu uma resposta irritada, ao invés de uma reprovação[xiii].

Muitos anos separam a morte de J.-B. do livro enfim cometido... foi também quando Jean Laplanche morreu, no dia de seu funeral, que J.-B. finalmente divulgou seu testemunho. Foi de longe o momento mais emocionante dessa cerimônia um pouco estranha. A cena aconteceu na igreja da pequena cidade de Pommard. Jean Laplanche nunca fez de seu ateísmo um mistério, mas como um bourguignon tradicional ele teria desejado o ritual. Oficiado por um sacerdote mal-humorado, ultrapassado pela circunstância, não faltou um pouco de loucura à cena, divertida em resumo. O "Jean" de J.-B. foi nesse dia acima de tudo o colega de classe no liceu Henri VI, aquela que na época ele apelidava com um gracejo latino: tabula (a prancha). "Inúmeras vezes nos irritamos um com o outro, porém nunca brigamos." Na ocasião do último almoço, J.-B. perguntou a Jean, cuja saúde vacilante tornara sombrio, se ele ainda tinha contato com fulano, amigo de classe em comum: "Sim, ele disse, ele continua contente... como você".



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