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Autor(es)
Ana Claudia Patitucci

Bela M. Sister

Cristina Parada Franch Franch

Danielle Melanie Breyton
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante do grupo O feminino no imaginário cultural contemporâneo, co-organizadora do livro Figuras clínicas do feminino no mal-estar contemporâneo (Escuta).

Deborah Joan de Cardoso


Notas
[i] Dejours usa aqui o termo refusement (Versagung). Segundo o Dicionário de psicanálise, de Roudinesco e Plon, refusement é um neologismo criado por Laplanche e outros editores, responsáveis pelas Oeuvres complètes. Optamos por seguir a tradução das recentes edições das obras de Freud no Brasil, que verte Versagung para "frustração", considerando que esse termo dá mais sentido à frase do entrevistado. (NR)

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 ENTREVISTA

Entre o legado e a criação - Christophe Dejours

Between legacy and creation - Christophe Dejours
Ana Claudia Patitucci
Bela M. Sister
Cristina Parada Franch Franch
Danielle Melanie Breyton
Deborah Joan de Cardoso

Nosso entrevistado, Christophe Dejours, é psicanalista, psiquiatra e professor. Dedica-se ao trabalho clínico, à pesquisa e à docência abrangendo uma vasta área do conhecimento: ergonomia, clínica do trabalho, metapsicologia do corpo, psicossomática, questões de gênero são alguns dos temas abordados por ele. Leciona Psicodinâmica do Trabalho no Conservatoire National des Arts et Métiers, onde coordena o Laboratório de Psicologia do Trabalho e da Ação. É membro do Instituto de Psicossomática de Paris e da Associação Psicanalítica da França (APF).

 

Presidente científico da Fundação Jean Laplanche, o nome de Dejours se colocou naturalmente como possível entrevistado para este número de Percurso. Mas foram sobretudo os temas sobre os quais se dedica que despertaram nosso interesse pela interlocução com sua produção teórica-clínica.

 

Cabe lembrar que a Fundação Jean Laplanche tem como objetivo preservar seu legado por meio da formulação de novas questões e desafios para o desenvolvimento da psicanálise. Desafios que se dão quando as teorias psicanalíticas dialogam com os grandes problemas do nosso tempo, levando-nos em direção a novos desenvolvimentos e criações. 

 

Entrevistado e homenageado se conheceram na maturidade e criaram uma parceria ímpar: trataram de ampliar significativamente as fronteiras do pensamento psicanalítico por meio do diálogo com as mais variadas áreas do conhecimento.

 

Como podemos conferir nesta entrevista realizada por e-mail, Dejours reconhece na obra de Laplanche a marca de um teórico sutil e preciso, capaz de discutir as contradições de Freud em consonância com o espírito da psicanálise, tendo por base o primado da sexualidade.

 

Dejours destaca, ainda, a interlocução que sustenta com Laplanche em torno da terceira tópica ou tópica da clivagem, uma interessante e atual formulação sobre o aparelho psíquico. O debate se dá principalmente em torno da problemática da pulsão de morte. Dejours se dedicou à formulação dessa tópica como resposta teórica a La Boétie que, no século xvi, formulou o conceito de servidão voluntária, questionando o porquê de os homens dedicarem-se com tamanho empenho à servidão. Entre escolher a liberdade ou a escravidão, os homens não só escolhem a servidão como a perseguem de forma determinada.

 

A questão da servidão nos conduz ao tema mais desenvolvido pelo nosso entrevistado: a psicodinâmica do trabalho. Ele aponta a importância da escuta do sofrimento no mundo do trabalho e é reconhecido por formular conceitos, métodos e práticas de intervenção nesse universo. Pesquisa a natureza dos processos atuais de produção e como o capitalismo foi incapaz de priorizar os limites humanos. A consequência disso foi a precarização social e do trabalho.

 

Nessa perspectiva, Dejours nos propõe pensar como tantas pessoas comuns se dedicam ao triunfo de ações que seu senso moral condena. Nos alerta sobre a banalização do mal e do sofrimento social. Valores como a cooperação, a delicadeza e a solidariedade não mais pertencem ao universo do trabalho.

 

Para ele, o nazismo é o maior exemplo dessa banalização. O genocídio se estabeleceu como trabalho e foi somente com a colaboração e zelo de milhões de pessoas que o mal se impôs de forma a nos envergonhar da condição humana.

 

No momento em que trabalhadores e funcionários são chamados de colaboradores dentro da cultura neoliberal, ler a entrevista com Dejours é fundamental para refletir sobre o permanente risco da barbárie que vivemos nesses tempos sombrios. Nosso entrevistado alerta, com todas as letras, que a banalização do mal na empresa neoliberal, nos estados de direito, é uma das chaves para a compreensão de como uma parcela importante da população pode ser levada a zelar pelo desenvolvimento de um sistema totalitário.

 

percurso Gostaríamos que o senhor nos contasse sobre sua trajetória intelectual e como surgiu seu interesse pela psicanálise.

christophe dejours Descobri a psicanálise aos dezesseis anos de idade, como uma certa evidência, como uma revelação sobre o sentido de algumas experiências vividas por mim, oníricas em particular, e às quais eu não dera importância até então. Havia também uma espécie de preocupação pelas paixões humanas, que descobri lendo romancistas: Balzac, Stendhal, Flaubert, Dostoiévski, Gogol, Tolstói... Depois fiz meus estudos de medicina com a intenção de me tornar psicanalista.

 

percurso Como se deu sua aproximação com Laplanche e como eram as trocas entre vocês?

dejours Meu encontro com Laplanche foi tardio. Pedi a ele que me supervisionasse quando eu já tinha 48 anos. Essa supervisão foi validada para a minha entrada na Association Psychanalytique de France (eu iniciei minhas primeiras supervisões aos 26 anos de idade e, desde então, não parei mais). Fui vê-lo porque pensava que ele era um dos melhores ou o melhor conhecedor de Freud. E, então, compreendi que ele não era apenas um tradutor e um comentador de Freud, mas um teórico cuja sutileza e precisão me permitiram ultrapassar certas ambivalências que eu mantinha em relação a Freud e outros pensadores, cujos ensinamentos acompanhei nos trinta anos precedentes. Na sequência da supervisão, iniciei uma discussão aprofundada de suas teses. Eu passava uma manhã por semana com ele. Depois, codirigi seu seminário na APF e, a partir de 1999, organizei as jornadas internacionais Jean Laplanche, a cada dois anos. De 1997 até o final de sua vida, conversei com Laplanche apenas sobre a sua obra, e, por vezes, sobre sua vida ou sobre a administração de seu vinhedo em Pommard. Mas nunca conversamos sobre minhas próprias pesquisas ou publicações. Era um "companheirismo" excepcional, sem dúvida possível dada minha idade avançada e por não haver interesses institucionais para mim. Mesmo na minha idade era uma oportunidade ainda assim excepcional, porque é raro, creio eu, a possibilidade de se beneficiar de uma relação de transmissão intelectual como essa quando já estamos, nós mesmos, no umbral da velhice.

 

percurso Como o senhor avalia o legado de Laplanche? Poderia nos contar a história da Fondation Jean Laplanche: Nouveaux fondements pour la psychanalyse e como ela trabalha atualmente para o desenvolvimento da psicanálise e a divulgação da obra de Laplanche?

dejours A herança de Laplanche é uma leitura de Freud e da psicanálise caracterizada pelo despojamento, pelo esforço de esclarecimento que passa por uma triagem nas ideias freudianas. Trazer à tona, sistematicamente, as contradições de Freud com o intuito de fazer uma triagem baseada em dois pilares: por um lado, a discussão aprofundada de suas contradições e, por outro, a consonância ao princípio de fidelidade ao espírito da psicanálise. Espírito a ser compreendido no sentido da expressão de Montesquieu: "o espírito das leis". O espírito da psicanálise, o espírito da obra de Freud revelado por Laplanche, ainda que por vezes contra certas afirmações do próprio Freud, é o primado da sexualidade. É o caminho que se concretiza ao longo do extenso percurso de suas "Problemáticas". Laplanche é seguramente um crítico de Freud, ao mesmo tempo que mantém um respeito inabalável, uma paixão, por sua obra. Laplanche não cria uma nova psicanálise, como o fizeram outros autores, tais como Alfred Adler, Gustav Jung, Georg Groddeck, Jacques Lacan ou Wilfred Bion, que se afastaram muito de Freud. Ao contrário, Laplanche quer sempre manter o debate com Freud e com seu texto. Certamente, esta é uma das contribuições essenciais de Laplanche: mostrar o quanto a obra de Freud permanece a referência fundamental, incontornável, irredutível para todos os psicanalistas; tornar Freud legível também como fundador de conceitos, que servem como língua comum para a comunidade psicanalítica internacional. Esse é, efetivamente, o papel desempenhado pelo Vocabulário da Psicanálise, que escreveu com J.-B. Pontalis e que é uma referência aos psicanalistas do mundo inteiro.

No final de sua vida, Laplanche explora territórios graças aos quais propõe uma continuidade em relação à obra de Freud. Digo, realmente, continuidade. Em seus trabalhos sobre o inconsciente não recalcado (inconsciente encravado) e a clivagem, sobre o gênero e sua introdução na teoria sexual, sobre o sexual e a pulsão sexual de morte, Laplanche não rompe com a metapsicologia freudiana. Ele busca constantemente estabelecer a continuidade teórica com a metapsicologia de Freud. Para mim, e para muitos colegas ao redor do mundo, esse esforço culmina num resultado convincente. Para outros, ao contrário, Laplanche faz uma leitura limitada de Freud e, por vezes, sua trajetória é julgada como excessivamente racionalista.

Mas, a herança de Laplanche é também sua teoria da mensagem e da tradução. A teoria tradutora do recalque, a situação antropológica fundamental, a chegada da criança à sexualidade humana através de uma sedução exercida sobre ela por um adulto, tudo isso tem grandes implicações na prática da psicanálise. A teoria da sedução da criança pelo adulto, revista e ampliada por Laplanche, é também uma maneira de revisitar e aprofundar a concepção do dispositivo analítico divã-poltrona e da transferência, com essa exegese que conduz à noção de "transferência em oco". Transferência destinada a receber o enigma como condição sine qua non da perlaboração, ou seja, do movimento tradução - destradução - retradução. Transferência que reconhece que o essencial da interpretação se origina no próprio paciente, ao passo que o analista se esforça para trabalhar sobretudo com a frustração[i] (Versagung).

Essa herança é um instrumento de trabalho para a sua Fundação. Instrumento no sentido em que os conceitos revelados por Laplanche permitem a retomada do debate psicanalítico nos dias atuais. O conselho científico da Fundação tem se dedicado à discussão em dois registros: o primeiro é a discussão interdisciplinar com as outras ciências, que convida cientistas para pensar a psicanálise com a ajuda dos conceitos-chave revelados por Laplanche da leitura de Freud (linguística, biologia, antropologia, sociologia, filosofia...); o segundo registro é o debate intradisciplinar, ou seja, o debate dos conceitos de Laplanche por outras correntes teóricas da psicanálise. Pretendemos iniciar com a teoria de Bion, em seguida, com a de Aulagnier e prosseguiremos com outras teorias. Cada seminário inter ou intradisciplinar se estenderá ao longo de vários meses e resultará na publicação de cada um dos temas abordados, em uma coleção de livros consagrados exclusivamente a esses debates.

 

percurso O senhor trabalha no Laboratório de Psicologia do Trabalho e da Ação no CNAM (Conservatoire National des Arts et Métiers) de Paris. Qual o campo de atuação desse Laboratório? Quais pesquisas desenvolve ultimamente? Que dificuldades o senhor encontra em suas pesquisas?

dejours Coordeno uma equipe de pesquisa que trabalha em três campos disciplinares: a clínica e a psicodinâmica do trabalho, a psicossomática e a metapsicologia do corpo, a psicanálise e a metapsicologia da clivagem. Inicialmente, nos anos 1980-90, essa equipe trabalhava quase que exclusivamente sobre a clínica e a psicopatologia do trabalho. Hoje em dia, ela trabalha mais sobre a psicanálise e a psicossomática, continuando a pesquisa sobre a relação subjetiva do trabalho. As principais dificuldades que encontramos não são intelectuais. Contrariamente, a fecundidade das ideias diretrizes leva a uma expansão das pesquisas e a um verdadeiro entusiasmo também dos atuais jovens pesquisadores. As dificuldades vêm sobretudo das instituições universitárias e acadêmicas, cujas orientações, sob o esforço do New Public Management, perturbam a controvérsia científica e, por vezes, a paralisam, tanto na França como em muitos países ao redor do mundo.

 

percurso Qual a importância da formulação de uma terceira tópica para o pensamento teórico psicanalítico e seus desdobramentos na ampliação da clínica contemporânea? Em sua proposição da terceira tópica, o senhor formula a ideia de um inconsciente amencial clivado do inconsciente recalcado. Fale-nos da centralidade da clivagem nessa concepção de aparelho psíquico.

dejours A terceira tópica é uma tentativa de resposta teórica e metapsicológica à questão da servidão voluntária, concebida por La Boétie no século xvi. Essa teoria aborda uma questão política baseada numa análise filosófica, que outorga um lugar crucial ao indivíduo na explicação das causas da tirania. Na época em que La Boétie escrevia, a psicanálise, a teoria da sexualidade e a teoria do trabalho vivo não existiam. A terceira tópica talvez seja uma maneira de retomar essa questão à luz da clínica contemporânea e dessas novas bases teóricas. Ela é uma maneira de compreender como é possível que tantos seres humanos comuns se dediquem ao triunfo de ações que seu senso moral condena e que, além disso, são destruidoras das condições necessárias à vida subjetiva daqueles que estão a seu serviço.

Mas, nesse percurso, chega-se à conclusão de que a terceira tópica, ou a tópica da clivagem, está efetivamente presente em todos os seres humanos. Que, no fim das contas, a clivagem é o resultado psíquico mais importante na construção e na manutenção da "normalidade", ou seja, ela constitui um compromisso que diminui os riscos do sofrimento psíquico e da descompensação (psicopatológica ou somática).

 

percurso A sua hipótese de uma terceira tópica outorga um lugar fundamental à zona de sensibilidade do inconsciente. Como se dá a constituição desta? Qual a sua função na circulação entre o inconsciente recalcado e o inconsciente amencial? O que determina a variação na extensão dessa zona de sensibilidade? Por que a recusa é o mecanismo de defesa da zona de sensibilidade do inconsciente?

dejours A zona de sensibilidade do inconsciente não é uma noção minha e sim de Michel Fain, que a introduziu a propósito da metapsicologia da psicossomática. Essa noção foi mal definida e Laplanche se manteve razoavelmente crítico em relação a esse ponto. Ele a substituiu pela noção de uma "fina camada constituída pelo sistema consciente em relação ao ‘inconsciente encravado'" (termo que ele usa para se esquivar do termo inconsciente "amencial"). A "zona de sensibilidade do inconsciente" permaneceu durante muito tempo, para mim, uma designação de espera. Hoje, penso que, efetivamente, ela corresponde ao lugar que remete ao corpo da criança na comunicação originária entre o adulto e a criança. Quando essa comunicação entre o adulto e a criança está sob o primado da mensagem comprometida e de sua carga de excitação para a criança, estamos às voltas com o fenômeno descrito por Laplanche sob o nome "implantação". Quando a violência compulsiva do adulto compromete a mensagem, a carga de excitação é excessiva para a criança: ela fica atordoada e prostrada pelo choque e não existe tradução possível, pois qualquer atividade do pensamento, de ligação ou de tradução é inviável. É o que Laplanche designa pelo termo de "intromissão" (no lugar de "implantação"). O problema não é tanto a zona do corpo atingida pela violência do adulto e sim a maneira como o corpo da criança, através de sua atitude, seus jogos com seu corpo e com o do adulto, desencadeou a violência do adulto. Não é a zona do corpo e sim o registro expressivo, o jogo corporal específico, que é então banido pelo adulto. São esses registros de expressão do corpo da criança, doravante impedidos de efetuar a troca com o outro, que constituem, a meu ver, a zona de sensibilidade do inconsciente. A zona de sensibilidade seria, na verdade, o negativo dos jogos dos corpos banidos pela violência do adulto.

Essa zona, ou melhor, esses jogos do corpo que foram banidos (portanto perigosos para o eu em formação da criança), quando retornarem mais tarde na infância, adolescência ou idade adulta, especialmente no momento dos jogos eróticos solicitados pelo encontro sexual ou amoroso, se manifestariam como uma ameaça ao eu, cuja forma típica seria a crise de despersonalização, com confusão mental (a "amência", segundo a descrição de Meynert). Se o jogo erótico com esse registro banido não para a tempo, existe o risco de uma angústia maciça - um episódio de ansiedade - abrindo o caminho para uma descompensação (confusional, delirante ou somática). A recusa de percepção daquilo que chega através do outro (com seu corolário: uma "insensibilização" afetiva) é a forma de repelir a angústia, e se dá sem pensamento, aquém do pensamento, do fantasma e das associações.

Ao longo de uma análise, no "calor" da transferência, as associações podem, por vezes, levar o paciente à proximidade dessa zona de jogo afetivo-fantasmático crítica (zona de sensibilidade do inconsciente), que eventualmente consegue ser brecada pela recusa de percepção e pela insensibilidade. Mas podem, às vezes, transpor o obstáculo constituído por esta última e corre-se então o risco do desencadeamento de um episódio de ansiedade. Ao longo de uma análise, é uma zona particularmente perigosa da dinâmica da transferência, mas é, também, a via insubstituível para se aproximar analiticamente do ponto mais patológico do paciente. Entre a recusa de percepção, que opõe a essa aproximação uma anestesia, e a passagem inoportuna, que leva ao episódio de ansiedade e à descompensação, acontece, ainda que de forma rara, que a situação permaneça em suspenso com a colocação em latência da experiência com a zona crítica. Essa experiência latente não pode ser diretamente retransmitida por meio de uma tradução-ligação. Na melhor das hipóteses, o que está latente será tratado pela via do "trabalho do sonho". E é somente através deste desvio que uma parcela do inconsciente amencial poderá entrar no circuito da tradução, ou seja, encontrar a via do recalque e, finalmente, permitir que o paciente se aproprie novamente dos jogos do corpo que até então estavam banidos.

 

percurso Como se dá a interlocução entre o pensamento de Laplanche e a formulação do aparelho psíquico proposto pelo senhor na terceira tópica, particularmente, no que diz respeito à pulsão de morte no psiquismo?

dejours Eu falo em inconsciente amencial. Laplanche, que adotou essa tópica, preferiu designar esse inconsciente pelo termo de inconsciente encravado. A diferença é clara. Para Laplanche só existem mensagens "à espera de tradução", depositadas no inconsciente encravado. Para mim, não se trata de mensagens em espera. Trata-se de experiências intraduzíveis, experiências de violência relacionadas com as reações compulsivas do adulto que, assim, não possuem mais o formato de mensagens. Elas são puramente sexuais, não têm nenhuma dimensão no registro do cuidado e da autoconservação. Por isso, a reativação desses jogos impossíveis do corpo (que foram banidos pela violência compulsiva do adulto quando a criança se sentiu atraída por eles) pode desencadear uma crise (violência, descompensação psicótica ou somática) no paciente. Essas modalidades psicopatológicas destacam, para mim, a categoria conceitual que Freud designa pelo nome de pulsão de morte e que, penso eu, mereceria, de preferência, ser qualificada como compulsão não sexual de morte. Assim, construir um lugar para a pulsão de morte constitui um afastamento em relação à posição de Laplanche, para quem a pulsão de morte seria apenas uma potencialidade da pulsão sexual quando esta se desencadeia: o "sexual". Então, se Laplanche adotou a terceira tópica, em contrapartida, excluiu o que pessoalmente insisto em conservar, especificamente a dinâmica destrutiva da (com-) pulsão de morte.

 

percurso O senhor refere-se ao nazismo como o maior laboratório de violência social jamais visto. Destaca que o genocídio só foi possível porque foi compreendido como trabalho, que contou com a colaboração e o zelo daqueles que participaram criativamente do terror. O nazismo influenciou, e seguiria influenciando, o mundo do trabalho? De que maneira?

dejours O nazismo influenciou o mundo do trabalho? Sou incapaz de responder a essa pergunta. A questão que tentei responder é outra. Hannah Arendt introduziu a noção de "banalidade do mal". No atual contexto do mundo do trabalho, sobretudo a partir da "virada administrativa", característica dos novos métodos de organização do trabalho e de gestão, assistimos a um aumento significativo da tolerância à injustiça e ao sofrimento infligidos não apenas aos desempregados e aos novos pobres da Europa, mas também aos próprios trabalhadores dentro das empresas. A análise desse aumento da tolerância mostra que, além disso, a maioria dos homens e mulheres proporciona o apoio necessário a atos e práticas que seu senso moral reprova e que eles beneficiam a nova gestão através de seu zelo. Não se trata apenas da banalidade do mal e sim da banalização do mal. Foram os processos em questão nessa banalização do mal que tentei expor. O consentimento da maioria dos trabalhadores a atos que reprovam moralmente é obtido sem uso de violência (aprisionamento, deportação e tortura não são utilizados pela gestão). Se, em nome da produtividade e da rentabilidade, pode-se obter tal consentimento, o que não seria possível obter de todos esses homens e mulheres se acrescentássemos a violência como instrumento da dominação? A análise da banalização do mal na empresa neoliberal, nos estados de direito, talvez seja uma das chaves para a compreensão de como uma parcela importante da população pode ser levada a zelar pelo desenvolvimento de um sistema totalitário.

 

percurso O senhor destaca a adesão ao discurso economicista - tão caro à concepção neoliberal -, como uma manifestação do processo de banalização do mal. Ao mesmo tempo, ela constituiria uma forma de defesa contra a consciência dolorosa da própria cumplicidade no agravamento da adversidade social. A prática desse mal no mundo do trabalho está se transformando em norma? O que restaria do trabalho enquanto fonte de realização e emancipação?

dejours À luz da clínica do trabalho, vemos que os novos métodos de organização do trabalho, de gestão e de administração têm um papel central no fato de pessoas comuns consentirem em apoiar práticas que sua moral reprova. O sofrimento ético resultante é efetivamente controlado e balizado por "racionalizações" (no sentido psicopatológico do termo) produzidas e veiculadas pelo discurso economicista e pelo "realismo econômico". Essa colaboração produz, primeiramente, efeitos maciços sobre o mundo do trabalho, que se manifestam pela explosão de descompensações psicopatológicas, que podem levar, hoje em dia, ao suicídio. Mas também tem consequências centrais na transformação profunda da coletividade como um todo. É pertinente falar em novas normas de conduta? Eu responderia afirmativamente a essa questão.

O que sobrou do trabalho enquanto mediador na construção da saúde (realização de si) e da emancipação? É preciso reconhecer que as novas formas de organização do trabalho ameaçam progressivamente as condições que possibilitam a sublimação e o que ela comporta enquanto capacidade de emancipação. A possibilidade de exercer a psicanálise se reduz severamente em todas as instituições de saúde em nossos países. Inúmeros médicos, psiquiatras, psicanalistas e psicólogos estão atualmente num tal sofrimento que se tornam, eles mesmos, vítimas de descompensações psicopatológicas e psicossomáticas. É um sinal eloquente do aumento da alienação e do recuo do trabalho enquanto mediador de emancipação.

 

percurso Na contramão da passividade, submissão e resignação que impera em nossa sociedade neoliberal, vimos o surgimento, em março deste ano [2016], em Paris, de um movimento social plural, de questionamento e, poder-se-ia dizer, de resistência, que já se alastrou por outras cidades e países - o Nuit debout. Como o senhor tem visto esses movimentos e o que podemos esperar deles?

dejours Esse movimento nasceu fora das organizações sindicais e dos partidos políticos. Ele testemunha a progressão das questões levantadas pela organização do trabalho e o sofrimento no espaço público. Tal aumento se deve essencialmente aos documentaristas, aos cineastas, ao teatro e à literatura, que tomaram em mãos, há vários anos, as questões relativas ao sofrimento no trabalho reveladas pela clínica. Isto é um fato, sobretudo na França, onde os debates sobre o trabalho são mais importantes que na maioria dos outros países. Esse movimento social me parece ser uma consequência do trabalho dos artistas, muito mais do que dos intelectuais. É uma nova configuração. Esses artistas demonstram efetivamente, através de seu trabalho, uma verdadeira capacidade de resistência. No resto do mundo do trabalho, existem aqui e ali experiências de resistência à dominação neoliberal. Mas creio que estamos numa fase apenas inicial. A resistência se procura. Ela ainda não tem uma forma organizada. Mas é possível que o atual movimento na França marque o início de uma nova concepção de ação política. A história social o dirá.


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