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Resumo
Este texto, originalmente uma conferência no Encontro Green da Associação Psicanalítica Argentina (2014), reconstitui o diálogo que André Green manteve com Laplanche. Iniciando-se no Colóquio de Bonneval (1960), ele vai até os primeiros anos do século XXI, quando, já de posse das suas formulações definitivas, ambos se situam em quadrantes bem afastados do campo psicanalítico francês.


Palavras-chave
Green, Laplanche, pulsão, inconsciente, Édipo, psicopatologia psicanalítica.


Autor(es)
Renato Mezan
é psicanalista, membro Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professor titular da PUC/SP, e autor de vários livros, entre os quais O tronco e os ramos: estudos de história da Psicanálise (Companhia das Letras).


Notas
[i] {GREEN, LEITOR DE LAPLANCHE} Não exaustiva, porque limitada aos textos de que disponho em minha biblioteca, a saber seus principais livros monotemáticos e uma boa amostra dos artigos reunidos em coletâneas por ele e por seus editores póstumos: Fernando Urribarri, Litza Guttierez-Green e Ana de Staal.

[ii] Cf. "Jean Laplanche: sur la théorie de la séduction", in A. Green, Penser la psychanalyse avec Bion, Lacan, Winnicott, Laplanche, Aulagnier, Anzieu, Rosolato, p. 93.

[iii] E. Roudinesco, Histoire de la psychanalyse em France, vol. II, p. 317-318.

[iv] Cf. H. Ey (org.), VI Colloque de Bonneval: L'Inconscient. Tradução castelhana em El Inconsciente (Coloquio de Bonneval), p. 9-39.

[v] Cf. Le même et l'autre: quarante-cinq ans de philosophie française, 1933-1978.

[vi] O estudo completo encontra-se reproduzido ao final do IV volume das Problématiques (L'inconscient et le ça). Por ser mais facilmente acessível que o volume organizado por Ey, cito-o nessa edição, na qual a fórmula de Laplanche figura à p. 263.

[vii] Para uma descrição sumária das operações conceituais que levam Lacan a "dotar a Psicanálise de uma teoria não freudiana do sujeito, atribuindo ao inconsciente a estrutura de uma linguagem na qual o Je é definido como um efeito de significante", cf. E. Roudinesco, Histoire..., vol. II, capítulo "Naissance du lacanisme", p. 304-317.

[viii] Cf. C. Stein, "Le langage et l'inconscient", in: La mort d'Oedipe, p. 117-142.

[ix] C. Stein, op. cit., p. 132-133. Como o e final de plage é mudo, a palavra pronuncia-se "plaj".

[x] R. Major, "Bonneval 1960: Le jeune Stein", p. 59-72.

[xi] "Las puertas del inconsciente", in: El Inconsciente..., p. 32.

[xii] "Las puertas", p. 34. E elogia Stein por, em seu texto, estabelecer uma diferença entre a estrutura edípica do inconsciente e o que se chamará, em L'Enfant..., o "conteúdo dramático do complexo de Édipo".

[xiii] A. Green, Associations (presque) libres d'un psychanalyste: entretiens avec Maurice Corcos, p. 289.

[xiv] A. Green, op. cit., p. 285 e 289.

[xv] A. Green, "El objeto a de Lacan y la teoria freudiana", in: Objeto, castración y fantasia en el psicoanálisis, p. 27.

[xvi] A. Green, "El objeto a...", nota 12, p. 41.

[xvii] Ou dela sair batendo a porta, como Piera Aulagnier após a instituição do passe.

[xviii] As ex

[xix] Cf. respectivamente, o depoimento de Laplanche a E. Roudinesco, Histoire..., vol. II, p. 324; e a Introdução de Sobafastar-se de uma hipótese que ele só aceitava pela metade".

[xx] É o que diz a Maurice Corcos no último capítulo de Associations..., p. 307.

[xxi] O discurso vivo, p. 126, nota 18. É possível que essa obser

[xxii] Cf. Green et alii, A pulsão de morte.

[xxiii] Em O homem dos lobos, início do capítulo V. Cf. Aus der Geschichte einer infantilen Neurose - der Wolfsmann, vol. VIII, p. 166; Una neurosis infantil - el hombre de los lobos, vol. II, p. 1965.

[xxiv] "Pourquoi le mal?" (1988), in : La folie privée. Tradução castelhana em La nueva clínica psicoanalítica y la teoría de Freud, p. 192. O texto também figura em On Personal Madness, e portanto na versão brasileira, Sobre a Loucura Pessoal.

[xxv] "Jean Laplanche: sur la théorie de la séduction", in: Penser la psychanalyse avec..., p. 91-104.

[xxvi] Em seu comentário de Bonneval, Stein também assinalava

[xxvii] Associations..., p. 311. A crítica é forte, mas talvez seja um

[xxviii] "Jean Laplanche ...", p. 104.



Referências bibliográficas

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Selaibe M.; Carvalho A. (orgs.) (2014). PsicanáliseEntrevista: as entrevistas de Percurso. São Paulo: Estação Liberdade.

Stein C. (1977). Le langage et l'inconscient. In ____. La mort d'Oedipe. Paris: Denoël-Gonthier (Bibliothèque Médiations).





Abstract
This paper, originally a lecture at the Green Symposium organized by the Argentinian Psychoanalytical Association (Buenos Aires, 2014), follows the dialogue between André Green and Jean Laplanche. Starting at the Bonneval Symposium on the Freudian unconscious (1960), it goes on for fifty years, until the first decade of this century, when – having formulated their respective final positions – the two authors find themselves in very distant areas of the French psychoanalytic field.


Keywords
Green, Laplanche, instincts, unconscious, Oedipus, psychoanalytic psychopathology

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 TEXTO

Green, leitor de Laplanche

André Green as a reader of Laplanche
Renato Mezan

Quem se aproxima dos escritos de André Green percebe imediatamente a grande importância conferida ao diálogo com autores que o precederam no exame das questões em pauta. Referências exatas, notas abundantes, comentários ora apreciativos, ora críticos, mas sempre precisos, por vezes discussões mais pormenorizadas desta ou daquela posição no próprio corpo do texto: trata-se de um leitor atento, que não hesita em pôr à prova seus pontos de vista confrontando-os com as ideias alheias. Mais do que isso, até: Green procede assim porque acredita que a história da Psicanálise merece ser levada em conta, pois nela se organizaram e dela decorrem concepções distintas do que é a psique, do que é possível dizer sobre sua estrutura, seu funcionamento e seus desarranjos, sobre o alcance e os limites das intervenções do psicanalista nos fenômenos a que tem acesso no trabalho com seus pacientes.

 

Naturalmente, a maioria dessas citações se refere aos três pensadores que considera seus mestres - Lacan, Winnicott e Bion - mas há um número considerável de menções a autores da sua geração, e também mais recentes. Entre essas, uma pesquisa não exaustiva revela mais de vinte a Jean Laplanche[i]. É dizer o interesse que conservou pelo pensamento dele por uns bons cinquenta anos; interesse que não exclui discordâncias quanto a pontos importantes, mas sempre em tom respeitoso, apropriado a um debate de ideias que começa por situar a opinião do outro, prossegue tentando compreender as razões que o levaram a adotá-la, e culmina com uma avaliação à luz tanto da sua consistência interna quanto da sua adequação aos dados que ambos compartilham: textuais (particularmente no que se refere à leitura de Freud), e da clínica (esta filtrada pelo prisma da experiência do próprio Green, e das concepções a que chegou refletindo sobre ela). Sirva como exemplo dessa atitude a abertura de uma fala de 2001, na qualidade de debatedor de uma conferência do colega:

 

A síntese proposta por Jean Laplanche sobre a questão da identidade sexual nos aparece como uma reformulação dos pilares da teoria psicanalítica. [...] Sua exposição é rigorosa e rica em ideias novas. Revela sua arte de construir um objeto teórico e de dar a ele as melhores chances de seduzir. Tive bastante interesse e prazer nessa discussão. Embora minha posição seja um pouco diversa, limitar-me-ei aqui a discutir a dele. Comecemos pelas questões levantadas [...][ii].

 

Talvez a frase inicial acerca da "reformulação dos pilares da teoria analítica" nos dê uma pista acerca dos motivos que mantiveram aceso o interesse de Green pelos caminhos de Laplanche: da sua obra, também se pode dizer que constitui, senão uma reformulação, ao menos um considerável esforço de esclarecimento e fundamentação da Psicanálise, com vistas a assentá-la em bases sólidas ("pilares"?) e a ampliar sua capacidade de compreender (e eventualmente modificar) aspectos do funcionamento psíquico pouco abordados por Freud e seus seguidores imediatos. Mas também se deve notar que tal interesse não surgiu com a dita "reformulação", isto é, com a proposta por Laplanche da teoria da sedução generalizada (1987). Parafraseando Napoleão diante das pirâmides do seu Egito natal, naquela noite de 2001 Green poderia dizer que "quarenta anos nos contemplam": com efeito, sua primeira análise de um texto de Laplanche data de 1960, quando, junto com Conrad Stein, lhe coube comentar o relatório redigido por aquele e por Serge Leclaire: "O inconsciente - um estudo psicanalítico".

 

1. O Colóquio de Bonneval

Foi em 1956, nos conta Elizabeth Roudinesco em sua História da Psicanálise na França, que o psiquiatra Henri Ey decidiu dedicar a edição de 1960 dos encontros que costumava organizar na abadia de Bonneval a um debate entre filósofos, psiquiatras e psicanalistas a propósito do inconsciente freudiano[iii]. Como ponto de partida, e levando em conta que na época a Psicanálise francesa se apresentava dividida em duas organizações estanques - a Sociedade Psicanalítica de Paris e a Sociedade Francesa de Psicanálise - cada uma poderia apresentar sua visão do tema, a ser confrontada com exposições de filósofos prestigiosos e de psiquiatras respeitados.

 

Por que essa proposta? Sem repetir o que a historiadora narra com riqueza de detalhes, convém dar uma ideia dos contextos intelectual e político nos quais ela se inscrevia. O centro de ambos é a figura de Jacques Lacan: teoricamente, porque naquele momento o "retorno a Freud" já produzia frutos que tornavam impossível ignorar a reinterpretação da obra fundadora associada ao nome dele (e portanto "inconsciente freudiano" significava "relido por Lacan"); politicamente, porque era entre os que o seguiam (SFP) e os que o abominavam (SPP) que passava a linha divisória.

 

Visando a evitar que o colóquio se tornasse uma arena de combate para os analistas da geração então no poder (Sacha Nacht e Maurice Bouvet na SPP, Lacan e Daniel Lagache na SFP), Ey pediu os relatórios de base a quatro jovens lobos: Serge Lebovici e René Diatkine apresentaram o ponto de vista da SPP, Laplanche e Leclaire o da SFP. Os debatedores deste último também foram escolhidos a dedo: tanto Stein como Green, embora pertencendo à SPP, interessavam-se pelo pensamento de Lacan, e em sua Sociedade eram vistos como capazes de terçar armas em igualdade de condições com os representantes do grupo adversário. Ambos apresentaram textos voltados para o tema do momento - a natureza do inconsciente -, embora ele esteja refletido muito mais no estudo dos "dois L" que no de Lebovici/Diatkine. E é por isso que podemos dizer que o marco inicial da leitura de Laplanche por Green está no texto que este intitulou "Les portes de l'inconscient"[iv].

 

Antes de apresentar brevemente o relatório de Laplanche e Leclaire, uma palavra sobre os psiquiatras e os filósofos que participaram do evento. Entre os primeiros contavam-se George Lantéri-Laura, Julian Ajuriaguerra e o próprio Henri Ey, todos representantes de uma psiquiatria humanista, e, sob certas reservas, aberta à discussão com os analistas. Os filósofos - Merleau-Ponty, Jean Hyppolite, Alphonse de Waelhens, Henri Lefebvre, Paul Ricoeur - eram a fina flor do pensamento francês da época, balizado pelo que Vincent Descombes chamou "os 3 H": Hegel, Husserl e Heidegger[v]. Sem entrar em detalhes aqui supérfluos, é importante assinalar que a leitura francesa dos dois primeiros privilegia a consciência como foco do humano - é a tendência fenomenológica, que de modo geral via no inconsciente apenas mais uma forma de intencionalidade, de "visar o objeto", e recusava a concepção freudiana do inconsciente por ser maculada ao mesmo tempo pelo naturalismo (as forças psíquicas) e pela abstração - ideias exemplificadas entre outros pela Crítica dos Fundamentos da Psicologia de George Politzer, a cujo exame e refutação Laplanche e Leclaire dedicam o primeiro capítulo do seu estudo. Já a temática heideggeriana do Ser revelando-se através do Logos (razão/linguagem) se afastava desse primado da consciência, e por isso mesmo servia como uma das bases para Lacan edificar seu próprio pensamento (no "Discurso de Roma", por exemplo, é visível a sombra de Heidegger nas ideias de "fala plena" e "fala vazia").

 

O estudo de Laplanche e Leclaire apresenta a curiosa característica de que cada autor assina partes separadas, e a bem dizer bastante heterogêneas. Os capítulos I, II e IV são de Laplanche, o III e o V de Leclaire. Este analisa o famoso "sonho do unicórnio" de seu paciente Philippe, e, seguindo à risca a tese de Lacan sobre o inconsciente estruturado como uma linguagem, busca extrair dessa análise o que possa ser útil na clínica. Por sua vez, Laplanche demonstra sérias reservas a essa mesma teoria, e postula que, "mais do que uma linguagem, o inconsciente é a condição da linguagem"[vi].

 

Para chegar a essa conclusão, Laplanche relê com lupa o artigo "O inconsciente" da Metapsicologia (1915). Insiste em que Freud formula aí uma teoria que distingue cuidadosamente as representações de coisa (Sachvorstellungen), situadas no inconsciente e obedecendo às leis do processo primário, enquanto as representações de palavra (Wortvorstellungen), que constituem a linguagem, situam-se no pré-consciente e se encontram submetidas ao processo secundário. Mas não recusa in toto a elaboração lacaniana, que assimilara certas figuras da retórica aos mecanismos do processo primário (metáfora/condensação, metonímia/deslocamento), e, numa reinterpretação pessoal tanto do conceito saussuriano de significante quanto da análise da linguagem efetuada por Roman Jakobson, constituíra sua noção da "cadeia significante" que desliza incessantemente sob o universo dos significados[vii].

 

Numa leitura bastante original, Laplanche serve-se do conceito lacaniano de metáfora paterna para dar conta da origem do inconsciente, que em Freud se deve ao mecanismo da repressão primária. Uma detalhada análise da estrutura da metáfora, com seus "quatro andares", conduz à reconstrução da gênese do inconsciente por meio dos "significantes-chave", em cuja rede é capturada a energia até então livremente circulante da pulsão (teoria lacaniana dos "points de capiton"). Vem em seguida a repressão secundária, que separa o inconsciente do sistema Pcs/Cs e lhe assegura um funcionamento particular.

 

O resultado do movimento conceitual realizado por Laplanche é ambíguo: uma teoria fortemente freudiana da linguagem, vazada num vocabulário lacaniano que segundo o autor não faz justiça a pontos fundamentais dessa mesma teoria - razão pela qual é necessário inverter (subverter?) a relação proposta por Lacan entre inconsciente e linguagem: mais do que estruturado como uma linguagem, ele deve ser concebido como "condição mesma da linguagem". "Posição desconfortável", assinala com razão Elizabeth Roudinesco, e, apesar das aparências, pouco apta a servir de fundamento conceitual para a ilustração clínica trazida por Leclaire (o que a meu ver explica por que este foi levado a escrever seu próprio capítulo teórico, o V).

 

O relatório dos dois membros da SFP foi comentado por Conrad Stein, e é ilustrativo comparar o texto deste com a crítica de Green. Stein se detém bem mais no sonho do unicórnio do que nas ideias de Laplanche, com as quais está basicamente de acordo: também pensa que a teoria lacaniana do inconsciente estruturado como linguagem é inaceitável tal e qual, se nos ativermos à concepção freudiana tanto do inconsciente quanto da linguagem[viii]. Uma importante objeção se refere ao papel e ao lugar do significante plage (praia), que segundo Leclaire é o núcleo da cadeia significante própria a Philippe: para Stein, tal função cabe bem mais ao fantasma "Philippe-j'ai-soif" (Philippe tenho sede), e é a conexão deste com o termo plage, por meio do fonema "j", que lhe permite vir a formar um "núcleo do inconsciente". Na opinião de Stein, em hipótese alguma o conteúdo do inconsciente pode ser constituído por palavras: encerra algo semelhante a fonemas isolados, ou no máximo "grupos de fonemas". Mas atenção:

 

que o significante Philippe-j'ai-soif seja submetido à repressão não significa em absoluto que a frase formada pelas palavras "Philippe j'ai soif" será constitutiva do inconsciente elementar, mas sim o fantasma do desejo da mãe, que podemos designar assim faute de mieux, já que precisamos falar com palavras. Quanto à palavra "sede", embora se torne no sistema pré-consciente uma metonímia deste desejo, nada prova que no interior do fantasma ele tenha uma existência como elemento constitutivo capaz de ser isolado, enquanto temos bons motivos para crer, ao contrário, que o fonema "j" - (de j'ai), que voltamos a encontrar em plage - é um núcleo privilegiado dele[ix].

 

Coloco aqui esses comentários de Stein - que serão desenvolvidos em seu livro de 1970, L'Enfant imaginaire - tanto para tornar sensível ao leitor quanta importância se atribuía à fórmula (então ainda nova, segundo René Major)[x] do inconsciente estruturado como linguagem enquanto via para um acesso melhor (ou não) ao inconsciente, quanto - e principalmente - para ressaltar a distância que os separa da crítica de Green.

 

Esta não vê, no fundo, oposição significativa entre Laplanche e Lacan quanto à relação inconsciente/linguagem: "descobrimos com Laplanche e Leclaire que, se o inconsciente se estrutura como linguagem [...], é precisamente o inconsciente, a cadeia inconsciente, que permite fundar a linguagem. Pois o inconsciente, embora esteja estruturado como uma linguagem, não é linguagem". Resume a seguir as ideias de Laplanche sobre a repressão, e encadeia com a primeira formulação de algo que se tornará capital no seu pensamento maduro: "encontramo-nos aqui frente a uma heterogeneidade qualitativa dos processos inconscientes, como aliás afirma a teoria freudiana com o postulado de dois tipos diferentes de repressão: originária e secundária"[xi].

 

Em 1960, Green está fascinado com a potência mobilizadora do pensamento lacaniano, que elogia mais para o final do seu texto (p. 36-37 da edição argentina). Mas isso não o impede de pôr o dedo numa ferida que, até onde posso perceber, ele foi o primeiro a identificar:

 

A perspectiva estrutural de Laplanche e Leclaire só leva em conta o representante pulsional [ideativo, RM] como expressão da pulsão, e deixa na obscuridade mais completa o destino da carga afetiva, sobre a qual nada nos é dito. Ora, são as transformações sofridas por esta que exprimem, através da identidade dos conteúdos e dos significantes, a força adquirida pelo retorno do reprimido sob a forma da angústia pura, do fantasma, do sintoma, do traço de caráter. A distinção insuficiente das representações de coisa e das representações de palavra deixa imprecisa a relação da imagem com a representação de coisa. A repressão que separa a essas duas situações da representatividade imaginária vai permitir, por sua mera ação, compreender a diferença entre elas.

 

E, após insistir no enraizamento corporal da pulsão, conclui na página seguinte: "continua a ser necessário, portanto, estudar as relações de força. Essas relações só podem ser apreendidas dentro da situação edípica, ao mesmo tempo campo de força e campo de sentidos"[xii].

 

Dois temas das futuras investigações de Green estão aqui anunciados: a heterogeneidade/complexidade da psique, e a questão basilar do afeto. Nesse momento de sua trajetória, a crítica não se estende a Lacan: permanece restrita aos seus discípulos. O interesse pelo pensamento de Lacan o leva, após o "Trafalgar da SPP" que foi o colóquio de Bonneval[xiii] - pois o centro das discussões foi o mais temível adversário dela, frente ao qual os líderes da SPP faziam figura de anões intelectuais -, a resolver frequentar o Seminário, no qual permanece de 1961 a 1967. Lacan procura seduzi-lo de todas as formas, convencê-lo a deixar a SPP e se filiar ao seu grupo; Green resiste, e a Maurice Corcos dirá que "esta foi a sorte da minha vida [...]; era preciso não cair sob suas garras"[xiv].

 

É curioso notar que, alguns anos depois, ele se encontrará numa situação análoga à de Laplanche em Bonneval: exprimir num vocabulário lacaniano uma profunda discordância com a teoria lacaniana. Refiro-me a "O objeto a de Lacan e a teoria freudiana", uma exposição feita no Seminário em 1965 e publicada no número 3 da revista Cahiers pour l'analyse, dirigida por Jacques-Alain Miller. Se para Laplanche o pomo da discórdia era a relação entre inconsciente e linguagem, para Green será o descaso do mestre para com o afeto, discutida na parte III do trabalho. Retomando - como Laplanche em seu estudo de Bonneval - as distinções freudianas de "O inconsciente", ele afirmará: "no final da obra de Freud, o afeto adquire o estatuto de um significante"[xv].

 

Mas, como bom leitor, acrescenta duas páginas depois: "o que especifica o afeto é que este não pode entrar em nenhuma combinatória". Portanto, não passa pelas conexões do pré-consciente, ou seja, pela linguagem: exprime-se diretamente. Então, como pode ser um significante? A resposta é pouco consistente: no "Esquema de Psicanálise" (1938), falando da clivagem do ego no fetichismo, Freud afirma que a percepção da vagina é recusada (verleugnet), enquanto o afeto correspondente é verdrängt (reprimido). Ora, se apenas um significante pode sofrer esse destino, "possivelmente seja necessário deduzir que o afeto corresponda a esta mesma categoria" (p. 28), ou seja, é também um significante.

 

E é nessa ocasião que, numa nota de rodapé, acrescentada posteriormente, volta a Laplanche em Bonneval:

 

Já havia chamado a atenção para este ponto em minha crítica do relatório de Laplanche e Leclaire [...]. No entanto, resulta claro que se trata de dois tipos diferentes de significante. Ou seja, devemos manter o afeto em sua especificidade como descarga, e considerar ao contrário o representante [ideativo da pulsão, RM] como produção, produção na medida em que penetra num sistema de transformação combinatória[xvi].

 

É evidente que Green já está no caminho que o conduzirá ao grande trabalho sobre o afeto, apresentado em 1970 no Congresso de Psicanalistas de Línguas Românicas de Paris, e publicado em 1973 com o título Le Discours vivant. O que se passou entre 1960 e 1970? Muita coisa, da qual só podemos dar aqui uma notícia rápida. A principal foi a cisão de 1963, que levou ao fim da SFP e ao surgimento tanto da APF (Association Psychanalytique de France, à qual se filiou Laplanche) quanto da EFP (École Freudienne de Paris, o grupo propriamente lacaniano, do qual passou a fazer parte Leclaire). Já distante - ao menos quanto à pertinência institucional - de Lacan, Laplanche pôde acrescentar ao seu Estudo uma longa nota, na qual é bem explícito sobre a divergência com o mestre, que na época do Colóquio de Bonneval ainda estava em seus primeiros estágios.

 

Ela se encontra nas páginas 261-263 de L'Inconscient et le ça. Ali lemos que "enunciar apressadamente que o deslocamento freudiano é a metonímia, e a condensação a metáfora, é silenciar muitos desenvolvimentos que devemos tanto a Freud quanto aos linguistas; é saltar, para dizer o mínimo, um bom número de mediações" (p. 262). E menciona uma série de outros problemas "silenciados" por Lacan, entre os quais o da relação entre vários tipos de linguagem, o da ligação - que remete ao ego -, etc.

 

Ou seja: às vésperas da publicação das comunicações de Bonneval - que teve lugar somente seis anos após o evento, e para a qual Lacan redige o artigo "Position de l'inconscient", no qual finalmente responde a Laplanche, recusando a tese de que o inconsciente seja condição de linguagem, e reiterando a sua - tanto Green quanto Laplanche apresentam ao público o que podemos considerar como o primeiro momento das suas obras maduras. Certamente diz algo sobre o tempo necessário para que intuições inicialmente apenas pressentidas como verdadeiras atinjam esse grau de consistência que ambos - assim como Stein - só tenham encontrado sua voz própria dez anos após as jornadas na abadia: Vie et mort en psychanalyse (Laplanche), Le Discours vivant (Green), L'Enfant imaginaire (Stein) vêm à luz quase simultaneamente, em 1970, praticamente na mesma data em que Leclaire publica a versão definitiva da sua interpretação do sonho do unicórnio (em Psychanalyser). Dele e de Stein, não voltaremos a falar em detalhe no presente artigo; quanto aos nossos dois interlocutores, voltarão a aparecer - bem mais Laplanche sob a pena de Green do que vice-versa, é preciso reconhecer - em campos opostos, a propósito de diversas questões relevantes no âmbito da Psicanálise.

 

2. Da ruptura com Lacan à década de 1980

Tanto Green quanto Laplanche fazem parte de um grupo de analistas que durante alguns anos estiveram próximos de Lacan, mas acabaram por romper com ele no decorrer da década de 1960. A bem dizer, não é um grupo no sentido convencional, pois não vieram a se unir sob uma bandeira coletiva capaz de os identificar como tal: a comunidade entre eles reside mais no fato de terem percebido a importância e a fecundidade do retorno a Freud promovido pelo "Robespierre da Psicanálise", como o chama Elizabeth Roudinesco, de terem absorvido muitos aspectos do seu ensino, mas, por motivos a um tempo pessoais, teóricos e clínicos, se negarem a -aderir à instituição lacaniana[xvii]. Refiro-me, além dos nossos dois personagens, a Conrad Stein, Joyce McDougall, Piera Aulagnier, Jean-Bertrand Pontalis e a uma série de outros, cujas obras evoluirão em direções nem sempre convergentes, mas sempre originais, claramente marcadas pelo que seus autores aprenderam com Lacan. Trazem também, todas, a marca da recusa em aceitar a fidelidade incondicional que este exigia dos seus adeptos, a qual acabou por transformar muitos deles em "papagaios" e "cordeiros"[xviii], e coincidem em condenar o modus operandi lacaniano na clínica, pelas liberdades excessivas que toma em relação ao enquadre e pelas consequências disso na condução do tratamento.

 

Como vimos, Laplanche deixa a nau lacaniana na cisão de 1963, enquanto Green jamais embarcou nela. Do ponto de vista pessoal, ambos indignaram-se com a reação do mestre às suas primeiras elaborações originais - para o primeiro, o silêncio quanto à proposta do inconsciente como condição da linguagem, e para o segundo, a reclamação de que suas ideias teriam sido pouco consideradas no artigo "Le narcissisme primaire: structure ou état"[xix].

 

Os caminhos vão se separando em função das circunstâncias políticas, mas também dos interesses teóricos e clínicos, e da dinâmica de toda pesquisa autêntica, que, impelida pelo que chamei há pouco "intuições pressentidas como verdadeiras", se desdobra em múltiplas linhas, cuja trama só se torna visível num momento bem posterior ao dos seus inícios. É certamente o caso das investigações de Laplanche, e também das de Green: se alguns dos seus temas já se anunciam nos primeiros escritos de maior fôlego, nem eles nem seus leitores podiam prever a que horizontes chegariam cinco décadas depois.

 

O mesmo vale para Lacan. Desde 1963, o Seminário tem lugar na École Normale Supérieure; ali ele fala a um público novo, que o acolhe com entusiasmo: os jovens filósofos. Para Green, esta é uma das razões pelas quais sua elaboração vai ganhando um matiz mais e mais formalista, com os matemas e os nós borromeanos vindo à frente do palco, antes ocupado pela letra e pelo significante[xx].

 

Do seu lado, Laplanche se dedica com Pontalis à elaboração do Vocabulário de Psicanálise, cuja publicação em 1967 conhecerá um enorme sucesso (Green o cita com alguma frequência, e a meu conhecimento nada tem a objetar a ele). Em seguida, empreende a leitura "histórica, problemática e crítica" de Freud proposta em "Interpréter avec Freud" (1965), que resultará em Vie et mort en Psychanalyse, e depois na série das Problemáticas, que resumem seus cursos em Paris VII. Também tomará a si a tarefa hercúlea de traduzir a obra de Freud segundo princípios a seu ver mais sólidos que os das versões existentes, tradução essa que provocou polêmicas sobre as quais não é o momento de nos estendermos.

 

Mesmo essa referência sumária ao seu percurso permite ver quanto os interesses de Laplanche se situam em quadrantes do universo analítico que pouco têm a ver com aqueles que intrigam e apaixonam André Green. O terreno comum a ambos é, obviamente, o escrutínio permanente da obra freudiana, porém pelo prisma de questões bastante diferentes.

 

A partir da convicção de que era preciso reparar o descaso de Lacan para com o afeto, e sempre voltado para os enigmas da clínica, Green encontra o seu campo de investigação privilegiado nas organizações não neuróticas, e descobre na Psicanálise britânica instrumentos para estudá-las de modo mais satisfatório do que com aqueles que recebera de Lacan. Artigo após artigo saem da sua pena infatigável, conduzindo-o a construir uma metapsicologia cada vez mais sofisticada, na qual pouco a pouco vêm se encaixar uma teoria da representação e da linguagem, uma teoria dos limites, uma ampla reflexão sobre o trabalho do negativo, e hipóteses derivadas das conclusões a que chegara quanto a essas questões. Por sua vez, tais conclusões abrem perspectivas novas, ou o obrigam a rever tópicos já tratados. Com isso, Green acaba por cobrir boa parte do que se poderia chamar o território psicanalítico.

 

A meu ver, é o fato de - embora circulando em regiões diferentes desse território - vez por outra se aproximarem ou se cruzarem, que determina ao que, na obra de Laplanche, Green será sensível a ponto de a citar explicitamente. Vejamos então alguns exemplos dessas menções; a maioria consiste em referências bibliográficas em nada diversas das centenas feitas por nosso autor à literatura especializada, enquanto outras se detêm um pouco mais nas posições de Laplanche.

 

  a.  em Un oeil en trop: étude psychanalytique de la tragédie (1969), Green analisa o artigo de Hölderlin sobre Édipo (intitulado, na tradução francesa, "Remarques sur Oedipe"). Laplanche dedicou sua tese ao poeta alemão (Hölderlin et la question du père); Green a leu, porém sem se entusiasmar, e só a menciona numa nota de rodapé (p. 273, nota 63).

  b.  O discurso vivo (1970): na bibliografia sobre o afeto, refere-se ao artigo conjunto de Laplanche com J. B. Pontalis, "Fantasme originaire, fantasme des origines, origine du fantasme", ao Vocabulário, e a um texto do colega publicado na Revue Française de Psychanalyse n. 33 (1969), "Les principes du fonctionnement psychique". A bibliografia "complementar" indica dois outros trabalhos: "La défense et l'interdit" (La Nef 21, p. 43-65, 1967) e "La position originaire du masochisme dans le champ de la pulsion sexuelle" (Bulletin de l'APF no 4, p. 25-33, 1969). Na seção "Posições teóricas sobre o afeto nos trabalhos franceses", que contém uma forte crítica a Lacan, Laplanche aparece como que obliquamente, numa curta nota sobre o relatório de Bonneval: "[o exame detalhado do sistema teórico de Lacan] foi o que fizemos já em 1960, no colóquio de Bonneval, onde [...] iniciamos a discussão das posições de Lacan através dos trabalhos de J. Laplanche (cujas posições evoluíram desde então) e de S. Leclaire"[xxi].

  c.  Narcissisme de vie, narcissisme de mort (1983): nesta coletânea, que aborda um tema também tratado por Laplanche em Vie et mort en psychanalyse, encontramos (além de referências apenas bibliográficas à tese deste sobre o narcisismo primário) uma crítica da concepção laplancheana do autoerotismo. Está no artigo sobre o narcisismo primário (datado de 1966-67), e seu foco é que em "Fantasme des origines" Pontalis e Laplanche não levam em conta a distinção freudiana entre "pulsões capazes de encontrar uma satisfação no próprio corpo do sujeito" e "aquelas que não podem dispensar o objeto" (p. 112-113). Segundo Green, isso impede ligar o autoerotismo ao desejo, que é sempre desejo de contato com o objeto, e invalida a afirmação deles de que "o caráter autoerótico da pulsão é produto anárquico das pulsões parciais". Aqui aparece um tópico ao qual Green voltará em anos posteriores: a maneira a seu ver insuficiente com que Laplanche conceitua a pulsão.

  d.  como se poderia esperar, a discordância aparece também quanto à natureza da pulsão de morte, sobre a qual ambos deram conferências num simpósio de 1984[xxii]. Para Laplanche, as "pulsões sexuais de morte" são uma espécie do gênero pulsões sexuais, a outra sendo as "pulsões sexuais de vida". Já Green assinala no Todestrieb sobretudo o que chamará de "função desobjetalizante", numa concepção que a articula ao trabalho do negativo, do qual esta função é uma das expressões. É o tema do desligamento, do qual ele tirará - numa vertente diversa - o partido que se sabe em seus estudos de Psicanálise aplicada à literatura (La déliaison).

  e.  em On Personal Madness, retorna a menção a Bonneval (no Índice Remissivo, p. 387 da edição brasileira pela Imago), e surge uma referência à edição americana de Vie et mort..., já que o livro é destinado ao público britânico.

 

O que se pode dizer desse conjunto de referências? Não muito: comprovam que cada um está ocupado com seu próprio jardim, e que de vez em quando Green lança um olhar sobre o muro para ver como Laplanche rega o seu. Duas questões somente motivam uma menção mais detalhada - o narcisismo e a pulsão - porém nenhuma excede algumas linhas. É que nas décadas de 1970 e 1980 Laplanche foi elaborando seu pensamento sob a forma de um amplo comentário de Freud - ou seja, retomando à sua maneira o programa lacaniano de retorno ao mestre - enquanto Green, talvez mais audacioso, ia se enfrentando diretamente às questões que lhe pareciam essenciais, e propondo para elas soluções de grande originalidade. Um pouco como a baleia e o urso polar na célebre metáfora de Freud[xxiii], eles simplesmente não tratam das mesmas coisas, o que explica por que nenhum dos dois sentiu a necessidade de se estender sobre os escritos do outro.

 

3. "Um pensamento rico e elegante... mas será convincente?"

Nos textos das décadas de 1990 e 2000, porém, assistimos a uma mudança nesse padrão. Por um lado, o esforço dos anos anteriores levou Green a edificar um arcabouço teórico que, a seus olhos, respeita a heterogeneidade/complexidade da psique, e que não parece ter recebido acréscimos importantes após os meados dos anos 1980. Por outro lado, em 1987 Laplanche publica Nouveaux fondements pour la psychanalyse, livro no qual enuncia a teoria da sedução generalizada, que se dedicará a completar até o final da sua vida. Claramente, trata-se de duas visões sobre o conjunto da Psicanálise que, sem serem contraditórias, estão longe de ser concordantes. É isso que, a meu ver, oferece a Green a oportunidade de discutir com Laplanche num patamar diferente do que até então, pois se defronta com um pensamento cuja ambição é comparável à do seu.

 

Já em 1988, em "Por que o mal?", faz um movimento nesse sentido, no contexto de uma análise da sexualidade normal e anormal:

 

por mais que se afirme que Freud, no final de sua vida, retomou a teoria da sedução através dos cuidados oferecidos pela mãe, a primeira sedutora da criança, como recentemente fez J. Laplanche [...], não se esgotará com isso o caráter específico, singular e desviado do trauma sexual propriamente dito, nem se relativizará a importância dele dentro de uma concepção global dos traumas cumulativos (Masud Khan)[xxiv].

 

Retomando o problema do Édipo e da castração em Le complexe de castration (1990), Green pontilha seu texto com referências geralmente elogiosas ao volume II das Problématiques (Castration, symbolisations). Subscreve, por exemplo, a distinção proposta por Laplanche entre sexo e gênero, este estabelecendo a diferença masculino/feminino a partir de uma atribuição feita pelos adultos, enquanto a distinção fálico/castrado provém de uma fantasia da própria criança (p. 34). Também cita com aprovação os trechos do livro em que Laplanche discute as feridas simbólicas, em particular a circuncisão (p. 55 ss), e a teoria rankiana do trauma do nascimento (p. 56). A concordância é explícita em relação ao complexo de Édipo:

 

com Jean Laplanche, podemos concluir sobre a especificidade do complexo de Édipo segundo três coordenadas: desenvolvimento (coroamento da sexualidade infantil), visão estrutural (teoria sexual que introduz um princípio de ordem capaz de tornar inteligíveis as relações humanas), perspectiva "dramatizante" (heterossexualidade, aceitação da castração - esperança e promessa). (p. 62-63).

 

Uma leve ressalva aparece à p. 92, com relação à pluralidade dos registros em que se pode falar de castração - "Lacan (e Laplanche) a reduzem ao registro simbólico, mas também é possível falar de castração imaginária (contos, mitos) e real (acidentes, cirurgias)".

 

Mas essa não é a última palavra de Green quanto às ideias do colega. Em 1992, no artigo "Oedipe, Freud et nous" (in La Déliaison), lemos o seguinte:

 

No momento em que diversas reavaliações do Édipo - entre as quais a de Lacan figura em posição eminente - minimizam o seu alcance (e agora, parece, também Laplanche), nossa preocupação terá sido mostrar ao contrário seu valor de conceito capital, que não depende em absoluto das modas e dos costumes (p. 143).

 

Uma crítica mais contundente aparece no artigo "Le cadre psychanalytique: son intériorisation chez l'analyste", de 1997. Ela concerne ao centro mesmo da teoria da sedução generalizada, que Green inclui entre as "outras concepções do inconsciente". Vale citá-la in extenso:

 

Inversão (ou: derrubada - renversement) da pulsão: a concepção de J. Laplanche enfatiza os vínculos inter-humanos, cuja especificidade não seria, segundo ele, suficientemente esclarecida na teoria freudiana. Para ele, a comunicação do sentido exala sempre um odor de alienação. O Outro - conceito de Lacan - vem tomar o lugar da fonte pulsional. O Outro é vetor de um sentido enigmático, em primeiro lugar para si mesmo. Embora aqui se proceda a um enriquecimento da comunicação, em troca nos desembaraçamos da noção de força. Sob o pretexto de que a força é um fator que simplifica a psique, essa crítica da força se generalizou. Em minha opinião, é exatamente o contrário!

 

O grau de divergência teórica entre ambos, que agora concerne a questões fundamentais da Psicanálise (pulsão, Édipo, inconsciente...), não impede que Green aceite ser debatedor de Laplanche na conferência de 2001 sobre a teoria da sedução mencionada no início do presente artigo[xxv]. Sem prejuízo da cortesia e do respeito pela estatura intelectual de Laplanche, o texto aborda em detalhe os pontos-chave de um debate que já durava então uma década: a questão da pulsão, o sentido do "infantil", o papel do recalque na criação do inconsciente (ainda os ecos de Bonneval...), a gênese da identidade sexual. Green se serve de outros trabalhos (recentes) de Laplanche, demonstrando mais uma vez o cuidado com que monta seus argumentos, e o esforço para compreender "de dentro" os motivos das ideias que critica. De passagem, indica seus critérios para adotar ou recusar determinada posição num debate psicanalítico: apoiar-se não na "ortodoxia freudiana", mas na "coerência da obra de Freud", nos "ensinamentos da clínica", e na história da Psicanálise pós-freudiana, pois a disciplina evoluiu desde a época dos grandes sistemas do pós-guerra (p. 94).

 

Proceder a um exame adequado desse texto (que conta treze páginas) exigiria um espaço do qual hoje não dispomos; tentar resumi-lo em poucas linhas nos levaria a perder de vista a articulação entre argumentos complexos e que se referem implicitamente a outros, situados em setores diferentes da nossa disciplina, o que seria injusto para com os dois autores. Assim, o leitor interessado nessas questões não terá como dispensar a leitura do próprio artigo, e acompanhar de perto a marcha das demonstrações de Green.

 

Mas há outra forma de abordar o seu conteúdo, talvez mais interessante para justificar a hipótese que, à guisa de conclusão do nosso trajeto, desejo lhes submeter. A própria extensão dele permite destacar o que a meu ver constitui o âmago da crítica de Green à elaboração laplancheana, âmago este ilustrado pelo modo com que aborda as "seis questões" pinçadas na conferência de Laplanche. Ele consiste, a meu ver, em uma objeção de princípio e em uma constatação, plena de consequências, a respeito do que se poderia chamar a matriz clínica do pensamento de Laplanche.

A objeção se refere à rigidez das oposições, por exemplo entre o instinto inato e a pulsão, que depende mais da epigênese (à p. 95, Green chega a traçar um quadro dos principais aspectos dessa contraposição). Ora, além de Freud ser bem mais impreciso no emprego dos termos Instinkt e Trieb do que gostaria Laplanche, as coisas são realmente mais complicadas do que ele pretende: "é mais que provável que o instinto - caso exista no homem - seja afetado pela condição humana, que transforma as suas manifestações" (p. 95).

 

Ou seja: Laplanche simplifica algo por natureza multifacetado, o que, no vocabulário de Green, é conotado pelo par conceitual heterogeneidade/complexidade. É uma falha grave aos olhos do seu debatedor, que não se priva de extrair as consequências teóricas desta pseudoclareza:

 

falando assim da pulsão, Laplanche a isola das suas conotações [...]. Chega a um beco sem saída quanto aos conceitos de representação, quer se trate da pulsão como representante psíquico das excitações nascidas no interior do corpo, quer dos representantes psíquicos da pulsão, das representações de coisa ou objeto, das representações de palavra, dos representantes da realidade no ego, para não dizer nada dos afetos (p. 95).

 

Como se fosse pouco, na opinião de Green os cortes taxativos a que procede Laplanche o impedem de encontrar lugar para as defesas do ego e para os aspectos inconscientes deste último (p. 96). Ou seja: de redução em redução, vão aos poucos desaparecendo as características fundamentais da psique segundo Freud. Essas distinções estanques me fazem pensar no que Hegel chamava o plano do entendimento, opondo-o à dimensão da razão, que opera com a dialética, e portanto com a contradição. Não deixa de ser picante notar que, procedendo assim, Laplanche cai no mesmo pecado que censurava em Lacan ao redigir a nota de 1965 ao seu texto de Bonneval: "é saltar, para dizer o mínimo, um bom número de mediações"[xxvi].

 

E isso nos conduz a um problema bem mais sério: a meu ver, na óptica de Green Laplanche permaneceu muito mais próximo de Lacan do que ele próprio gostaria de admitir. A prova mais evidente disso é o "primado do Outro", fundamento tanto de um aspecto capital da sua teoria - a própria ideia de sedução - quanto de um tópico em aparência menor, mas ao qual Green dedica grande atenção: a questão do gênero, na qual seu colega, após havê-las criticado, adota as posições de Robert Stoller. Ouçamos:

 

a questão é complicada. Se a levanto, é para tentar dialetizar uma verdade movediça, na qual a força não ocupa sempre o mesmo lugar nem tem a mesma importância, e porque essas relações ligadas ao psíquico [...] se desenvolvem de modo mais aleatório, mais dialético, mais incerto. [...] Longe de mim querer diminuir o interesse ou o alcance da atribuição [de gênero, RM]. O que contesto, de fato, é a ideia de um "primado do Outro". [...] O Outro, não há dúvida, foi negligenciado por Freud. Mas em minha opinião isso se tornou hoje um tema obsedante, tomando as cores diversas do lacanismo, do intersubjetivismo, e - temo - do "laplancheanismo" (p. 98).

 

Por que a crítica é grave? Porque com ela Laplanche cai sob o mesmo reproche que o Green maduro dirige a Lacan, e cuja expressão mais forte se encontra nas conversas com Maurice Corcos: ter ignorado as organizações não neuróticas, e produzido uma teoria cujo horizonte se reduz ao campo das neuroses. E mesmo nesse, deixa de lado a "polifonia do inconsciente" - outro nome para a complexidade/heterogeneidade à qual ele, Green, é tão sensível, e da qual fez a âncora do seu próprio pensamento. Com Corcos, "il ne mâche pas ses mots" (fala abertamente):

 

o que posso dizer hoje (2006) é que a obra de Lacan é datada. Uma obra que situa o desejo no lugar em que ele o situa, e que, quando toda a literatura psicanalítica inglesa só falava dos problemas colocados pelas organizações não neuróticas, não as percebeu, uma obra que passou ao largo do pensamento de Winnicott [...], que não quis compreender aquilo a que Winnicott e Bion nos confrontam! [...] Para mim, sua obra é datada. Ela me faz refletir, suscita desenvolvimentos de pensamento que não deixam de ser interessantes, mas a Psicanálise hoje é outra coisa[xxvii].

 

Ao concluir sua exposição de 2001, Green dissera praticamente o mesmo sobre o pensamento de Laplanche:

 

é rico, fortemente articulado, elegante. Diria que ele é convincente? Tenho aqui algumas hesitações, como ele sabe, pois com o primado do Outro estamos na verdade diante de outra Psicanálise. Essa outra Psicanálise me interessa, mas não creio que ela esteja à altura das exigências dos casos dos quais me ocupo. Não me parece que, buscando captar todos os seus fundamentos, inclusive aqueles que ainda não explorei, eu compreenderia melhor as estruturas não neuróticas[xxviii].

 

É isso que tenho em mente ao dizer que, para Green, a matriz clínica das elaborações de Laplanche é o campo das neuroses, embora aqui e ali, em seus escritos, se encontrem notações acerca de outras organizações psíquicas. E é este, me parece, o motivo mais profundo da discordância entre nossos dois autores, cujas trajetórias começaram bem mais próximas - no fascínio pelas ideias de Lacan - e que, ao longo de cinquenta anos, foram se afastando cada vez mais. É um ponto a creditar a Green que, apesar disso, tenha conservado um interesse genuíno pelos trabalhos do colega, reconhecido o valor de algumas contribuições dele, mas tido a franqueza de dizer no que e por que não podia acompanhá-lo na inflexão decisiva do seu percurso.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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