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Autor(es)
Kenia M. Ballvé Behr
é psicanalista e presidente da constructo – Instituição Psicanalítica de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

Paulo Roberto Ceccarelli
é psicanalista, doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII, pesquisador da PUC-SP, pesquisador e colaborador em pesquisas da UNICAMP, colaborador no projeto PRO-SEX (Projeto Sexualidade) do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Cristiane Curi Abud

é psicanalista membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. É professora do curso de Psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae. Professora afiliada da Universidade Federal de São Paulo, coordena o Programa de Assistência e Estudos de Somatização do Departamento de Psiquiatria da unifesp. Mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (pucsp) e doutora em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (fgvsp). Escreveu o livro Dores e odores, distúrbios e destinos do olfato (Via Lettera, 2009). É coautora do livro Psicologia Médica Abordagem Integral do Processo Saúde-Doença (Artmed, 2012). Organizadora do livro A subjetividade nos grupos e instituições (Chiado, 2015) e O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise (Perspectiva, 2017).



Gisela Haddad
é psicanalista , Mestre em Psicologia Clínica pela Unimarco , Membro do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae, autora do texto “Amor e fidelidade: sobre a vida amorosa na atualidade” in Alonso,S. L., Breyton,D.M.,Albuquerque,H, Interlocuções sobre o feminino, na clínica, na teoria, na cultura, São Paulo, Escuta, 2008

Thiago Pereira Majolo Majolo

é psicanalista e mestre em história social pela Universidade de São Paulo (USP), membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e membro da comissão de Debates da revista Percurso.



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 DEBATE

Por que Laplanche?

Why Laplanche?
Kenia M. Ballvé Behr
Paulo Roberto Ceccarelli
Cristiane Curi Abud
Gisela Haddad
Thiago Pereira Majolo Majolo

Em seu texto "Contracorrente" (2003), Laplanche aponta para o caráter singular da descoberta freudiana - o método - um procedimento de investigação absolutamente novo, em que a terapêutica e a teoria nada mais são que consequências dessa exploração e da conquista dessa terra incógnita que é o inconsciente, abrindo para outras realidades inteiramente despercebidas, ainda que, para nós humanos, constitua-se em um tormento imenso a descoberta, em nós, do radicalmente outro. Laplancheanos também louvam o fato de ele destacar a função da metapsicologia em fazer a psicanálise trabalhar, ou de que a teoria deva ser rigorosamente estudada e ampliada para servir a uma clínica em constante movimento. Seus artigos e livros trouxeram contribuições fundamentais para que os psicanalistas pudessem compartilhar alguns conceitos comuns, procurando dar precisão epistemológica a conceitos fundamentais.

 

Mas é o caráter de abertura de sua obra para o surgimento de novos aportes teóricos que queremos destacar neste texto, principalmente no que concerne à constituição psíquica dos sujeitos e por decorrência na ampliação nas últimas décadas da clínica dos primórdios da vida psíquica e mais recentemente nas tentativas de problematizar as questões de gênero, tão caras à psicanálise na atualidade.

 

De forma resumida, em Laplanche, o surgimento do psiquismo do infans é estabelecido como decorrência de um movimento de sedução sexual oriundo dos adultos cuidadores, uma situação assimétrica, em que a mensagem nunca se reduz à intencionalidade de seus interlocutores, pois há sempre um excesso de conteúdo que a torna opaca tanto para quem a produz quanto para quem a recebe. Pela impossibilidade de se traduzi-la completamente, há sempre um resto não traduzido, e tal resto e opacidade instauram a pulsão no humano. Entre o discurso-desejo do adulto e a representação inconsciente do sujeito há um verdadeiro metabolismo, uma desqualificação e recomposição desse discurso de acordo com os elementos que a criança tem disponíveis para tentar traduzir o que lhe foi excessivo e enigmático. Suas tentativas de metabolização dos enigmas são sempre particulares, e seu inconsciente jamais se reduz ao inconsciente da mãe ou do adulto, ao contrário, adquire uma composição própria.

 

Além disso, o que Laplanche chama de situação antropológica fundamental - ou seja, o fato de os bebês humanos nascerem com essa disparidade de línguas, de capacidade de simbolização, de existir ou não enquanto sujeito dotado de intencionalidade, de ter ou não inconsciente e de ser ou não marcado pela sexualidade - pode ser resultado de uma contingência, um golpe do acaso na história da espécie humana. Não há como saber como essa disparidade será representada ao longo da história da humanidade, e aqui podemos incluir a relação entre feminilidade e passividade, a existência do Édipo, a lógica fálica e outros, por mais universais que sejam em nosso tempo.

 

Os gender studiesm denunciado há décadas o fato de a delimitação e definição das categorias masculino e feminino servirem ao longo da história para criar grupos desviantes, justificar mecanismos de dominação e de hierarquia e tornar impossível o debate sobre a complexidade e a historicidade dessas categorias. O que Judith Butler (2003) chamou de matriz binária heterossexual do gênero marcou e ainda marca, em nossa sociedade, apenas dois modos possíveis de identidade sexuada - o homem heterossexual e a mulher heterossexual (de preferência brancos) -, excluindo toda uma gama de identidades (homossexuais, transexuais, etc.). As práticas de sexo-gênero-desejo ficaram necessariamente coladas e um corpo anatomicamente masculino, por exemplo, deve ter o sexo masculino, desejar uma mulher e agir, se vestir e pensar como se espera que um homem o faça.

 

No entanto, a partir das inúmeras mudanças sociais ocorridas no campo das sexualidades deflagradas pelo movimento feminista dos últimos 60 anos, pelas políticas de visibilidade da homossexualidade e, mais recentemente, dos LBGTI, e, também, pelas novas configurações familiares, constatam-se alguns deslocamentos identificatórios que permitem uma maior flexibilidade entre posições antes vistas como naturais a cada sexo.

 

Embora de forma incipiente, trabalhos de psicanalistas, alguns se referenciando em Laplanche, começam a trazer para o debate a complexa questão do gênero em sua relação com a teoria psicanalítica e sua conceituação de sexualidade. E não são poucos os aspectos polêmicos que dividem os psicanalistas em suas ancoragens teóricas: o corpo-gênero, a transexualidade como expressão da condição humana, o lugar e as consequências da assunção da diferença sexual, a recusa da homofobia, o confronto entre ideais e os códigos de comportamento e a forma pelas quais apreendem e reconhecem, na clínica, as mudanças subjetivas provocadas pela cultura contemporânea.

 

A Seção Debate da Revista Percurso 56/57, cuja edição presta uma homenagem a Jean Laplanche, convida os debatedores a refletir sobre os temas levantados acima.

 

kenia m. ballvé behr

Em seu "fazer trabalhar" o pensamento freudiano, Jean Laplanche foi marcando os "desvios" encontrados na obra, justificando-os a partir dos tempos vividos por Freud, a partir das angústias do Mestre frente às suas descobertas e aos impasses com que deparava na construção da Psicanálise. Nesse trabalho Laplanche encontrou soluções para as contradições percebidas, enriqueceu as ideias freudianas e tratou de buscar novos nexos, sem se afastar dos conceitos básicos que constituem a espiral do conhecimento psicanalítico. Com um rigor admirável, foi avançando em relação às principais descobertas de Freud, tanto em relação às investigações do inconsciente, ao estudo da metapsicologia, como à teoria que sustenta uma clínica sempre em movimento.

 

Ao mesmo tempo que Laplanche fez uma excelente releitura de Freud, propôs determinados temas que se constituíram em aberturas de extrema importância para a psicanálise atual. Proponho-me deter em dois pontos.

 

Em primeiro lugar, a partir de seus desenvolvimentos acerca da teoria da sedução generalizada e da constituição do sujeito psíquico pelo contato do adulto sexualizado, atravessado por um inconsciente, numa relação assimétrica com o bebê, relação essa que daria origem ao inconsciente do infans através de mensagens enigmáticas emitidas pelo primeiro. Parte dessas mensagens enigmáticas que vêm do adulto, que em um primeiro momento a criança não tem condições de compreender, tendem a ser traduzidas. Mas essa tradução nunca é completa e o resto, essa falha da tradução, é o que instaura a pulsão e constitui o inconsciente da criança através da ação do recalcamento originário. Com a complexização do aparelho psíquico, o surgimento do recalcamento secundário, do Édipo e do supergo vai funcionar como um selo do recalcamento originário. Uma espécie de garantia de que aquilo que está recalcado originariamente não mais voltaria do inconsciente a não ser através de derivados.

 

Através dessa proposta teórica, as possibilidades de se pensar a clínica se ampliaram, por revelar um aparelho aberto e pela retomada da situação fundamental na relação com o analista quando do início da análise de um adulto neurótico.

 

Assim, diante do fracasso parcial da tradução, teríamos o inconsciente clássico da neurose. Frente ao fracasso radical, quando não haveria tradução (ou apenas um mínimo dela), estaríamos diante de um inconsciente encravado em que a modalidade principal de defesa, em vez do recalcamento, seria a recusa. A mensagem original está tal e qual no aparelho psíquico.

 

Embora houvesse um grande interesse de Laplanche com a clínica de adultos neuróticos, ao propor uma leitura diferente da constituição do psiquismo e as consequências disso para a clínica, suas hipóteses teóricas foram retrabalhadas como possibilidade de não se restringir a técnica psicanalítica a neuróticos. Vários psicanalistas ocupados com a clínica de crianças e das patologias não neuróticas partiram de suas ideias e, em mais uma espiral do conhecimento, surgiu uma variação da técnica clássica que beneficia os pacientes não neuróticos.

 

Em seu artigo "Três acepções da palavra inconsciente", de 2003, Laplanche faz algumas considerações importantes no âmbito da teoria da sedução generalizada, ampliando suas considerações anteriores. Retoma o fato de que o processo tradutivo na neurose se dá sempre em dois tempos e que a mensagem do outro que entra fica "em espera", porque ainda não encontrou tradução. Fica em latência, não traduzida. Algumas dessas mensagens são praticamente impossíveis de serem traduzidas, outras ficam numa espera provisória de tradução. Conclui, então, que assim como o inconsciente encravado pode ser um lugar de estagnação, também pode ser um lugar de espera.

 

A partir daí Laplanche propôs um modelo tópico comum à neurose e à psicose. Seriam duas partes do psiquismo, cada uma ignorando a outra, mas havendo uma passagem entre elas. O limite seria flutuante (de um indivíduo a outro ou segundo os momentos de vida em um mesmo indivíduo). Esse limite poderia ser alterado frente a um novo processo de tradução. Diante desse novo aporte, teríamos a possibilidade de novas traduções de mensagens encravadas no tratamento de patologias de fronteira ou de psicóticos, ou a possibilidade de uma descompensação delirante em qualquer ser humano.

 

Para Dejours, nenhum sujeito está abrigado de uma somatização ou de um delírio, mesmo se certas estruturas sejam mais protegidas que outras. Dessa forma, também podemos questionar até que ponto o recalcamento secundário, o Édipo e o superego seriam um selo de garantia para manter o recalcado originário em seu lugar.

 

A contribuição de Laplanche para o tema do gênero também é de extrema riqueza. A diversidade de opiniões em relação ao assunto é enorme e carrega em seus desenvolvimentos aspectos científicos, ideológicos e sociais bastante polêmicos.

 

Ocupado exclusivamente em explicitar o entendimento psicanalítico do tema, Laplanche ressaltou a importância da noção de gênero, mas asseverou que ela não pode apagar o conceito de sexo e de sexualidade. Considerou também a identidade de gênero como sendo inicialmente uma mensagem, uma designação que vem do outro, dos outros que estão mais próximos da criança. Por isso propôs inverter a noção de identificação, transformando "se identificar com" para "ser identificado por". A criança seria identificada pela designação do adulto a um certo gênero.

 

Ainda na esteira de sua teoria da sedução generalizada, referiu que não se pode deixar de pensar que qualquer designação está atravessada pelo desejo inconsciente do adulto, que muitas vezes se opõe à designação manifesta dele. Afirmou que a linguagem de designação do gênero circula predominantemente pelo código social (dos adultos próximos à criança), mas traz junto "ruídos", fantasias inconscientes ou pré-conscientes do outro. Esses desejos - o sexual infantil do adulto - se infiltram na designação de gênero. Dessa maneira, Laplanche propõe ser o gênero adquirido, mas enigmático, e que, embora o gênero preceda o sexo, ele é organizado pelo sexo, na medida em que este fixa e traduz o gênero em um segundo tempo.

 

Os dois temas que levantei sem dúvida são novos aportes a partir da rica contribuição do pensamento de Jean Laplanche. Dois temas que exigem que seus seguidores continuem a repensar, para continuar a fazer de algum modo o que ele mesmo sempre fez em relação ao pensamento de Freud.

 

paulo roberto ceccarelli

Laplanche nos dá pistas importantes a respeito do intricado legado freudiano sobre a assunção subjetiva do sexo e do gênero e, por consequência, da constituição do psiquismo.

 

Através de uma rigorosa leitura da obra de Freud - "colocando a teoria para trabalhar", como ele sempre dizia -, Laplanche retoma, a seu modo, a singularidade da descoberta freudiana, trazendo elementos de reflexão sobre a alteridade interna, sobre o estranho (Unheimlich) que surge lá onde, e quando, menos esperamos. Para Laplanche, a "situação antropológica fundamental" do humano faz com que os primeiros movimentos constitutivos do psiquismo, os "significantes enigmáticos" impregnados da sexualidade inconsciente do outro primordial, assumam um caráter traumático. Essas "mensagens" carregadas de um excesso intraduzível, responsável pela instauração do pulsional, são incompreensíveis tanto para o adulto, quanto para a criança que se sente invadida por uma excitação não simbolizável.

 

Se, em Freud, tanto a identidade feminina quanto a masculina são calcadas no biológico, Laplanche traz para o debate as dificuldades em discutirmos as questões de gênero em Freud, pois este último não teria utilizado esse termo: em alemão, a palavra Geschlecht designa tanto sexo, quanto gênero. Entretanto, não lhe passou despercebido que Freud fala de uma forma de classificação, que começa numa etapa anterior à percepção da diferença anatômica, e que, atualmente, chamaríamos de "segundo o gênero". Trata-se do texto de 1908, Sobre as teorias sexuais das crianças, no qual Freud nos convida a imaginar uma situação em que, despojados de nossa "existência corpórea", isso é, livre das amarras da anatomia, e como "seres puramente pensantes" vindos de outro planeta, chegássemos à Terra. Nesse planeta desconhecido, o que mais nos chamaria a atenção, continua Freud, seria a existência de dois seres. Porém, a distinção entre eles seria feita pelos "sinais externos mais óbvios". Isto é, sem levar em conta os caracteres anatômicos da diferença sexual.

 

Consequentemente, a primeira distinção homem/mulher não leva em conta "a diversidade dos órgãos sexuais". (Cabe aqui um parêntese para chamar a atenção para um erro de tradução grave em consequências para o leitor brasileiro da Standard Edition. No texto em português lê-se "diferença" - Unterschied - dos órgãos genitais, onde Freud fala de "diversidade" - Verschiedenheit - dos órgãos sexuais. A edição brasileira traduz, indistintamente, Unterschied e Verschiedenheit por diferença). Com efeito, observa Laplanche, não haveria nenhuma razão para que a criança pensasse que só existiriam dois órgãos (diferença) sexuais, como bem o sugerem as teorias sexuais infantis. Na fase das fantasias pré-genitais, a diversidade impera, o que leva a criança a imaginar a existência de um terceiro ou quarto sexo. A possibilidade de outras partes do corpo - a boca, ou o ânus - serem tomadas por órgãos sexuais é amplamente discutida nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, e sustentada pela clínica.

 

Sem dúvida, existe em Freud uma classificação segundo o gênero, anterior à percepção da anatomia, da castração, cuja base é a primeira distinção que fazemos "com certeza total" entre "masculino ou feminino" (Männlich oder weiblich) [homem e mulher na Edição Brasileira] quando encontramos um ser humano.

 

Se a apreensão dos gêneros se faz sem levar em conta o órgão sexual, o que distingue os gêneros não é o sexo anatômico; e o sexo anatômico não garante, a priori, os processos identificatórios de gênero. A presença ou a ausência do órgão genital masculino ou feminino (sexo) não constituem garantia que o sujeito se coloque do lado dos homens ou do das mulheres (gênero), como nos mostram as transexualidades. As categorias binárias de gênero são dadas à criança desde cedo e não levam em conta movimentos pulsionais. Talvez seja por isso, sugere Laplanche, que não encontremos uma "teoria de gênero" em Freud. Trata-se, finalmente, de dois movimentos distintos que ocorrem em momentos diferentes: um, a distinção dos gêneros; outro, a diferença dos sexos. Entretanto, ainda que a aquisição dos atributos de gênero venha antes da percepção da diferença anatômica, o que determina o gênero é o sexo; é o olhar de quem "vê" o sexo da criança.

 

Imersa, desde antes de seu nascimento, no imaginário que acolhe a criança quando de sua chegada ao mundo, ao nascer ela responde, sem questionamentos, ao universo cultural e discursivo que determinam o lugar que ela deve ocupar de acordo com o gênero que lhe foi atribuído.

 

O que leva uma criança a dizer que é menino ou menina é a consolidação de uma crença que começa pela designação do sexo, e pela inserção nas categorias de gênero do recém-nascido, feitas pela pessoa que presenciou o nascimento. É a partir dos dados anatômicos do bebê, pela designação do sexo, que essa pessoa vai "inseri-lo" na categoria de gênero que, culturalmente, corresponde ao que ela - a criança - deverá responder em acordo com sua anatomia. Inicia-se, assim, a construção de uma crença, sustentada pelo registro no cartório civil, que levará o recém-nascido a dizer que ele é menino ou menina, dentro do binarismo de gênero. (Os chamados "intersexos" mostram, às vezes de forma dramática, o peso do olhar do outro, na determinação do sexo e, posteriormente, do gênero).

 

Os Estudos de gênero e a teoria Queer vêm, há anos, denunciando o quanto a rigidez do binarismo de gênero - masculino e feminino - cria mecanismos de dominação e controle, além de determinar "grupos desviantes": os que não respondem à heteronormatividade. Segundo os autores que trabalham nesse campo de estudo, não existem relações de coerência, e continuidade, entre sexo, gênero, prática sexual e desejo. Tais proposições teórico-clínicas interpelam de forma aguda alguns pressupostos psicanalíticos relativos à aquisição da identidade sexuada, e Laplanche não recua frente ao desafio.

 

Discutindo as posições de autores que trataram o tema, Laplanche propõe ser o gênero resultado de uma designação, uma atribuição. Enquanto para Butler o gênero é uma performatividade, pois realizamos performances relativas ao gênero ao qual pertencemos, Laplanche entende que a designação comporta vários elementos: linguagem falada e corporal, atos, mensagens conscientes e inconscientes. Elementos estes que compõem a atribuição de um gênero ao recém-nascido.

 

A partir do momento em que os psicanalistas começam a ouvir as variáveis presentes na determinação do gênero, sem teorizá-los como um desvio em relação ao discurso binário hegemônico, e sem se sentirem ameaçados pelo retorno de mensagens enigmáticas recalcadas, as designações de gênero, assim como as relações entre o gênero, o sexo e o sexual, ganham espaço na pesquisa psicanalítica.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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